Como se fosse possível ler um texto à guisa da crítica literária, eu diria que o que vem post scriptum tenta conter-se e se soltar sutilmente – mas isso é óbvio. Só que os mais cabeçudos diriam que se trata de uma intervenção biopoética no relato enxuto – um texto-corpo, ou um pedaço de corpo no texto. Os bahktins tentariam generificar, e portanto encontrariam ficções para apreender em bordas o que está escrito. Eu não perderia meu tempo porque eu sei que este texto – assim como outros textos – é perfeitamente inapreensível, porque fricciona. Até o Clássico fricciona. E as colisões são a transa total! Um corpo no texto: a inscrição da palavra intestina: a marca da vida empreendida. Trata-se de uma desgramaticalização, da instauração de uma crise visceral, de zonas eruptivas na página. E portanto, uma desgenerificação: não mais o texto-suporte, mas um texto-corpo: quero dizer: meu poema é a dor nas mãos, a fisgada no lado direito do peito, os catarros entravados, os olhos chapados, o B flat Dorian Blues de La Monte Young: Meu texto é um amontoado pós-gênero. Percebam, como se fosse possível ler um texto à guisa da crítica literária, que mesmo a literatura não dá mais conta: eu disse: supere-se suporte, o que conta é o peitopulso. Então, será que posso ainda chamar de texto? Será que esta poesia ainda prefere o peso do papel à efemeridade html? Será que quero ainda ser imortal?
roteiro para intoxicação
28 de dezembro de 2011 às 14:02 | 14 Comentáriostenho um coração lascado a krokodil,
e olhos metanfetaminados -
cortando avenidasveias
insone afogado no clarão sonolento das luas.
meu corpo é só putrefação e ecstasy -
pústula prostrada na catapora da noite
sobejam-me cânceres profundos
e só a cocaína me abraça
um pico de heroína para largar a metadona,
dose overcavalar de calma -
a fuga intravenosa enquanto a primeirúltima música
a desmesura carcomeu meus órgãos
agora sinto que desnasço
anticadáver, bola de fogo
abissal e insurgentemente
Fotografia
28 de dezembro de 2011 às 7:31 | 3 ComentáriosUma praia onde desovar cadáveres. E aos domingos as famílias.
Pós-versos por uma escrita Pós-gênero
22 de dezembro de 2011 às 8:47 | ComentarEu deveria começar descrevendo a mobília, as paredes brancas, a malha dulcíssima que acoberta os dias; ou no máximo adivinhar o céu, os pássaros eventuais e eventualmente um fio que esganasse num choque um filão do cosmos. Há um poema antes do poema, mas o segundo poema está cansado de ser subordinado ao primeiro. Por isso esta literatura vê diásporas: debandadas recorrentes de moléculas desconectadas; descaminhos amontoando-se como barracos na Favela Mor Gouveia. Supere-se o suporte! o que conta é o nervo, o peitopulso! um poema é um corpo. Ou não é.
drops indigestos
19 de dezembro de 2011 às 9:31 | 3 ComentáriosAqui em Natal há cada vez mais artistas burocratas fazendo arte-empreendimento. É aquilo que digo: depois de Auschwitz e Hiroshima tudo é uma questão de sobrevivencialismo: e entrar pra classe média é mais importante para os artistas potyguares do que a própria arte. Por isso a linguagem publicitária (da teatralização do ethos e da inviabilização da crítica) impera. Trata-se não de criar arte, mas arte-souvenir: eu não posso falar mal porque isso atrapalha as vendas. E não só por isso: porque machuca o ego. Tudo tem de ser perfeito, impecável, tudo devemos amar – é aquilo que falei quanto à revigoração constante de um discurso de ufanismo que está cada vez mais próximo do “ame-o ou deixe-o”. Natal exila a mim e a uma penca de outros todos os dias, e eu vou cada vez mais próximo ao meio-fio: prefiro a Faixa de Gaza à lama morta de Chernobyl.
Necessito asilo político
18 de dezembro de 2011 às 10:25 | 4 ComentáriosA cena poty é uma festa estática e hipócrita, onde toda fagulha de vida e de sinceridade é imediatamente interditada pelos “artistas” reacionários (e não são poucos). Do mesmo modo, observa-se um processo que eu chamo de mainstreanezação da cena poty – que não passa necessariamente pelo enriquecimento da classe (pelo menos não de toda ela) ou pela massificação dos produtos da cena (pelo menos não de todos eles), mas diz respeito à incorporação de uma ética de mainstream, que faz com que os artistas portem-se como microcelebridades, com que toda crítica negativa seja inviabilizada, com que a linguagem publicitária predomine nos discursos, com que as platéias sejam formadas segundo uma lógica de empobrecimento crítico, com que um discurso de ufanismo da cultura potyguar seja constantemente revigorado, como estratégia de marketing, pelos businessmen – junto às microcelebridades proletárias – da cena. Nesse processo, em que a heresia é criminalizada e perseguida, o que se constata, em decorrência dos Autos Cristãos (expressão máximo de nossa miséria), é que está em vias de ser reinstalada a Santa Inquisação, na qual serei estuprado por uma mesa de evisceração, quebrado na roda do despedaçamento e, finalmente, queimado ou decapitado em praça pública.
Comunicação de William Bonner e Patrícia Poeta à sociedade brasileira
16 de dezembro de 2011 às 7:38 | 1 ComentárioA três quarteirões para a direita, Rafaela está desaparecendo: um Celta cor-de-prata ano 2000 no cruzamento da Bernardo Vieira com a Jaguarari seduz seu corpo mal formado. Hipopótamos famintos desafiam a linearidade do horário nobre. Depois para amenizar: picos paralisantes, o slogan: entorpecei vossas criancinhas para que, quando no holocausto dos seus sonhos, elas não sintam nada. A âncora sorri. Pólo nuclear de Goianinha inicia as atividades. Chernobyl sob os meus tênis. A três quarteirões para a direita, Rafaela está desaparecendo. Depois para amenizar: VIVA O MONSTRO DO REALENGO! Leila Diniz explode num desastre de avião. Embora tenha um roteweiller estraçalhando-lhe a perna, no plano americano, a moça do tempo sorri. Embora silente, a moça nua que assiste o palco demonstra euforia diante da câmera. Dois aviões contra meu copo. Obama disse: estamos de pé sobre o nada. Depois para amenizar: soutiens, televisões, chaves de fenda. O milagre publicitário através da sua antena paregórica. Sua mãe está paranóica. Seu pai está morto por dentro. Embora tenha arrematado três tiros de pó, o velho locutor simula placidez e calma. Depois para amenizar: A três quarteirões para a direita, Rafaela está desaparecendo. Ouve-se gritando seu nome uma voz resignada. A âncora demonstra preocupação. Cenas de Ana Maria Braga num link direto de dentro de um tanque de guerra nas microditaduras cariocas. O papagaio faz anúncio esdrúxulo: Bin Laden não existiu. No epicentro de uma avenida fantasma, dois olhos dentados rangem ditados sutilmente e sutilmente os automóveis. Depois para amenizar: de um ecstasyático infarto fulminante no transe engavetado da avenida senador salgado filho às seis e meia, morre dinossauro da cultura potiguar. Meu coração está carcomido a Krokodil. Depois para amenizar: Governo da Califórnia lança campanha que apela ao autozelo estético do seu povo contra o crescente vício em Matanfetamina. Os viciados, conforme o hiperrealismo das fotografias, ficam magros de pele e osso, olhos muito arregalados e manchas poeirentas no rosto. Depois para amenizar: Por favor! esqueça aquela palavra consoladora que eu lhe disse! esqueça antes que arranquem-na do seu pensamento e a esvaziem! Depois de Auschwitz e Hiroshima é tudo uma questão de sobrevivencialismo. Rafaela está desaparecendo. O âncora deseja ardentemente o Valium que tem na bolsa. Deus queira que morramos logo! Boa Noite
Fotografia
11 de dezembro de 2011 às 15:58 | 2 ComentáriosJardins magníficos subjazem o asfalto arredio da metrópole.
Edital Arte-Praia (casa da ribeira) opta por estratégia de marketing em detrimento da arte
10 de dezembro de 2011 às 8:08 | 2 ComentáriosQuando planejei, ao me deparar com o edital Arte-Praia, inscrever um projeto cuja proposta seria a de tapar, com um outdoor imenso, o morro do careca, não pude imaginar que minha piada (muito boa, por sinal) fosse se mostrar, na realidade, como uma previsão da publiciarte que a curadoria do edital premiaria. Vendo a obra (?) de Marcílio Amorim pensei em sugerir à Casa da Ribeira, essa empresa redentora da “classe artística” poty, a mudança do nome do edital (para o próximo ano): Advertisement Beach.
Um presente que o Chicomgue me deu
6 de dezembro de 2011 às 15:06 | 5 ComentáriosMarço, 1954. Viadagem pública ainda era oficialmente punida com cadeia ou internamento nos EUA. Foi assim até Stonewall, em 69.
Homossexuality (Frank O’Hara)
So we are taking off our masks, are we, and keeping
our mouths shut? as if we’d been pierced by a glance!
The song of an old cow is not more full of judgment
than the vapors which escape one’s soul when one is sick;
so I pull the shadows around me like a puff
and crinkle my eyes as if at the most exquisite moment
of a very long opera, and then we are off!
without reproach and without hope that our delicate feet
will touch the earth again, let alone “very soon.”
It is the law of my own voice I shall investigate.
I start like ice, my finger to my ear, my ear
to my heart, that proud cur at the garbage can
in the rain. It’s wonderful to admire oneself
with complete candor, tallying up the merits of each
of the latrines. 14th Street is drunken and credulous,
53 rd tries to tremble but is too at rest. The good
love a park and the inept a railway station,
and there are the divine ones who drag themselves up
and down the lengthening shadow of an Abyssinian head
in the dust, trailing their long elegant heels of hot air
crying to confuse the brave “It’s a summer day,
and I want to be wanted more than anything else in the world
______
(tradução de Chico Guedes)
Então vamos tirar as máscaras, é? mantendo
nossa boca fechada? como se varados por um relance!
A canção de uma vaca velha não está mais cheia de julgamento
do que os vapores que escapam de nossa alma quando estamos doentes;
então cubro-me de sombras como um xale
e aperto os olhos como se no momento mais primoroso
de uma ópera muito longa, depois vamos embora!
sem reclamar e sem esperança de que nossos delicados pés
tocarão a terra outra vez, muito menos “em breve.”
É a lei da minha própria voz que investigarei.
começo como gelo, meu dedo no ouvido, meu ouvido
no meu coração, esse vira-lata orgulhoso na lata de lixo
na chuva. É maravilhoso observar-se a si próprio
com completo candor, somando os méritos de cada
uma das latrinas. A rua 14 está bêbada e crédula,
a 53 tenta tremer, mas também se acalma. Os bons
adoram um parque e os ineptos uma estação de trem
e há as divinas que se dragam para cima
e para baixo à sombra de uma cabeça abissínia
na poeira, arrastando seus elegantes saltos de ar quente
gritando pra confundir os bravos “É um dia de verão,
e eu quero ser querido mais do que qualquer coisa no mundo”
Fotografia de um passeio na noite de ontem
3 de dezembro de 2011 às 20:41 | 3 ComentáriosIntelectuais atacavam-se entre trincheiras.
hecatombe n° 2
1 de dezembro de 2011 às 8:06 | 16 Comentáriosque ave é aquela?
cujo grito me disse de animais
no abate
que impacto sobre o silêncio aquele barulho inconteve?
numa hora dessas
às três da tarde
gemendo por detrás dos alphavilles
nas microditaduras cariocas
Carta cifrada a Nina Rizzi
28 de novembro de 2011 às 22:02 | 2 ComentáriosTe amo clandestinamente enquanto o céu desbota de manhã e senhoras em roupas de fitness fazem seu cooper desolado rente aos penhascos da avenida quatro, quando noiados rígidos ajeitam o papelão onde guardam seus desejos-destroços, e velhas de olhares cheios esvaziam suas memórias à luz de abajures apagados. Também clandestinamente, silencio nossos nomes quando, à última voltagem, a pianola boilesen mija-me às calças, ferve-me o pulso, mas não me paralisa o coração, que resiste. Te amo como um rato desvalido no esgoto ama, como os urubus e os mendigos amam, como os assassinos e as prostitutas amam. Te amo o amor mais proibido, mais interditado, mais cheio de guisos e, no entanto, clandestinamente, quando tua boceta inunda em gozo o meu pensamento, entre as paredes desta minha cela, apesar de nosso grito trancafiado na miséria do Doi, a liberdade nos absolve.
Clara engendra-se na voz
3 de novembro de 2011 às 7:15 | 10 ComentáriosFoto: Rodrigo Sena
Lembro de ter ouvido, numa conversa há algum tempo, uma moça reclamar: “eu acho que ela deveria gritar menos – e cantar mais.” Na ocasião, devo ter retrucado alguma coisa, mas só agora tenho a resposta perfeita, engatilhada, pronta para ser desferida contra os limites da moça que não soube antever a direção que a voz de Clara (foto) estava tomando. “Ela gosta de gritar”, à época, concorria ao MPBECO, e eu já estava cada vez mais interessado em ouvi-la arranhar irresponsavelmente a superfície demasiado plana em que passeavam – e ainda passeiam – a maioria das cantoras que meus ouvidos alcançam pelas esquinas por que passo. Clara machucava o tédio com seu canto.
serenata urgente para nina rizzi
2 de novembro de 2011 às 9:40 | 1 Comentárioconsturo a traços duros
em tua carne
minhas lágrimas.
quase rasguei tua tortografia porque
algo de muito sublime nos afasta.
mas posso, precariamente,
beijar-te as carnes, todas,
esfaquear-lhe,
beber teu sangue, lamber-te,
mijar-te, doer-te
morrer
e matar-lhe
que a ser-te uma íngua que não arde,
prefiro a morte, a sagração do platonismo.
meu cu: minha bandeira
1 de novembro de 2011 às 16:56 | 9 ComentáriosBerenice Bento insiste em traduzir Teoria Queer para Teoria Transviada como esforço no sentido de manter o impacto que a palavra queer (bicha) tem dentro de uma instituição mofada como a academia. “Mas de que serve esse impacto”, hão de perguntar os menos sagazes. Ora, imaginem que o termo “queer”, aos de língua inglesa, assim como o “bicha” para nós, tem servido arbitrariamente como xingamento, e que esse tipo de discurso (heteronormativo à médula) engendra e difunde uma prática de que todos os calhordas politicamente corretos hoje tentam se redimir: a homofobia. O esforço de Berenice, assim como o meu e o de todos os outros que dedicam esforços à visibilização da experiência transviada, portanto, consiste numa reapropriação de termos marginalizados dentro de uma estrutura de discursos heteronormativa com a finalidade de subverter relações de poder entranhadas nas pragmáticas sociais.
Do mesmo modo, quando o STA! sobe no palco e canta a Dança da Passiva (“dança da passiva: abre o cu e mete a pica”) o impacto político não é diferente. O cu, apesar de ser um buraco que todo mundo tem (inclusive a sua mãe), é, sem dúvida alguma, a área do corpo mais interditada pelas normas de gênero na medida em que (no nível da atividade sexual) faz exceder o sexo meramente reprodutivo e possibilita práticas sexuais não-cartesianas em relação ao papai-e-mamãe binário outorgado pelo arbitrário cultural. No nível do discurso, onde tudo aflora, o tradicional “vai tomar no cu” (enquanto insulto) não representa outra coisa senão uma forma bastante sutil de repressão. E a castração simbólica não pára por aí: podemos retornar à época da Inquisição quando a Santa Igreja fazia uso de instrumentos de tortura como a Mesa de Evisceração – um cilindro enorme de ferro maciço enterrado como castigo no cu dos hereges. Nosso corpo é um território repleto de fronteiras delimitadas à revelia de nós (biopolítica). E o que Pedro Costa faz, quando tira do cu o terço, quando sobe no palco de fio dental pro show da Solange Tô Aberta!, é reivindicar o domínio de suas próprias fronteiras e suscitar uma liberdade vital que só pode ser exercida por meio da consciência do próprio corpo enquanto célula política.
Relato da noite em que cortaram o som de Solange Tô Aberta!
29 de outubro de 2011 às 9:05 | 18 ComentáriosQueer é um adjetivo da língua inglesa que, se traduzido literalmente, significa “estranho, esquisito”, mas pode também designar “bicha, viado”. No campo da antropologia, as Teorias Queer são aquelas responsáveis pelo estraçalhamento do binarismo de gênero (masculino-feminino) impregnado às perspectivas universalista e relacional. Os Estudos Queer, ou Transviados (como gosta de traduzir Berenice Bento), portanto, estão atentos à imensa diversidade e ao trânsito de identidades que caracteriza a sexualidade humana de um modo geral.
Artistas do mercado de trabalho, pensai-vos!
20 de outubro de 2011 às 9:02 | ComentarSó não gostei desse termo “bairrismo” (prefiro a idéia multicultural, que diverge necessariamente da perspectiva bairrista) que o Sérgio Vilar empregou no texto em que comparava, à luz da própria experiência na Virada Cultural de Recife, a cena cultural recifense em relação à de Natal baseado na abrangência (quantitativa) do público e do lastro de memória cultural. Mas achei bacana à beça o texto, achei pertinente – não no sentido ao qual foi reduzido (como uma afronta à cena poti instituída), mas na medida em que questiona um caráter intestino do fracasso de nossa cultura: o processo.
hecatombe n°1
19 de outubro de 2011 às 15:57 | 3 Comentáriosem teu seio, terremotos.
adivinhei teu último gesto ante o desastre
e baratas se amontoaram
à turva manhã.
anjos e aviões despencaram a arquitetura pálida do edifício.
e morcegos, taciturnos,
assobiaram todo
canto.
Quem não pula quer migalha!
12 de outubro de 2011 às 11:24 | 11 ComentáriosO que se convencionou chamar #FORAMICARLA foi, na verdade, a apropriação de uma potência Insurgente de Multidão e a conseqüente transformação dessa potência numa Força-zumbi; a conversão de uma Multidão (multicolorida, plural) em uma Massa (cinzenta, uníssona) por meio da unificação das posturas e dos discursos, por meio de uma est/ética fascista (bordas éticas delimitando a aparência de cordeiros mansos) afirmada sobre o movimento. Nesse sentido, erra quem aponta como marco inicial do movimento a insurgência de 25 de Maio – quando cerca de mil e quinhentas pessoas avançaram rua em Natal.











