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	<title>Substantivo Plural &#187; Marcos Silva</title>
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	<description>CULTURA + IDÉIAS + INFORMAÇÕES</description>
	<lastBuildDate>Sun, 12 Feb 2012 16:02:56 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Shopping é lugar de preto</title>
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		<pubDate>Sun, 12 Feb 2012 14:36:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo - Antirracismo - São Paulo]]></category>

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		<description><![CDATA[A FSP de 12.2.12 noticiou manifestação no Shopping Higienópolis (&#8220;Grupo antirracismo faz protesto surpresa no Pátio Higienópolis&#8221;). O jornal informa: &#8220;Assustados, frequentadores correram para as lojas e muitas delas fecharam as portas entre as 16 e 17h&#8221;.
O jornal não fala em atos agressivos, depredação nem coisa parecida. Informou-se até que, para a Assessoria de Imprensa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A FSP de 12.2.12 noticiou manifestação no Shopping Higienópolis (&#8220;Grupo antirracismo faz protesto surpresa no Pátio Higienópolis&#8221;). O jornal informa: &#8220;Assustados, frequentadores correram para as lojas e muitas delas fecharam as portas entre as 16 e 17h&#8221;.</p>
<p>O jornal não fala em atos agressivos, depredação nem coisa parecida. Informou-se até que, para a Assessoria de Imprensa do shopping, &#8220;a manifestação foi pacífica e apenas observada de longe pelos seguranças&#8221;. O que assustou, portanto, foi a presença dos negros naquele lugar.</p>
<p><span id="more-40662"></span>Uma frequentadora, a arquiteta Ivani Lo Turco, afirmou: &#8220;Achei ridículo. Afinal de contas, esse negócio de racismo onde é que está? (&#8230;) Você viu a quantidade de seguranças negros, de empregados?&#8221;</p>
<p>Tem arquiteta que é cega, o CREA precisa tomar providências contra essa ameaça à saúde pública. Ivani não enxergou que o racismo está nela: seguranças e empregados não estão como usuários no shopping, estão como seus trabalhadores subalternos!</p>
<p>Higienópolis é um bairro com significativa presença de descendentes de judeus, historicamente vitimados pelo racismo mais deslavado. Judeus se solidarizaram com os negros preconceituados nos EEUU nos anos 20 e 30 do século passado e até se tornaram grandes compositores e instrumentistas de jazz. Nesse caso, o que é bom para os EEUU é bom para o Brasil.</p>
<p>Mas é claro que o Shopping Higienópolis não pertence apenas a essa comunidade étnica. Outros setores de classe média e mais brasileira, igualmente racistas, estão lá bem presentes.</p>
<p>A democracia é uma meta a ser construída dia a dia e o antirracismo faz parte dela.</p>
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		<title>Tornar-se EEUU (Rastros de ódio)</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Feb 2012 17:39:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[John Ford - cinema norte-americano - faroeste]]></category>

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		<description><![CDATA[
Assistir a esse filme é estar diante de um inventário do faroeste, dirigido por um dos maiores Mestres desse gênero cinematográfico – John Ford -, que se apropriou de Ilíada e Odisséia (os grandes clássicos de Homero, que narram a Guerra de Tróia e o retorno de Ulisses a sua terra de origem) para falar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/02/odio2.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-40608" title="odio" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/02/odio2-464x290.jpg" alt="" width="464" height="290" /></a></p>
<p>Assistir a esse filme é estar diante de um inventário do faroeste, dirigido por um dos maiores Mestres desse gênero cinematográfico – John Ford -, que se apropriou de Ilíada e Odisséia (os grandes clássicos de Homero, que narram a Guerra de Tróia e o retorno de Ulisses a sua terra de origem) para falar sobre a grandeza e a miséria do tornar-se EEUU. Nele, cruzam-se grandes temas da História desse país: a Guerra de Secessão, a conquista do oeste, o extermínio &#8211; ou, ao menos, reclusão &#8211; dos índios em determinadas áreas, a definição de identidade nacional.</p>
<p><span id="more-40604"></span>Os índios são um crepúsculo que não acaba: Ethan Edwards (o ator John Wayne), veterano derrotado da Guerra de Secessão, atira nos olhos de um índio já morto para que ele não tenha paraíso e arranca o escalpo do chefe comanche Scar (o ator Harry Brandon) no final do filme; Ethan mesmo, de certo modo, vira índio com esses gestos, na medida em que faz o que os índios faziam com seus inimigos.<br />
Nesse sentido, os brancos como Ethan são um grande problema e o filme ultrapassa largamente qualquer função ideológica meramente legitimadora daquela História: além de muitos serem mestiços em termos biológicos (a começar por Martin, o ator Jeffrey Hunter, personagem tão importante na persistência pela recuperação da personagem Deborah, raptada pelo chefe comanche Scar quando era criança), todos se fazem mestiços na relação com um outro complexo, não saem os mesmos dessa relação. Um “outro outro”, ausente do filme, é a população negra, referenciada apenas indiretamente através da Guerra de Secessão.</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/02/odio-2.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-40609" title="odio 2" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/02/odio-2-340x242.jpg" alt="" width="204" height="145" /></a>O contraponto entre homens (briguentos e sujos) e mulheres (organizadas e bonitas em seus impecáveis aventais longos, cuidando tão bem do lar que é porto seguro para os guerreiros que retornam dos combates) apresenta a beleza da diferença e da complementaridade. E a deslumbrante paisagem (Monumental Valley, imagens de neve, rios, formações rochosas e areia) impressiona ao mesmo tempo em que enquadra os seres humanos. É como se eles, tão pequenos, fossem determinados por aquela bela grandeza e pagassem alto preço pelo direito a dela se apropriarem. Nesse sentido, o magnífico uso de planos gerais na filmagem assume papel narrativo central no filme, ainda mais valorizado pela inteligência no uso de enquadramentos e ritmos.</p>
<p>Ford inicia a obra com Martha Edwards (a atriz Doroty Jordan) abrindo a porta da casa onde mora com a família (seu marido Aaron e os filhos Lucy, Deborah e Ben), deixando ver a paisagem do Monumental Valley, enxergando um cavaleiro que chega: Ethan, irmão de Aaron. Toda a família, inclusive o cãozinho, assiste à chegada, identifica Ethan, saudado por Martha com as palavras &#8220;Bem-vindo ao lar&#8221;, muito expressivas sobre os valores de sociabilidade que o filme apresenta.</p>
<p>A identidade guerreira de Ethan é identificada pelo sabre que conduz e que dá de presente ao sobrinho Ben – uma condecoração é entregue por ele como medalhão, depois, à pequena Debbie. É um guerreiro que volta de combates perdidos. Seremos informados, mais tarde, que lutara no Exército Confederado e não endossara a rendição. Junta-se à família, pouco depois, o jovem adulto Martin Crawley, mestiço de índio, recebido com certa hostilidade por Ethan, embora Martha (que ele trata como tia) registre que ele fora salvo da morte, quando criança, pelo próprio cunhado. Essa hostilidade inicial sugere alguma dose de preconceito e endogenia familiar, transformando-se ao longo do filme.</p>
<p>Em seguida, chega um grupo masculino, liderado pelo Reverendo Samuel, que é também capitão dos Rangers, merecendo a hospitalidade de Martha e falando sobre roubo de animais, convocando Aaron e Martin para a missão de procurar índios eventualmente responsáveis pelo ocorrido. Ethan se oferece para substituir o irmão e segue com o grupo.</p>
<p>Durante a missão, Ethan interpreta o ocorrido como estratégia dos índios para afastar os homens das casas, quer dizer, ameaça às famílias que ali permaneceram. O contraponto desse entendimento é a imagem de paz na casa de Aaron, com a pequena Deborah ajudando a mãe a por a mesa (bonita louça decorada, cotidiano da normalidade familiar) e Aaron preocupado com os latidos do cachorro. Martha pede para Lucy não acender o lampião (a moça grita apavorada, pressentindo o perigo), Debbie é instruída para se esconder no túmulo da avó.</p>
<p>A menina é seguida pelo cachorro, contra sua vontade, e surge um índio – saberemos depois que é o chefe comanche Scar. A cena seguinte já apresenta a tragédia montada: casa de Aaron incendiada, informação de Ethan sobre os corpos de irmão, cunhada e sobrinho, desaparição das filhas do casal, raptadas pelos agressores.</p>
<p>Ford adota procedimento narrativo similar ao dos trágicos gregos: os horrores são narrados por um personagem mas não figuram diretamente na cena. Ethan diz que é preciso poupar os mais jovens daquela visão, os espectadores do filme fazem parte dos que são poupados.</p>
<p>A evocação da Ilíada se situa nesse quadro de jovens mulheres raptadas e expedição para tentar recuperar as duas, além de enfrentar e punir os responsáveis por aquela afronta. A quase totalidade da narração se desenrola como luta por essa recuperação e, enfim, se transforma em Odisséia, retorno ao lar – não mais a casa de Aaron, destruída junto com quase todos os moradores, mas a moradia dos Jorgensen, família da jovem Laurie, namorada de Martin. E Ethan é um Ulisses outsider, intérprete do inimigo que concebe estratégias para sua derrota mas sem um lar onde enfim pudesse repousar das lutas – vai embora no fim do filme.</p>
<p>O nome do chefe comanche, Scar, significa, em inglês, “Cicatriz” e figura traduzido em trechos do filme, ambientados em local de fala castelhana. Quase no fim de Rastros de ódio, quando Ethan e Martin encontram esse homem e Debbie (já uma moça formada), aquela designação é associada a grande cicatriz em seu rosto – e ele chama os outros dois de “Ombros largos” e “O que segue”. Mas é possível identificar no nome de Scar também uma caracterização simbólica dos índios como marca de golpe, ferida, memória de sofrimento. Certamente, a matança da família e o rapto de Lucy e Debbie são ações terríveis dos indígenas: eles também sabem impor golpe, ferida, memória de sofrimento a seus inimigos. Os brancos, todavia, continuam a não ficar atrás quando, no desfecho do filme, invadem uma aldeia comanche, sem controle sobre disparos que podem atingir mais que guerreiros – há imagens de mulheres e crianças em fuga.<br />
Os rangers, incluindo o namorado de Lucy (Brad), depois de assistirem ao enterro daquelas vítimas, seguem em busca dos índios. A estratégia definida pelo Reverendo Samuel é roubar os pôneis dos comanches mas logo ela se revela ineficaz diante do expressivo número de inimigos, que cercam aquele grupo. Embora os índios sejam rechaçados, Samuel desiste da busca e apenas Ethan, Brad e Martin dão continuidade à tarefa.</p>
<p>Após uma breve incursão pelo território dos índios, sozinho, Ethan retorna visivelmente perturbado e demora a dizer para os dois companheiros que encontrara Lucy morta. Brad, enfurecido, parte sozinho para se vingar mas, em seguida, tiros são ouvidos. Mais uma vez, como na tragédia grega, uma morte ocorre fora de cena, o cadáver de Brad também não é visto por nós.</p>
<p>Ethan e Martin dão continuidade à busca por Debbie, o passar do tempo é assinalado nas mudanças de paisagem (neve, por exemplo) e mesmo na aparência dos guerreiros (roupas sujas e estragadas, fisionomias cansadas), sem apelar para legendas óbvias, como é habitual até hoje em telenovelas ou filmes banais. Essa busca constitui o cerne da narração. Esperanças são desfeitas em diferentes momentos mas o esforço tem continuidade. O mestiço Martin revela um sentimento fraternal profundo em relação a Debbie, identidade e afeição. Ethan é mais amargo, reitera progressivamente que ela se transformara em índia, não mais pertencia a sua família.</p>
<p>No primeiro retorno de Ethan e Martin ao lugar de onde partiram, a narração sugere um recomeço, evocando a abertura do filme: a Sra. Jorgensen (a atriz Olive Carey), mãe de Laurie Jorgensen – essa jovem é namorada de Martin &#8211; (a atriz Vera Miles), faz as honras da casa, recebe os guerreiros, a situação deixa claro que já se passou um ano desde a morte de Aaron e sua família. Laurie é ousada e forte, beija o namorado e até o derruba. Mas Martin reitera querer continuar a busca, mesmo contra a vontade de Ethan, e Laurie, mesmo enfurecida com isso porque quer o namorado perto dela, consegue para ele o melhor cavalo de seu pai.</p>
<p>A longa viagem de Ethan e Martin é um mergulho naquele EEUU se fazendo, nos dilemas dos pioneiros brancos, nos deslocamentos daqueles índios sem terras que não mais conseguem ser o que são. Os dois homens negociam com índios, oferecem recompensa por informações sobre Debbie, Ethan gasta dinheiro nessas buscas. Encontram numa igreja moças que tinham sido antes raptadas por índios, elas estão com aparência enlouquecida, deslocadas no mundo dos brancos.</p>
<p>Enquanto isso, Laurie é cortejada por um rapaz sedutor, que canta violão e frequenta a casa de seus pais. E Ethan e Martin viajam, viajam, findam chegando à aldeia comanche onde Scar vive e encontram Lucy quase adulta, contendo-se diante do que viam. Na aldeia, os dois não são agredidos. Em seguida, todavia, sofrem ataque dos índios, conseguem rechaça-los mas Ethan é ferido, Martin cuida dele. O homem mais velho entrega um documento para o parceiro ler, este tem dificuldades na leitura, é ajudado pelo outro e entende que é um testamento que lhe transmite todos os bens de Ethan. Martin não aceita isso, continua fiel ao sentimento fraterno por Debbie, considera a moça família de Ethan.</p>
<p>Os dois homens retornam e encontram a casa da família Jorgensen em festa – casamento de Laurie com aquele pretendente. Martin interpela Laurie, o noivo fica enfurecido, há briga física entre os homens, a cerimônia é suspensa. Bailes e brigas são magistralmente filmados por Ford em diferentes obras e Rastros de ódio não desmerece a mão do Mestre. Mas a situação é redirecionada com a ida dos rangers (sob o comando do Reverendo Capitão Samuel), mais um batalhão do Exército, à aldeia comanche, culminando com a morte de Scar e a recuperação de Debbie – enfim, aceita plenamente por Ethan, que a conduz no colo, como se ainda fosse uma criança, dizendo-lhe afetuosamente: “Vamos para casa, Debbie”. Nessa ação, conjuga-se a postura individual e corajosa de Martin, que entra sozinho na aldeia, e a presença grupal de rangers e soldados.</p>
<p>Sim, há uma casa para onde voltar (o lar dos Jorgensen, com a mãe dessa família acolhendo carinhosamente a moça), que também é porto seguro para Martin, enfim unido a sua amada Laurie.</p>
<p>No desfecho do filme, todos os personagens entram num ambiente doméstico dessa casa, espécie de situação inversa em relação à abertura (Martha deixando ver, pela porta de sua casa, a paisagem do Monumental Valley e a chegada de Ethan): seria a sala de cinema, onde nós estamos, desdobrada da sala da família Jorgensen?</p>
<p>Mas Ethan permanece na parte externa a esse lugar e vai embora: será o mundo do filme, que continua depois que ele acaba?<br />
As salas de cinema, depois dos aparelhos de vídeo, tenderam a se confundir com os espaços residenciais. Mas a memória desse filme (seu mundo) se mantém inescapável, sempre, como obra de arte maior e modelar, não menos que brilhante.</p>
<p>Rastros de ódio (EEUU). 1956. Direção: John Ford. Produção: C. V. Whitney Pictures e Warner Bros. Pictures. Roteiro: Alan Le May e Frank S. Nugent. Fotografia: Winton C. Roch. Música: Max Steiner. Montagem: Jack Murray. Elenco: John Wayne (Ethan Edwards), Natalie Wood (Debie Edwards), Ward Bond (Reverendo Capitão Samuel Johnston Clyton), Vera Miles (Laurie Jorgensen), Jeffrey Hunter (Martin Pawley), John Qualen (Lars Jorgensen), Olive Carey (Sra. Jorgensen), Henry Brandon (Chefe Scar), Ken Curtis (Charlie McCorry) e Harry Carey Jr. (Brad Jorgensen). 119 minutos. Colorido.</p>
<p><strong>Leituras complementares:</strong></p>
<p>BOGDANOVICH, Peter. John Ford / Peter Bogdanovich. Berkeley: University of California Press, 1978.<br />
BUSCOMBE, Edward. The searchers. London: British Film Institute, 2004.<br />
EYMANN, Scott e DUNCAN, Paul. John Ford – Filmografia completa. Sem local: Taschen do Brasil, 2005.</p>
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		<title>Ai Hay Hai</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Feb 2012 01:27:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[ai cai hay hai kai
meu espelho espelho meu
ai se eu te hai kai
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			<content:encoded><![CDATA[<p>ai cai hay hai kai</p>
<p>meu espelho espelho meu</p>
<p>ai se eu te hai kai</p>
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		<title>Ser Alguém (A hora e vez de Augusto Matraga)</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/ser-alguem-a-hora-e-vez-de-augusto-matraga/</link>
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		<pubDate>Tue, 07 Feb 2012 13:27:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[A hora e vez de Augusto Matraga - João Guimarães Rosa - Roberto Santos - Cinema Brasileiro - Literatura Brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[(Para Deífilo Gurgel, Grande Alguém)
Guimarães Rosa abre o conto “A hora e vez de Augusto Matraga” com uma definição de seu personagem principal:
“Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afonsão Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto – o homem – nessa noitinha de novena, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><strong>(Para Deífilo Gurgel, Grande Alguém)</strong></p>
<p>Guimarães Rosa abre o conto “A hora e vez de Augusto Matraga” com uma definição de seu personagem principal:</p>
<p>“Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afonsão Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto – o homem – nessa noitinha de novena, num leilão de atrás de igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do Córrego do Murici.”<br />
<span id="more-40499"></span>Esse trecho começa com uma negação absoluta: Matraga não é nem o que ele e os demais supõem que Augusto seja. E esse nada é traduzido em seguida: um sobrenome, um pai evocado por patente honorífica  e aumentativo, mais propriedades, o personagem tendo o prenome antecedido por um “Nhô” (Senhor) e sintetizado como “o homem”.</p>
<p>O leitor é colocado diante desse nada do poder, portanto, desde o começo da narração. Um poder exercido num momento e num lugar minúsculos –<br />
“nessa noitinha de novena, num leilão de atrás de igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do Córrego do Murici.”<br />
Um poder de nada que consegue oprimir muito e que se manifesta na diferença.<br />
O filme homônimo de Roberto Santos se inicia e se encerra ao som de uma canção de Geraldo Vandré que diz:<br />
“Se alguém tem que morrer,<br />
que seja p’ra melhorar.”<br />
Na abertura do filme, esses versos são cantados com a tela ainda sem imagem. Em seguida, surge Augusto, numa elevação de terreno, depois montado, numa estrada, contraposto a homem de aparência caipira, com roupas rasgadas, que segue a pé. E, noutro espaço, a mulher de Augusto – Dionora &#8211; figura em casa, penteando a filha Mimita (vestida como anjo).<br />
São contrapontos importantes: a mulher em casa, cuidando da criança vestida de anjo (pureza e sacralidade), e o pobre a pé, mal vestido. O espaço aberto é do macho poderoso, o conforto do cavalo é de quem tem dinheiro, de quem tem. Mulher e pobre são outros de Nhô Augusto.<br />
A escolha da voz de Vandré para abrir o filme sugere uma profunda vontade de presente na leitura que o diretor Roberto Santos fez daquele conto de Guimarães Rosa: o cantor paraibano, em 1965 (quando o filme foi lançado), iniciava sua trajetória de ascensão que culminaria com os grandes sucessos de “Disparada” (1966) e “Caminhando” (1968).<br />
Não se trata, todavia, de imediatista exploração sócio-política de um texto apenas profundamente metafísico: sociedade e política já estavam no original de Guimarães Rosa (as menções ao nada da propriedade, as tensões do poder), o metafísico se manteve no angustiado Augusto de Roberto Santos (o que fazer para ser alguém aos olhos de Deus, dos outros e de si próprio?), culminando no olhar indagador de um padre, que assistira à hora e vez de Matraga, dirigido para Deus, no desfecho do filme. Santos enfatizou questões que Rosa já apresentava e aproveitou a filmagem para refletir sobre seu presente – o momento em que uma ditadura se implantava no Brasil, novas angústias sobre poder e ser. As questões de mando e significação foram redirecionadas pelo filme, sem perder de vista a riqueza original dos problemas abordados no conto. E o zelo do diretor cinematográfico se manifesta, inclusive, na preservação de muitos diálogos do original literário.<br />
Os recursos narrativos da linguagem cinematográfica (imagem em movimento, som, trabalho de atores) dotam o filme de um ritmo mais acelerado que o texto original. Na situação inicial da novena, é possível observar como o poder de Augusto se baseia no dinheiro e se exerce sobre os mais fracos – crianças, mulheres, pobres (inclusive aquele que andava na estrada, apaixonado por uma prostituta, presente naquela festividade: Sariema). Para tanto, ele conta com o apoio de capangas violentos e armados, que quase atropelam com seus cavalos e assustam as crianças e também os adultos.<br />
Ao mesmo tempo, é possível observar contrapontos a esse poder de mando: um coronel rival – Major Consilva –, cobiçando seus capangas e seu império, e um outro cavaleiro, seu Ovídio, que, muito discretamente e com respeito, faz a corte a Dionora.<br />
Cabe destacar alguns significados nesses nomes próprios.<br />
Augusto (consagrado) é nome do primeiro imperador romano, Caio Júlio César Otaviano Augusto, depois tornado título dos imperadores que a ele se seguiram. O personagem do conto sugere uma consagração degradada, dedicada à violência gratuita, que se regenera através de dura experiência de vida.<br />
Matraga evoca matraca, instrumento musical percussivo, usado em procissões na Quaresma, misturando a lembrança da dor à intensidade do toque. Um barulho associado à tristeza da Paixão mas que abriga em seu desfecho a Ressureição.<br />
Dionora sugere Nora de Deus, desdobrando-se, portanto, num Augusto Filho de Deus &#8211; Jesus (agradeço a Eli Clemente, que me sugeriu essa interpretação e os laços com o nome de João Batista, através de João Lomba, em conversa). Diante dos pontos de partida que Augusto Matraga apresenta para o leitor, o Deus Pai (Coronel Afonsão Esteves das Pindaíbas e do Saco-da-Embira) aparece altamente marcado pela propriedade e o trajeto de seu Filho é de resgatar uma maior abrangência para a existência do Pai e d’Ele mesmo. Outra leitura possível para esse Filho de Deus é sua identificação com todos os seres, cada um deles também Filho de Deus. Nesse sentido, o calvário de Augusto é o mesmo de todos nós.<br />
João Lomba (que, no filme, aparece como leiloeiro na novena e mensageiro das más novas para o Matraga escondido – no conto, testemunha a morte de Matraga e se identifica no ato como seu primo) tem o mesmo prenome que o primo de Jesus no Novo Testamento, João Batista, reforçando aquela identificação que deriva do nome de Dionora.<br />
Ovídio tem o nome do poeta latino que tanto se dedicou ao universo erótico-amoroso. Ele é definido, no conto, em nome do amor:<br />
“Gostava dela, muito&#8230; Mais do que ele mesmo dizia, mais do que ele mesmo sabia, da maneira de que a gente deve gostar.”<br />
E Sariema é nome de ave pernalta, indicador da magreza de sua portadora mas também de uma condição animal, comum a outros objetos de poder do primeiro Augusto Matraga.<br />
Augusto humilha a prostituta pobre que arrematara no leilão da novena (leilão conduzido, no filme, por João Lomba), abandona-a como se fosse nada. Antes, em casa, também se dirigira à filha e à mulher com agressividade, referindo-se, inclusive, ao convívio com as prostitutas como melhor. E entregara os pés para que a mulher os descalçasse, passando-os nas ancas de Dionora.<br />
Toda essa arrogância de macho começa a se desfazer quando seu fiel empregado Quim Recadeiro avisa que Dionora e a filha fugiram com seu Ovídio. Em seguida, Quim descobre que os capangas tinham se bandeado para o lado do Major Consilva e traz a notícia para Augusto. Poderes de macho (mulher, família, violência) escapavam entre os dedos de Matraga. E sua reação, contra prudentes advertências de Quim (rumores de que Augusto nada mais tinha – outros poderes de macho perdidos -, estava na pobreza, prestes a sofrer retaliações de seus antigos rivais), foi seguir sozinho para tomar satisfações junto aos capangas, ao Major e ao sedutor Ovídio. Até despreza o oferecimento de Quim para ir junto com ele: &#8220;Boi capado não chifra.&#8221; Assim mesmo, Quim entra na casa e pega um revólver.<br />
Roberto Santos se beneficia largamente de um elenco muito bom, com destaque para Leonardo Vilar no papel principal, sem esquecer coadjuvantes de peso como Flávio Migliaccio (Quim), Jofre Soares (Joãozinho Bem-Bem), Maurício do Valle (o padre no final do filme) e outros. Vilar explora sutilezas de seu complexo personagem nesse difícil momento de crise, passando de um sentimento de onipotência para a consciência do despoder e, em seguida, uma visão da própria miséria humana – que não se reduz à pobreza – até à redenção da hora e vez. O trabalho desse ator inclui expressiva máscara facial, posturas físicas, timbres de voz, dando continuidade a sua maestria em cinema (além do teatro, onde atuara e continuaria a atuar com grande sucesso de crítica), bem conhecida ao menos desde O pagador de promessas (1962), de Anselmo Duarte, e ainda plenamente visível, muito depois, em Ação entre amigos (1998), de Beto Brant.<br />
Augusto Matraga é emboscado por vários de seus ex-capangas, agora a serviço do Major Consilva, mais aquele caipira enamorado da prostituta e capangas mais antigos do rival, derrubado de seu cavalo, espancado, humilhado. Consilva ordena que os capangas o ferrem, como um animal, e matem, fora de suas terras, dizendo ainda:<br />
“Não tem mais nenhum Nhô Augusto Esteves, das Pindaíbas, minha gente?!&#8230;”<br />
Essa pergunta/afirmação inclui estirpe (família) e propriedade (Pindaíbas) no que estava sendo destruído. O episódio representa circulação de bens e poderes entre pessoas de um mesmo nível social, que somente respeitavam similares enquanto dotados de poderes iguais – dinheiro e apoio armado para o exercício da violência. Matraga, enfraquecido socialmente (perda de bens, fuga de muher e filha, sem capangas), para Consilva, é nada – ou apenas um objeto no exercício de violência e poder, o que dá na mesma. O caipira pobre, antes humilhado pelos capangas de Augusto, agora é o portador do ferro que será usado para marcar Matraga como um animal.<br />
O personagem continua a ser espancado durante todo o percurso que o grupo de capangas faz até o local da execução, perde os sentidos, é reanimado com água, marcado a ferro no peito esquerdo – lugar do coração, centro vital e, simbolicamente, sede de sentimentos, até então ausentes naquele homem. Vale destacar que, no conto de Guimarães Rosa, essa marca foi feita na “polpa glútea direita” de Augusto, humilhação mesclada a animalização. O deslocamento físico operado pelo filme enfatizou universo humano simbólico de sensibilidade, que se desdobra na intensa reação do personagem – urro de dor e recuperação de forças para se livrar dos algozes e se jogar no precipício ali perto.<br />
Quim assiste a tudo isso, corre para a casa de Consilva, mata capanga, demonstra grande coragem e morre nas mãos de muitos inimigos.<br />
Aquela queda, simbolicamente, assume um aspecto de descida aos infernos: Augusto não mais é proprietário, não mais conta com capangas (pelo contrário, sofre, como qualquer miserável, a ação dos capangas de outro), foi ferrado como animal, como propriedade de outrem e esteve prestes a ser morto, encontra-se dentro de seu nada, agora explícito para ele mesmo. Nesse inferno, todavia, surge um inesperado anjo – Serapião (nome indicado no conto, ausente no filme), negro, pobre, que mora com a mulher, Quitéria, igualmente negra, num casebre feio situado no vale para onde aquele precipício leva. Matraga é salvo da morte por representantes do que há de mais humilde na sociedade brasileira – negros e pobres, que o conto de Guimarães Rosa, um pouco depois desse momento, caracteriza, junto com o próprio Augusto Matraga que a eles se agregou, “como cativos amocambados, de quilombo a quilombo”. O casal é portador de generosidade e o ajuda sem sequer saber quem ele é, ajuda porque considera correto assim agir. A agonia de Matraga – fortemente machucado, desmoralizado, sem motivo para viver – é combatida pelo casal, que reza, oferece os recursos de cura que tem, inclusive alimentação, aparentemente escassa. A bondade existe no mundo.<br />
A lenta consciência do homem sobre a situação em que se encontra se transfigura, aos poucos, em renascimento, como se voltasse à infância, chorando “choro solto (&#8230;) de menino ao abandono”, chamando pela mãe – e Quitéria o atende! Junto com a morte e descida aos infernos, portanto, há uma nova vida e a adoção de pais na escala mais humilde daquele mundo – adoção recíproca pois o casal de idosos negros cuida dele como se fosse um filho.<br />
Esse renascer traz consigo um Matraga com sentimento de culpa em relação a seus desmandos anteriores e vontade de se penitenciar. Ele conversa com um padre, trazido pelos pais adotivos, e confessa a vontade de se redimir, sendo aconselhado a se dedicar ao trabalho. Pouco depois, parte dali junto com os pais. em busca de nova vida, deixando para trás a choupana em chamas, lugar e tempo para onde não voltar..<br />
A etapa seguinte da narração é marcada por extenuante esforço físico de Matraga no trabalho e também no apoio ao próximo, seguindo a orientação daquele padre. Augusto, embora viva na pobreza, ajuda a todos tanto no sentido de lhes dar o mínimo que possui quanto também na participação em atividades coletivas de cunho religioso.<br />
Matraga parece completamente apartado de seu passado no povoado de Tombador (nome indicado apenas no conto), onde vive com o casal de idosos. Surge, todavia, um conhecido seu naquelas bandas &#8211; Tião da Thereza, no conto, identificado como João Lomba, no filme, cuja chegada parece anunciada pelos guizos de égua madrinha. Esse homem fica surpreso por encontrar Augusto vivo, dá notícias sobre Dionora, muito bem com seu Ovídio, sua filha, prostituída, o Major Consilva, novo dono das terras que antes lhe pertenceram, usando voz cheia de ironia. Informa ainda que Quim Recadeiro morrera bravamente em luta para vingar a morte do patrão. Essa última ação, no filme, foi apresentada diretamente enquanto transcorria e depois narrada a Augusto, embora figure no conto apenas através da fala de Tião (João, no filme). A opção de Roberto Santos, certamente, dotou o filme de dinamismo e agilidade próprios a sua linguagem, sem renunciar à surpresa culposa posterior de Augusto, quando informado sobre o ocorrido. Augusto pede a João que não conte para nínguem que o encontrou, &#8220;é o mesmo que tivesse morrido. Não tem mais Augusto Matraga.&#8221; No desfecho dessa cena, João Lomba olha com desprezo para Augusto e cospe no chão (a fotografia da cena enfatiza visualmente a massa de saliva), reiterando sua miséria.<br />
Apesar da angústia provocada por esse contato com o viver anterior, Matraga manifesta sinais de recuperação física, que se expressa não apenas em maior disposição corporal mas até como direito a ficar sem nada fazer e fumar, sentir o corpo num relaxamento que não mais é doença. No meio da noite, ouve ruído de objeto caindo, sai para fora de casa, vê um jumento solto, esforça-se para arreá-lo, monta no animal, cai, persiste, finda permanecendo na montaria, feliz. A transformação é difícil porém possível e prazeirosa. Domar o animal é, um pouco, domar-se. E retomar consciência da própria potência.<br />
Foi nesse quadro que ocorreu uma segunda aparição em Tombador, a de Joãozinho Bem-Bem (o ator Jofre Soares) e seu bando de valentões, que chegam também ao som dos guizos de uma égua madrinha. A população do povoado sente medo diante do grupo, mas Augusto dele se aproxima, despertando simpatia naquele chefe. De imediato, Matraga convida Joãozinho a se arranchar com o grupo em sua casa, convite aceito. A hospitalidade trabalhosa de Augusto envolve o trabalho de seus pais. Há um sentimento de euforia transmitido por ele no convívio com esses guerreiros (dentre eles, Juruminho, que depois lhe pediria para rezar por uma irmã doente), talvez face de seu passado, contemplando com admiração características corporais e de luta daqueles homens. Esse sentimento culmina no ato de pegar uma das armas e fazer certeiro disparo, elogiado por Joãozinho. Este, como sinal de agradecimento pela hospitalidade, oferece seus préstimos a Augusto contra eventuais inimigos, sem receptividade, apesar de certa tentação. Na partida, o chefe do bando ainda convida Matraga a se juntar a eles e o homem não aceita, embora declare “Não me tenta que eu não posso, seu Joãozinho Bem-Bem&#8230;” Não pode, não vai, mas&#8230; sentiu-se tentado.<br />
Esse episódio do filme (e do conto) é revelador de camadas de personalidade guerreira em Augusto Matraga, diferentes da violência anterior que se expressava através de jagunços, e temperadas pela vida de penitência a que o personagem se dedicara. Há uma configuração de identidades em comum entre esses seres tão diferentes – o guerreiro e o penitente -, que o encaminhamento final da narrativa confirma. Num sonho posterior ao encontro (narrado no texto, ausente do filme), Matraga encontra um Deus valentão, parecido com Joãozinho, síntese daquela diferença sedutora. Deus não é contra a valentia. Mas a penitência ainda se impõe para o personagem. No filme, Matraga desafia o capeta no meio da chuva, experiência de enfrentar a adversidade e mostrar coragem – enfrentar o demônio também é ser valente.<br />
Daí por diante, a recuperação física de Augusto se intensifica, incluindo o retorno do desejo, o sentimento de beleza do mundo natural, a visão de aves em voo e belas mulheres, que uma posterior troca de olhares com uma bonita lavadeira evidencia fortemente. São sinais para a partida de Matraga, contra a vontade de Quitéria e seu companheiro. Augusto afirma que, se não voltar, seus bens pertencem ao casal &#8220;de coração e de direito&#8221;.<br />
Imediatamente, o filme apresenta o bando de Joãozinho Bem-Bem e, um pouco adiante, uma família negra e pobre, visivelmente, assustada, tentando encontrar abrigo numa pequena igreja, clamando mesmo pelo padre. No grupo de Joãozinho Bem-Bem, há um cavalo sem cavaleiro.<br />
O padre  enfrenta o grupo mas é desrespeitado. Joãozinho Bem-Bem e seus homens cercam a igreja, um carro de boi começa a ser usado como aríete contra a porta do prédio, vidraças são quebradas. Enquanto isso, o sacerdote e aquela família rezam, o religioso evoca evangelistas e São Jorge.<br />
Augusto faz uma viagem de entrega ao destino, o jumento onde estava montado (animal que Quitéria associou a passagens da vida de Jesus) o conduz. Esse caminhar o leva àquele arraial, onde encontra Joãozinho Bem-Bem e seu bando. Recebido com hospitalidade, Augusto é informado de que Juruminho fora morto à traição, o assassino fugira  mas o bando ali estava para se vingar da família deste. Joãozinho Bem-Bem reitera o convite para Augusto se integrar ao grupo e até lhe oferece as armas do falecido Juruminho, situação que o conto de Guimarães Rosa (nessa passagem, reiterado cenicamente pelo filme) apresenta como “a maior das suas tentações”. Matraga resiste mais uma vez ao desejo.<br />
O mais idoso membro daquela família do assassino chega para pedir piedade a Joãozinho Bem-Bem, implorando mesmo “Pelo sangue de Jesus Cristo e pelas lágrimas da Virgem Maria”, oferecendo-se para ser sacrificado no lugar dos filhos, sem resultados favoráveis. Contra essa impiedade, Augusto coloca-se em defesa do velho e seus parentes (grupo de negros, como sua família de adoção), iniciando-se luta entre Matraga e todo o bando do agora adversário Joãozinho Bem-Bem, ato de valentia a favor de uma causa.<br />
No conto, o combate ocorre na casa onde Joãzinho e seu bando se alojaram. No filme, a luta se dá no pátio e dentro de igreja, onde imagens sagradas estão cobertas por panos escuros (uma exceção é o prório Cristo carregando a Cruz), como na Semana Santa, enfatizando ainda mais a solenidade daquele ato. Antes da interferência de Augusto, o padre tentara infrutiferamente impor sua autoridade a Joãozinho. Iniciado o combate, Augusto dispara tiros e usa uma lança, como um São Jorge contra o dragão – bando de dragões. Na etapa final, a disputa se resume a combate entre Augusto e Joãozinho, que riem durante a luta. Ferem-se reciprocamente, Augusto espeta Joãozinho como São Jorge o fizera com o dragão – no conto, “A lâmiona de Nhô Augusto talhara de baixo para cima, do púbis à boca-do-estômago (&#8230;)”..<br />
O momento de morrer, para Augusto, é de dor e euforia: ele viveu hora e vez. Anuncia mesmo para todos os presentes sua identidade – “Nhô Augusto Esteves, das Pindaíbas!” -, recupera o que foi, num outro patamar, todavia. E é, no texto literário, identificado por João Lomba: “Eu logo vi que só podia ser você, meu primo Nhô Augusto&#8230;” Heróis são parentes – o avesso daquele mesmo Augusto que merecera uma cusparada no chão de João Lomba, no filme. E o parentesco desse João é um paralelo com João Batista, primo de Jesus.<br />
Guimarães Rosa encerra o conto “A hora e vez de Augusto Matraga” com essa auto-definição (também auto-recuperação) de seu personagem principal, prestes a morrer, transmitindo um recado:<br />
“Fala com a Dionóra que está tudo em ordem!.”<br />
No filme, o padre, atendendo a pedido de Matraga, abençoa burocraticamente o corpo de Joãozinho. E parece encarar Augusto como mensageiro de Deus, acudindo-o, na hora da morte, como Maria na clássica representação da Pietá, fechando-lhe os olhos, asolvendo-o em latim.<br />
Augusto teve hora e vez, viveu e morreu para algo.<br />
O filme de Roberto Santos traz, nesse instante final, depois do recado de Matraga &#8211; que não chega a ser dito completamente, interrompido pela morte -, o angustiado olhar do padre (o ator Maurício do Valle), dirigido para Deus e de frente para o espectador, silenciosa evocação intertextual da fala final de Töre (o ator Max Von Sidow), em A fonte da donzela, de Ingmar Bergman:<br />
“Eu não consigo Vos entender.”<br />
Há uma sugestão de que esse padre herda a mensagem de Augusto diante do mundo (Brasil da ditadura) que está à sua frente. Por extensão, a Igreja Católica (ou parte significativa dela, envolvida na defesa dos pobres e oprimidos pelo regime) poderia ter sua hora e vez. Mesmo que o padre, retornando a sua igreja, chute o cadáver de um dos valentões mortos, como se revivesse o clássico personagem Antonio das Mortes (interpretado pelo mesmo Maurício do Valle), do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha – negação daquele caminho como superação da miséria humana.<br />
Matraga teve hora e vez, fez algo significativo, foi alguém &#8211; viveu. E pode morrer de uma maneira boa. Morrendo em nome da Justiça, contribuiu para tornar melhor tanto o mundo a seu redor como seu próprio ser.<br />
Injustiças brotavam como capim em terra fértil no Brasil de 1965 – ditadura ascendente. Quem recebia o bastão de Matraga (explicitamente, aquele padre; por extensão, todos os espectadores) podia fazer muito contra esse mundo cruel, reinstaurar um Reino de Deus livre das amarras do poder de dinheiro e violência gratuita.<br />
Mas a angústia do viver e as injustiças continuaram e continuam para quem assiste ao filme, mesmo fora das ditaduras: cada um ainda é nada até fazer por onde ter hora e vez.<br />
Nesse aspecto, rever o filme depois da conjuntura em que ele foi feito reafirma laços com o texto literário original e sua grandeza artística.</p>
<p>A hora e vez de Augusto Matraga. (Brasil). 1965. Direção: Roberto Santos. Roteiro: Roberto Santos. Produção: Luiz Carlos Barreto, Roberto Santos e Nelson Pereira dos Santos. Música: Geraldo Vandré. Fotografia: Hélio Silva. Edição: Sylvio Renoldi.  Distribuição: Polifilmes. Elenco: Leonardo Villar, Jofre Soares, Maria Ribeiro, Maurício do Valle, Flávio Migliaccio, Geraldo Vandré, Áurea Campos, Emanuel Cavalcanti, Jorge Karan, Jorge Marinho, Solano Trindade, Eva  Rodrigues, Antônio Carnera, Ary Toledo, Haroldo Pereira, Ivan de Souza, Trio Marayá, Sudário Medeiros,  Alvaíza Araújo, Anael Herrera e  José Brito. 120 min. Branco e preto.</p>
<p><strong>Leituras complementares:</strong></p>
<p>GUIMARÃES ROSA, João. “A hora e vez de Augusto Matraga”, in: Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, pp 341/386.<br />
SCHETTINO, Paulo B. C. “Duas vezes Guimarães Rosa no Cinema”. FACOM – Revista da Faculdade de Comunicação da FAAP. São Paulo: FAAP, 17: 47/54, 1º semestre de 2007.<br />
SIMÕES, Inimá. Roberto Santos: A hora e vez de um cineasta. São Paulo: Estação Liberdade, 1997.</p>
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		<title>Em busca do sagrado coração da nação (Central do Brasil)</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Feb 2012 12:55:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Central do Brasil - Walter Salles - Cinema brasileiro]]></category>

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<p>O filme Central do Brasil aborda fim e começo de vidas, talvez o fim-começo de vidas: a idosa professora aposentada Dora (elogiado desempenho de Fernanda Montenegro, indicada para o Oscar de Melhor Atriz por ele) cuida do menino órfão Josué (bonita estréia do ator Vinícius de Oliveira), até que o jovem encontre sua família; e o Brasil, tão sofrido em violência e miséria &#8211; mas dotado de potencialidades. Isso se dá a partir de um país metropolitano, violentamente degradado (o mundo da estação ferroviária Central do Brasil, o caos citadino do Rio de Janeiro), contraponto  ao país interiorano povoado por gente boa (os carinhosos irmãos de Josué, Isaías e Moisés, interpretados pelos ótimos atores Matheus Natchergaele e Caio Junqueira). Nesses termos, o filme configura um retorno do Brasil a si mesmo, um bom caráter extraviado, reconduzido à linha, desvencilhando-se dos acidentes de percurso a que a modernidade urbana o levara.</p>
<p><span id="more-40302"></span>Se Macunaíma sai da mata para viver aventuras na cidade moderna, retornando à terra natal para morrer, Josué corre o risco de morrer na selva da cidade moderna, e se interioriza no Brasil para viver. E se o grito de guerra do personagem de Mário de Andrade (1928) e, depois, Joaquim Pedro de Andrade (1968), ao chegar à cidade, é “Cada um por si e Deus contra”, essa viagem em busca do pai oculto, uma espécie de Dieu caché (Deus oculto) de Blaise Pascal na clássica interpretação de Lucien Goldmann  &#8211; todavia, Deus confirmado no final feliz do filme -, tem dimensões de desejar um Deus a favor: os nomes bíblicos dos três irmãos (Josué, Isaías, Moisés), do pai (Jesus, carpinteiro) e da mãe de Josué (Ana) são fortes indícios dessa vontade. Muitas imagens da Virgem Maria com o Filho no colo pontuam o filme: casa de Dora, casa de Isaías e Moisés, lugares por onde Dora e Josué passam em direção a Bom Jesus do Norte, onde se supunha que Jesus morasse.<br />
Central do Brasil define, portanto, o retorno para uma felicidade perdida, um desfecho de felicidade reencontrada no coração da nação e em Deus Pai.</p>
<p>O diretor Walter Salles tira partido do trabalho de seus atores, versão atualizada do Cinema de Ator: os maduros, famosos e muito bons Fernanda Montenegro, Marília Pêra (Irene, amiga de Dora), Otávio Augusto Branco (Pedrão, segurança na estação e traficante de crianças) e Othon Bastos (César, motorista de caminhão e protetor de Dora e Josué, por um curto período), o talentoso menino Vinícius de Oliveira (Josué) e os ótimos jovens adultos Matheus Natchergaele (Isaías) e Caio Junqueira (Moisés). Atores desse porte assumem até uma função de auto-direção, como Luchino Visconti comentou em relação à excepcional Anna Magnani, no filme Belíssima (1951). No cinema brasileiro, esse destaque dos atores se manifestou especialmente nas chanchadas carnavalescas – Oscarito, Grande Otelo e José Lewgoy são exemplos dessa excelência – e em Amácio Mazzaropi, contemporâneo daquele gênero. O Cinema Novo, embora tenha contato com a presença de atores da maior qualidade (os próprios Bastos e Montenegro, dentre outros), findou privilegiando a função do diretor.</p>
<p>Esses atores adultos do filme de Salles são muito conhecidos no Brasil pelo trabalho na televisão. Em Cinema, eles têm a possibilidade de atuações mais autorais, com momentos antológicos, como, no caso de Central do Brasil, os silêncios de Bastos e a contenção de Montenegro, as posturas físicas e expressões vocais de. Natchergaele e Junqueira e o tenso riso de Pera.</p>
<p>O próprio Walter Salles, em entrevista para o New York Times, sintetizou o projeto de Central do Brasil:<br />
&#8216;It was the search for a father that a kid had never met, the search of an old woman for the feelings that she had lost and the search somehow for a certain country that was not the country I was living in anymore.&#8221;</p>
<p>Busca de identidades subjetivas e comunitárias, o filme se faz como vitrine de dor e esperança. E sua força épica, longe da tragicidade crítica de um Glauber Rocha – que, noutro momento histórico e com outra Poética, percorreu tópicos paralelos no brilhante Deus e o Diabo na Terra do Sol  -, almeja um reequilíbrio no encontro do que existiu: família, nação, Deus.</p>
<p>Central do Brasil se inicia com uma mulher ditando carta para Dora. A mulher fala muito emocionada, dirige-se a homem preso, garante que esperará por seu retorno. Ao redor delas, o frenético movimento da estação ferroviária, gente pobre, com aspecto cansado, entra em vagões absurdamente lutados. Professora aposentada e redatora de cartas para analfabetos, Dora é uma dessas pessoas, embora explore a boa-fé de seus iguais – cobra para escrever cartas que, saberemos em seguida, nunca colocará no correio. Uma das cartas que ela escreve é dirigida a um homem chamado Jesus (beberrão e mulherengo), quem a dita rispidamente é Ana, acompanhada pelo filho de ambos, Josué, que Jesus nem conhece.</p>
<p>Após um dia de trabalho, Dora vai para casa, apartamento pequeno em distante conjunto habitacional, feio, sombrio, invadido pelo terrível barulho de trens que passam, triste vida de pobreza. É ali que a mulher se dedica a rasgar as cartas que escreveu para outrem. Fala depreciativamente das mensagens para sua amiga Irene, igualmente professora aposentada. Mas Irene a convence a não rasgar a carta de Ana.<br />
Noutro dia, após a repetição das cenas de pobreza, pressa e estafa na estação ferroviária, Ana volta a falar com Dora, pergunta se a carta foi remetida, fica aliviada ao saber que não e propõe outra mensagem, mais amena, para Jesus. Em seguida, todavia, morre atropelada, Josué fica sozinho, sente frio, chora.</p>
<p>O dia seguinte parece repetir um cotidiano de pobreza, gente catando lixo, crianças sendo expulsas da estação. Josué olha atentamente para Dora, parece cobrar algo dela (talvez a vida da mãe ou a vida dele mesmo, o contato com Jesus), corre ao lado do vagão onde Dora embarcara para o retorno após o trabalho, olha para uma imagem de Santana e Maria – linhagem feminina da Sagrada Família.</p>
<p>Faz parte do cotidiano na estação o assassinato frio de pobres que roubaram quinquilharias de vendedores ambulantes. E Pedrão, segurança no local e um dos responsáveis por aquele extermínio, observa atentamente Josué abandonado, enquanto Dora se aproxima do menino, oferecendo-lhe um horizonte de real, reiterando que sua mãe morrera mesmo, convidando-o a acompanhá-la até seu apartamento.<br />
Josué conhece Irene, descobre a gaveta com as cartas que não foram enviadas. E Dora é contatada por Pedrão, que conversa com ela a sós. Depois, Dora conduz Josué a um outro apartamento, suposto encaminhamento para adoção, e recebe mil dólares por esse serviço – outros mil dólares são pagos a Pedrão.</p>
<p>Quando Dora conta para Irene o que fizera, depois de tentar enganá-la com uma história inventada sobre a adoção do menino por pessoas de Pelotas, RS, a amiga a adverte sobre tráfico de crianças para extração de órgãos. A escritora de cartas fica com remorsos – reencontro com sentimentos de justiça e solidariedade -, volta ao apartamento onde deixara Josué e o retira dali, ameaçada de morte pelos traficantes de crianças, finda indo com ele para Bom Jesus do Norte, em busca de Jesus.</p>
<p>A viagem que se inicia é um mergulho no Brasil rural, interiorano. A justaposição do nome do pai (Jesus) ao nome da cidade onde ele deve viver (Bom Jesus do Norte) mescla uma expectativa sobre o caráter daquele homem e sobre o caráter do país – uma pessoa dotada de bondade e perspectivas de salvação, um norte melhor que o pesadelo do “sul-maravilha” (clássica expressão inventada por Henfil para designar o Brasil opulento do sudeste/sul). Inicia-se um esboço de esperança, que, todavia, é várias vezes adiado por desencontros no trajeto.</p>
<p>Durante a viagem, Dora bebe e se revela aos poucos para Josué, indica pontes de identidade com ele: perdera a mãe com a mesma idade em que ele estava, por exemplo. Num momento em que Dora dorme, Josué toma sua bebida, embriaga-se, a mulher fica enfurecida quando descobre o que aconteceu. Ela tenta abandoná-lo no ônibus mas o menino descobre a estratégia, também desce do veículo e os dois findam perdendo o transporte, além de estarem sem dinheiro.</p>
<p>Nessa aflitiva situação, surge um solidário motorista de caminhão, César, que divide a refeição com Josué e oferece carona para a dupla. César é uma prova de que a bondade existe. Seu caminhão é marcado por imagem de Jesus e também pelo lema escrito: “Com Deus sigo meu caminho”. A generosidade de César chega ao ponto de proteger Dora numa pequena mercearia, onde ela roubara alguns alimentos, evitando que o dono do local – amigo dele &#8211; a humilhasse em público, embora pareça saber que o roubo ocorreu. Ele paga comida para Dora e Josué. O menino parece ter a esperança de que César e Dora fiquem juntos, formem uma família com ele, e diz para o adulto, de forma insinuante, que no Rio de Janeiro, todas as mulheres transam antes de casar.</p>
<p>Numa das paradas do caminhão, Dora pede cerveja e oferece a bebida para César, ele diz que não pode beber porque é evangélico, ela insiste, o homem finda aceitando (Adão caindo em tentação), Dora pega em suas mãos – cena observada de longe por Josué -, vai ao banheiro e pede batom emprestado a uma outra mulher. Quando retorna, César tinha partido sem eles. O menino pergunta se César é veado, ela nega, triste.<br />
A nova etapa da viagem se dá num caminhão “pau de arara”, que conduz romeiros para Bom Jesus do Norte, Josué sabe uma das rezas (aprendera com a mãe), até parece que ele e Dora também são romeiros. Apesar das dificuldades no trajeto, o sertão contém humanidade e um caráter sagrado, que a colocação do lenço de Ana, por Dora, como ex-voto, num local de orações, reforça. E essa atitude de Dora anuncia a conquista de uma graça, a presença de Deus naquele mundo tão sofrido. Se os romeiros estão em busca de Deus e Seus dons, Dora e Josué são romeiros em busca especificamente de família e destino.</p>
<p>Mas a conquista da graça não é imediata. O primeiro endereço a que chegam é de uma outra família, o homem se chama Jessé, que informa ter comprado a casa de Jesus e que este “bebeu a casa todinha na venda” – indicação de alcoolismo e desregramento do pai procurado. Após essa primeira desilusão, Josué se afasta de Dora, fica misturado com romeiros, Dora também se perde entre ex-votos, há uma passagem narrativa com ambos desgarrados no mundo do sagrado, entre preces de gratidão a Jesus, pessoas de joelhos, penitente com pedra na cabeça, luzes, barulho ensurdecedor. Dora desmaia, Josué reaparece e cuida dela (como dissera antes para Dora e Irene que cuidava da mãe), espécie de Pietá invertida. A mudança de papéis reforça os laços entre os dois.</p>
<p>A breve imagem do penitente com pedra na cabeça evoca situação similar no clássico Deus e o Diabo na Terra do Sol, noutro contexto de Poética e Política. Em Glauber Rocha, aos olhos do personagem Antonio das Mortes, a cena é uma evidência de caminhos inúteis trilhados pelo povo, o espectro da revolução clama criticamente contra isso. Em Walter Salles, o penitente ilustra aquele mundo do sagrado, evidência de sofrimento, esperança, eventual conquista – se Deus o quiser pois não há revolução no horizonte.</p>
<p>Josué e Dora se encontram num momento difícil – sem dinheiro, sem contato com o Jesus que buscavam. Mas é Josué quem finda propondo uma saída, promovendo Dora como escritora de cartas junto aos romeiros, anunciando o trabalho dela, garantindo a obtenção de dinheiro para ambos com esse trabalho. Arrecadam tanto que tiram fotografia junto de imagem do Padre Cícero. E Dora coloca efetivamente as cartas escritas no correio, nova atitude diante do mundo. Ela também compra um vestido, acompanhada por Josué.</p>
<p>Outra tentativa para encontrar o pai do menino, outro fracasso. Mas aparece um rapaz, Isaías, também filho de Jesus, sabedor de que Dora procurava por seu pai, a mulher se apresenta como amiga do homem maduro e Isaías convida os dois para irem à casa dele.</p>
<p>Moisés, irmão de Isaías, recebe os visitantes com alguma desconfiança mas incorpora Josué rapidamente, convidando-o a operar máquina de tornear madeira e fabricando um pião para ele na oficina que possui nos fundos da casa. Os três jogam bola juntos, Josué até se destaca.<br />
Isaías fala de uma carta de Jesus para Ana, mãe de Josué, e pede para Dora ler o texto, um pouco contra a vontade de Moisés. Jesus menciona Josué e diz que foi para o Rio de Janeiro – “E aí vai ficar todo mundo junto”. Isaías conclui “Ele vai voltar”, uma lágrima escorre de seus olhos, Moisés duvida desse retorno mas Josué endossa Isaías. O reencontro de Josué com os irmãos (e com o pai, mesmo ausente) se deu.<br />
Quando os três irmãos ainda estão dormindo, Dora põe o vestido que comprou junto com Josué (como se retomasse plenamente sua identidade feminina), vê Isaías, Josué e Moisés ainda deitados, parte com o dia que nasce mas deixa uma carta de despedida onde fala da memória sobre o que ocorreu, mensagem de esperança, menciona o retrato que tiraram juntos.</p>
<p>Dora se redimiu, fez o destino de Josué se cumprir, reassumiu um caráter dotado de solidariedade.</p>
<p>Josué acorda, procura por Dora, não a encontra, corre ao ponto de ônibus que seguiria para o Rio de Janeiro e constata que ele já partiu.<br />
O filme mostra ambos chorando, depois olhando a fotografia que tiraram juntos – com a imagem de Padre Cícero entre eles. Milagre é viver.<br />
No desfecho de Central do Brasil, o pai (Jesus) de Josué continua oculto, mas legou indiretamente uma estrutura de sobrevivência para o filho; a mãe biológica do menino está morta, mas foi temporariamente substituída por Dora, que cumpriu sua missão, redimindo-se de falcatruas antes praticadas, reencontrando-se como ser humano dotado de princípios; e os irmãos de Josué, mesmo sem saberem toda sua história, foram carinhosos e receptivos com ele, ofereceram-lhe uma garantia de futuro – família, formação. O filho de Jesus (filho de Deus) foi salvo.<br />
A família de Josué e o Brasil se recompuseram. Mesmo que Dora volte para a cidade da violência e para a morte, nas mãos dos violentos bandidos que ela enganou.</p>
<p>É conformismo, sob as bênçãos de Deus: as outras crianças de rua continuam na rua, cada uma por si (Deus contra?), à espera; Deus continua Oculto &#8211; mas pode Se manifestar, Sua presença se deu na vida de Josué.</p>
<p>Noutro contexto, Samuel Beckett apresentou uma infrutífera espera por Godot .</p>
<p>Walter Salles não é Beckett – outro momento, outra Poética. Seu Godot não chegou mas deixou um legado.</p>
<p><strong>Central do Brasil (Brasil). 1999. Direção: Walter Salles. Roteiro: João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein. Produção: João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein. Música: Antônio Pinto e Jacques Morelembaum. Fotografia: Walter Carvalho. Elenco: Fernanda Montenegro (Dora), Vinícius de Oliveira (Josué), Marília Pêra (Irene), Soia Lira (Ana), Othon Bastos (César), Otávio Augusto (Pedrão), Stela Freitas (Yolanda), Matheus Natchergaele (Isaías), Caio Junqueira (Moisés). 112 minutos. Colorido.</strong></p>
<p><strong>Leituras complementares.</strong></p>
<p><strong>MOURA, Hudson. “Walter Salles &#8211; Entrevista”. www.vidaslusofonas.pt/walter_salles.htm<br />
NAGIB, Lúcia. “Walter Salles”, in:  O cinema da retomada. São Paulo: Editora 34, 2002, pp 416/422.<br />
WINTERS, Laura. “A searching journey into the heart of Brazil”. The New York Times. 22 nov 1998. topics.nytimes.com/&#8230;/timestopics/people/s/walter_salles/index.html.</strong></p>
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		<title>Viva Luís Damasceno!</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Jan 2012 13:48:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Luís Damasceno - Livrarias em Natal - Cultura em Natal]]></category>

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		<description><![CDATA[Amigas e amigos:
Estou me dirigindo a pessoas que conhecem o significado humano, intelectual e político de Luís Damasceno em Natal e no mundo.
Conheci Luís quando eu passava da adolescência para a idade adulta. Frequentávamos o Cine-Clube Tirol e eu ia à Livraria Universitária, onde ele trabalhava (e que ele dinamizava com sua presença cultural e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Amigas e amigos:</p>
<p>Estou me dirigindo a pessoas que conhecem o significado humano, intelectual e político de Luís Damasceno em Natal e no mundo.<br />
Conheci Luís quando eu passava da adolescência para a idade adulta. Frequentávamos o Cine-Clube Tirol e eu ia à Livraria Universitária, onde ele trabalhava (e que ele dinamizava com sua presença cultural e até física). Eu começava a ler materiais mais adultos de literatura, descobria um pouco de ensaísmo sobre literatura e cinema, espiava com medo os textos sobre  filosofia e política. Luís foi uma espécie de alfabetizador para mim em termos de localizar livros nas estantes da livraria, identificar materiais que poderiam me interessar (e que, em minha pobreza de então, eu poderia planejar para adquirir). E me emprestou muitos livros, que devolvi.</p>
<p><span id="more-40218"></span> Vim embora para São Paulo, sempre mantive amizade com ele, que, depois da Livraria Universitária, tentou se estabelecer por conta própria (seu talento não era propriamente comercial&#8230;) e findou na Cooperativa Cultural da UFRN, onde atuou, de forma criativa e dinâmica, durante décadas.</p>
<p>Hoje, Luís está afastado do emprego e sempre merece meu carinho, bem como o carinho de todos os amigos, que com ele aprenderam muitas e muitas coisas.</p>
<p>Estou convidando vocês para participarmos de uma merecida homenagem a nosso  querido amigo. Por sugestão de Ivonilde Duarte, companheira de Luís durante toda a vida, pensamos em organizar uma coletânea de textos dedicados a nosso amado amigo, materiais que falem dele e do mundo (se falarem &#8220;só&#8221; do mundo, ele aí estará incluído). Isso significa que os materiais tanto podem abordar diretamente Luís quanto, através de outros tópicos temáticos, evocar sua  sabedoria e generosidade.</p>
<p>Os textos poderão ser de qualque r natureza: poesia, prosa, ciência, memória, o que cada um quiser fazer. Quem for de dese nho, quadrinhos ou fotografia, pode mandar também materiais nesses suportes.Visando a garantir espaço para todos (porque Luís é um homem de muitos amigos), sugiro que os textos não ultrapassem a marca de 3 pp digitadas (ou de imagens). Preciso que venham digitados para meu e.mail pessoal: marcossilva.usp@uol.com.br .</p>
<p>Já recebi escritos dos pluralistas João da Mata, Nelson Patriota e François Silvestre.</p>
<p>Peço o favor de enviarem os materiais o quanto antes.</p>
<p>Espero contar com muitos. Luís merece isso e mais. Faremos uma grande festa (batucada, uísque com cerveja e outras milongas mais) no lançamento do  livro.<br />
A amizade é para sempre.</p>
<p>Marcos Silva &#8211; marcossilva.usp@uol.com.br<br />
11-2262-4858 e 6998-0811</p>
<p>OBS.: o teor desta mensagem, inclusive meu e.mail e meus fones, pode ser repassado para outros possíveis interessados.</p>
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		<title>2 ou 3 coisas sobre um poema</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Dec 2011 18:23:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Jairo Lima- Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Existem uma dicção e um vocabulário clássicos, marcados por solenidade adequada. Mas a métrica foi substituída pela multiplicidade de ritmos. O classicismo é quase citado porque o mundo onde ele nos surge é outro. E pode haver aprendizado recíproco nesse contato entre antes e agora. Somos diante de uma evocação clássica e de uma contemporaneidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Existem uma dicção e um vocabulário clássicos, marcados por solenidade adequada. Mas a métrica foi substituída pela multiplicidade de ritmos. O classicismo é quase citado porque o mundo onde ele nos surge é outro. E pode haver aprendizado recíproco nesse contato entre antes e agora. Somos diante de uma evocação clássica e de uma contemporaneidade da leitura igualmente marcadas pelo estranhamento: onde estamos?</p>
<p><span id="more-37787"></span>A palavra &#8220;Afastada&#8221;, no primeiro verso, surge em maiúscula, em contraste com a expressão &#8220;à feição&#8221;, em minúscula, que abre o mesmo verso. Começar é um problema, terminar também: de onde viemos, para onde vamos?  E a escala de nosso humano olhar oscila entre a gigantesca nuvem Afastada e os milimétricos prismas que o metro &#8211; a Poesia &#8211; escava.</p>
<p>Nos espelhos úmidos desse metro-poesia (mas poesia sem metro), figura outra imagem em maiúscula, a Carcaça desolada, objeto físico mas também “informes ares” modelados pelo vento, diálogo entre ventos e ares, quem molda quem? A vastidão dos panos é reiterada, todavia sem luz, como vê-los (velas), comovê-los?</p>
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		<title>Lembranças da Cooperativa Cultural da UFRN</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Nov 2011 14:36:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Cooperativa cultural da UFRN - UFRN - Livrarias - Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Sou amigo muito antigo de Luís Damasceno, acho que ele é meio culpado pelos caminhos que segui na vida adulta (estudar História, ter posturas de esquerda muito heterodoxas, escrever).
Minha ligação com a Cooperativa Cultural da UFRN passou por ele. Sempre fui bem recebido pelos funcionários e lancei vários livros lá. E gostava de ficar zanzando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sou amigo muito antigo de Luís Damasceno, acho que ele é meio culpado pelos caminhos que segui na vida adulta (estudar História, ter posturas de esquerda muito heterodoxas, escrever).</p>
<p>Minha ligação com a Cooperativa Cultural da UFRN passou por ele. Sempre fui bem recebido pelos funcionários e lancei vários livros lá. E gostava de ficar zanzando entre as prateleiras, conversando com outros visitantes, comprar uns livros. Hoje em dia, Natal possui outras livrarias de porte.  Durante muito tempo, a Cooperativa era a melhor e penso que ainda continua a ser uma das melhores. Além de desempenhar um papel fundamental no campus.</p>
<p><span id="more-37751"></span>Luís não trabalha mais na Cooperativa, isso me entristece muito. Mas continuo considerando-a de grande importância para a UFRN e Natal. Nunca encontrei algo parecido noutras universidades brasileiras (só não conheço os campi das IES federais de Amapá, Alagoas e Tocantins) . É importante preservar um patrimônio dessa natureza.</p>
<p>Não acompanho os embates políticos da Cooperativa, que considero naturais, existem em qualquer lugar do mundo, as pessoas que gerem a Cooperativa são seres humanos, com qualidades e defeitos. Não tenho o direito de opinar sobre eles. Julgo-me no direito de pedir aos amigos da Cooperativa e da UFRN que não joguem fora o bebê junto com a água da bacia. A Cooperativa é necessária, até muito necessária</p>
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		<title>E se a presidenta fosse lésbica?</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/e-se-a-presidenta-fosse-lesbica/</link>
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		<pubDate>Mon, 28 Nov 2011 12:16:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Homofobia - Cretinice explícita - Idiotização da esfera pública]]></category>

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		<description><![CDATA[Um deputado, cujo nome não mencionarei em respeito às crianças presentes na sala, fez fortes insinuações sobre a identidade erótica de Dilma Roussef, com o álibi de combater a cartilha anti-homofobia.
Lições elementares de Lógica:
1) Combater a cartilha anti-homofobia é defender a homofobia. É defender aquele pessoal que espanca e mata gays.
2) Ser lésbica é preferir [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um deputado, cujo nome não mencionarei em respeito às crianças presentes na sala, fez fortes insinuações sobre a identidade erótica de Dilma Roussef, com o álibi de combater a cartilha anti-homofobia.</p>
<p>Lições elementares de Lógica:</p>
<p>1) Combater a cartilha anti-homofobia é defender a homofobia. É defender aquele pessoal que espanca e mata gays.</p>
<p><span id="more-37618"></span>2) Ser lésbica é preferir intimidade erótica com outra mulher. Questão da vida privada, portanto.</p>
<p>3) Ser presidenta é desempenhar funções executivas, políticas e administrativas, na esfera  federal. Questão da vida pública, portanto.</p>
<p>4) Lésbicas e heterosexuais são cidadãs com iguais direitos.</p>
<p>Alguns políticos denunciaram a falta de decoro daquele deputado devido à insinuação.</p>
<p>Não vejo nenhum problema em ser lésbica ou heterosexual. O problema está em tratar a esfera íntima de qualquer pessoa (presidenta ou varredora de rua) como objeto de maledicência, como se tivéssemos direito àquela invasão. Cada um goza como prefere. Até o direito a não gozar deve ser respeitado.</p>
<p>Dilma não foi eleita para ser amante pública dos machos eleitores. Nem para ser exemplo de heterosexual impoluta &#8211; ou poluta, mas obrigatoriamente heterosexual &#8211; para as fêmeas eleitoras.</p>
<p>A idiotice do deputado e de seus eleitores está em se ocupar da privacidade alheia como instrumento da argumentação política. Freud explica mas não tenho o mínimo interesse pela explicação sobre pessoas daquela categoria &#8211; militantes da cretinice explícita.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>OUTRA</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/outra/</link>
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		<pubDate>Fri, 25 Nov 2011 21:32:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[tornar-se hamburger
carne moída entreoutra
cada dia
depois
à espera de quem não
homem mulher
dilacerar-se entredentro
enlaçada língua
ainda ácida
áspera bela
outra
lento passar
sair quente
experiência antes viva
sem lembrança
outra sorte
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>tornar-se hamburger</p>
<p>carne moída entreoutra</p>
<p>cada dia</p>
<p>depois</p>
<p>à espera de quem não</p>
<p>homem mulher</p>
<p>dilacerar-se entredentro</p>
<p>enlaçada língua</p>
<p>ainda ácida</p>
<p>áspera bela</p>
<p>outra</p>
<p>lento passar</p>
<p>sair quente</p>
<p>experiência antes viva</p>
<p>sem lembrança</p>
<p>outra sorte</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O direito e a política na USP</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/o-direito-e-a-politica-na-usp/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/o-direito-e-a-politica-na-usp/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 23 Nov 2011 12:00:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[USP - Direito - Política]]></category>

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		<description><![CDATA[O Direito e a Política na USP ? e fora dela ? depois da irracionalidade.
Por Jorge Luiz Souto Maior
O prédio da Reitoria da USP foi desocupado! E agora?
Para a desocupação foram utilizados 400 homens, dois helicópteros,
cavalaria e diversas viaturas. Um gasto considerável ainda mais para
um Estado, como o de São Paulo, que deve cerca de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O Direito e a Política na USP ? e fora dela ? depois da irracionalidade.</strong></p>
<p><strong>Por Jorge Luiz Souto Maior</strong></p>
<p>O prédio da Reitoria da USP foi desocupado! E agora?</p>
<p>Para a desocupação foram utilizados 400 homens, dois helicópteros,<br />
cavalaria e diversas viaturas. Um gasto considerável ainda mais para<br />
um Estado, como o de São Paulo, que deve cerca de R$20 bilhões em<br />
precatórios intermináveis, sendo que dos quais R$15 bilhões referem-se<br />
a precatórios alimentares, decorrentes de créditos trabalhistas e<br />
previdenciários.</p>
<p><span id="more-37420"></span>Após a expulsão de cerca de 70 (setenta) estudantes, sendo 25 (vinte e<br />
cinco) mulheres, restou a efetividade da posse mansa e tranqüila do<br />
prédio da Reitoria por parte da Administração da Universidade.</p>
<p>Foi só isso e acabou?</p>
<p>Nada disso. O fato representa muito mais e cumpre, por exercício da<br />
razão, trazer essas análises à tona.</p>
<p>É evidente que a utilização de todo aquele aparato de poder não se<br />
destinou apenas ao efeito da mera desocupação, ou mesmo a eliminar de<br />
vez, ou ao menos inibir, a prática do uso da maconha na Universidade.<br />
A grandiosidade da operação, atendendo, de certo modo, a reclamos<br />
advindos de uma comoção social, proporcionada pela ingerência de parte<br />
da grande mídia, que também não mediu esforços e custos para difundir<br />
a idéia de que o prédio estava invadido (e não ocupado) por<br />
?maconheiros?, autênticos marginais, moleques sem limites, mimados<br />
etc, gerando  uma onda assustadora de irracionalidades generalizantes,<br />
demonstra que se pretendia muito mais do que o efeito formal atingido.</p>
<p>Aliás, a própria grandiosidade da manifestação inicial dos estudantes,<br />
diante da prisão de três alunos, demonstra, claramente, que havia<br />
muito mais em jogo. Estava instalada no local uma forte tensão fruto<br />
da falência das vias institucionais para conduzir reivindicações, que<br />
fora alimentada pela política de tolerância zero frente aos movimentos<br />
estudantis e trabalhistas e que se intensificou com a chegada da<br />
Polícia Militar no campus. Sob o mote de aumentar a segurança, a PM,<br />
que segue ordens superiores, acabou servindo para incriminar cinco<br />
servidores que se envolveram em movimento reivindicatório de natureza<br />
sindical e para a realização de sucessivas revistas em alunos,<br />
sobretudo daqueles que pudessem possuir orientação política<br />
contestatória, como se dá com alunos da FFLCH. Esse conflito latente é<br />
o que explica a reação dos alunos, que, por certo, não se mobilizariam<br />
do nada, para a defesa de algo que nunca esteve em pauta nos debates<br />
estudantis na USP, a liberalização do uso da maconha.</p>
<p>O ponto a destacar neste texto, no entanto, que busca compreender a<br />
razão do vulto da operação realizada por ocasião da desocupação do<br />
prédio da Reitoria, é outro. Trata-se da dimensão da relação entre o<br />
direito e a política, entendida esta como o conjunto de ações que<br />
buscam a construção dos valores para o convívio social e aquele como a<br />
normatização, com conteúdo obrigacional, dos valores politicamente<br />
construídos.</p>
<p>A questão é que embora apoiada em suposta pretensão de natureza<br />
jurídica, o ato da Administração da USP, de propor a ação de<br />
reintegração de posse, não decorreu da extrema necessidade de resgatar<br />
a legalidade, tratou-se, desde o início, de uma forma de<br />
judicialização da política, para, com a obtenção da liminar da<br />
Justiça, furtar-se ao diálogo para o qual fora chamada pela ação dos<br />
estudantes, tanto que se negava a avançar nas negociações políticas,<br />
precariamente instauradas, fixando a condição da desocupação, já<br />
determinada judicialmente.</p>
<p>Além do mais, a ação policial que se seguiu não se prestou ao estrito<br />
cumprimento da ordem judicial, obviamente. Foi muito além disso e<br />
seguiu a linha do propósito inicial, qual seja, a da orientação<br />
política por parte do poder instituído no sentido de evitar<br />
contraposições de ideias.</p>
<p>Ora, não é concebível acreditar que na autorização judicial do uso da<br />
força policial para a reintegração de posse estivesse embutida uma<br />
permissão para a operação que fora feita, o que a torna ilegítima<br />
mesmo na perspectiva do respeito à decisão judicial. E, ainda que<br />
estivesse assim amparada, o que se duvida, o fato é que o feito foi<br />
muito além do determinado, que seria, meramente, a desocupação do<br />
prédio.</p>
<p>No ato policial de terça-feira, dia 8/11, justificado por alguns a<br />
partir do princípio da legalidade, foram cometidas diversas<br />
ilegalidades muito mais graves, aliás, do que o aludido esbulho<br />
possessório. Vários foram os direitos fundamentais desrespeitados.<br />
Estudantes, ainda que considerados ?invasores? poderiam, no máximo,<br />
ser vistos como praticantes de um ilícito civil e jamais terem sua<br />
condição humana negada. Mas, não. Após serem ameaçados com armamento<br />
pesado, foram conduzidos, arbitrariamente, às Delegacias, onde se<br />
viram obrigados a prestar depoimentos a respeito, inclusive, de sua<br />
orientação política, para o necessário prosseguimento do caráter da<br />
ação, qual seja, a realização futura de uma perseguição política.</p>
<p>Vários estudantes foram mantidos pela Polícia Militar em cárcere<br />
privado no prédio do CRUSP.</p>
<p>Muitos estudantes, ainda, foram indiciados por dano ao patrimônio<br />
público, mesmo que não se tenha qualquer autoria comprovada do alegado<br />
ilícito. E uma Delegada declarou em entrevista ao jornal Folha de S.<br />
Paulo: ?todos são culpados?. Mas, quais são ?todos?? Os que entraram<br />
lá nos diversos dias ou os que estavam dormindo lá no dia da<br />
desocupação? Não há crime sem lei que o defina e não há crime sem<br />
autoria determinada. É o que diz a lei. Mas, afinal, para quê<br />
respeitar a lei se o propósito é punir politicamente os estudantes,<br />
servindo a lei apenas como pretexto para tanto, não é mesmo?</p>
<p>A força desproporcional utilizada ? e esta desproporcionalidade é um<br />
fato que ninguém pode negar ? pôs-se, assim, com o objetivo de impor o<br />
silêncio, de criar medos, de impedir futuras mobilizações políticas<br />
adversas, de construir padrões de conduta disciplinados para a<br />
não-contestação, de reforçar o império da tolerância zero, deixando<br />
claro que o debate político será sempre judicializado para a concreta<br />
criminalização daqueles que apresentem ideias contrárias ao comando<br />
central, como, aliás, vinha sendo realizado há algum tempo, sendo este<br />
um recado necessário para levar adiante, sem resistências, o<br />
propósito, já anunciado, de priorizar, no âmbito das políticas de<br />
atuação da Universidade, um ensino voltado a atender as expectativas<br />
de mercado.</p>
<p>A operação policial, portanto, longe de ter sido feita para<br />
cumprimento de uma decisão judicial, prestou-se a aprofundar a<br />
política anti-democrática que estava instaurada no âmbito da<br />
Universidade no sentido da eliminação das atitudes de contestação,<br />
reivindicação e fiscalização feitas por parte dos estudantes e do<br />
sindicato dos trabalhadores em face das políticas privatizantes do<br />
ensino, anunciadas pela atual Direção da Universidade, e da forma como<br />
vem tratando as questões trabalhistas, com aprofundamento do processo<br />
de terceirização.</p>
<p>O Judiciário, aliás, precisa começar a perceber que muitos segmentos<br />
da sociedade, que ostentam parcela do poder institucionalizado,<br />
estatal ou econômico, estão se valendo de uma pretensa defesa da<br />
legalidade, que lhes vale uma utilização desvirtuada de mecanismos<br />
processuais com o objetivo de fazer calar os seus interlocutores e,<br />
assim, frustrarem o diálogo.</p>
<p>Essa percepção, aliás, já chegou de forma recorrente ao Judiciário<br />
trabalhista no que se refere aos interditos proibitórios em caso de<br />
piquetes de greves e está atingindo o Judiciário Civil, conforme<br />
verificado no processo nº 114.01.2011.011948-2, UNICAMP x DIRETÓRIO<br />
CENTRAL DOS ESTUDANTES / DCE ? UNICAMP com trâmite na 1ª. Vara da<br />
Fazenda Pública de Campinas). Em caso semelhante ao do que ora se<br />
trata, o juiz Mauro Iuji Fukumoto, assim se pronunciou: ?&#8230;de fato,<br />
ocupação de prédios públicos é, tradicionalmente, uma forma de<br />
protesto político, especialmente para o movimento estudantil,<br />
caracterizando-se, pois, como decorrência do direito à livre<br />
manifestação do pensamento (artigo 5º, IV, da Constituição Federal) e<br />
do direito à reunião e associação (incisos XVI e XVII do artigo 5º).<br />
Não se trata propriamente da figura do esbulho do Código Civil, pois<br />
não visa à futura aquisição da propriedade, ou à obtenção de qualquer<br />
outro proveito econômico. A situação em tela não se amolda à proteção<br />
possessória prevista nos artigos 920 e seguintes do Código de Processo<br />
Civil, especialmente aos critérios dos artigos 927 e 928 para a<br />
concessão da liminar. Inegável, por outro lado, que toda ocupação<br />
causa algum transtorno ao serviço público ? se assim não fosse, pouca<br />
utilidade teria como forma de pressão. Há que se ponderar, dentro de<br />
um critério de razoabilidade, a importância do serviço público<br />
descontinuado pela ocupação, de um lado, e o resguardo dos direitos<br />
constitucionais supra mencionados, de outro.? Referindo-se, ainda,<br />
para o indeferimento da liminar requerida, à ausência de prejuízo para<br />
a sociedade em geral pela descontinuidade dos serviços realizados pela<br />
Administração da Universidade, o que, no caso da USP sequer ocorreu<br />
pois os serviços da Reitoria estavam sendo realizados em prédio diverso.</p>
<p>O fato é que uma decisão judicial pode, concretamente, interferir no<br />
embate político, sendo, assim, ela própria, a decisão, uma<br />
manifestação com conteúdo político, até por ser, concretamente, um ato<br />
de escolha. Explica-se. Se o Direito é o conjunto normativo, com força<br />
obrigacional, que rege a vida em sociedade, decorrendo da ação<br />
política desenvolvida dialeticamente no percurso histórico, e<br />
sabendo-se que muitas vezes o transpasse do político para o direito se<br />
faz sem a necessária síntese, mas por meio da incorporação de<br />
contradições não superadas, o ato de interpretar e aplicar o conjunto<br />
normativo ao caso concreto, pois não há uma norma única que solucione,<br />
por si, os conflitos sociais, acaba sendo um exercício de escolha, que<br />
pressupõe não apenas o conhecimento do conjunto normativo, mas a<br />
necessária valoração do fato, compreendido a partir dos fenômenos<br />
históricos da construção da racionalidade humana.</p>
<p>Esta avaliação, no entanto, não é completamente livre, pois há um<br />
método, um direcionamento principiológico que norteia a análise. A<br />
ciência do Direito não está na estipulação de sua organização, na sua<br />
consideração como ordenamento ou como sistema, e sim na fixação de um<br />
método pelo qual a partir do Direito se possa efetuar uma análise<br />
crítica da realidade e estimular práticas emancipatórias da condição<br />
humana.</p>
<p>Na linha de favorecer o desenvolvimento de uma racionalidade jurídica<br />
de cunho verdadeiramente social, a Declaração Universal de 1948<br />
vincula o uso da razão, que é a conquista maior do homem moderno, ao<br />
ato de agir, concretamente, com espírito de fraternidade com relação<br />
aos outros (art. 1º.). Além disso, proclama a obrigação do Estado na<br />
efetivação dos direitos e a necessidade de se atingir o progresso<br />
social e de alcançar a melhoria das condições de vida, garantindo-se a<br />
liberdade de opinião e de expressão (art. 19), assim como a liberdade<br />
de reunião e associação pacíficas (art. 20), para o efeito de buscar a<br />
efetivação dos direitos consagrados.</p>
<p>O pretexto do respeito à legalidade estrita, especialmente, para<br />
proteger uma propriedade, que nunca esteve, de fato, ameaçada, não<br />
pode impor, portanto, sacrifícios a direitos fundamentais, nos quais<br />
se inclui a ação de natureza política, ainda mais quando o meio<br />
utilizado para o resgate da posse seja ofensivo ao direito à vida.<br />
Lembre-se que em nome da lei já se praticaram os mais variados males à<br />
condição humana.</p>
<p>Na perspectiva da ponderação, critério essencial de aplicação do<br />
Direito no modelo em que princípios se integram ao conceito de normas<br />
jurídicas, é necessário sempre ver os atos a partir de seu maior<br />
conteúdo, avaliando a finalidade, o resultado, a motivação, o efeito<br />
lesivo e o sentido ético do comportamento. Uma manifestação política,<br />
como foi a dos estudantes, não pretendeu, em nenhum momento, como se<br />
sabe, afrontar a autoridade constitucional, nem defender qualquer<br />
interesse que fosse desprestigiado pela ordem jurídica. Uma ação<br />
política reivindicatória, como foi, visa, exatamente, conferir<br />
eficácia concreta ao preceito democrático, ainda que com sacrifício<br />
parcial e provisório de outros valores.</p>
<p>No aspecto teórico do tema pertinente ao dano ao patrimônio público,<br />
se é que houve, pois os estudantes não o reconhecem, não se pode<br />
deixar de considerar os valores envolvidos. Não fosse assim, todos<br />
aqueles que picharam muros reivindicando as ?Diretas Já? teriam que<br />
ser presos e pagar pelo prejuízo material causado e a ditadura ainda<br />
estaria por aí. E seria o caso, também, de levar à prisão, fichar e<br />
processar, os ardorosos torcedores brasileiros que pintam as ruas<br />
durante os jogos da Copa do Mundo de futebol.</p>
<p>De todo modo, concordando-se, ou não, com o método adotado (e,<br />
pessoalmente, nunca concordei, como bem sabem os estudantes), ou mesmo<br />
rechaçando, no mérito, as suas demandas, o ato por eles cometido não<br />
se insere, de modo algum, na esfera do ilícito penal por se tratar de<br />
um ato, evidentemente, político, como, ademais, fora a própria reação<br />
contrária da Reitoria.</p>
<p>Além disso, se a defesa da posse pode ser legal, nada justifica que a<br />
satisfação dessa legalidade conduza à supressão de vários outros<br />
direitos, sobretudo daqueles, considerados pela ordem jurídica,<br />
nacional e internacional, como fundamentais, como o direito à vida, à<br />
integridade moral, à liberdade de expressão etc., até porque se é a<br />
política que constrói o direito, o direito, uma vez construído, não<br />
pode se constituir em obstáculo à evolução da racionalidade humana<br />
proporcionada pela ação política, até porque a democracia está<br />
abarcada no próprio direito como preceito constitucional fundante.</p>
<p>O princípio de que ninguém está acima da lei, ademais, serve para que<br />
o poder não se ponha sobre a lei em atos opressores da expressão<br />
político-democrática, pois como também consignado na Declaração<br />
Universal dos Direitos Humanos, de 1948, cumpre ao Estado de Direito<br />
respeitar o exercício da ação política de natureza reivindicatória,<br />
?para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião<br />
contra a tirania e a opressão?.</p>
<p>A demonstrar, ainda, a natureza política da conduta adotada no evento<br />
da USP, que se apresentou, gravemente, como repressora das aspirações<br />
democráticas, é o fato, sabido por todos, de que a defesa da<br />
legalidade não é o guia condutor de boa parte de sociedade, incluindo<br />
as instituições envolvidas.</p>
<p>A mídia tem deixado claro o descalabro da corrupção que assola o país<br />
(um fato, aliás, que não vem de hoje), situação esta, aliás, que<br />
decorre da ilegalidade ? no sentido mais amplo de contrariedade aos<br />
preceitos constitucionais ? de ?convênios? do Estado com ONGs. Mas,<br />
nenhuma força policial foi mobilizada, com batalhões e helicópteros,<br />
sobre a Esplanada dos Ministérios para resgatar o dinheiro público<br />
desviado e efetuar a prisão dos culpados. E, é claro, que muito mais<br />
grave do que a ocupação da Reitoria da USP é o furto do dinheiro<br />
público. Mas, é provável que se a população ocupasse um daqueles<br />
prédios para exigir a imediata devolução do dinheiro público, que faz<br />
falta para construções de hospitais e escolas, fosse reprimida por<br />
decisão judicial de reintegração de posse, criminalizada e presa.<br />
Então, todo mundo fica indignado, mas não luta. E, assim, o crime<br />
compensa.</p>
<p>Não se viu, também, força policial alguma na USP para fazer valer os<br />
direitos dos trabalhadores terceirizados, que foram ?furtados? em suas<br />
verbas rescisórias de natureza alimentar. Ninguém sabe. Ninguém viu. E<br />
esses trabalhadores estão, até hoje, enfrentando a via crucis de<br />
processos judiciais intermináveis, para conseguirem, ainda sem<br />
sucesso, a satisfação de seus direitos&#8230;</p>
<p>Não se verificou, igualmente, mesma eficiência e idêntica comoção<br />
social a respeito da trágica situação de 270 (duzentos e setenta)<br />
servidores aposentados da USP que, no final de 2010, foram dispensados<br />
do emprego por comunicação virtual, embora estivessem prestando<br />
serviços relevantes à Universidade há vários e longos anos.</p>
<p>Há incontáveis casos de desrespeito reiterado, reincidente, da<br />
legislação trabalhista, que se pratica, sobretudo, pelas próprias<br />
instituições estatais (o Estado, nas suas mais variadas formas de<br />
Administração, é um dos maiores acionados em toda estrutura judiciária<br />
brasileira) e não há, como fácil perceber, uma reação social<br />
organizada e indignada contra isso e mesmo forças do próprio poder<br />
direcionadas para assegurar a efetividade plena dos direitos sociais.</p>
<p>A exploração do trabalho infantil, em profusão, não é novidade para<br />
ninguém, e as formas de correção desse crime contra a humanidade,<br />
quando se põem, são amenas e ineficazes. Os casos de exploração do<br />
trabalho em condições análogas às de escravos se repetem ao ponto de<br />
se conhecerem escravagistas reincidentes e ninguém nunca foi preso por<br />
esse crime ou pagou indenizações vultosas pelo seu cometimento. A<br />
empresa Zara, que se utilizava do trabalho de pessoas em condições<br />
análogas às de escravo, não foi punida. Não houve ação policial<br />
exemplar nas lojas da Zara para apreender os produtos do crime. Muito<br />
ao contrário, boa parte da população continua mantendo cheias as lojas<br />
da referida empresa.</p>
<p>Nas usinas de Jirau e Santo Antônio, no Estado de Rondônia, enquanto<br />
80.000 trabalhadores eram agredidos em seus direitos humanos,<br />
sobretudo por adoção da prática da terceirização, o poder estatal não<br />
apareceu por lá, mas diante do ato de revolta praticados pelos<br />
trabalhadores logo o governo federal se fez presente, enviando ao<br />
local 600 homens da Força Nacional de Segurança e policiais federais,<br />
tendo havido, segundo o meio sindical, vôos rasantes de aviões e<br />
helicópteros sobre os canteiros de obras para intimidar os<br />
trabalhadores, invasões de soldados nos acampamentos durante a<br />
madrugada, seguidas de agressões aos trabalhadores, tendo havido até<br />
disparos de armas de fogo, resultando na prisão de mais de 33<br />
trabalhadores na hidrelétrica de Jirau e mais de 80 na de São Domingos<br />
(<a>http://www.ligaoperaria.org.br/1/?p=737)</a>.</p>
<p>Não é alvo, ainda, de reações indignadas, o sucateamento das<br />
instituições públicas (postos de saúde, hospitais, escolas e creches),<br />
para o favorecimento da mercantilização desses serviços, que são<br />
ligados, no entanto, a direitos fundamentais, constituindo, portanto,<br />
responsabilidades essenciais do Estado, numa concepção de Direito<br />
Social. Some-se a isso a ausência de políticas públicas de emprego,<br />
que conduz à falta de oportunidades para milhares de jovens, que se<br />
vêem conduzidos à delinqüência ou às drogas.</p>
<p>O fato, portanto, é que o ?caso USP? envolveu questões muito mais<br />
intrigadas que o mero resgate da legalidade. As estruturas de poder do<br />
Estado e da Universidade valeram-se de aparente pretensão judicial<br />
para suprimir a liberdade de expressão, para aniquilar a democracia,<br />
para coibir práticas políticas reivindicatórias futuras, numa<br />
perspectiva tal que acabou indo muito além dos limites físicos da<br />
Universidade.</p>
<p>Não se pode esquecer que o mundo vive, no momento presente, uma onda<br />
de manifestações populares: nos Estados Unidos (em New York,<br />
Washington, Chicago e Wisconsin), na Europa (Roma, Berlim, Paris,<br />
Bruxelas, Madri, Londres e Atenas), no Canadá, na Austrália, na Nova<br />
Zelândia, no Japão.</p>
<p>Em Madison, no Estado de Wisconsin, EUA, a sede do governo, o<br />
Capitólio, foi ocupada, em março deste ano. Após movimento popular<br />
espontâneo, sem deliberação prévia, em assembléia, por óbvio, milhares<br />
de pessoas ocuparam o local durante 17 dias, para reivindicar a<br />
retirada de um projeto de lei que pretendia reduzir impostos, visando<br />
a instalação de empresas no Estado, ao ponto de eliminar o superávit,<br />
e que buscava diminuir o poder dos sindicatos do setor público, de<br />
modo a praticamente eliminá-los.</p>
<p>No evento, segundo Erik Olin Wright e João Alexandre Peschanski[2],<br />
?os manifestantes organizaram uma área aberta para pessoas virem e<br />
expressarem topo tipo de reivindicação ou revolta que quisessem, indo<br />
de análises de conjuntura sofisticadas aos desafios do dia-a-dia da<br />
vida compartilhada no Capitólio?. Informam, ainda, que ?A ?abertura?<br />
do Capitólio significou que qualquer um podia entrar no edifício e<br />
dormir lá dentro. Estudantes, pessoas em situação de rua, professores,<br />
bombeiros, militantes do movimento ecológico e outras pessoas<br />
compartilharam o espaço, construindo um sentido único de comunidade?,<br />
tendo os ocupantes criado o ?seu próprio coletivo de segurança?,<br />
buscando resolver questões com a Polícia e cuidando para que ?o prédio<br />
estivesse na medida do possível limpo?. A comunidade em geral chegava<br />
a enviar comida para os ocupantes, pois ao longo dos dias as<br />
reivindicações se ampliaram e o tema da democracia tornou-se<br />
importante, reconhecendo-se que ?o que estava em jogo no conflito não<br />
eram apenas os direitos dos trabalhadores nos sindicatos, mas o vigor<br />
dos processos democráticos?, além do incentivo a uma efetiva postura<br />
de solidariedade. Dentre as atividades, também lúdicas, que se<br />
desenvolveram no local, os participantes cantavam músicas como<br />
?Solidarity Foverer?, de Pete Seeger, para recobrar as inúmeras lutas<br />
operárias travadas naquele país. O evento, que terminou com uma<br />
desocupação negociada, sem violência, mobilizou um protesto, ainda em<br />
março, de mais de 100 mil pessoas em frente ao Capitólio, que<br />
?barrou?, temporariamente, a publicação da lei e repercutiu em outras<br />
mobilizações em Ohio, Michigan, Indiana e Maine&#8230;</p>
<p>É evidente, portanto, que se tinha pleno conhecimento do caráter<br />
político do movimento que se iniciara na ocupação da Reitoria da USP e<br />
da sua potencialidade mobilizadora. Tinham, por óbvio, também essa<br />
noção os manifestantes. Não era, e nunca foi, um problema apenas de<br />
legalidade e de retomada da posse de um prédio invadido. A atenção<br />
dada pela mídia ao fato, igualmente, atesta essa relevância, para<br />
induzir que as forças repressivas considerassem a necessidade de uma<br />
forte e rápida ação. A operação realizada serviu, assim, ao propósito<br />
de amedrontar os movimentos sociais, valendo-se até mesmo do<br />
permissivo que lhe fora concedido pela opinião pública e da<br />
fragilidade do poder de resistência dos estudantes. Explica-se, assim,<br />
também, o fato de que após realizada a desocupação, helicópteros<br />
ficaram sobrevoando a cidade de São Paulo por algum tempo.</p>
<p>Resta clara, pois, a natureza política da ação feita na USP, o que<br />
deve fazer toda a sociedade refletir sobre os possíveis efeitos a que<br />
todos estão submetidos pela repressão que se anuncia às formas<br />
políticas de manifestação da liberdade de expressão. Em certo sentido,<br />
o método utilizado para a desocupação do prédio teve a função de fazer<br />
uma ocupação em todas as mentes.</p>
<p>Na perspectiva da relação entre o direito e a política, o que se deve<br />
perceber é a inaptidão do direito, visto na perspectiva liberal que<br />
prioriza a proteção da propriedade, para a solução de problemas<br />
estritamente políticos que envolvem reivindicações sociais e o<br />
equívoco da opção da Reitoria em judicializar o debate. A decisão<br />
judicial determinou a desocupação do prédio. O prédio está desocupado.<br />
Mas, os problemas que geraram o conflito não apenas ainda estão<br />
presentes, como se intensificaram.</p>
<p>O que se viu na seqüência foi a realização de uma assembléia com cerca<br />
de 3.000 estudantes, que se uniram em torno das causas defendidas<br />
pelos alunos da ocupação e que deliberaram pela deflagração de uma<br />
greve geral, ainda que sob o requisito de ser aprovada em assembléias<br />
em cada unidade. Além disso, os professores da Universidade, em<br />
assembléia, deliberam apoiar os alunos em suas reivindicações, que<br />
trazem, no centro das preocupações, a necessidade de democratização da<br />
USP, repudiando os atos arbitrários de perseguição políticas que vem<br />
se perpetrando no local nos últimos anos. Em nota, a Associação dos<br />
Professores da USP pronuncia: ?Assim, conclamamos todas as entidades,<br />
associações de trabalhadores, organizações de direitos humanos e<br />
aqueles que defendem as liberdades democráticas, ameaçadas pela<br />
escalada repressiva implantada pela Reitoria, a se manifestarem contra<br />
as medidas aqui denunciadas, que tolhem o direito de livre organização<br />
e expressão.?</p>
<p>Na própria mídia, as manifestações de mero repúdio cederam lugar a<br />
análises mais responsáveis e críticas. Depois das irracionalidades<br />
produzidas, apresenta-se o momento da razão, para que se possa fazer a<br />
leitura mais ampla de todo o contexto da situação vivenciada na USP,<br />
deixando-se para traz as visões simplistas e até preconceituosas que<br />
tentam limitar o alcance do episódio à vontade de uns poucos alunos<br />
?mimados? de obterem o privilégio de fumar maconha, na universidade,<br />
sem serem incomodados pela polícia.</p>
<p>Como concluíram Mauro Paulino e Alessandro Janoni[3], ?A manifestação<br />
recente de estudantes da USP não é a brincadeira de criança que se<br />
tenta desenhar. Não se restringe ao debate sobre legalização das<br />
drogas ou estratégias de segurança pública. É um sintoma sério de<br />
crise de democracia?, vez que ?as instituições tradicionais de<br />
representação do modelo hegemônico de democracia se distanciam da<br />
população, em especial dos jovens?, sendo que se é assim no ?berço da<br />
classe média paulistana?, que é a USP, quanto mais o será, e de forma<br />
ainda mais preocupante, para o segmento alocado ?nas franjas da cidade?.</p>
<p>A realização, na última quinta-feira, de uma manifestação conjunta,<br />
organizada por estudantes, professores e servidores, com a presença de<br />
5.000 pessoas em passeata pelo centro de São Paulo, que culminou um<br />
com ato na Faculdade de Direito, no Largo de São Francisco, onde 2.000<br />
estudantes de pertencentes a praticamente todas as unidades da<br />
Universidade deliberaram pela continuidade da greve, também deixa<br />
claro a amplitude do problema a que se refere e que há, ainda, muitas<br />
lições a extrair da presente situação, para o devido aprimoramento de<br />
nossas estruturas democráticas.</p>
<p>É preciso, portanto, tentar compreender os dilemas dos jovens e dos<br />
trabalhadores no atual estágio de desenvolvimento da sociedade e a<br />
dificuldade que possuem de conduzir suas reivindicações, sobretudo<br />
quando se trata de exprimir críticas mais contundentes ao modelo de<br />
sociedade, o que, gostem alguns, ou não, democraticamente, deve-se ter<br />
o direito de expressar.</p>
<p>A radicalização do ato cometido pelos estudantes é fruto dessa<br />
falência e acabou sendo o meio capaz para pôr à mostra a radicalização<br />
repressiva, contrária ao diálogo, que está instaurada no seio da<br />
Universidade, refletindo, de certo modo, um sentimento intransigente<br />
de parte da sociedade em face dos movimentos sociais.</p>
<p>A ira generalizada e preconceituosa que tombou sobre os estudantes<br />
foi, evidentemente, desproporcional e só se explica diante do contexto<br />
político apresentado, que estava velado, no entanto. E, afinal, para<br />
quê tanto ódio? Esses jovens, ademais, quebraram o estigma de uma<br />
juventude alienada, para lutar pelos seus interesses e não devem ser<br />
alvos de repúdio preconceituoso ou represália política, ainda que<br />
venha institucionalizada por vias processuais. Seu exemplo, ao<br />
contrário, deve constituir um alimento para vencermos os nossos medos<br />
e limites determinados pelas confortáveis posições que ocupamos na<br />
esfera social, a fim de que, dentro do princípio que norteia toda a<br />
ordem jurídica, o da solidariedade, compreendamos a essencialidade dos<br />
movimentos sociais, que só seriam despropositados ou inoportunos se<br />
nossa sociedade estivesse na plenitude da justiça social, mas, por<br />
certo, como é fácil perceber, não está.</p>
<p>E, de todo modo, o debate apenas iniciou. Todo o ocorrido foi apenas o<br />
estopim para eventos mais importantes como difundir uma comoção<br />
pública de contrariedade ao desrespeito reiterado, praticado pelo<br />
próprio Estado e por alguns segmentos econômicos, aos direitos sociais<br />
e discutir os destinos da universidade pública, no sentido de<br />
constituir o ambiente apto a incentivar práticas democráticas e a<br />
produzir saber não apenas tecnológico, mas também crítico e<br />
propositivo, voltado, sobretudo, à melhoria da condição de vida dos<br />
diversos segmentos excluídos da população e dos economicamente menos<br />
favorecidos.</p>
<p>Cumpre lembrar, a propósito, que se para alguns a manutenção das<br />
coisas como estão pode interessar, há incontáveis pessoas por aí, como<br />
diria Chico Buarque, que estão lutando contra a existência e cuja dor<br />
não sai no jornal.</p>
<p>Agora, passados esses duros momentos advindos da irracionalidade, é<br />
hora de avançar nos debates, mantendo-se firme na defesa do direito de<br />
manifestação, para que os efeitos de toda essa grave situação não<br />
sejam destruidores de nossas possibilidades democráticas. Só isso nos<br />
permitirá continuar escrevendo uma trajetória da qual possamos nos<br />
orgulhar. Do contrário, para uma parcela considerável da nossa<br />
sociedade a história assim restará escrita:</p>
<p>?Acossados pelos conquistadores espanhóis, depois de trezentos anos de<br />
luta, os araucanos se retiraram até àquelas regiões frias. Mas os<br />
chilenos continuaram o que se chamou ?pacificação da Araucaína?, isto<br />
é, a continuação de uma guerra a sangue e fogo para desapossar nossos<br />
compatriotas de suas terras. Contra os índios todas as armas foram<br />
usadas com generosidade: disparos de carabina, incêndio de suas<br />
choças, e depois, de forma mais paternal, empregou-se a lei e o<br />
álcool. O advogado se tornou especialista também na espoliação de seus<br />
campos, o juiz os condenou quando protestaram, o sacerdote os ameaçou<br />
com o fogo eterno.?  (Pablo Neruda, Confesso que Vivi).</p>
<p>São Paulo, 16 de novembro de 2011.</p>
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		<title>Flipipa off (ou offlipipa)</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Nov 2011 01:38:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
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		<category><![CDATA[FLIPIPA - Atividades after hours - Públicos alternativos]]></category>

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		<description><![CDATA[Participei de uma mesa redonda no FLIPIPA, assisti a outras atividades do festival (minha pergunta sobre literatura de cordel hoje &#8211; mais intensa no sudeste, presente na internet &#8211; não foi apresentada à autora de &#8220;Cordel encantado&#8221;, sem problemas, respeito regras), circulei por livrarias e congêneres. Tive boa impressão geral. Senti um pequeno problema: os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Participei de uma mesa redonda no FLIPIPA, assisti a outras atividades do festival (minha pergunta sobre literatura de cordel hoje &#8211; mais intensa no sudeste, presente na internet &#8211; não foi apresentada à autora de &#8220;Cordel encantado&#8221;, sem problemas, respeito regras), circulei por livrarias e congêneres. Tive boa impressão geral. Senti um pequeno problema: os funcionários do hotel onde fiquei hospedado (Ponta do Madeiro, lugar muito bonito) tinham curiosidade pelo FLIPIPA, faziam perguntas aos escritores que ali estavam mas não podiam ir assistir aos eventos. Uma funcionária me perguntou o que significava epistolografia, foi muito bom conversar com ela sobre isso. Suponho que os funcionários de livrarias e bares e os policiais possam ter tido curiosidades semelhantes. Seria legal se houvesse um FLIPIPA after-hours, dirigido para esse pessoal. Seria excelente que Davi Arrigucci Jr. declamasse poemas de Manuel Bandeira e os comentasse para os humildes funcionários de hotel. Seria fantástico que Fernando Morais lhes falasse sobre os trabalhadores dos hotéis em Cuba. Seria magnífico ouvir Eucanaã e Arnaldo, dentre outros, declamando para os policiais e os lixeiros.</p>
<p>Fica a sugestão.</p>
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		<title>Universidade, universidades</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Nov 2011 15:12:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Universidade brasileira - Ensino público e ensino privado]]></category>

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		<description><![CDATA[Leciono em universidades desde 1982. Comecei na UNESP/Assis (pública). Depois, ingressei na USP (pública), com regime parcial de dedicação, salário insuficiente para pagar as contas mínimas &#8211; eu era casado com uma professora da rede pública. Por esse motivo, acumulei trabalho na PUC/SP (privada) durante um ano, até que recebi contrato em regime de dedicação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Leciono em universidades desde 1982. Comecei na UNESP/Assis (pública). Depois, ingressei na USP (pública), com regime parcial de dedicação, salário insuficiente para pagar as contas mínimas &#8211; eu era casado com uma professora da rede pública. Por esse motivo, acumulei trabalho na PUC/SP (privada) durante um ano, até que recebi contrato em regime de dedicação integral à docência e à pesquisa na USP. Até hoje, trabalho na mesma USP, com experiências curtas de atuação na UnB (professor visitante) e atividades como cursos de ainda mais curta duração, mesas-redondas e similares em várias unidades públicas e privadas do país e no exterior.</p>
<p><span id="more-37325"></span>Penso que as universidades privadas são uma realidade na educação brasileira, atingindo milhões de alunos, mobilizando milhares de professores. As universidades públicas, hoje em dia minoritárias em termos de abrangência quantitativa, mantiveram padrões de excelência reconhecidos internacionalmente. Não se trata de destino manifesto reservado à universidade pública. Por serem instituições que prestam serviços à população (cursos, extensão etc.), merecem financiamento público, que leva em conta necessidades de pesquisa e equipamentos, quase sempre muito caros. O padrão salarial, via de regra, é um pouco melhor que nas entidades privadas (mas não é nada milionário). Noutros países, como EEUU, existem excelentes instituições privadas de ensino superior, que recebem gigantescas dotações de fundações e similares. Cobram anuidades caríssimas mas oferecem bolsas para pobres talentosos.</p>
<p>A universidade brasileira foi extremamente tardia, mesmo em relação a outras colônias do continente, preodominando numericamente (e em escala quantitativa muito baixa, diante da população) o setor público até os anos 60 do século XX. Não por coincidência, a ditadura de 1964/1984 investiu pesadamente contra a universidade pública, anunciando modelos similares aos EEUU. Qualquer primeiranista de Direito sabe as brutais diferenças entre fundações naquele país e no nosso. Quem mora na terra da Fundação José Augusto nem precisa de maiores informações, a maioria das fundações brasileiras vive como anexo do estado, desdobrando-se em organizações não-governamentais dependentes&#8230; dos governos.</p>
<p>Certamente, existem ótimas universidades privadas no Brasil, bem conhecidas: as PUCs de Rio de Janeiro e São Paulo, as FGVs das duas cidades, algumas universidades luteranas no RS&#8230; Não se trata de incompetência dos corpos docentes, é claro, conheço excelentes professores de universidades privadas. Acontece que ensino universitário de qualidade é muito caro. Aquelas boas universidades privadas brasileiras indicadas cobram mensalidades altíssimas até para famílias de classe média e os programas de bolsas que mantêm são limitados &#8211; e vivem a um passo da insolvência, como se observa nas PUCs. Sim, existem os programas de bolsas governamentais para alunos de universidades privadas. Um aluno da PUC/SP que pega uma bolsa dessas deve se sentir como a Griselda da novela da Globo, ganhou na loteria. Mas essas bolsas findam apoiando mais universidades de má qualidade, até agora não houve maiores pressões no sentido de garantia de padrão qualitativo para fazer jus a cotas de bolsas. Compreendo a importância de se elevar quantitativamente a formação universitária no Brasil, que tem péssimos índices nesse campo, talvez os piores da América Latina &#8211; não me refiro apenas a México, Argentina e Chile, qualquer Equador possui maiores percentuais que o Brasil na área.</p>
<p>Quando comentei a notícia do Novo Jornal sobre as avaliações de universidades no RN, parti dos seguintes pressupostos:</p>
<p>1) Atuo no ensino superior desde 1982, acho que aprendi algo sobre ele.</p>
<p>2) Sou especialista em História e Imprensa (Mestrado em 1981, Doutorado em 1987, Livre-Docência em 1999). Li os Roland Barthes e Christian Metz da vida, sei o beabá das relações entre imagem e texto.</p>
<p>3) Sou cidadão, com direito a, respeitosamente, comentar um órgão jornalístico que é público.</p>
<p>4) Sou natalense, embora more fora da cidade há algumas décadas. Sempre mantive ligação com a cidade, sua cultura, sua população.</p>
<p>Tenho boa impressão sobre o nível gráfico e textual do Novo Jornal. Isso não significa calar diante do que considero uma relação manchete/imagem/texto principal problemática. Na imprensa escrita, a pureza de manchete, imagem ou texto principal é um mito: tudo dialoga com tudo. E a manchete fisga o leitor, sim, slguns deles se baseiam apenas nela.</p>
<p>No presente momento, a universidade pública brasileira sofre graves ataques da Imprensa, o que se observa no noticiário sobre a USP, caracterizada como antro de usuários de drogas. Curiosamente, é desse antro que sai o maior percentual de produção científica na universidade brasileira. Periga a opinião pública pensar que puxar fumo faz bem pra pesquisa, não é?</p>
<p>Minha carreira profissional é muito restrita a dar aulas, orientar pesquisas, fazer pesquisas, publicar resultados. Não sou nem pretendo ser consultor de órgãos públicos nem privados, nunca fiz visitas de inspeção em nome de MEC, CAPES ou CNPq. Meu salário na USP é suficiente para pagar minhas modestas despesas de classe média média. Não estou procurando emprego noutras universidades públicas nem privadas. Se eu vier a procurar, depois de aposentado, manterei os procedimentos éticos que orientaram minha carreira &#8211; só lecionei mediante concurso público</p>
<p>Desejo que as universidades públicas e privadas do RN melhorem cada vez mais. O mesmo é válido para os órgãos da Imprensa.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Texto e imagem no Novo Jornal</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Nov 2011 20:46:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Universida\de Pública - Universidade Privada - Avaliação de universidades potiguares]]></category>

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		<description><![CDATA[O Novo Jornal de 18 de novembro publicou matéria com o título NOTA BAIXA, incluindo fotografia de prédio da UFRN. O conteúdo do texto indica a má avaliação que várias universidades privadas do RN mereceram e indica o bom aproveitamento da UFRN e da UFERSA.
O título associado àquela fotografia, entretanto, sugere para quem ainda não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Novo Jornal de 18 de novembro publicou matéria com o título NOTA BAIXA, incluindo fotografia de prédio da UFRN. O conteúdo do texto indica a má avaliação que várias universidades privadas do RN mereceram e indica o bom aproveitamento da UFRN e da UFERSA.</p>
<p><span id="more-37309"></span>O título associado àquela fotografia, entretanto, sugere para quem ainda não leu o texto que UFRN recebeu nota baixa&#8230; Certamente, esse efeito não foi intencional. Cabe ao jornal maior cuidado para evitar a desvalorização de uma universidade bem avaliada, sem chamar a atenção para as que, efetivament, mereceram notas baixas. Por que não foto de uma dessas universidades frágeis?</p>
<p>UFRN e UFERSA, que merecem parabens, evidenciam a tendência nacional: pesquisa e bom nível de ensino se mantêm mais concentrados nas universidades públicas, com as exceções de praxe &#8211; PUCs, FGV etc.</p>
<p>Aproveito para incentivar as universidades mal avaliadas a investirem para a superação de seus problemas. Política adequada de contratações e investimento em equipamentos (laboratórios, bibliotecas, etc.) são bons caminhos para isso.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A direita mostra a cara</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Nov 2011 13:39:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[
Amigas e amigos:
Recebi as imagens anexas de Caio Navarro Toledo, filósofo e professor na UNICAMP. A barra está pesada.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/direita.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-37286" title="direita" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/direita.jpg" alt="" width="448" height="300" /></a></p>
<p>Amigas e amigos:</p>
<p>Recebi as imagens anexas de Caio Navarro Toledo, filósofo e professor na UNICAMP. A barra está pesada.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Diálogos com Marilena Chauí</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Nov 2011 11:20:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Marilena Chauí - Filosofia]]></category>

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		<description><![CDATA[
Somente hoje, tive em mãos o livro &#8220;Diálogos com Marilena Chauí&#8221;, homenagem a essa importante filósofa brasileira, lançado na semana passada pelas editoras Discurso e Barcarolla. O volume inclui artigos de filósofos, historiadores, sociólogos e outros profissionais, discutindo campos temáticos e problemáticas debatidos pela homenageada. Alguns dos colaboradores são Flávio Aguiar, José Geraldo de Sousa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/Marilena-Chaui.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-37249" title="Companhia das Letras" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/Marilena-Chaui-340x211.jpg" alt="" width="281" height="174" /></a></p>
<p>Somente hoje, tive em mãos o livro &#8220;Diálogos com Marilena Chauí&#8221;, homenagem a essa importante filósofa brasileira, lançado na semana passada pelas editoras Discurso e Barcarolla. O volume inclui artigos de filósofos, historiadores, sociólogos e outros profissionais, discutindo campos temáticos e problemáticas debatidos pela homenageada. Alguns dos colaboradores são Flávio Aguiar, José Geraldo de Sousa Jr., Marco Aurélio Garcia, Marcos Silva, Maria Celia Paoli, Olgária Chain Matos, Paulo Eduardo Arantes, Sergio Cardoso e a própria Marilena, dentre outros.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Sérgio Cabral em preconceito explícito</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Nov 2011 18:40:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Preconceito de classe - Sérgio Cabral - Rio de Janeiro - Rocinha]]></category>

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		<description><![CDATA[
No texto &#8220;Os filhos da Rocinha&#8221; (FSP, 14.11.11), apareceu uma  caracterização dessa área do Rio de Janeiro, por Sérgio Cabral, como &#8220;fábrica de  marginais&#8221;.
Quer dizer que todos os marginais que atuam naquela cidade nasceram na Rocinha? Quer dizer que não nasceu um só marginal em  Ipanema, Gávea, Barra da Tijuca, Leblon e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/sergio_cabral.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-37170" title="sergio_cabral" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/sergio_cabral.jpg" alt="" width="329" height="202" /></a></p>
<p>No texto &#8220;Os filhos da Rocinha&#8221; (FSP, 14.11.11), apareceu uma  caracterização dessa área do Rio de Janeiro, por Sérgio Cabral, como &#8220;fábrica de  marginais&#8221;.</p>
<p>Quer dizer que todos os marginais que atuam naquela cidade nasceram na Rocinha? Quer dizer que não nasceu um só marginal em  Ipanema, Gávea, Barra da Tijuca, Leblon e Arpoador?</p>
<p>Acho que nunca vi agressão tão violenta à população pobre por um governador de estado quanto essa! E ainda folclorizam as bobagens que Adhemar de Barros dizia, no passado. Isso é pior que bobagem. É discriminação pura e simples.</p>
<p>Ele não foi processado por preconceito de classe e endereço?</p>
]]></content:encoded>
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		<title>WERNECK SODRÉ NO TEATRO CASA GRANDE</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/werneck-sodre-no-teatro-casa-grande/</link>
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		<pubDate>Sun, 13 Nov 2011 13:44:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Agenda]]></category>
		<category><![CDATA[Nelson Werneck Sodré - Historiografia brasileira - Cultura brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[No dia 21 de novembro, a partir das 20 horas, a curadora da obra de Nelson Werneck Sodré, Olga Sodré, e Lincoln Penna, presidente do MODECOM, farão uma palestra na cidade do Rio de Janeiro, no Teatro Casa Grande (Avenida Afrânio de Melo Franco, 290 &#8211; Shopping do Leblon).
O evento será uma homenagem ao ano [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No dia 21 de novembro, a partir das 20 horas, a curadora da obra de Nelson Werneck Sodré, Olga Sodré, e Lincoln Penna, presidente do MODECOM, farão uma palestra na cidade do Rio de Janeiro, no Teatro Casa Grande (Avenida Afrânio de Melo Franco, 290 &#8211; Shopping do Leblon).</p>
<p>O evento será uma homenagem ao ano do Centenário de nascimento de Nelson Werneck Sodré e terá como tema “<strong><em>O General do Povo e a História da Imprensa no Brasil</em></strong>”.</p>
<p><span id="more-37115"></span>Na ocasião, haverá o lançamento do livro a “<strong><em>História da Imprensa no Brasil”</em></strong> de Nelson Werneck Sodré e de outros livros sobre ele, entre os quais os mais recentes lançamentos de Lincoln Penna e de Luitgarde de Barros. “Pessoalmente, vou dar muita ênfase na integração do jornalismo, da história e da vida militar, em Nelson Werneck Sodré, apresentando fatos pouco conhecidos de sua trajetória política, tais como o testemunho do dia 11 de novembro como o verdadeiro dia da pátria, em que os militares nacionalistas reunidos em torno do General Lott garantiram a posse de Juscelino Kubitschek”, diz Olga.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>SER ZILA</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/ser-zila/</link>
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		<pubDate>Wed, 09 Nov 2011 11:29:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[enquanto naus
mar nem tanto
entre a ponte e outro caos
adianto
tempo talvez
não
haverá outra vez
moinho de vento e grão
não em vão
cai
desregular trovão
stand by
o amanhã o amanhã
outrora
se afogar na manhã
ficar embora
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>enquanto naus</p>
<p>mar nem tanto</p>
<p>entre a ponte e outro caos</p>
<p>adianto</p>
<p>tempo talvez</p>
<p>não</p>
<p>haverá outra vez</p>
<p>moinho de vento e grão</p>
<p>não em vão</p>
<p>cai</p>
<p>desregular trovão</p>
<p>stand by</p>
<p>o amanhã o amanhã</p>
<p>outrora</p>
<p>se afogar na manhã</p>
<p>ficar embora</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A polícia e os lugares</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/a-policia-e-os-lugares/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/a-policia-e-os-lugares/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 09 Nov 2011 11:25:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[PM na USP - Consumo de drogas - Violência social]]></category>

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		<description><![CDATA[Comentando a ação da PM no campus da USP, o colunista da FSP Antonio Prata afirmou: &#8220;Sugerir que a PM possa entrar em todos os lugares, menos no campus da universidade, não é um pensamento libertário, é um vício classista: a velha idéia de que, neste país, todos são iguais mas alguns são mais iguais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Comentando a ação da PM no campus da USP, o colunista da FSP Antonio Prata afirmou: &#8220;Sugerir que a PM possa entrar em todos os lugares, menos no campus da universidade, não é um pensamento libertário, é um vício classista: a velha idéia de que, neste país, todos são iguais mas alguns são mais iguais que os outros&#8221;.</p>
<p>Precisamos comemorar a retomada do conceito de classe (e seu corolário marxista: luta de classes) pela FSP. O problema é retomá-lo apenas contra determinadas instituições e determinados personagens.</p>
<p><span id="more-36956"></span>Não sei quem sugere que a PM possa entrar em todos os lugares. A PM pode entrar onde tiver autorização para entrar. Em sua casa, caro leitor, ela só pode entrar se você ou um juiz de direito o autorizar. E o juiz o fará se houver algum motivo real.</p>
<p>Não encaro igualdade como direito à arbitrariedade sobre todos.</p>
<p>Imprensa e PM descrevem o consumo de maconha como fim-de-mundo. Em que ano estamos? Woodstock ocorreu quando? Gosto de lembrar um episódio woodstockiano: Carlos Santana tomou uma dose de LSD antes de entrar em cena para tocar. O que aconteceu? Ele continuou a ser Carlos Santana, tocou magnificamente, não errou sequer um compasso. Por que isso aconteceu? Porque ele estudou guitarra a vida inteira, já era um instrumentista pleno e não perdeu essa condição usando LSD.</p>
<p>Sim, existem atividades que alguém sob o efeito de uma droga como LSD (ou maconha) não deve exercer &#8211; direção de veículos, intervenção cirúrgica&#8230; O mito do usuário de drogas como ser do outro mundo já merecia estar enterrado há tempo. Caindo na real: pessoas adultas consomem drogas em tudo quanto é lugar, drogas legalizadas (álcool, tabaco) e drogas ilegais. Estive no Egito, república islâmica, onde a venda de álcool é proibida. Isso não impede que ocorram diferentes tipos de violência por pessoas não-alcoolizadas. Isso não impede o mercado ilegal de álcool.</p>
<p>Em sociedades tribais, produtos similares às drogas modernas são consumidos num contexto ritualístico, sob controle de pessoas experientes, vedados a deteterminadas pessoas (critérios de idade e outros).</p>
<p>Sabemos que grandes violências foram cometidas por pessoas sob efeito de drogas ilícitas ou legalizadas. Sabemos que grandes violências foram cometidas por pessoas que não apelaram para drogas ilícitas ou legalizadas. Violências cometidas por qualquer um devem ser punidas.</p>
<p>Por um acaso da vida, não uso drogas ilegais e consumo álcool (não fumo) em baixíssima quantidade. Conheci usuários dessas drogas que eram pessoas absolutamente comuns. Conheci outros que eram seres detestáveis, tanto quanto outros seres detestáveis que não as consumiam. Desconfio que violência e outros comportamentos sociais insuportáveis não derivam automaticamente desse consumo ou de seu avesso.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>II Mostra Simpósio Cinema-História Social</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/ii-mostra-simposio-cinema-historia-social-a-beleza-das-cidades-e-suas-barbaries/</link>
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		<pubDate>Thu, 03 Nov 2011 10:04:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Agenda]]></category>
		<category><![CDATA[II Mostra Simpósio Cinema-História social - História e Cinema - Crítica de Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Será promovido, entre 3 e 7 de dezembro, em Arraial d&#8217;Ajuda, BA, a II Mostra Simpósio Cinema-História Social, com o tema &#8220;A beleza das cidades e suas barbáries&#8221;.
A programação do evento é:
 
 

ABERTURA
03 de DEZEMBRO  (SÁBADO)
Maxime Roumer + Jorge Nóvoa
04 de DEZEMBRO (DOMINGO)
Silvio Tendler + Alcides Ramos + Gabriel
05 de DEZEMBRO (Segunda-Feira)
Elie Yazbek [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>Será promovido, entre 3 e 7 de dezembro, em Arraial d&#8217;Ajuda, BA, a II Mostra Simpósio Cinema-História Social, com o tema &#8220;A beleza das cidades e suas barbáries&#8221;.</div>
<div>A programação do evento é:</div>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong></p>
<div><strong><span id="more-36786"></span>ABERTURA</strong></div>
<div>03 de DEZEMBRO  (SÁBADO)</div>
<div>Maxime Roumer + Jorge Nóvoa</div>
<div>04 de DEZEMBRO (DOMINGO)</div>
<div>Silvio Tendler + Alcides Ramos + Gabriel</div>
<div>05 de DEZEMBRO (Segunda-Feira)</div>
<div>Elie Yazbek + Marcos Silva</div>
<div>06 de DEZEMBRO (terça-feira)</div>
<div>Geraldo Sarno + Alcides Ramos</div>
<div><strong>ENCERRAMENTO</strong></div>
<div>07 de DEZEMBRO (quarta-feira)</div>
<div>Miguel Coyula + Soleni Fressato</div>
<p></strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<div>Período:<strong> 03 a 07 de dezembro de 2011</strong></div>
<div>Local: <strong>Centro de Cultura de Porto Seguro</strong></div>
<div>Horário: 15h00min às  18h00min</div>
<div><a id="yiv1366588785yui_3_2_0_21_1320268926487189" rel="nofollow">http://www.costacentral.com.br/novosite/index.php</a></div>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Governantes não estão acima da lei</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/governantes-nao-estao-acima-da-lei/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/governantes-nao-estao-acima-da-lei/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 01 Nov 2011 16:38:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[PM na USP. Lei. Direto e democracia.]]></category>

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		<description><![CDATA[

Ninguém está acima da lei. Mas, quem é ninguém?
O que é a lei? Qual é a verdade?
por Jorge Luiz Souto Maior, prof. livre docente da Faculdade de Direito da USP


Publicado aqui
 
Para  deslegitimar o ato de estudantes da USP, que se postaram contra a  presença da polícia militar no campus  universitário, o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>
<h3><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/usp-confusao.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-36728" title="usp confusao" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/usp-confusao-340x254.jpg" alt="" width="340" height="254" /></a></h3>
<h3>Ninguém está acima da lei. Mas, quem é ninguém?</h3>
<h3>O que é a lei? Qual é a verdade?</h3>
<div><strong><em>por Jorge Luiz Souto Maior, prof. livre docente da Faculdade de Direito da USP</em></strong></div>
<div><em><br />
</em></div>
<div><em>Publicado <a href="http://ocupauspcontrarepressao.blogspot.com/2011/10/ninguem-esta-acima-da-lei-mas-quem-e.html" target="_blank">aqui</a></em></div>
<div><em> </em><br />
Para  deslegitimar o ato de estudantes da USP, que se postaram contra a  presença da polícia militar no campus  universitário, o governador Geraldo Alckmin sentenciou: “Ninguém está  acima da lei”, sugerindo que o ato dos estudantes seria fruto de uma  tentativa de obter uma situação especial perante outros cidadãos pelo  fato de serem estudantes. Aliás, na sequência, os debates na mídia se  voltaram para este aspecto, sendo os estudantes acusados de estarem  pretendendo se alijar do império da lei, que a todos atingem.</div>
<div>
<p><span id="more-36725"></span>Muito precisa ser dito a respeito, no entanto.</p>
<p>Em  primeiro lugar, a expressão, “Ninguém está acima da lei”, traduz um  preceito republicano, pelo qual, historicamente, se fixou a conquista de  que o poder pertence ao povo e que, portanto, o governante não detém o  poder por si, mas em nome do povo, exercendo-o nos limites por leis,  democraticamente, estatuídas. O “Ninguém está acima da lei” é uma  conquista do povo em face dos governos autoritários. O “ninguém” da  expressão, por conseguinte, é o  governante, jamais o povo. Claro que nenhum do povo está acima da lei,  mas a expressão não se destina a essa obviedade e sim a consignar algo  mais relevante, advindo da luta republicana, isto é, do povo, para  evitar a deturpação do poder.</p>
<p>Nesse sentido, não é dado ao  governante usar o preceito contra atos de manifestação popular, pois é  desses atos que se constroem, democraticamente, os valores que vão se  expressar nas leis que limitarão, na sequencia, os atos dos governantes.</p>
<p>Dito  de forma mais clara, a utilização do argumento da lei contra os atos  populares é um ato anti-republicano, que favorece o disfarce do império  da lei, ao desmonte da contestação popular aos valores que estejam  abarcados em determinadas leis.</p>
<p>Foi isso, aliás, que se viu  recentemente em torno do direito das pessoas se manifestarem, de forma  organizada e pacífica, contra a lei que criminaliza o uso da maconha.  Todos estão sob o império  da lei, mas não pode haver obstáculos institucionalizados para a  discussão pública da necessidade ou não de sua alteração.</p>
<p>A lei,  portanto, não é ato de poder, não pertence ao governante. A lei deve ser  fruto da vontade popular, fixada a partir de experiências democráticas,  que tanto se estabelecem pelo meio institucionalizado da representação  parlamentar quanto pelo livre pensar e pelas manifestações públicas  espontâneas.</p>
<p>E, ademais, qual é a verdade da situação? A grande  verdade é que os alunos da USP não estão querendo um tratamento especial  diante da lei. Não estão pretendendo uma espécie da vácuo legal, para  benefício pessoal. Para ser completamente, claro, não estão querendo  fumar maconha no Campus sem serem incomodados pela lei. Querem, isto  sim, manifestar, democraticamente, sua contrariedade à presença da PM no  Campus universitário, não pelo fato de que a presença da polícia lhes  obsta a  prática de atos ilícitos, mas porque o ambiente es colar não é, por si,  um caso de polícia.</p>
<p>Querem pôr em discussão, ademais, a  legitimidade da autorização, dada pela atual Direção da Universidade, em  permitir essa presença.</p>
<p>A questão da legitimidade trata-se de  outro preceito relevante do Estado de Direito, pois a norma legal, para  ser eficaz, precisa ser fixada por quem, efetivamente, tem o poder  institucionalizado, pela própria ordem jurídica, para poder fazê-lo e,  ainda, exercer esse poder em nome dos preceitos maiores da razão  democrática.</p>
<p>Vejamos, alguém pode estar questionando o direito  dos alunos de estarem ocupando o prédio da Administração da FFLCH, sob o  argumento de que não estão, pela lei, autorizados a tanto. Imaginemos,  no entanto, que a Direção da Unidade, tivesse concedido essa  autorização. A questão, então, seria saber se quem deu autorização tinha  a legitimidade para tanto e mais se  os propósitos da autorização estavam, ou não, em conformidade com os  preceitos jurídicos voltados à Administração Pública.</p>
<p>Pois bem, o  que os alunos querem é discutir se a autorização para a Polícia Militar  ocupar os espaços da Universidade foi legítima e quais os propósitos  dessa autorização. Diz-se que a presença da Polícia Militar se deu para  impedir furtos e, até, assassinatos, o que, infelizmente, foi refletido  em fatos recentes no local. Mas, para bem além disso, a presença da  Polícia Militar tem servido para inibir os atos democráticos de  manifestação, que, ademais, são comuns em ambientes acadêmicos, envoltos  em debates políticos e reivindicações estudantis e trabalhistas. Uma  Universidade é, antes, um local experimental de manifestações livres de  ideias, instrumentalizadas por atos políticos, para que as leis, que  servirão à limitação dos atos dos nossos governantes, possam ser  analisadas  criticamente e aprimoradas por intermédio de práticas verdadeiramente  democráticas.</p>
<p>A presença ostensiva da Polícia Militar causa  constrangimentos a essas práticas, como, aliás, se verificou,  recentemente, com a condução de vários servidores da Universidade à  Delegacia de Polícia, em razão da realização de um ato de paralisação de  natureza reivindicatória, o que lhes gerou, dentro da lógica de terror  instaurada, a abertura de um Inquérito Administrativo que tem por  propósito impingir-lhes a pena da perda do emprego por justa causa.</p>
<p>Dir-se-á  que no evento que deu origem à manifestação dos alunos houve, de fato, a  constatação da prática de um ilícito e que isso justificaria o ato  policial. Mas, quantas não foram as abordagens que não geraram a mesma  constatação? De todo modo, a questão é que os fins não justificam os  meios ainda mais quando os fins vão muito além do que, simplesmente,  evitar a prática  de furtos, roubos, assassinatos e consumo de drogas no âmbito da  Universidade, como se tem verificado em concreto.</p>
<p>Há um enorme  “déficit” democrático na Universidade de São Paulo que de um tempo pra  cá a comunidade acadêmica, integrada por professores, alunos e  servidores, tem pretendido pôr em debate e foi, exatamente, esse avanço  dessa experiência reivindicatória que motivou, em ato de represália,  patrocinado pelo atual reitor, o advento da polícia militar no campus,  sob a falácia da proteção da ordem jurídica.</p>
<p>A ocupação da  Administração da FFLCH pelos alunos, ocorrida desde a última  quinta-feira, não é um ato isolado, advindo de um fato determinado,  fruto da busca frívola de se “fumar maconha” impunemente no campus.  Fosse somente isso, o fato não merecia tanta repercussão. Trata-se, isso  sim, do fruto da acumulação de experiências democráticas que se vêm  intensificando no âmbito da Universidade  desde 2005, embora convivendo, é verdade, com o trágico efeito do  aumento das estratégias repressoras. Neste instante, o que deve  impulsionar a todos, portanto, é a defesa da preservação dos mecanismos  de diálogo e das práticas democráticas. Os alunos, ademais, ainda que o  ato tenha tido um estopim, estão sendo objetivos em suas reivindicações:  contra a precarização dos direitos dos trabalhadores; contra a  privatização do ensino público; contra as estruturas de poder arcaicas e  autoritárias da Universidade, regrada, ainda, por preceitos fixados na  época da ditadura militar; pela realização de uma estatuinte; e contra a  presença da Polícia Militar no Campus, que representa uma forma de  opressão ao debate.</p>
<p>O ato dos alunos, portanto, é legítimo porque  seus objetivos estão em perfeita harmonia com os objetivos traçados  pela Constituição da República Federativa do Brasil, que  institucionalizou um Estado Democrático de  Direito Social e o fato de estarem ocupando um espaço público para  tanto serve como demonstração da própria origem do conflito: a falta de  espaços institucionalizados para o debate que querem travar.</p>
<p>A  ocupação não é ato de delinquência, trata-se, meramente, da forma  encontrada pelos alunos para expressar publicamente o conflito que  existe entre os que querem democratizar a Universidade e os que se opõem  a isso em nome de interesses que não precisam revelar quando se ancoram  na cômoda defesa da “lei”.</p>
<p>São Paulo, 30 de outubro de 2011</p>
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		<title>Minhas &#8220;Estantes&#8221;</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Oct 2011 20:22:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura potiguar - Biblioteca pessoal - Preservação e descarte]]></category>

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		<description><![CDATA[
Comentando a realidade da Literatura potiguar, Lívio evocou o peso dela em suas estantes.
Isso me fez lembrar das estantes em minha vida.
Na infância, vivi em família pobre. Não havia estante propriamente dita. Um pedaço do guarda-roupas era usado para poucos livros.
Na adolescência, comecei a comprar uns e outros volumes, juntei algumas dezenas. Quando vim embora [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/10/estante.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-36673" title="estante" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/10/estante.jpg" alt="" width="334" height="258" /></a></p>
<p>Comentando a realidade da Literatura potiguar, Lívio evocou o peso dela em suas estantes.</p>
<p>Isso me fez lembrar das estantes em minha vida.</p>
<p><span id="more-36671"></span>Na infância, vivi em família pobre. Não havia estante propriamente dita. Um pedaço do guarda-roupas era usado para poucos livros.</p>
<p>Na adolescência, comecei a comprar uns e outros volumes, juntei algumas dezenas. Quando vim embora para São Paulo, aos 19 anos, vendi a maioria a preço de banana, trouxe menos que dez.</p>
<p>Estudante de graduação (História), frequentei sebos e liquidações. Recomecei a juntar livros. Casei com uma moça da mesma área, compramos juntos muita coisa. Quando nos separamos, após 19 anos, tínhamos um volume razoável de livros, a maioria de História, mais alguma coisa de Literatura, Filosofia, Artes visuais. Quase tudo ficou com ela &#8211; parece a letra de &#8220;A Rita&#8221;, de Chico Buarque.</p>
<p>Recomecei a juntar livros aos 44 anos. Hoje, possuo uma quantidade razoável em desordem assombrosa.</p>
<p>Tenho a impressão de que, ao longo da vida, livros vêm e vão. Deixando de lado circunstâncias mais complicadas (mudança de cidade e separação em casamento), sempre selecionamos o que fica e definimos os que partirão.</p>
<p>No caso dos autores potiguares, nascemos no RN, convivemos com esses escritores por essa circunstância &#8211; mas também por apreço, por qualidades intrínsecas que levam gaúchos a lerem Zila Mamede e goianos a estudarem Diva Cunha. Qual etnógrafo preservar, Câmara Cascudo ou Franz Boas? Qual poeta manter, T. S. Eliot ou Sanderson Negreiros?</p>
<p>Eu guardaria todos. Falo isso sem bairrismo nem condescendência.  Citei intencionalmente potiguares de primeira linha. Além dessa circunstância, penso que eles me ajudam a entender meu mundo imediato, e num padrão literário digno.</p>
<p>Mas sempre existem descartes de objetos na vida. O melhor é doar livros que não mais queremos para bibliotecas decentes &#8211; as que preservam as obras e garantem o acesso público a todas.</p>
<p>Descartes são inevitáveis ao longo da vida. No caso de livros, tanto de autores potiguares quanto russos e paraguaios. Descartar não é desprezar, é compreender o fim do convívio. Sempre restará a memória da leitura.</p>
<p>Ah, existem livros que guardamos sem saber o motivo. Precisamos aprender a evitar isso.</p>
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		<title>Três cartas sobre polícia e FHC na USP</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Oct 2011 13:13:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[USP - Polícia em campi universitários - FHC]]></category>

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		<description><![CDATA[1)                 Prezados Colegas!
Novamente o arbítrio e a violência policial em nosso espaço de trabalho! As razões são de muitas naturezas e as práticas nada condizentes com as funções fundamentais para uma  democracia ampliada e contínua necessária aos desafios postos em nosso tempo. De um lado, acontecimento terrível, mas corriqueiro na cidade rompe com os princípios [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>1)                 Prezados Colegas!</p>
<p>Novamente o arbítrio e a violência policial em nosso espaço de trabalho! As razões são de muitas naturezas e as práticas nada condizentes com as funções fundamentais para uma  democracia ampliada e contínua necessária aos desafios postos em nosso tempo. De um lado, acontecimento terrível, mas corriqueiro na cidade rompe com os princípios universais que regem a vida universitária nos diferentes países. Espaço de liberdade para invenção, experimentação e de práticas políticas que estimularão novas possibilidades de organização da vida social, pela crítica do viver no tempo presente.</p>
<p><span id="more-36638"></span>Gestores universitários preferem o autoritarismo no lugar da autoridade, a força no lugar da argumentação, a repetição no lugar da criação e os estigmas e preconceitos no lugar do reconhecimento das singularidades. Assim, jovem rebelde é bandidinho, civilidade é truculência, diversidade é contaminação. Neste momento em que a eugenia é claramente um programa de Estado, onde o corpo, a libido e o prazer devem ser regido por intervenções do poder público, as respostas dos &#8220;rebeldes&#8221; acabam por seguir a mesma lógica, já que somente os confrontos se põem como possibilidades do medir forças em que as práticas da intolerância aparecem como racionalidade para um grupo e irracionalidade na representação do outro.</p>
<p>Cito o exemplo de recente acontecimento traumático na Noruega, um país com um construto de direitos civis muito bem consolidado. A ação de um cidadão que culminou na chacina de jovens que desfrutavam de um lazer bucólico foi respondida com a defesa de mais liberdades e aprofundamento da democracia, tanto pelos governantes (uma monarquia) quanto pelos cidadão. Aqui, na res-privada, a resposta é elevar os muros, as cercas, as grades, chamar a polícia e fingir que as drogas, versão contemporânea do capitalismo, são resíduos das bandidagens e não equivalente do amplo mercado internacional e de nenhuma remuneração ao fundo público.</p>
<p>Impedida de estar presente nas duas próximas semanas por viagem de trabalho em Angola e Moçambique, espero que as grades não sejam ainda mais resistentes no encaminhamento dos conflitos e que os estudantes possam refletir se ocupar e colocar barreiras não siguinifica exatamente o mesmo. Proponho que se faça um debate público no Campus, com a presença de Fernando Henrique Cardoso que tem argumentos muito interessantes sobre a liberação da maconha.</p>
<p>Que tal um ritual de baseado coletivo!!!</p>
<p><strong>Zilda Iokoi</strong></p>
<p>2) Prezada Zilda:</p>
<p>Somos Historiadores e nos formamos na mesma época (meados dos anos 70), fomos alunos de Fernando Novais e lemos Caio Prado Jr., dentre outros historiadores dignos. Temos a obrigação de garantir o acesso a determinadas experiências do passado (do presente também, com esperança na existência de algum futuro) para evitar que o reino da Ideologia tenha continuidade.</p>
<p>Em 2000, 500 anos do &#8220;achamento&#8221; do Brasil, houve uma grande comemoração em Porto Seguro, com a presença destacada de FHC e participação secundária do ex-uspiano Weffort (Ministro da Incultura?). Movimentos sociais (negros, índios e outros) se apresentaram no ato, em protesto contra o oba-oba reinante. Foram ferozmente reprimidos, incluindo espancamentos e gente que foi hospitalizada. FHC e Weffort encararam tudo olimpicamente. Nunca pediram desculpas nem indenizaram os espancados, hospitalizados, humilhados e ofendidos.</p>
<p>É esse FHC que vc está propondo ser convidado para vir à USP falar?</p>
<p>Considero esse convite um insulto à USP.</p>
<p>Espero que esse horror não nos envergonhe.</p>
<p>Cordialmente:</p>
<p><strong>Marcos Silva<br />
</strong>Professor Titular do Depto. de História da FFLCH/USP</p>
<p>3) caros colegas<br />
queria expressar meu total apoio as considerações feitas pelo Marcos<br />
em relação à proposta da Zilda<br />
aproveito para acrescentar abaixo a carta que envio aos meus alunos<br />
de pós-graduação que deveriam ter aulas nesta quinta feira<br />
expressando minha mais profunda indignação<br />
um abraço<br />
<strong>ana fani carlos</strong></p>
<p>a aula que não aconteceu: minha indignação e uma proposta de<br />
continuidade, se a política da reitoria deixar!</p>
<p>Caros estudantes<br />
Foi com grande indignação e imensa tristeza que vi na última quinta<br />
feira a PM invadir o espaço da universidade e, ao fazê-lo, impor sua<br />
violenta racionalidade à vida cotidiana do campus. As &#8220;forças da<br />
ordem&#8221; instauraram o caos usurpando a liberdade necessária e<br />
indispensável à realização de nosso trabalho, com o discurso da<br />
manutenção da mesma &#8220;ordem&#8221; que ele subverteu.</p>
<p>Não é difícil reduzir sua ação ao combate do tráfico de drogas sob o<br />
argumento de que o tratamento ao usuário de droga pego em flagrante<br />
deve ser o mesmo para todos os cidadãos sejam eles estudantes ou não,<br />
estejam eles no campus universitário ou fora dele.</p>
<p>A questão esta longe de se resumir a esta ação /atitude. A situação em<br />
que nos encontramos é muito mais complexa. Trata-se do modo como o uso<br />
da força é justificado pelas autoridades. Assim a presença impositiva<br />
de uma fileira de motos, um despropositado número de PMs no<br />
estacionamento do prédio da História/Geografia, para autuar três<br />
estudantes (antecedidos por blits constrangedoras e cada vez mais<br />
freqüentes aos estudantes da USP) com seus gadgets, somados á bombas<br />
de &#8220;efeito moral&#8221; instauram o caos e impediram que a atividade fim da<br />
universidade se realizasse. Além do que acabaram gerando mais<br />
violência e, com ela, um impasse, cujo desfecho certamente recaíra -<br />
como de hábito,pela punição aos mais fracos.</p>
<p>Consequentemente, trata-se de buscar a real origem de todo este caos<br />
que invade a vida cotidiana do campus subtraindo-lhe o sentido, e não<br />
poderia ser outra senão a lógica que orienta as atitudes da atual<br />
gestão universitária. Tal atitude vem revelando um desconhecimento do<br />
papel e sentido histórico desta instituição pública, preocupada que<br />
esta em atender as exigências do mercado &#8211; no discurso tratado como<br />
aproximação entre universidade-sociedade (seja lá o que isto quer<br />
dizer!)</p>
<p>Os crimes de todos os tipos e assassinatos não podem e devem ser<br />
aceitos passivamente, nem no campus, nem fora dele, mas suas origens<br />
parecem não estar suficientemente claros, o que parece certo, todavia<br />
que com violência e negação de direitos civis estaremos cada vez mais<br />
distante da busca de possíveis e desejadas soluções.</p>
<p>Certamente, trata-se de formar nossos estudantes na busca da<br />
compreensão do fato de que o consumo inocente de um baseado, reproduz<br />
o circuito do narcotráfico fundado numa violência ainda maior do que a<br />
da PM, e cuja existência impede o mais simples convívio social nas<br />
áreas de sua atuação direta, bem como, no plano da sociedade a<br />
realização de um projeto que busque a realização do direto à cidade, á<br />
realização da cidadania plena e a subversão da situação de<br />
desigualdade que funda a sociedade brasileira. Certamente os<br />
estudantes envolvidos nesta batalha devem ser totalmente favoráveis á<br />
superação desta condição de desigualdade que inclusive impede que a<br />
maioria daqueles que se encontram na mesma faixa etária tenham acesso<br />
á mesma universidade pela qual estamos todos engajados em sua defesa.<br />
Abrir os portões da USP para a PM, vem revelando &#8211; em curto espaço de<br />
tempo &#8211; esta foi uma saída é, no mínimo, irresponsável.</p>
<p>A gestão da USP ao abrir mão de suas atribuições vem de forma<br />
consistente destituindo a universidade de seus conteúdos e sentido.<br />
Para citar um caso dos mais graves, lembramos, aqui, os programas de<br />
pós-graduação deixados &#8211; pesquisadores e estudantes, com suas<br />
pesquisas &#8211; à mercê das instituições de fomento que vem impondo, no<br />
lugar do debate acadêmico, a competição entre programas e<br />
pesquisadores em busca de linhas em seus currículos lattes.<br />
Competição esta, agora exacerbada pela nova lógica da carreira<br />
docente que faz com que o vizinho de sua porta ao se torne o inimigo<br />
a ser combatido por pontos pela progressão na carreira. Na busca por<br />
estes objetivos, os prazos se tronam cada vez mais apertados<br />
esvaziando o ato de conhecer como ato de habitar o tempo lento da<br />
reflexão, agora, invadida pela quantificação.</p>
<p>Com isso é nosso trabalho que é completamente destituído de sentido, e<br />
o conhecimento produzido redunda em mera banalidade ou meras<br />
constatações. Agora, na mesma lógica que terceiriza a pós-graduação, a<br />
Universidade terceiriza mais uma das atividades que permite a<br />
realização de seus objetivos &#8211; a segurança do/no campus.</p>
<p>A cada passo as sucessivas gestões parecem perder pouco a pouco sua<br />
legitimidade para levar a universidade para o futuro prolongando uma<br />
história de conquistas tanto no plano do conhecimento da realidade<br />
brasileira &#8211; agora comprometido pelo tempo veloz com que precisamos<br />
produzir textos,artigos, orientações, patentes, etc- quanto no<br />
cenário político brasileiro em sua luta contra a ditadura.<br />
Que projeto vislumbrar? Que futuro podemos construir? Sem dúvida o<br />
coletivo desta grande universidade precisa apontar novas<br />
possibilidades e caminhos mirando o futuro, mas aprendendo com nossa<br />
história&#8230;</p>
<p>PS &#8211; Essas três cartas foram divulgadas no dia 29 de outubro, no Forum Docente da FFLCH/USP.</p>
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		<title>Notícias do Pará</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Oct 2011 16:26:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[Ando sumido daqui porque em viagem de trabalho (Belém, PA). Estou participando do Fórum de Graduação do IFCH/UFPA. Integrei a roda de debate (espécie de mesa-redonda) &#8220;Projeto pedagógico e Licenciatura&#8221; e fiz a palestra &#8220;A Licenciatura hoje: limites e desafios&#8221;. O pessoal da UFPA é ótimo e Belém tem uma paisagem muito bonita (mangueiras, rio, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ando sumido daqui porque em viagem de trabalho (Belém, PA). Estou participando do Fórum de Graduação do IFCH/UFPA. Integrei a roda de debate (espécie de mesa-redonda) &#8220;Projeto pedagógico e Licenciatura&#8221; e fiz a palestra &#8220;A Licenciatura hoje: limites e desafios&#8221;. O pessoal da UFPA é ótimo e Belém tem uma paisagem muito bonita (mangueiras, rio, praças, prédios da Belle Époque). Recomendo a todos.</p>
<p>Deverei estar em Natal entre 18 e 22 de novembro. Participarei de mesa-redonda no FLIPIPA sobre o livro de Marcos Moraes (Câmara Cascudo e Mário de Andrade &#8211; Cartas, 1924/1944) e integrarei banca examinadora de uma Dissertação de Mestrado em História, na UFRN, sobre o Tropicalismo. Informarei mais sobre a última atividade depois.</p>
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