Arte: DAACRUZ
Marieta esperou que o marido chegasse mais cedo na véspera de carnaval. Perda de tempo. O relógio começou a se demorar e, cada vez que ela olhava-o na parede, parecia imóvel. Ficou irresoluta. A vontade que tinha era de tomar um taxi e ir bater lá na repartição para trazê-lo pelo braço antes que fizesse besteira. Ela pressentia algo. E mulher quando tem pressentimento é melhor agir. Ela agiu.
Fernando Pessoa (Pedro García Lavin)
13 de fevereiro de 2012 às 14:35 | 5 Comentários(tradução: José de Paiva Rebouças)
Se Fernando Pessoa se levantasse com a sua colorida mochila carregada de Ricardo Reis, Álvaro de
Campos, Alberto Caeiro e Bernardo Soares, veria em meu rosto a inveja bem autêntica, bem mal
bem real, que tenho ao escrever estas palavras.
Não consigo
conceber
o verso
de uma só mão e de um mesmo nome e sobre esse mesmo e fatigoso tema.
Ele ousou a graça do único pedantismo justificável: a soberba de dividir e juntar a metafísica em
mais de um nome e em um mesmo corpo.
Eu, triste, raivoso e humano, seco-me à sombra de um homem e de quatro partes do todo.
Não sei como sair,
muito menos seria bom saber; gastaria minha vida para voltar a entrar.
Amanhã seriam outras estranhas seguranças, ou denúncias, ou gritando meus pulsos.
Outras estúpidas certezas, o rumo.
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Fernando Pessoa
Si se levantase Fernando Pessoa con su colorida mochila cargada de Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro y Bernado Soares, vería en mi rostro la envidia bien auténtica, bien mala, bien real, que tengo al escribir estas palabras.
No consigo
concebir
el verso
de una sola mano y de un mismo nombre y sobre ese mismo y fatigoso tema.
Él osó la gracia de la única pedantería justificable: la soberbia de dividir y juntar la metafísica en más de un nombre y en un mismo cuerpo.
Yo, triste, rabioso y humano, me seco a la sombra de un hombre y de cuatro partes del todo.
No sé cómo salir,
tampoco sería bueno saberlo; me gastaría la vida por volver a entrar.
Mañana serán otras extrañas seguridades, o denuncias, o gritos mi pulso.
Otras estúpidas certezas, el rumbo.
********
Pedro García Lavin é argentino de Azul e criado em Buenos Aires. É autor de “Otra vez donde otras vezes” (Catálogos, 2006) e do conto “El hombre papafritas” publicado na revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com
Rita louca
6 de fevereiro de 2012 às 16:16 | 11 ComentáriosPicasso. Mulher de Costas.
Quando Rita enlouqueceu, gritou e tirou a roupa. Tinha a pele branca e os seios à amostra. Eu devia ter uns oito anos e foi a primeira vez que vi uma mulher seminua. Não por ser uma senhora de quase meia idade, mas daquela cena só ficou o desespero. Seus olhos pareciam ver o que não se via e seus berros ecoam ainda hoje.
Política de menino
30 de janeiro de 2012 às 17:47 | 5 ComentáriosUm dos meus sonhos de menino era ver o país alcançando o patamar de primeiro mundo. Dava mais importância a isso do que a qualquer outra coisa. Foi logo no início, quando pensava que a juventude poderia mudar o mundo a partir das minhas análises aprendidas no movimento sindical e compartilhadas entre os socialistas bucólicos dos meus 13 anos.
Da solidão
24 de janeiro de 2012 às 11:44 | 2 ComentáriosNunca fui tão solitário quanto na infância. Vivia sozinho sem brinquedos imitando os mais velhos ou passarinhando no juremal. Dessa relação ficou uma saudade indizível. Vez ou outra tento encontrar com essa parcela de mim para um diálogo dos que faz chorar. Mas essas lembranças não se constituem sozinhas. Elas estão carregadas de significados e outras imagens de avós, primos e irmãos que, àqueles dias, pareciam personagens do conto de fadas que era a minha meninice.
mi nina, rizzi (passa tempo)
19 de janeiro de 2012 às 10:56 | 3 Comentáriosnina, faz um poema para mim?
não precisa ser lírico nem nada
só peço que ele tenha palavras
não como essas,
palavras, assim… como se diz?
palavras cheias de você mesma.
Sedentário a moda antiga
16 de janeiro de 2012 às 17:02 | 3 ComentáriosNão há nada mais difícil no mundo do que perder peso. Parece uma contradição para mim que, quando criança, tinha vergonha da minha magreza. É certo que naquela época as coisas eram difíceis, mas eu me lembro que comia feito gente grande, na esperança de engrossar as canelas. Talvez, e vocês vão dizer: ahhhhh… meu sedentarismo ajude a me manter acima do peso, mas se era magrela quando comia muito, por que então não consigo perder peso comendo feito um passarinho?
O dia em que o mundo acordou
9 de janeiro de 2012 às 21:09 | 1 Comentário“O dia em que o mundo acordou” [Romance escrito para o Twitter. Original: https://twitter.com/#!/cruviana1]
[1] O Twitter sempre me pareceu algo inacabado, por isso, repeti o de sempre. A hashtag era apenas mais uma sugestão desinteressada.
[2] #moralizejá. Escrevi junto de uma frase pouco antes de desligar o PC. Cai no sono e acordei com o telefone vibrando.
(Indiferente)
4 de janeiro de 2012 às 17:05 | 7 Comentárioso que sei da vida
é que ela passa
o dia passa
as horas passam
e eu passo
o que sei da morte
é que ela vem
o dia vem
as horas vêm
e eu vou
o que sei de mim
é o que sou agora
Cartas para Maria: O segundo olhar
2 de janeiro de 2012 às 17:52 | 10 ComentáriosMenina no tapete vermelho, 1912. Felice Casorati ( Itália 1883-1963) – óleo sobre tela
Você é um mundo. Tive vontade de lhe dizer isso, mas não vi como. Deixei criar uma barreira tão densa entre a gente que não sei mais como transpô-la. Lembro de seus olhos pequenos e assustados, de quem vê a vida vindo sem freios. Eu sou um pouco dessa vida e não sei ser diferente.
A violoncelista
19 de dezembro de 2011 às 14:16 | 1 ComentárioA violoncelista não está cansada nem desagradada, mas decidiu partir. Não há prélio, apenas decisão. Seu rosto é sereno como a sua voz. Cantaria se não tocasse. Decidiu tocar. Calou a plateia quando mergulhou entre os cisnes. Seus olhos cerrados. Seu corpo ereto assemelhava-se a seu instrumento. Sincronia. No meio da orquestra há um deserto para sua presença e, nos olhos da plateia, um recanto para a sua perna desnuda até o joelho. Tudo o que existia era sua perna. E o inferno começava em seu joelho. Prelúdio. É possível ver a beleza de uma manhã fria laçada por um sol ridente que acorda sonolento descobrindo as pétalas com uma sutileza feminina. Há aves passeando sem pressa enquanto outras decolam em revoada. Silêncio e movimento. Como se o dia fosse um branco estirão e a noite uma intermitência, ela tocava. Cobria-se de suas lassidões e calava-se para si mesmo. Contrátil, erétil, instrumental. Havia um silêncio e após a valsa ela caminhou em procura. Deslocou-se entre os arcos e estantes. Desceu as escadas, subiu à plateia e deixou para trás as portas do teatro. Aplausos. Reverências. Mas ela caminhava e já não havia mais vozes, pois a noite era a veste negra como no terceiro ato. Suas pernas cruzavam-se, preguiçosamente, provocando os quadris, e o confronto de seu corpo com a brisa fria sobre o chão esquálido solfejava música, como numa sonata com um sem número de partes. Não há consolo, apenas decisão e a água é apenas uma réstia da lua. A plateia, agora retumbante, explode em fulgor. Bravo! E à estrada comprida, formam-se beirais de aplausos firmes. A sinfônica levanta-se como em um funeral e retoma a valsa acordando a cidade. A noite restringe-se à sua insignificância de noite e esmaece em sua extensão. Já não há mais tempo. A ponte é uma pele de rinoceronte e a água é dos afogados. A distância é um salto e o fundo é do príncipe pelo qual espera toda a sua vida de cisne. Alimentou-se de música como os infelizes e alimentou os infelizes de música. Suas margens sempre estiveram inundadas, mas imerso apenas o sonho de menina, travado em seu semblante orquestral de violoncelista. Branca, como asas abertas ao nascente, ela lança-se ao seu infinito. Olhos cerrados, corpo ereto feito um instrumento violado pelas pernas femininas até os joelhos. Pássaro conquistado pelas águas assemelha-se à correnteza com seu bordado de sombra. As luzes acendem e os aplausos cessam ante o emudecer da valsa. Sem orquestra não há amor nem sobreviventes.
(Música incidental: Valsa No. 2 do ballet “O Lago dos Cisnes” – Piotr I. Tchaikovsky).
Simulacros
7 de dezembro de 2011 às 15:50 | 1 ComentárioJá perceberam que vivemos como se esperássemos algo extraordinário? Como se na hora do assalto a polícia vai fazer o seu trabalho e que ao sermos vítimas de qualquer crime a Justiça não falhará? Estamos sempre pensando no que faremos com o prêmio da Mega-Sena, mesmo sem nunca jogar, ou como nos comportaremos nos programas de auditório quando formos famosos. Quando pensamos assim, criamos uma hiper-realidade, um simulacro, um mundo paralelo onde as ações são criadas por nossas vontades e desejos.
Atire a primeira pedra
29 de novembro de 2011 às 7:57 | 8 ComentáriosFrida Klalo (Auto-retrato na fronteira entre México e Estados Unidos (1932)
Sofrer por amor não é um escolha, é uma arte. O homem gosta de sentir aquela dor que aperta o peito e afrouxa as articulações. Gosta de beber para esquecer, sabendo que isso só o fará lembrar ainda mais. Porque sofrer faz parte da natureza humana. Precisamos do descontrole para nos redescobrir mais fraco ou mais forte. Por mais contraditório, a desordem nos ordena. Refaz nossos próprios conceitos e obriga-nos a crescer enquanto indivíduos, pelo menos até o próximo amor.
Crônica do Sertão II – O Vaqueiro
22 de novembro de 2011 às 8:35 | 2 ComentáriosVamos medir as poesias?
Desafiou o vaqueiro.
O poeta sorriu no canto da boca, mas nem disse que sim, nem que não.
O estado do Estado no Departamento de Trânsito
14 de novembro de 2011 às 11:00 | 2 ComentáriosSempre que preciso usar o serviço burocrático nacional termino com sensação de impotência. Isso porque não adianta sentir raiva ou procurar direitos. Existem tantos códigos e leis neste país que nos sentimos num oito, como se fôssemos um cão caçando o próprio rabo.
A seleção sexual
9 de novembro de 2011 às 21:34 | 7 ComentáriosSinceramente acredito no discurso de John Dillinger (Johnny Depp) para Billie Frechetti (Marion Cotillard) no filme Inimigo Público (2009), quando ele vai buscá-la em seu trabalho na recepção de um restaurante, após ter sido abandonado por ela em um bar na noite anterior.
SOBRE A LÓGICA DIVINA
3 de novembro de 2011 às 7:03 | 4 ComentáriosAndo cansado.
Carrego nos ombros
o peso enfadonho
do mundo que tenho.
Vejo sempre o que não quero.
Ouço sempre o que me dão.
Quando tenho sede, bebo água
quando tenho fome, hei de comer,
mas o que se faz quando se tem paixão?
(…)
A vida não aceita os sonhos
e o pensamento dói.
- Viver é uma dor constante.
A dúvida é nada que tenho.
A verdade é uma vaca morta…
Deus são os números inteiros.
A poesia, o infinito do zero e eu, apenas…
Eu
a vaguidão da palavra.
Uma palavra genérica:
coisa
- qualquer coisa
da coisa que sou.
Coisa: simplesmente.
Concepção estigmatizada
a fenda pequena
da porta fechada.
Muitos habitam em mim
da bactéria
ao sentrossoma
da saudade
ao pensamento.
Às vezes eu moro,
às vezes eu morro,
vida que é vida
não quer dizer nada.
Crônicas do Sertão I
28 de outubro de 2011 às 13:25 | 1 ComentárioDe repente, ali mesmo, no final da ribanceira, os aguapés refletidos no sol do açude refaziam-me a mesma imagem dos Jardins de Monet. O sertão, aquele instante, amostrava-se enquanto universo físico inexplorado pela própria visão do sertanejo urbano aculturado.
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A greve acabou, e aí?
17 de outubro de 2011 às 14:05 | 1 ComentárioFoi quando retornei às aulas que um sujeito, a quem dedico poucas palavras, me fez a pergunta: A greve acabou e aí?
Existem pessoas que não se enxergam, mas há dias em que você está procurando assunto e aceita qualquer provocação. A pergunta se referia ao encerramento da greve da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, que durou mais de 100 dias. No entanto, ele perguntou como se provocando uma revolta do meu tempo de militante esquerdista do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. E aí, nada! Respondi com a mesma língua. Mas tem figura que não desiste ainda que cuspidos. Tanto esforço para isso? Insistiu. Foi então que me dei conta de que perdi a chance de ficar mudo.
Assim mesmo
4 de outubro de 2011 às 15:42 | 1 ComentárioJá lhe faltei alguma vez? Perguntou o prefeito à senhora que, a pouco, entrara chorando pedindo qualquer coisa que, pela reação do homem, parecia insignificante.
Ela sente aquelas coisas. Disse uma mulher na sala de espera, se referindo a mesma senhora. Outra, ao seu lado, concordou.
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