Menina no tapete vermelho, 1912. Felice Casorati ( Itália 1883-1963) – óleo sobre tela
Você é um mundo. Tive vontade de lhe dizer isso, mas não vi como. Deixei criar uma barreira tão densa entre a gente que não sei mais como transpô-la. Lembro de seus olhos pequenos e assustados, de quem vê a vida vindo sem freios. Eu sou um pouco dessa vida e não sei ser diferente.
A violoncelista
19 de dezembro de 2011 às 14:16 | 1 ComentárioA violoncelista não está cansada nem desagradada, mas decidiu partir. Não há prélio, apenas decisão. Seu rosto é sereno como a sua voz. Cantaria se não tocasse. Decidiu tocar. Calou a plateia quando mergulhou entre os cisnes. Seus olhos cerrados. Seu corpo ereto assemelhava-se a seu instrumento. Sincronia. No meio da orquestra há um deserto para sua presença e, nos olhos da plateia, um recanto para a sua perna desnuda até o joelho. Tudo o que existia era sua perna. E o inferno começava em seu joelho. Prelúdio. É possível ver a beleza de uma manhã fria laçada por um sol ridente que acorda sonolento descobrindo as pétalas com uma sutileza feminina. Há aves passeando sem pressa enquanto outras decolam em revoada. Silêncio e movimento. Como se o dia fosse um branco estirão e a noite uma intermitência, ela tocava. Cobria-se de suas lassidões e calava-se para si mesmo. Contrátil, erétil, instrumental. Havia um silêncio e após a valsa ela caminhou em procura. Deslocou-se entre os arcos e estantes. Desceu as escadas, subiu à plateia e deixou para trás as portas do teatro. Aplausos. Reverências. Mas ela caminhava e já não havia mais vozes, pois a noite era a veste negra como no terceiro ato. Suas pernas cruzavam-se, preguiçosamente, provocando os quadris, e o confronto de seu corpo com a brisa fria sobre o chão esquálido solfejava música, como numa sonata com um sem número de partes. Não há consolo, apenas decisão e a água é apenas uma réstia da lua. A plateia, agora retumbante, explode em fulgor. Bravo! E à estrada comprida, formam-se beirais de aplausos firmes. A sinfônica levanta-se como em um funeral e retoma a valsa acordando a cidade. A noite restringe-se à sua insignificância de noite e esmaece em sua extensão. Já não há mais tempo. A ponte é uma pele de rinoceronte e a água é dos afogados. A distância é um salto e o fundo é do príncipe pelo qual espera toda a sua vida de cisne. Alimentou-se de música como os infelizes e alimentou os infelizes de música. Suas margens sempre estiveram inundadas, mas imerso apenas o sonho de menina, travado em seu semblante orquestral de violoncelista. Branca, como asas abertas ao nascente, ela lança-se ao seu infinito. Olhos cerrados, corpo ereto feito um instrumento violado pelas pernas femininas até os joelhos. Pássaro conquistado pelas águas assemelha-se à correnteza com seu bordado de sombra. As luzes acendem e os aplausos cessam ante o emudecer da valsa. Sem orquestra não há amor nem sobreviventes.
(Música incidental: Valsa No. 2 do ballet “O Lago dos Cisnes” – Piotr I. Tchaikovsky).
Simulacros
7 de dezembro de 2011 às 15:50 | 1 ComentárioJá perceberam que vivemos como se esperássemos algo extraordinário? Como se na hora do assalto a polícia vai fazer o seu trabalho e que ao sermos vítimas de qualquer crime a Justiça não falhará? Estamos sempre pensando no que faremos com o prêmio da Mega-Sena, mesmo sem nunca jogar, ou como nos comportaremos nos programas de auditório quando formos famosos. Quando pensamos assim, criamos uma hiper-realidade, um simulacro, um mundo paralelo onde as ações são criadas por nossas vontades e desejos.
Atire a primeira pedra
29 de novembro de 2011 às 7:57 | 9 ComentáriosFrida Klalo (Auto-retrato na fronteira entre México e Estados Unidos (1932)
Sofrer por amor não é um escolha, é uma arte. O homem gosta de sentir aquela dor que aperta o peito e afrouxa as articulações. Gosta de beber para esquecer, sabendo que isso só o fará lembrar ainda mais. Porque sofrer faz parte da natureza humana. Precisamos do descontrole para nos redescobrir mais fraco ou mais forte. Por mais contraditório, a desordem nos ordena. Refaz nossos próprios conceitos e obriga-nos a crescer enquanto indivíduos, pelo menos até o próximo amor.
Crônica do Sertão II – O Vaqueiro
22 de novembro de 2011 às 8:35 | 2 ComentáriosVamos medir as poesias?
Desafiou o vaqueiro.
O poeta sorriu no canto da boca, mas nem disse que sim, nem que não.
O estado do Estado no Departamento de Trânsito
14 de novembro de 2011 às 11:00 | 2 ComentáriosSempre que preciso usar o serviço burocrático nacional termino com sensação de impotência. Isso porque não adianta sentir raiva ou procurar direitos. Existem tantos códigos e leis neste país que nos sentimos num oito, como se fôssemos um cão caçando o próprio rabo.
A seleção sexual
9 de novembro de 2011 às 21:34 | 7 ComentáriosSinceramente acredito no discurso de John Dillinger (Johnny Depp) para Billie Frechetti (Marion Cotillard) no filme Inimigo Público (2009), quando ele vai buscá-la em seu trabalho na recepção de um restaurante, após ter sido abandonado por ela em um bar na noite anterior.
SOBRE A LÓGICA DIVINA
3 de novembro de 2011 às 7:03 | 4 ComentáriosAndo cansado.
Carrego nos ombros
o peso enfadonho
do mundo que tenho.
Vejo sempre o que não quero.
Ouço sempre o que me dão.
Quando tenho sede, bebo água
quando tenho fome, hei de comer,
mas o que se faz quando se tem paixão?
(…)
A vida não aceita os sonhos
e o pensamento dói.
- Viver é uma dor constante.
A dúvida é nada que tenho.
A verdade é uma vaca morta…
Deus são os números inteiros.
A poesia, o infinito do zero e eu, apenas…
Eu
a vaguidão da palavra.
Uma palavra genérica:
coisa
- qualquer coisa
da coisa que sou.
Coisa: simplesmente.
Concepção estigmatizada
a fenda pequena
da porta fechada.
Muitos habitam em mim
da bactéria
ao sentrossoma
da saudade
ao pensamento.
Às vezes eu moro,
às vezes eu morro,
vida que é vida
não quer dizer nada.
Crônicas do Sertão I
28 de outubro de 2011 às 13:25 | 1 ComentárioDe repente, ali mesmo, no final da ribanceira, os aguapés refletidos no sol do açude refaziam-me a mesma imagem dos Jardins de Monet. O sertão, aquele instante, amostrava-se enquanto universo físico inexplorado pela própria visão do sertanejo urbano aculturado.
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A greve acabou, e aí?
17 de outubro de 2011 às 14:05 | 1 ComentárioFoi quando retornei às aulas que um sujeito, a quem dedico poucas palavras, me fez a pergunta: A greve acabou e aí?
Existem pessoas que não se enxergam, mas há dias em que você está procurando assunto e aceita qualquer provocação. A pergunta se referia ao encerramento da greve da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, que durou mais de 100 dias. No entanto, ele perguntou como se provocando uma revolta do meu tempo de militante esquerdista do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. E aí, nada! Respondi com a mesma língua. Mas tem figura que não desiste ainda que cuspidos. Tanto esforço para isso? Insistiu. Foi então que me dei conta de que perdi a chance de ficar mudo.
Assim mesmo
4 de outubro de 2011 às 15:42 | 1 ComentárioJá lhe faltei alguma vez? Perguntou o prefeito à senhora que, a pouco, entrara chorando pedindo qualquer coisa que, pela reação do homem, parecia insignificante.
Ela sente aquelas coisas. Disse uma mulher na sala de espera, se referindo a mesma senhora. Outra, ao seu lado, concordou.
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Várzeas (poesia experimental)
30 de setembro de 2011 às 9:10 | 13 Comentáriosa)
e de tua pele me farei corpo e do meu corpo espanto e espasmos…
serei palavras monossilabicamente gritadas aos horrores, como no tormento de uma dor imune… serei líquido quando serei homem.
teu corpo é uma duna sobre o meu plano firme…
desfolharei tuas ondas, desnudando-te, como um artesão com o seu barro.
pois se sou as mãos, retiro o que te cobre e te porei nua frente ao mar.
como o vento, cobrirei tuas curvas e finalizarei o barro que te cria… eu te movo com a lentidão da carne e te promovo uivos de assombração;
te faço carne e, como carne, como-te,
como os romanos em suas noites de ceia e festa:
como-te, como se comem as mangas da várzea do Apodi.
En cuir chapeau et doublet
26 de setembro de 2011 às 13:43 | 4 Comentários(IMAGEM – Cláudio Dickson)
As meninas minguaram o riso quando viram o galego todo ornamentado, ostentando, sobre os ombros irregulares à própria altura, uma manta de couro cru, recém curtido, que ainda exalava um cheiro travoso de sola. No alto da cabeça, outra peça de couro, encobria os cachos, ora brancos ora louros. O chapéu de abas baixas e curtas, embainhado de um branco gelo e tiras decaídas nas laterais, deixavam o homem tão desconexo quanto Mané Vaqueiro, um jovem do mato que não tirava o conjunto nem para o asseio.
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Novelas
19 de setembro de 2011 às 15:35 | 5 ComentáriosNunca mais assisto essa novela! Exaltou-se a mulher, fingindo deixar o sofá. Levantou-se, foi até a cozinha, pegou alguma coisa e voltou a reclamar das partes da trama: sei como será tudo… E debulhou as cenas antes delas acontecerem para a admiração dos outros da sala.
Maria no espelho
12 de setembro de 2011 às 9:38 | 5 ComentáriosDa rede, no fundo da sala, vi quando Maria aproximou-se do espelho sem roupas. Sua imagem refletida atravessou outros três punhos até desenhar-se em meus olhos pequenos. Suas mãos finas e brancas deslizavam sobre os seios nus tão perfeitos. A hidratação do corpo expulsava um cheiro de frutas frescas, ampliando a urgência de meu coração.
Ensaio sobre o aborto II
5 de setembro de 2011 às 13:32 | 6 ComentáriosNo dia 6 de abril de 1998, Marluce de Elsa realizou o sonho de toda mulher: informou à patroa que procurasse outra empregada, pois tinha engravidado e, no mês seguinte, se casaria com Jacinto Pedreiro. Os dois já tinham alugado uma casa perto de sua mãe e se mudariam para lá assim que assinassem seu nome no cartório. Não houve recusa frente ao milagre. Marluce ficou grávida e noiva tendo mais de 40 anos, depois de muitos abandonos.
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O desaparecimento na livraria
29 de agosto de 2011 às 8:19 | 11 ComentáriosEdney, vamos Edney!
Virei-me para ver a mulher sentada, quase gritando, na porta da livraria. Voltei-me com a cabeça querendo identificar a pessoa com quem ela tentava se comunicar. Todos pareciam distantes e continuavam em movimento. Um homem no caixa pedia informações.
homem peixe fome
22 de agosto de 2011 às 13:43 | 4 ComentáriosPara Anchieta Rolim
o pescador não tem câncer de pele
câncer
Pele
o pescador não tem peixe
que sacie a fome
peixe
fome
o pescador não tem fome
que sacie o câncer de peixe
Margaridas da marcha das Margaridas
22 de agosto de 2011 às 10:24 | 6 ComentáriosMãe, o que é as Margaridas?
Coisas da televisão, num sei! Exclamou a mãe que não sabia mesmo.
Não, mãe, as Margaridas da marcha das Margaridas? Insistiu.
São flores… sei lá! Já disse que não sei!
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Da música e seus contraditórios
17 de agosto de 2011 às 9:20 | 20 ComentáriosEscandalizou-se comigo um conhecido quando lhe disse que não tenho hábito de ouvir música estrangeira e que nem gosto muito. Embora ele não saiba outra língua a não ser essa nossa variação do português potiguar, me chamou de antiquado, alertando-me que a música, pela própria expressão, é universal. Não tenho dúvida disso e respeito o seu ponto de vista. O fato é que eu, como sujeito de poucos experimentos musicais, só empresto os ouvidos a umas poucas canções de fora, em sua maioria, balada e folk. De outra, só a música clássica da qual me alimento diariamente, sobretudo, quando se trata da fase mais dramática do intocável Richard Wagner. Afora isso e ao Chico Buarque, disse a ele, o Nordeste me basta. Então parece que o afrontei. Não satisfazia ser eu um tolo nacionalista, agora parecia a ele um estúpido regionalista, posto que, em breve, não me restaria outra saída a não ser me assumir como xenófobo, cuspiu-me.
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