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18 de agosto de 2010

Por que Deífilo é o nome do folclore potiguar

Por Nelson Patriota

Crer no próprio destino é privilégio de poetas e visionários, condições que podem conviver num mesmo ser humano sem conflitos maiores. A história de vida do poeta Deífilo Gurgel é exemplar, a esse respeito. Nascido em Areia Branca, experimentou, na infância, certo deslumbramento com as cores, brilhos, cânticos e movimentos rítmicos de folguedos populares, com suas variantes em conformidade com a época: laicos ou religiosos, tumultuosos ou solenes e, às vezes, um pouco de cada, indistintamente.

O poeta, porém, veio antes. Foi uma escolha pessoal, ou uma descoberta, se formos daqueles que acreditam que ser é questão de berço. O folclore, porém, foi destino: Deífilo teria que buscá-lo, de merecê-lo. E quando é assim, os acasos, as pequenas coincidências, as circunstâncias favoráveis não tardam a agir, numa espécie de determinismo sutil que só se deixa perceber retrospectivamente.

Foi dessa forma que o poeta Deífilo Gurgel se tornou folclorista. Os encontros com o coquista Chico Antônio e com Dona Militana, dois emblemas atemporais da alma popular potiguar, foram plantados em seu caminho como duplas assertivas: que ele prosseguisse, porque seguia na direção certa. A aproximação com o mestre Câmara Cascudo, a discussão de seus livros, as visitas com seus alunos ao casarão da Junqueira Aires, a descoberta de Mário de Andrade, tudo decorreria em sequência.

A pretexto do Dia do Folclore, que transcorre dia 22 deste mês, Deífilo concedeu uma entrevista à jornalista Carla Sousa, da revista Saga Cultural, da rede Siciliano local, na qual fornece outros detalhes sobre sua formação intelectual e chega a fazer afirmações “temerárias”, como quando parece relativizar a importância do legado que Cascudo deixou para o folclore: “[...] Aliás, eu diria que Mário de Andrade ainda é mais importante que Cascudo, porque ele documentou os quatro autos populares brasileiros – Boi, Fandango, Chegança e Coco – em letra e música, coisa que ninguém jamais fez tão bem feito”.

Mas logo refaz a opinião, ressaltando a conversa “erudita e, ao mesmo tempo, gostosa de ouvir” de Cascudo; o fato de Cascudo ter escrito, do rincão modesto da província, uma centena e meia de obras tratando dos mais diversos temas, é um constante motivo de perplexidade para o octogenário Deífilo.

Trabalhando atualmente em pelo menos três livros, todos abordando temas potiguares, Deífilo vê um momento desfavorável aos folguedos folclores nos dias que correm. Em parte, porque os estudos teóricos estão esquecendo o lado prático dessa tradição, que são os próprios brincantes, para quem pede uma política pública específica. De outro lado, detecta certo desinteresse e desconhecimento dos assuntos relativos ao folclore por parte das novas gerações.

É um cenário desanimador, reconhece Deífilo, mas não passa de uma fase. Caso seu prognóstico se confirme, o folclore vivo, “prático”, como ele acentuou acima (não o folclore estratificado, congelado e transformado em tese ou dissertação acadêmica) dará a volta por cima e reacenderá as cores e brilhos da tradição, reatando laços entre as tradições e as gerações vindouras.

É esse folclore que renasce das suas próprias cinzas que o expert Deífilo Gurgel busca trazer para dentro das páginas do seu Romanceiro Potiguar, abrangente, totalizante do universo do folclore norte-rio-grandense. Seu opus magno na área do folclore? Queremos crer que sim, na medida em que poderá conter uma síntese de informações submetidas ao filtro da experiência que o experiente folclorista vem reunindo ao longo de pelo menos quatro décadas de estudos, pesquisas, buscas e criações.

Com o livro Os bens aventurados, lançado em 2005, Deífilo alcançou sua plenitude poética, iniciada sob a inspiração de sua Areia Branca e expandida progressivamente a outras margens reais ou imaginárias do seu mundo existencial. Sucessor sem rival de mestre Cascudo, Deífilo Gurgel faz por merecer agora, em que arremata um grande projeto folclórico, o título que lhe deu a revista Saga Cultural: “O nome do folclore potiguar”.

11 de agosto de 2010

Da mentira como gênero literário e jornalístico

Por Nelson Patriota

O personagem Umbelino, do livro homônimo de Umberto Eco, se assume como um mentiroso contumaz e faz disso um estilo de vida. Sua preocupação em dizer-se mentiroso cria embaraços para as pessoas que, a partir desse traço de sua personalidade, não sabem mais como interpretar suas afirmações: será que tudo que ele afirma deve ser entendido de modo contrário, isto é, como mentiras?

O fato é que a mentira exerce um forte fascínio junto aos escritores, os quais, de algum modo fazem dela sua ferramenta de trabalho. Mais raro é que um jornalista se revele um impostor, palavra tomada aqui na sua acepção de não veraz. Sobretudo quando simula entrevistas com pessoais reais, o que transforma seu trabalho numa desnorteante contraentrevista, ou seja, o oposto do que se concebe normalmente como uma conversa entre um jornalista e sua presumida fonte. Não obstante, se se fizesse um dossiê das queixas que os entrevistados costumam fazer contra as inverdades que aparecem nas suas entrevistas, o resultado possivelmente surpreendesse pelas coincidências com o método Debenedetti…

Em recente entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o jornalista italiano Tommaso Debenedetti confessou uma frustração: gostaria de fazer jornalismo cultural, mas, acentuou, “isso é impossível na Itália”. Em vista disso, mudou seus planos e concebeu um projeto profissional inusitado: tornar-se conhecido como “o campeão italiano da mentira”.

Para levantar esse troféu, Debenedetti argumenta com os dez anos em que passou na imprensa do seu país publicando entrevistas, que, depois, se revelaram inventadas, com escritores como Gore Vidal, Philip Roth e personalidades como o papa , o Dalai Lama, Obama etc.

A conclusão a que chegou o jornalista italiano é que, se ao longo de dez anos ele pôde publicar suas entrevistas inventadas, é porque contava com a anuência dos editores com que trabalhava. A farsa só veio a público pouco a pouco, inviabilizando sua presença nos referidos jornais. Um comentário de Philip Roth desmascarando a entrevista supostamente dada a Debenedetti também apressou sua saída da imprensa escrita. De acordo com o jornalista, o escritor americano teria se melindrado pela declaração de apoio ao presidente Obama, que fora veiculada na entrevista, o que, segundo o jornalista, seria confirmado semanas depois pelo próprio Roth. Este teria declarado ainda que a carreira de impostor de Debenedetti teria chegado ao fim.

Não é o que pensa, entretanto, Debenedetti. Tudo somado, ele acha que tem o que comemorar pelos dez anos em que forjou entrevistas publicadas avidamente consumidas pelos leitores dos jornais que as veicularam. De saldo, ele diz que já detém o título de “campeão italiano da mentira”, como ele gosta de se jactar, até com certa desfaçatez. Todavia, seu principal motivo de júbilo intelectual tem a ver com seu projeto frustrado de jornalista cultural: trata-se da criação de um suposto gênero literário, exatamente o da entrevista falsa.

De acordo com Debenedetti, esse projeto será ancorado numa página que ele criará na internet. A etapa seguinte será a publicação de um livro reunindo uma seleção das entrevistas falsas, o que concorrerá para consolidar o novo modelo de entrevista, ainda não incluído nos manuais correntes de jornalismo.

Espécie de Baudolino do jornalismo moderno, Debenedetti se ampara numa visão pragmática do seu trabalho: uma boa entrevista falsa precisa ter método. Se a entrevista for, por exemplo, com um escritor, o entrevistador precisa ler seus livros, observar seu estilo de falar em outras entrevistas (mesmo que verazes), e só então passar à impostura.

É munido desse know-how que Debenedetti rebate a afirmação de Philip Roth de que sua carreira acabou. Para o jornalista, Roth cometeu um equívoco. E explica: “Minha carreira nos jornais talvez tenha acabado, mas não meu trabalho”. Pelo contrário, considerando as possibilidades que ele vislumbra adiante.

29 de julho de 2010

Breve notícia de Joca Reiners Terron

Por Nelson Patriota

“A literatura é uma imensa teia de aranha. Você pode ser pego por ela ou não. Se for enredado, poderá seguir infinitamente pelas ramificações da teia, indo de um autor a outro, entrando em Charles Bukowski e descobrindo John Fante e divertindo-se e amenizando um pouco a solidão da existência, enquanto foge da aranha. Com a web não é diferente, suponho. Sem direito a uma educação formal, porém, só nos resta a aranha”. É com esse engenhoso apólogo que o escritor Joca Reiners Terron expressa sua relação com os livros e a literatura.

Quem é Joca Reiners Terron? Confessamos que não o conhecíamos até a semana passada, quando abrimos a edição do jornal literário Rascunho, (julho, 2010), deparando com a entrevista feita pelo seu editor, Rogério Pereira, com esse escritor.

Não é difícil desconhecer autores num país das dimensões continentais como o nosso, compartimentado por tantos muros internos, reais ou virtuais, mas eficazes na produção do isolamento. Daí a importância de uma publicação como o Rascunho, feito lá em Curitiba, no Paraná, mas propondo um diálogo com um número cada vez maior de autores de todo o país.

Cuiabense, nascido em 1968, fixado em São Paulo, capital, Joca Reiners Terron é autor de dois romances: “Não há nada lá”, e “Do fundo do poço se vê a lua”, do livro de poemas “Animal anônimo”, e dos livros de contos “Hotel Hell, curva de rio sujo” e “Sonho interrompido por guilhotina”. Regalado recentemente com uma bolsa do projeto “Amores Expressos”, passou um mês no Egito para escrever as impressões que a viagem lhe causaria, no que resultou o romance “Do fundo do poço se vê a lua”.

Reiners Terron revela, ao longo da entrevista, uma reserva de argumentos e informações literárias que contrastam visivelmente com a casmurrice de certos escritores, avessos a falar de si ou de sua obra. Comunga com o americano Paul Auster da filosofia de que só existe vida quando narrada, o que remete diretamente às modernas histórias de vida, cujo precursor é o filósofo Wilhelm Schapp, autor que ousou dizer num livro revolucionário, infelizmente ainda não traduzido em português, que “só há vida na narrativa”. Antes deles, porém, Mallarmé já havia dito que “tudo existe para terminar num livro”…

A ausência de crítica literária especializada é um tópico que Reiners Terron não deixa passar em brancas nuvens. Mas faz questão de precisar a que se refere: “Faltam críticos com visão panorâmica do que está sendo produzido atualmente na literatura brasileira”. Mais adiante, especificará que “fazem falta escritores que não queiram ser somente narradores, poetas, cronistas, dramaturgos [...] e que compreendam que existe uma imensa necessidade de reflexão e que isto também é produção criativa”. É uma preocupação pertinente, na medida em que a falta de boa crítica dificulta e retarda, com certeza, o processo de divulgação e reconhecimento da obra de ficção, justo num momento em que a literatura brasileira passa por uma enorme efervescência criativa de Norte a Sul.

Ao leitor atento e perspicaz, não passa despercebido o tratamento diferenciado que o editor Rogério Pereira brinda ao escritor cuiabense, prestando-lhe um tratamento próprio aos autores canônicos. Certamente, repercutindo ecos de um processo em desenvolvimento nesse sentido, pois, numa das perguntas, acrescenta, a título de exercício de reverência, o revelador aposto: “O senhor é considerado um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea”, frase que o entrevistado não se dá ao trabalho de contestar.

Com diversos projetos em andamento, Rainers Terron é um genuíno escritor dos tempos de hoje: sempre em débito com o cronômetro, administrando vários trabalhos simultaneamente, tentando dar conta de contratos com editores, frequentando encontros literários para audições de leitura e debate de seus contos e poemas, integrando fóruns de discussão na internet. Se alguém achar que esse é um ritmo de vida inconveniente para um escritor, bem, então é melhor repensar a opção que porventura fizer por esse ofício.

26 de julho de 2010

Livro discute revisão a partir da prática

Por Nelson Patriota

De um tempo para cá, a produção saída dos prelos universitários vem se despojando do ranço acadêmico, que funcionava como um estigma, uma espécie de “defeito de origem” aos olhos do leitor não especializado. Ouvindo a linguagem da rua, atentando para os textos midiáticos, buscando entender o que a linguagem oral tem de permanente e de transitório, muitos autores situados entre os muros da academia começam a romper com o tabu vigente em torno do acadêmico e não acadêmico.

O livro “Revisão de textos: da prática à teoria” (Edufrn, 2010), da revisora e professora Risoleide Rosa Freire de Oliveira, além de preencher uma grande lacuna bibliográfica na sua área de especialização, consegue a proeza de traduzir em linguagem objetiva e, portanto, clara, os meandros e as filigranas que cercam o repertório de teorias produzidas em torno do assunto. O livro integra um conjunto de quinze obras da UFRN que serão lançadas pela editora da UFRN no dia 29 próximo, dentro da 62ª reunião anual da SBPC, cuja edição acontece no Campus da UFRN, em Natal, entre os dias 25 e 30 deste mês.

Revisora de centenas de títulos editados pela UFRN em mais de duas décadas de atividades, e professora em outras instituições de ensino superior, Risoleide Rosa é hoje uma referência em sua área, o que vem gerando uma grande expectativa em torno do seu livro, resultante de um minucioso trabalho de reescritura de sua dissertação de doutorado.

Apesar de ancorar-se num acervo teórico complexo que remonta às ideias do linguista russo Bakhtin, o livro se abre para uma vasta gama de questões práticas, onde não falta o revisor rebelde Raimundo Silva, criado por José Saramago na “História do cerco de Lisboa”, alternativa restante, quando tudo o mais esbarra em impossibilidades nesse campo. Outro destaque do livro é o diálogo que a autora trava com revisores e escritores, flexibilizando e refocando alguns conceitos pétreos que obstruem o processo revisório.

Partindo da prática em busca da teoria que a fundamente, Risoleide Rosa opta por um caminho pouco trilhado por revisores. É que ela crê firmemente que o discurso gerado na multiplicidade de vozes do dia a dia é um caminho imprescindível para se avançar na compreensão do ofício de revisar.

Tema de escassa exploração teórica, o livro de Risoleide Rosa vem atender a uma vasta demanda por obras sobre revisão. Agora, não mais de ponto de vista amadorístico, mas profissional, na medida em que o mercado editorial se profissionaliza cada vez mais. E se isso começa a acontecer, é porque existe, na retaguarda, bons profissionais de revisão.

De fato, um bom revisor pode fazer toda a diferença em determinados casos. Pensemos no problema ocasionado pela reedição do “Dicionário brasileiro de folclore”, pela Global editora. Leitores, escritores, jornalistas culturais, pesquisadores vêm denunciando omissões, interpolações, reescrituras de verbetes, num flagrante desrespeito à propriedade intelectual da obra. A denúncia mais recente (mas não certamente a última) veio por intermédio do livro escrito pelo poeta e professor Moacy Cirne “Dicionário do folclore brasileiro – uma edição desfigurada”, que traz o selo do Sebo Vermelho. Entre outras coisas, Moacy Cirne revela que a editora carioca conseguiu transformar Cascudo em plagiário de Édison Carneiro, além de desfigurar inúmeros verbetes do “Dicionário”, suprimindo linhas, retorcendo frases, acrescentando palavras.

Faltou, certamente, um trabalho consciencioso de revisão na edição do referido livro, porque revisar significa, entre outras coisas, respeitar o texto autoral, e se isso não se deu na edição do “Dicionário”, então é porque ele não foi propriamente revisado, o que parece difícil de entender, considerando se tratar de uma das grandes editoras em atividade no país. Nesse caso, porém, os fatos falam por si. Insistentemente.

23 de julho de 2010

Livro relata traição e morte de militante paraguaia

Por Nelson Patriota

Testemunha ativa do período de sombra que cobriu o país, durante o ciclo autoritário, o escritor pernambucano Urariano Mota lança dia 28 próximo, no Centro de Convivência da UFRN, às 10h30, dentro da programação da 62ª reunião anual da SBPC, o romance Soledad no Recife (Editora Boitempo), lançado em 2009.

O livro revive a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife em 1973 e a traição que culminou em sua tortura e assassinato pela ditadura militar, após ter sido delatada pelo companheiro Daniel, conhecido, depois, como Cabo Anselmo, e que se passava como seu namorado. A morte da militante ocorreu juntamente com outros candidatos a guerrilheiros, pelas mãos da equipe do famigerado delegado Sérgio Fleury. O episódio ficou conhecido como “O massacre da chácara São Bento” e revelou-se mais um extermínio do que um confronto armado.

A trama romanesca do livro de Urariano Mota se nutre da história do próprio autor, que viveu e sobreviveu aos anos pós-64, e resgata os vestígios da traição arquitetada contra Soledad e contra o país naquele período, servindo de contraponto à história oficial propagada pela mídia, à época, sob censura. Vale também como uma homenagem à bravura e idealismo da militante paraguaia, reavivando sua história com as cores da ficção mescladas à história.

Uraniano Mota, 59, é jornalista de formação. É colaborador do Observatório da Imprensa – www.diretodaredacao.com – e possui textos publicados nos sites CounterPunch e Portugal em Linha. Na época da ditadura militar, publicou contos e artigos nos periódicos Movimento, Escrita, Ficção, entre outros. Escreve para várias publicações nacionais, como Carta Capital, Fórum e Continente. É ainda autor do livro Os corações futuristas, lançado em 2007. Trata-se de um romance de formação ambientado também no Recife, na época do governo Garrastazu Médici.

Para o escritor Flávio Aguiar, que assina a apresentação de Soledad no Recife, o livro é a recuperação de uma história “como preito àquelas vidas que se doaram e foram ceifadas pela traição inesgotável que foram o golpe e a ditadura de 1964 ao seu próprio país – traição espelhada na de Anselmo ao amor que, sabe-se lá por que, despertou em Soledad”.

O escritor ministrará ainda palestra para professores e alunos de pós-graduação de Letras no dia 28, às 15h, nas dependências do Centro de Ciências Humanas Letras e Artes. A palestra será aberta ao público. 

21 de julho de 2010

Crítica literária, uma transgressão passadista?

Por Nelson Patriota

A cidade de Natal costuma consagrar e desconsagrar muita coisa, ao contrário do que escreveu o mestre Luís da Câmara Cascudo, num tempo mais compatível com a neutralidade e a indiferença, talvez pelo fato de que Natal era, naquela época, uma província minúscula e destituída de malícia.

Natal consagrou, por exemplo, a crendice do já-teve e a ideia de que não existe mais crítica literária entre nós. Pode ser, então, que aquilo que alguns supõem ser crítica literária não passe de uma miragem provocada por estes tempos que alucinam não só os termômetros… Pelo sim, pelo não, restos de crítica literária ainda ocupam nichos muito específicos da imprensa escrita, como esta brava TRIBUNA DO NORTE pode testemunhar. E o artigo que publicamos na semana retrasada neste Quadrante, parece ter desencadeado uma onda de indignação entre certas pessoas exatamente por assemelhar-se em demasia com um exercício (certamente caduco) de crítica literária.

Depois de uma repercussão positiva, postada na edição eletrônica da TN e, em seguida, no sítio www.substantivoplural.com.br, uma série de comentários indignados foi lançada contra o artigo. Felizmente, porém, não de forma unânime, muito menos de forma razoável, vez que sua motivação se deveu pura e simplesmente a dar expressão à indignação mais gratuita pelo fato de o artigo submeter o livro “Espelho quebrado”, do escritor Lima Neto, a um ensaio de crítica literária. E, consequentemente, pôr a nu, conforme nossa óptica, algumas de suas fraquezas. Felizmente, outros leitores souberam reconhecer no texto tão somente considerações acerca do livro, não petardos lançados contra o seu autor. Não deveria ser esse o princípio basilar da crítica literária, tal como era feita no tempo de Cascudo?

Os leitores indignados poderiam ainda ter invocado o velho adágio natalense, de que “não existe crítica literária entre nós”. A suposta crítica que portava nossa assinatura ver-se-ia transformada, de imediato, numa mera algaravia inócua e se evitaria a ressurreição desse fantasma obsoleto e recalcitrante. Nem seria um agravante maior a confissão de que aqueles que se mostravam indóceis confessassem que, ou não haviam lido o referido livro, ou ainda não teriam concluído sua leitura.

Coerente com a opinião unânime que os irmanava, o coro dos indignados preferiu não detalhar as razões de sua querela contra o nosso artigo, preferindo refugiar-se na cômoda condição de admiradores do autor de “Espelho quebrado”, solidários, portanto, com tudo que ele porventura escreveu. Assumindo tal posicionamento, como poderiam admitir que o livro em litígio pudesse ter uma que fosse de suas deficiências em exposição? Isso seria, talvez, incorrer no erro nosso, de tentar fazer crítica literária numa cidade onde essa prática foi decretada como extinta. E ai de quem tentar contrariá-la!

Por inesperada que tenha sido, o fato é que a polêmica em torno de “Espelho quebrado” não terá durado mais do que uma semana, conforme cremos otimisticamente. E aqui é necessário agradecer a intervenção do próprio Lima Neto, preocupado com a intemperança de seus admiradores, todos em débito com ele por não terem lido o seu livro, que tanto admiram.

O apelo do consciencioso autor foi justamente nessa direção: como um guru que se dirige a seus seguidores, magnetizando-os com seu carisma ímpar, ele lhes exortou a que cessassem, por favor, a arenga em torno do livro e o lessem, de uma vez por todos. Essa seria a maneira mais simpática de elogiarem o seu “Espelho quebrado”, cujos cacos (a alegoria é inspirada em intervenção assinada pelo escritor João da Mata Costa), como naquele conto de Andersen, parecem confundi-los quando os aproximam dos olhos. Resta ao autor a certeza de que nós o lemos, ele e eu. Como estamos empatados em pontos não coincidentes, ele agradeceria um desempate de seus admiradores. Agora, portanto, é com eles, como diria Pilatos.

11 de julho de 2010

Lendo o livro do mundo com Zygmunt Bauman

Por Nelson Patriota

“Os homens lutam e perdem a batalha, e as coisas que eles lutaram para acontecer, apesar da derrota, transformam-se para não ter o mesmo significado que antes, e outros homens têm de lutar por aquilo que agora se entende por outro nome”. É com essa citação de William Morris (apud A dream of John Ball), que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman descreve o oásis da esperança em que o homem contemporâneo se refugia, sempre que possível, a fim de contemplar (suponhamos), os escombros dos sonhos que deixaram para trás, como herança para os seus sucessores. Bauman, vale lembrar, é mundialmente conhecido por livros como “Mundo líquido”, “O amor líquido”, “A modernidade líquida”, que introduzem novas ideias na sociologia.

A citação de Morris, que integra a entrevista com Bauman publicada na revista Cult 138, escancara, por assim dizer, o estado da arte da utopia dos dias que correm, quando deparamos com questões que nunca são respondidas, porque um sortilégio oculto da linguagem as transforma em outras perguntas, que pouco ou nada guardam do conteúdo das anteriores, e estas não tardam a absorver a nossa atenção, esquecidos das suas antecessoras.

É particularmente preocupante que os sonhos cumpram o mesmo destino comum reservado às perguntas banais, cuja formulação dispensa uma resposta porque em geral se extinguem no próprio instante em que são formuladas. Ante a paisagem de terra arrasada que produzem, resta ao homem da pós-modernidade um último artifício: reformular o sonho, dando-lhe um novo nome, na impossibilidade de lhe dar um novo conteúdo. Quando esses sonhos se mostram capazes de contagiar outros seres humanos, são rebatizados de utopias.

Embora pessimista com o cenário da pós-modernidade, Bauman, como diligente discípulo de Morris, entrevê brechas na paisagem cerrada do mundo da vida. Entre a metáfora do caçador – para quem o mundo repousa sob um sistema divino, portanto, legítimo –, e a metáfora do jardineiro (“o jardineiro sabe que a ordem no mundo depende da constante atenção e esforço de cada um”), Bauman opta pelo segundo.

Mas de que meios dispõe o jardineiro do sociólogo polonês para remodelar o mármore partido da utopia, se essa própria palavra se fragmentou em milhões de fragmentos irrecuperáveis e dispersos no sítio de busca Google, ou, num processo inverso, se funde, num verbete do Thesaurus (do dicionário Roget) em um misto de “fantasia” e “irracional”, testemunhando, assim, conforme o próprio pensador, “talvez o fim da utopia”?

É que, no fundo, Bauman desconfia, na sua leitura panorâmica do livro do mundo, que há jardineiros de menos, enquanto os caçadores não cessam de se multiplicar em todas as latitudes. E os caçadores, já sabemos, não cuidam senão do jogo lúdico de perseguir a presa e, por extensão, outros caçadores, lobos que são uns dos outros…

Declara Bauman: “a maioria dos caçadores não considera que seja sua responsabilidade garantir a oferta na floresta para outros, que haja reposição do que foi tirado [...]. Pode ocorrer aos caçadores que um dia, em um futuro distante e indefinido, o planeta poderia esgotar suas reservas, mas isso não é sua preocupação imediata. Isso não é uma perspectiva sobre a qual um único caçador ou uma ‘associação de caçadores’ se sentiria obrigado a refletir, muito menos a fazer qualquer coisa”.

A tarefa dos jardineiros é, assim, inversamente proporcional à sua demografia: quantos menos são, maiores são os fardos que pesam sobre seus ombros. Por exemplo, cuidar do futuro do planeta.

No fundo, a mensagem do epígono de William Morris é de que chegou a hora de inverter a equação demográfica que subtrai jardineiros e faz proliferar caçadores. Um mundo mais equilibrado entre essas duas categorias humanas poderia, quiçá, assegurar a oferta de florestas para outras gerações de caçadores e jardineiros, garantindo, assim – por um artifício de metáfora –, que a escritura do livro do mundo não cesse, por falta de matéria-prima, na virada da próxima geração. Tudo isso, independentemente do aceno das utopias.

5 de julho de 2010

“Espelho quebrado”: romance ou outro gênero?

Por Nelson Patriota

A especificidade do romance não se resume a uma questão numérica. Assim, não basta que um autor escreva um texto ficcional de 200 laudas para transformá-lo automaticamente num romance. Um romance comporta aprofundamento dos seus caracteres centrais, quer em termos psicológicos, quer em suas contradições, vacilações, apostas existenciais etc. Comporta ainda sucessão temporal, idas e vindas, mudanças, digressões, experiências e aprendizados, acertos e fracassos. Histórias de vida, enfim. Mas histórias singulares, portanto únicas, embora guardem semelhanças com outras. Romance é, portanto, complexidade, interação, busca e conflitos. A leitura do livro Espelho Quebrado, de Lima Neto (edição do autor, 2010, 200 páginas) suscita esta questão: estamos realmente diante de uma narrativa de ficção, ou de um experimento literário diverso, o que quer que isso signifique?

Há um evidente propósito narrativo na tessitura de Espelho Quebrado, por si só uma metáfora que ambiciona resumir, na relação estabelecida entre essas duas palavras, o significado central do livro. E logo surgem obstáculos que o texto propõe ao seu leitor. Por exemplo, é possível contar a história de um adolescente abstraindo por completo a figura do seu pai, ignorando o papel central que um pai sempre exerce sobre a vida de um filho? Casos pontuais de pais falecidos – como o do livro –, não costumam anular, antes recrudescem os questionamentos pessoais dos filhos, relegados à condição de filhos sem pai, filhos em oposição ao pai, mas não de filhos sem referencial paterno.

Não é o caso, porém, do protagonismo de Gabriel (nome adequadamente angelical, como mostrará a narrativa), jovem de classe média que atravessa as agruras da primeira adolescência sem qualquer conflito interior, dificuldade de ordem material, crise de ordem metafísica ou dúvida psicológica sobre suas origens biológicas, seu lugar no mundo. No máximo, permite-se momentos de melancolia por razões às vezes explicitadas, outras vezes não. Afora uma paixão juvenil não correspondida, nada acontece de excepcional na vida do melancólico Gabriel. Mas, adolescente, não resistirá aos encantos de Renata, jovem de classe média, como ele, a essa altura um bem-sucedido executivo de uma firma próspera. Predestinado a obter placidamente tudo o que lhe agradar, Gabriel não enfrenta qualquer dificuldade na conquista da sua “cara metade”; pelo contrário, ela parece corresponder plenamente ao seu desejo. Embora à sua descrição escape qualquer elemento erótico, porque o mundo de Gabriel parece ser assim…

Sucede que Renata logo apresenta uma grave enfermidade cardíaca e só um transplante poderia salvá-la. Ora, Gabriel, o anjo, ouvira de um médico que “doar órgão é um ato de amor”. Resolve então de si para consigo que doará seu coração a Renata como prova a mais inconteste de seu amor. Como executar esse plano? Gabriel se ausenta da narrativa e logo surge um coração doado anonimamente para a enferma, salvando-lhe a vida.

Como esse estratagema foi executado? O cândido Gabriel teria cometido suicídio? Sua mãe, sogra, seus amigos não ventilam essa hipótese. Trata-se, então, de uma “licença poética” que precisa ser aceita pelo leitor, agora cúmplice de um jogo que deve ser visto apenas sob sua roupagem “romântica”: aquela que conta de uma autoimolação romântica.

Por trás de toda a trama, remanescem questões candentes não resolvidas: o egoísmo do protagonista, o sacrifício de toda uma vida de sua mãe que, embora empresária bem sucedida, não resolve a sua vida, vivendo sempre à sombra do filho único, depois de ter perdido o marido e o primogênito. Gabriel não receia dar esse golpe fatal em sua mãe, roubando-lhe, por meio de seu suicídio bem século XIX, o único filho que lhe resta, que é ele próprio? Relatos assim ficam mais bem colocados em formas narrativas sucintas, como ocorre naquele conto do hondurenho Augusto Monterroso, esgotado num único parágrafo: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Nada mais precisa ser acrescentado, porque a partir cada leitor circunstanciará os elementos narrativos ausentes. Um romance os descreveria.

Afora essas questões intrínsecas à estrutura romancesca, “Espelho quebrado” apresenta problemas não menos graves no que tange às questões de linguagem, como tautologias, formas verbais esdrúxulas, preciosismos, incorreções ortográficas etc. Essa dupla convergência de problemas torna o seu texto um verdadeiro antirromance, quer do ponto de vista narrativa, quer da linguagem.

20 de junho de 2010

Biografia tenta explicar o fenômeno Saramago

Por Nelson Patriota

Conhecido principalmente por não recuar diante de posições e ideias controversas, largamente exploradas em seus livros, o escritor José Saramago ganha agora uma biografia que ajuda a entender um pouco da atmosfera de polêmica e radicalismo que cerca seu nome e sua obra, não obstante a aparente unanimidade em torno desta, desde que recebeu premiações maiúsculas como o Camões (1995) e o Nobel (1998).

Intitulado apenas “Saramago – biografia”, o livro é assinado pelo experiente escritor português João Marques Lopes, com trabalhos publicados sobre Almeida Garrett, Eça de Queirós e Fernando Pessoa, e doutorando em Literatura Brasileira pela Universidade de Utrecht, na Holanda.

Escrita de forma cronológica, a biografia parte das raízes familiares de Saramago, fincadas na sua Azinhaga natal, “uma aldeia perdida no meio do Ribatejo”, que poderia muito bem ter saída de um conto de Miguel Torga. Por essa razão, Lopes não vacila em situar as origens da família do escritor entre os desfavorecidos da sociedade portuguesa, numa época em que a expectativa de vida no país era de 47 anos, enquanto o analfabetismo rondava espantosos 61,8%.

Fato dos mais curiosos cerca a origem do nome Saramago: a alcunha pespegada à família do futuro escritor foi incorporada ao seu nome – ele se chamaria tão somente José de Souza – por iniciativa de um notário “bêbado”, e quando foi percebida, meses depois, seu pai deixou como tal para evitar a canseira do conserto cartorial…

O fenômeno Saramago começa a ser explicado a partir do momento em que a família aldeã resolve se mudar para Lisboa, onda a escola pública findará por atrair o jovem ribatejano, e, em seguida, o mercado de trabalho – inicialmente como aprendiz de serralheiro mecânico, depois como jornalista, editorialista, escritor. A par disso, desde os dezesseis anos, Saramago adota o costume de frequentar bibliotecas públicas em Lisboa.

Esse hábito explicaria como Saramago adquiriu um conhecimento tão sólido da tradição literária portuguesa, notadamente de Eça de Queirós e de Fernando Pessoa. Este, aliás, seria “recriado”, juntamente com seu heterônimo Ricardo Reis, num livro essencial da bibliografia saramaguiana – O Ano da Morte de Ricardo Reis que, juntamente com Memorial do Convento, forma o pilar sobre o qual se assenta até hoje sua notoriedade literária.

Além de acompanhar fato a fato a vida de Saramago, o livro de Lopes traz revelações e curiosidades sobre o escritor, como, por exemplo, sobre seu romance de juventude, intitulado Terra do Pecado, que passou quase anônimo pela crítica, e que o escritor até hoje mantém em seu index prohibitorum pessoal. O biógrafo assim o descrever: “Terra do Pecado vale hoje mais como um exercício de escavação arqueológica no passado do escritor do que propriamente por razões de história literária, ainda que sua arquitetura geral e estilo estivessem longe de ser uma rematada tolice”.

Entre esse primeiro romance (1947) e outros experimentos de juventude e a publicação de Poemas Possíveis (1966), abre-se um hiato de quase vinte anos, no qual Saramago nada publicou. Findo esse hiato, porém, não deixará mais de publicar, e com uma profusão e uma riqueza de assuntos que não tardará a chamar a atenção da crítica internacional, não obstante o fato de ser ainda hoje a língua portuguesa pouco conhecida literariamente fora das fronteiras dos povos lusófonos.

Paralelamente a essa regularidade criadora, Saramago chamará a atenção sobre si por abraçar ideias controversas, como o iberismo – integração de Portugal à Espanha, seus reparos à democracia, como no romance Ensaio sobre a cegueira, seu comunismo “empedernido”, sua crítica ao totalitarismo sionista, sua recusa a certos conceitos literários em voga, como a autonomia do narrador.

Entre o escritor e o polemista, a biografia de Lopes oferece um rico painel de uma personalidade fascinantemente criadora, em torno da qual não costumam haver meios-termos, mas cuja obra ostenta um relevo inconfundível no arquipélago da língua portuguesa contemporânea.

No dia 18 último, essa biografia virou sua última página, com o anúncio da morte do grande ficcionista português, orgulho da língua portuguesa. A partir de agora, caberá aos leitores manter vivo o legado que José Saramago deixou a eles, lendo-o, comentando-o, discutindo-o. Considerados os parâmetros usuais de avaliação e reconhecimento da obra de arte não há razões consistentes para duvidar da perenidade desse legado.

18 de junho de 2010

Presença derradeira de Ascendino Leite

Por Nelson Patriota

Entre os conflitos e os anseios da terceira idade, Ascendino Leite encontrou a via da sua profissão de fé ao justapor duas palavras que, embora parecessem se antagonizar, acenavam para uma única possibilidade desejável. Eram elas “poesia ou morte”, título que ganhou a reunião de sua obra poética, lançada em 2006, pela editora paraibana Ideia. Nela encontra-se toda a produção poética desse vate tardio que, em si mesmo, testemunhou um milagre e um capricho das musas: a inspiração para o poema na quadra dos oitentano

Ao tornar-se poeta, depois de ter cumprido um trajeto que visitou o jornalismo, o romance, a tradução, o jornal literário, a crítica – roteiro que seria imitado, salvo pequenas diferenças, poucos anos depois, pelo macaibense Renard Perez –, Ascendino Leite fechou um ciclo de experiências literárias que lhe haviam aberto possibilidades ilimitadas, ao mesmo tempo em que pareciam fixá-lo no núcleo de eleição de sua vida. O humor, a autoironia, uma discreta sensualidade e um grande entusiasmo pela obra que passava a surgir com surpreendente facilidade, marcaram essa fase. Não por acaso um desses livros tem o título de O Nariz de Cíntia; outro reflete o dobre de finados de Poemas do Fim Comum; um terceiro remete, telúrico, a À Flor da Terra e, abrindo o ciclo, as fragrâncias de um Jardim Marítimo, possível influência do Cemitério Marinho de Valéry.

Tivemos o privilégio de prefaciar um dos seus volumes de poesia, cujo título, por si só, evoca uma sentimento por demais nosso: Por uma Saudade Azul. Por trás da cândida evocação, porém, o crítico Hildeberto Barbosa Filho entreviu acertadamente um “pequeno tratado dos sentidos”.

A alternativa “poesia ou morte” não deixava margem a dúvidas: a poesia passou a representar um valor de tal magnitude para o poeta, que se confundia com o sentido mesmo da vida, acompanhando-o e ajudando-o a enfrentar os achaques da idade e a distância que se interpôs entre sua solidão e seus semelhantes, mesmo os mais próximos.

Ascendino, porém, colocou-a em termos ainda mais pessoais, conforme reza a epígrafe que encima seu Poesia ou Morte: “É a poesia que me vai expulsar desta miséria, limpo como o corpo de um recém-nascido”. Em seu último jornal literário, Os Pecados Finais, ele já havia concluído: “O verdadeiro destino da palavra é com certeza a poesia. É o seu resumo, o seu destino, seu ponto de chegada”.

Se sua poesia octogenária se constitui um espanto dentro e fora da Paraíba, seu jornal literário, estendido ao longo de vinte volumes, é de uma originalidade tão marcante que fatalmente virará assunto de estudos no breve futuro.

Foi esse poeta-pensador (que poeta não o é?) que as letras paraibanas perderam nessa última semana. Tansfigurou-se, porém, num momento em que sua obra literária – romances, jornais, poesias, entrevistas, traduções, críticas – já haviam se tornado de domínio público entre os leitores da Paraíba, e para além dos limites físicos desse Estado. Lembre-se que ele aqui esteve, há poucos anos, para receber um diploma concedido pelo Instituto Histórico e Geográfico, ratificando os laços que manteve desde os primeiros anos de juventude com o Rio Grande do Norte.

Reportando-se à entrevista que deu ao Galo, em maio de 1998, vê-se ali que Ascendino Leite lembrou dois amigos que teve em Natal, o pianista Oriano de Almeida, de quem foi vizinho no Hotel Sol em várias ocasiões, e Câmara Cascudo, por quem nutria uma admiração ilimitada. Oriano foi seu “querido amigo”, com quem costumava trocar ideias, especialmente musicais. Sobre Cascudo, sabia ser detalhista: “Cascudo é um dos grandes luminares de uma vida de pensamento, como Gilberto Freyre, Joaquim Nabuco. A obra de Cascudo é o Brasil do nosso lado, mas é o Brasil todo”, sentenciou.

DESTAQUE:

“Em seu último jornal literário, Os Pecados Finais, ele já havia concluído: ‘O verdadeiro destino da palavra é com certeza a poesia. É o seu resumo, o seu destino, seu ponto de chegada’”.

26 de maio de 2010

Um beato atento à prosa dos rios…

Por Nelson Patriota

O poeta mato-grossense Manoel de Barros está comemorando seus 93 anos de vida, dos quais 73 dedicados à poesia, com um duplo triunfo: a publicação de sua obra completa e mais um novo volume de poemas, intitulado Menino do Mato, ambos chancelados pela editora paulista LeYa. O primeiro, um alentado volume de 496 páginas, reúne vinte livros do autor, dos quais quatro infantis; o segundo, que também está enfeixado na obra completa, compreende um total de 96 páginas, e é datado deste ano, revelando que o poeta continua em atividade, não obstante a idade avançada.

A crítica não costuma se preocupar com a poesia de Manoel de Barros. As razões mais diversas explicam esse procedimento. Talvez porque falte nessa poesia um diálogo regular com a tradição, o que torna difícil compará-la com outros poetas próximos, mesmo que, quer na abertura de um livro, quer no corpo de um poema, versos ou epígrafes de Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, Borges ou até mesmo Proust sejam citadas.

Talvez, ainda, porque essa ausência de diálogo com outras dicções poéticas tenha limitado sua obra a um circuito muito restrito, do qual o poeta faz questão de não sair sob nenhum pretexto.

Fosse em tempos passados, um fenômeno literário como o de Manoel de Barros teria grandes dificuldades para se firmar no meio literário. Em dias pós-modernos como os nossos, porém, as coisas seguem um curso diferente. O fenômeno Paulo Coelho está aí, desafiando a crítica brasileira há décadas, enquanto colhe triunfos no exterior…

Não é certamente o caso de comparar Manoel de Barros com o bruxo de O Alquimista e outras fantasmagorias. Manoel de Barros é um poeta a justo título visceral, no sentido de que bebe sua poesia na nascente da poesia mais cristalina que se possa conceber, se considerarmos que a ela se mantém fiel há mais setenta anos.

Poeta intuitivo? A verdade é que a fonte de onde Manoel de Barros recolhe seus poemas continua um motivo de perplexidade e encantamento para muitos leitores, cansados, certamente, do hermetismo de certos poetas que seguem uma trajetória exatamente oposta à dele, ou seja, são marcadamente cerebrais, álgidos, “difíceis”.

Não se pode negligenciar o papel que a temática ambientalista exerce na visibilidade que essa poesia vem ganhando desde uns tempos para cá. A abundância e o vigor de árvores, plantas, bichos, insetos, aves, seres marinhos, anfíbios, formam um burburinho de sons, uma sucessão de cores, uma dinâmica de movimentos que parecem não ter fim, em flagrante contraste com a escassa natureza presente nas cidades.

Por usar e abusar dessa fórmula em suas infinitas variantes foi que a crítica e a imprensa passaram a tratar Manoel de Barros de “poeta pantaneiro”, na suposição de que a fonte de sua poesia reside unicamente no Pantanal mato-grossense. Na recente entrevista que concedeu à revista Cult (n. 146), o poeta reagiu a esse aposto, desautorizando dois conceitos criados em torno de sua obra: “Sabemos nós que poesia mexe com palavras e não com paisagens. Por isso não sou poeta pantaneiro, nem ecológico. Meu trabalho é verbal. Eu tenho o desejo, portanto, de mudar a feição da natureza pelo encantamento verbal”.

Quem negaria ao poeta a transformação que ele operou na natureza que povoa sua obra, através do encantamento verbal de que é capaz de lançar mão, como um prestidigitador de recursos ilimitados?

Perguntado pela mesma revista como gostaria de ser lembrado, o poeta voltou a invocar a ideia de mudança: “Gostaria de ser lembrado como um ser abençoado pela inocência. E que tentou mudar a feição da poesia”.

Em Menino do Mato, o nonagenário Manoel de Barros mostra que não perdeu a destreza com a matéria-prima de que são feitos os poemas. A certa altura, o leitor depara com uma análise do fazer poético que não se enquadra nos esquemas didáticos tradicionais: “Escrever o que não acontece é tarefa da poesia”.

Uma autodefinição sucinta? Ei-la: “Sou beato de ouvir a prosa dos rios”.

25 de maio de 2010

Celebração da arte de Dorian Gray

Por Nelson Patriota

Por estes próximos dias, as diversas mídias locais terão bons “ganchos” para falar do artista plástico, poeta e ensaísta Dorian Gray Caldas. Comemorando 80 anos de vida e de arte (considerando-se que ninguém se faz artista, e, sim, se nasce artista, ao contrário daquele conhecido argumento de Simone de Beauvoir sobre o segundo sexo), ele acaba de inaugurar no Palácio da Cultura a exposição “Dorian Gray – Acervo do Artista”, evento que cobre as diversas fases de sua arte pictórica desde os anos 1950.

Tapeçarias, marinhas, murais, telas salpicadas de motivos domésticos podem ser vistas até o final de julho próximo no Palácio da Cultura. Mas esta é só a primeira fase do ciclo de comemorações que está programado para este ano. A Assembleia Legislativa, a Academia Norte-rio-grandense de Letras, o SESC e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte abrigarão, sucessivamente, a retrospectiva da obra de Dorian Gray, o que cumprirá um dos objetivos mais caros à agenda do evento: chegar ao maior número possível de pessoas dos mais diversos segmentos do estado.

Artista que combina informação e intuição, teoria e prática da arte, Dorian Gray sabe que lida com um ofício mutável e cujo fim está situado além do horizonte efêmero dos dias. É por essa razão que, ao agradecer ao poeta Paulo de Tarso as palavras elogiosas e verdadeiras proferidas por ocasião da abertura da exposição no Palácio das Artes, no dia 8 passado, Dorian Gray fez questão de frisar que a retrospectiva que colocava à apreciação do público norte-rio-grandense não assinalava a culminância do ciclo percorrido por sua arte. Enfático, declarou, de improviso, que o trabalho do artista nunca termina devido à própria natureza da arte, infinita, inesgotável.

Mais do que isso: a arte tem um custo pessoal, que varia para cada artista, mas que é invariavelmente alto. No caso de Dorian Gray, a consciência dessa cobrança que a arte faz à vida remonta há, pelo menos, dez anos. Na entrevista que nos concedeu para o jornal O Galo, em março de 2000, ou seja, às vésperas de fazer setenta anos, o artista confessava: “Eu sempre pensei que poderia viver plenamente como uma pessoa comum sem renunciar ao lado artístico, mas logo cedo vi que teria que fazer sacrifícios e renúncias ao homem, se quisesse obter um certo esplendor artístico, uma certa vivência artística. É impossível você conciliar as duas coisas”. E concluiu: “A gente paga um tributo muito grande ao artista”.

Se é verdade que a maior motivação a que um artista pode aspirar é o reconhecimento do valor de sua arte pelos seus contemporâneos, então é razoável aferir que o artista Dorian Gray pagou um tributo justo ao homem, realizando plenamente o adágio de Wilde que diz: “o artista é o criador de coisas belas”, abstraindo, assim, toda a gama de dificuldades que as teorias da arte habitualmente comportam.

Que melhor título se adequaria a um artista que se constitui numa síntese do melhor que a arte potiguar aspirou ser e o conseguiu, há mais de cinquenta anos; que explorou com talento, perícia e originalidade os mais diversos gêneros e estilos das artes plásticas, ampliando os seus horizontes, abrindo-lhes novos caminhos; cujos murais, à semelhança daqueles realizados por Rivera, valem por uma síntese histórica daquilo que, mais do que somos, nos tornamos?

Se a arte de Dorian Gray articula com tamanha desenvoltura a arte de nos traduzir, a nós seus contemporâneos, em nossos mais diversos momentos e situações, juntamente com o pano de fundo sobre o qual transcorre o nosso dia a dia, o inverso da equação nos desfavorece, porque não o compreendemos na sua totalidade artística, na medida em que ignoramos que, ao lado do artista plástico, há o poeta, o ensaísta, o historiador, o escritor enfim, que maneja a palavra escrita com não menor paixão que os instrumentos das artes plásticas.

5 de maio de 2010

Notícia do sarau Marize-Prévert

Por Nelson Patriota

As comemorações do ano da França no Brasil se restringiram oficialmente ao ano de 2009. A rigor, porém, a agenda de aproximações aberta entre brasileiros e franceses prossegue este ano. A Aliança Francesa de Natal, por exemplo, tem larga experiência nessa área, desde os tempos áureos do diretor Bernard Alléguède, nos anos 1970 e, pelo visto, esse processo está em plena renovação. O sarau Marize de Castro/Jacques Prévert, abrindo a temporada 2010 na quinta-feira passada, mostrou o grande potencial que eventos dessa espécie sempre apresenta. E não deixou de funcionar como um contraponto “acidental” ao evento luso-brasileiro reunido por estes dias no Teatro Alberto Maranhão.

Conduzido com humor e irreverência pelo mestre-de-cerimônias Rodrigo Bico caracterizado de palhaço circense, e pela professora Selma Bezerra, mas também com a própria poeta natalense, o sarau alternou poemas de Marize com poemas do francês Prévert sem qualquer preocupação em estabelecer paralelos, apontar coincidências ou diferenças, mostrar afinidades etc. Pelo contrário, o que prevaleceu foi um confronto sem ranhuras nem estranhamentos entre dois poetas de épocas muito distintas. Por que haveriam de se confrontar, se o primeiro já tem o seu lugar definido nas letras francesas como um poeta “menor”, enquanto a segunda, como observou o poeta Dorian Gray, é um nome que já ocupa posição destacada na poesia potiguar?

A distância tranquilizadora entre os dois poetas permitiu que viessem à tona outras componentes próprias a um sarau poético tão singular. Sobretudo no que respeita à poesia de Marize Castro, cuja sujeição a um exercício frequente de oralidade parece aí encontrar um espaço propício ao seu crescimento.

De fato, surpreende como a poesia de Marize parece se renovar quando falada. Em parte, a explicação pode ser encontrada na composição específica dos seus versos, ao mesmo tempo cáusticos e sutis, incisivos e discretos, passando ao leitor (ou ouvinte) a ideia de que algo ficou por dizer. Quem sabe, o próximo poema desfaça essa impressão? Novo engano, em parte. Porque o poema que se lê a seguir diz algo de si, não do poema anterior. Que recurso, então, restaria ao desamparado leitor? Ler mais Marize, na esperança de que o círculo se feche e a verdade poética que parece em fragmentada mil poemas por fim se some num todo harmônico e acabado.

É evidente que essa impressão, a qual tem tudo a ver com a magia do poema enquanto instância particular da linguagem, pode ser captada na leitura silenciosa. Mas ouvi-la de viva voz num auditório voltado exclusivamente para esse fim parece acrescentar um grão de sal a cada verso, independentemente de que a leitura provenha de Rito, de Marrons Crepons Marfins, de Esperado Ouro etc.

Se a cada poeta é dado escrever um único livro – como alguém já propôs –, não importa que multiplicado por dez, vinte ou mais, com mais razão Marize Castro persegue o seu poema em cada um de seus livros, pois cada um acrescenta um verso que retoma o ponto em que o anterior foi interrompido. E aí talvez se explique a necessidade de lê-los um a um a fim de recolher os versos que prosseguem nos livros seguintes…

A leitura da poesia de Jacques Prévert, por sua vez, se prestou a um caráter “didático”, haja vista que é um poeta pouco ou nada conhecido pelo leitor brasileiro mediano de poesia, mas que apresenta um atrativo próprio que reside na decantação da poesia do cotidiano. Não se pode esquecer também que um de seus poemas ganhou notoriedade internacional, depois de musicado por J. Kosma. Referimo-nos, é claro, a “Les Feuilles Mortes”, grande sucesso na voz de Yves Montand e Mireille Mathieu, entre outros grandes intérpretes da canção francesa. Em sua carreira internacional, ganhou versão inglesa, chamando-se “The Falling Leaves”, e é um hit atemporal da canção americana.

22 de abril de 2010

Rimbaud e as perguntas que não querem calar

Por Nelson Patriota

A ambiguidade da obra de um artista aliada a uma vida aventureira são garantias de perenidade literária? Na opinião do crítico americano Edmund White, a resposta é afirmativa, caso se trate da obra e da vida do poeta Arthur Rimbaud. Em outras palavras, teríamos a seguinte equação: Visto pelo lado da obra, tem-se em Rimbaud um caso único de construção de uma obra poética precoce e circunscrito a quatro ou cinco anos.  Quanto à sua biografia, rica em aventura e mistério, seria o anverso dessa moeda que pôs em circulação em todo o mundo o mito Rimbaud, e que não cessa de se valorizar no mercado das letras.

Evidentemente, pode-se acrescentar ao dístico rimbaudiano um terceiro protagonista que, por si, já vale uma “biografia inglesa”. Trata-se do poeta Paul Verlaine, simbolista que escreveu alguns dos poemas mais musicais e líricos da poesia francesa.

Mas é isso que acontece com cada nova biografia de Rimbaud: realiza-se acentuando, não esclarecendo, o mistério que cerca a vida do poeta adolescente, e do não poeta da maturidade. Em outras palavras, o que explica (se algo o faz) a transição da poesia para o tráfico de armas, a troca da vida cosmopolita de uma Paris buliçosa e vibrante por uma vida trânsfuga, de autoexilado, de fora-da-lei?

Mudança tão radical na biografia dos poetas é talvez o aspecto mais assombroso da vida de Arthur Rimbaud. É verdade que sempre houve poetas rebeldes, arredios aos encantos da vida burguesa, avessos aos apelos da sociedade, e que, num rompante, se lançaram mundo afora, como peregrinos de uma causa não verbalizada, em busca de um deus desconhecido, de uma graça indisponível na terra.

Esses exemplos de rebeldia parecem inofensivos, quando comparados ao gesto irreversível feita por Rimbaud, sabe-se lá por quê. E é por não sabermos esse único porquê, que continuamos a nos interrogar sobre ele.

Recentemente, uma fotografia de um suposto Rimbaud adulto foi encontrada por acaso num mercado de pulgas de Paris. Especialistas consultados a respeito, garantem que se trata de uma foto de Rimbaud, tirada em 1880 num hotel de Aden, no Iêmen, quando o poeta tinha 26 anos.

Ao redor do poeta veem-se pessoas, possivelmente europeus, – cinco homens e uma mulher, esta, à direita do poeta, todos colocados sobre um estrado. Ao fundo abre-se o vão de uma porta como de um armazém. Apenas Rimbaud e um cidadão desconhecido, com porte militar, estão de pé encarando a câmera. A indiferença dos demais não é menos surpreendente!

Nada resta da vida que animou essa cena de enquadramento correto. Teriam tido um dia bom? Seriam meros vizinhos do poeta, com os quais ele proseava nas horas livres, quando não dispunha de armas para contrabandear ou haxixe para amenizar as agruras da vida selvagem? Quem sabe, lembrava de episódios pitorescos da vida parisiense nessas conversas? Ou das desavenças que teve com o amigo Verlaine, logo após o rompimento do seu affaire com o autor de Sagesse? Ou seria de desprezo sua última impressão sobre o mundo dito civilizado?

Uma simples foto, poupada ao tempo e atravessando 130 anos, nos chega como um fato isolado, indevassável em sua singularidade e, ao pouco que nos fornece de informações, nos cobra intermináveis indagações que apenas reforçam os aspectos míticos da biografia do poeta. Nada parece ameaçar seu domínio sobre nossa imaginação, refém de sua história sem paralelo, cuja única porta concreta é seu barco ébrio sempre a caminho de uma estação no inferno.

14 de abril de 2010

Um profissional da palavra

Por Nelson Patriota

Entrevista do escritor Nelson Patriota para a revista Saga Cultural, da Livraria Siciliano, e publicada na edição de abril de 2010 (ano II, n. 8).

1 – Antes de ser escritor você é jornalista. Quando e como você descobriu o jornalismo?

Nelson Patriota ―Ser jornalista foi uma veleidade da minha infância que sobreviveu à minha adolescência e que finalmente se tornou real a partir de 1972, quando ingressei como “tradutor de telegramas” no Jornal A República. Os telegramas eram notícias enviadas via telex pela agência Associated Press em espanhol e em inglês. Com um algum conhecimento de inglês (meus irmãos mais velhos Waldemir e Ferdinando eram professores e tradutores de inglês) não tive dificuldade em conseguir o lugar vago em A República no contato que mantive com o editor Manoel Barbosa, um jornalista pernambucano que fora contratado pelos diretores Marcelo Fernandes e Marco Aurélio de Sá. Com acentuado gosto literário, Barbosa me ofereceu outras oportunidades no jornal, uma delas (a que fez a ponte entre jornalismo e literatura), uma página dominical que denominei apenas de “Cultura” cuja estréia foi no dia 06 de setembro de 1975. Aí lancei meu primeiro conto, “A Estrada”, escrito especialmente para a “Cultura”. Na sequência, publiquei regularmente contos e artigos meus e de outros escritores que pouco a pouco foram tomando conhecimento e interesse pela página literária dominical. Algumas dessas primeiras experiências literárias foram aproveitadas no meu livro Colóquio com um leitor kafkiano, lançado no ano passado.
2 – Quanto tempo você tem de carreira jornalística?

NP ―Desde meu ingresso em A República, sempre estive, de lá até aqui, exercendo alguma atividade jornalística, quer como repórter, colunista de jornal ou do site www.substantivoplural.com.br , crítico literário, resenhista de livros e revistas, editor de revistas e livros. Isso já faz 38 anos, mas nos últimos dez anos, venho dividindo essas atividades com a de escritor e tradutor de inglês, francês e, mais raramente, espanhol.

3 – Fale-me da época de faculdade de jornalismo, suas lembranças. Existiu aquele momento em que você descobriu a sua vocação na área, ou isso aconteceu já na prática?

NP ―Quando cursei jornalismo na UFRN eu já trabalhava regularmente em jornal e já havia concluído o curso de Ciências Sociais (UFRN). Fiz jornalismo para atender a uma exigência do Sindicato dos Jornalistas à época, mas reconheço que foi uma decisão acertada. Lá fiz amizades com colegas e professores e aprendi coisas úteis à profissão.

4 – Quando você descobriu o jornalismo cultural? Foi amor a primeira vista?

NP ―Descobri o jornalismo cultural no jornal A República – como disse acima –, quando fundei e dirigi a página dominical “Cultura”, embrião do futuro caderno cultural “Contexto” que dirigi em sua última fase, nos primeiros anos dos 1980. Desde então, venho trabalhando em alguma forma de jornalismo cultural: na segunda metade dos anos 1980, na Tribuna do Norte. Nos anos 1990, no Diário de Natal, na revista RN Econômico, no jornal Dois Pontos, no Jornal O Galo (1996 a 2001), no site www.substantivoplural.com.br e, nos últimos quatro anos, como editor da Revista do Conselho Estadual de Cultura, entidade à qual pertenço, e ainda colunista da revista Papangu.

5 – O que a carreira de jornalista representa na sua vida? Quais as principais realizações que essa carreira lhe proporcionou?

NP ―O jornalismo me ofereceu muitas oportunidades de trabalho, de viagens para congressos, bienais, encontros literários etc. seja no campo cultural, seja em outros campos, embora quase todo o tempo em tenha trabalhado com jornalismo cultural. Aí travei contato com artistas, intelectuais, poetas, escritores os mais diversos, especialmente durante os seis anos em que editei o jornal O Galo, no qual fiz inúmeras entrevistas com escritores e poetas de todo o Brasil, como Ivo Barroso, Jaci Bezerra Lima, Edson Nery da Fonseca, Jorge Tufic, Renard Perez,Idelette Muzart, Ascendino Leite,Paulo Bezerra,  Bruno Tolentino, Jomard Muniz de Brito, Ronaldo Correia de Brito, Alberto da Cunha Melo, Gilberto Mendonça Teles, Francisco Carvalho, Hildeberto Barbosa Filho, Francisco Dantas, Maria Lúcia dal Farra, João de Jesus Paz Loureiro, Marcus Accioly, Marco Lucchesi, Alexei Bueno, e mais: Franco Jasiello, Marcos Silva, Dorian Gray Caldas, Nilson Patriota, Nei Leandro de Castro, Sanderson Negreiros, Tarcísio Gurgel, Bartolomeu Correia de Melo, Dailor Varela, Celso da Silveira e outros e outros mais. Enfim, jornalismo e literatura estão de tal modo entrelaçados em minha vida profissional que não consigo separá-los.

6 – O Que você acha do jornalismo cultural potiguar? Como você relaciona com o jornalismo cultural desenvolvido no resto do Brasil?

NP ―O jornalismo cultural potiguar tem uma história de muitas lutas e muitas conquistas. Revistas como A Cigarra, O Bando, Milho Verde; suplementos literários como Contexto (A República) e o jornal O Galo são pontos de referência desse gênero. A circulação há cerca de três anos da revista cultural Papangu (da qual sou colunista), o surgimento de uma revista como a Palumbo, de um novo jornal diário, a manutenção de espaços culturais na Tribuna do Norte e em outros jornais revelam que esse tipo de jornalismo está vivo e em transformação. O mesmo se passa com a grande imprensa nacional, que está sempre tentando coisas novas, notadamente no Estadão e na Folha de S. Paulo. Revistas como Cult, Bravo, Piauí mantêm viva a discussão cultural. Mas experiências regionais, como a revista Continente, do Recife, e o suplemento Correio das Artes, do jornal A União, na Paraíba, demonstram que cultura e arte são questões que continuam vibrantes e inspiradoras.

7 – Em que momento surgiu o Nelson escritor?

NP ―Minhas primeiras experiências como ficcionista datam de 1975, quando criei a página “Cultura” encartada na edição dominical de A República. Então, o jornalista e o escritor são contemporâneos.

8 – Quantos anos de carreira como escritor?

NP ―Quase o tanto de anos no jornalismo: 35 anos.

9 – Qual o papel da literatura em sua vida?
NP ―a literatura é um dos suportes da minha vida, e, ao mesmo tempo, um objetivo a perseguir com a minha própria obra literária em progresso.
10 – O que te realiza mais, a carreira de jornalista ou de escritor? Ou ambas se completam?
NP ―Creio que ambas, pois é difícil, senão impossível, separá-las.

11 – Que livros da sua carreira você destaca e por quê? Existe (em) aquele (s) com um significado especial? Por quê?

NP ―Destaco dois: a Antologia Poética de tradutores Norte-rio-grandenses, que lancei em 2008 pela Editora da UFRN, pelo desafio que representou para mim reunir uma tradição de tradutores de poesia do meu Estado, e onde fiz uma descoberta inteiramente casual (e não menos intrigante, pois continua não resolvida) acerca de uma tradução de um poema de Walt Whitman feita por Câmara Cascudo, e que narro com detalhes na introdução que escrevi para a Antologia, porque se trata de uma questão até então ignorada pelos estudos cascudianos. Destaco ainda meu Colóquio com um leitor kafkiano, por reunir diferentes momentos e motivos literários meus. Menos pessoais, minhas biografias A Estrela Conta e No Outono da Memória são obras que contribuem para as histórias de vida norte-rio-grandenses. Destaco ainda meu trabalho em livros como 400 nomes de Natal e Vozes do Nordeste (com o escritor Pedro Vicente Costa Sobrinho), e as edições críticas que organizei do livro Corpo de Pedra, de Bosco Lopes, 113 traições bem-intencionadas, de Luís Carlos Guimarães, e da obra reunida de meu pai, o poeta Luís Patriota. Finalmente, meu trabalho de jornalista cultural/escritor jornalista na edição da Revista do Conselho Estadual de Cultura, cujo quarto número está prestes a sair.
12 – Após uma carreira consagrada na literatura, o processo de escrita até o lançamento de um livro ainda te proporciona surpresas? Fale desse momento.

NP ―A escrita de um livro é sempre um processo de descobertas, insights, surpresas. A gente nunca está totalmente senhor do texto, pois na medida em que o escrevemos, novas sugestões e descobertas vão ocorrendo, às vezes mudando completamente o projeto original. E às vezes isso ocorre para melhor. Escrever, nesse aspecto, é uma oportunidade privilegiada de dialogar com o nosso inconsciente. Sobre surpresas em lançamentos, confesso que fiquei particularmente feliz com o público que compareceu ao lançamento do meu No Outono da Memória, mas quero crer que isso se deveu especialmente ao carisma do biografado, o jornalista Ubirajara Macedo.

13 – Aliás, quais as grandes realizações da sua vida proporcionadas pela carreira de escritor?

NP ―Cito especialmente o meu Colóquio com um leitor kafkiano e a minha Antologia poética de tradutores norte-rio-grandenses, bem como os diálogos que travei com grandes nomes da literatura brasileira, citados acima, durante as entrevistas para o jornal O Galo e outros jornais, estão entre os pontos culminantes da minha carreira como jornalista e escritor. Afinal, o tema invariavelmente girava em torno do fazer literário. Numa outra vertente, tenho realizado trabalhos de tradução e revisão de textos literários e técnicos para a Editora da UFRN e outras instituições. Para a Edufrn traduzi, entre outros, o livro Como melhorar a escravidão, um pequeno livro do viajante inglês Henry Koster que compara o sistema escravocrata brasileiro com o britânico, e Literatura de Cordel no Nordeste do Brasil, da professora Julie Cavignac, sobre o cordel brasileiro. Mas é claro que a publicação de meus próprios livros me abre uma vereda mais pessoal, portanto, mais estimulante intelectualmente. No campo jornalístico, destaco a edição comemorativo dos 60 anos do jornal Tribuna do Norte, que saiu em 24 de março passado, como um dos trabalhos jornalísticas mais gratificantes da minha carreira.

14 – Qual sua visão da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras?
NP ―Creio que a ANL cumpre um papel atualmente abaixo de suas possibilidades reais, haja vista que dialoga pouco com a comunidade, o que a isola numa posição desconfortável, quando comparada com o muito que poderia fazer nesse e em outros setores da vida cultural. Não obstante, é uma instituição importante para a vida cultural norte-rio-grandense pelo potencial de que dispõe.
15 – Como é o seu processo de criação? Sua vida passa por muitas mudanças quando está em pleno processo de criação de uma obra?
NP ―a rotina do trabalho jornalístico nas redações dos jornais me ensinou a disciplinar o trabalho intelectual. Procuro organizar minhas atividades de modo que uma não atrapalhe a outra, fazendo sempre uma coisa de cada vez.

16 – Além do dom da escrita, que características você acha que um bom escritor deve ter e cultivar?
NP ―Informação literária, conhecimento do seu tempo, engajamento com o mundo real. Estas são condições fundamentais para se escrever.

17 – O que você acha que te trouxe até aqui – um dos mais referenciados autores da literatura potiguar?
NP ―Não estou seguro de ser tanto… Mas devo declarar a meu favor que tenho trabalhado com disciplina na área da cultura há mais três décadas. É normal que se colham alguns frutos depois de tanto tempo.

18 – O que você acha da nova safra de escritores que vem surgindo? Você vê muitas diferenças para os escritores que surgiam no início da sua carreira? A forma de fazer literatura mudou? Fale-me sobre isso.
NP ―É difícil se falar dos contemporâneos porque corremos o risco de sermos precipitados nos julgamentos e, portanto, injustos. Mas creio que os novos nomes das nossas letras, seja na poesia, seja na prosa, deparam com os mesmos problemas: como dar conta de tantas leituras essenciais? Os melhores são justamente aqueles que não temem esse desafio e que, portanto, dialogam com a tradução sem perder de vista as especificidades de sua própria época.

19 – Em qual carreira o Nelson Patriota é melhor, como escritor ou como jornalista? Por quê?
NP ―Prefiro evitar polêmicas a esse respeito. Uma coisa é necessária à outra, ou seja, jornalismo e literatura formam um traçado único e reto na minha carreira de modo que o presumível bem que nela existe se deve à mescla entre o fazer jornalístico e o fazer literário.

20 – O que você acha dos e-books e do surgimento de inúmeros e-readers no mercado?
NP ―É uma decorrência da evolução da técnica, um fato consumado, então não vale a pena brigar com eles. Além do mais, oferecem alternativas de leitura, o que é sempre positivo. Acho, apenas, que isso porá fim ao livro em papel, até por uma necessidade estética. Há coisas que encontram sua forma ideal de expressão no formato do livro tradicional, sem falar que ler nesse formato é incomparavelmente mais confortável para a visão e para o tato, não fazendo sentido, portanto, que se troque uma forma melhor de leitura por outra inferior.

21 – Você acredita no fim do livro de papel, ou acha que, assim como o que aconteceu com a imprensa escrita com o surgimento da TV, que se adaptou a nova mídia, o e-book é mais uma mídia que provocará adaptações na literatura tradicional?
NP ―como já respondi, em parte, a este pergunta na questão anterior, acrescento somente que os avanços da técnica se dão em muitos níveis. O aparecimento de uma nova mídia como o e-book não interrompe o processo de evolução do livro em papel, cada dia mais cativante. Não há por que os dois não conviverem.

22 – Você pretende se adaptar a essa nova mídia? Podemos esperar e-books do Nelson Patriota?
NP ―Claro que sim. Por sinal, meu livro A Estrela Conta está disponível no site substantivoplural.com.br. É, portanto, um e-book.

23 – O leitor virtual proporciona o mesmo prazer do leitor tradicional?
NP ―Prefiro ler ficção, entre outros textos longos, no papel, mas leio jornais e revistas na internet habitualmente.

24 – Atualmente você é colunista do blog cultural substantivoplural.com.br e também edita revistas. Você transita entre as novas tendências da imprensa e o que já é consagrado na forma como se faz jornalismo. Você acredita que é papel do profissional de comunicação se adaptar às novas mídias? Você acha que ele será engolido caso não se adapte? Existirá espaço para quem permanecer exclusivamente atado aos modelos mais antigos?
NP ―Como todos esses temas que você cita estão acontecendo simultaneamente, é difícil prever como será o amanhã para o jornalismo. Mas creio que sempre haverá espaço para os bons profissionais da notícia e da opinião e estes, a propósito, são justamente os que procuram se manter atualizados com o que ocorre de novo em sua profissão.

25 – Algum novo projeto em vista?

NP – Estou com um novo livro pronto. Seu título é Artigos e crônicas de Edgar Barbosa, editado pela Editora da UFRN e selecionado, organizado, anotado e apresentado por mim. Seu lançamento ainda está em estudo, mas deverá acontecer este semestre em algum evento comemorativo do centenário de nascimento de Edgar Barbosa, mesmo que um pouco atrasado, haja vista que a efeméride aconteceu no ano passado. O livro reúne um total de 50 crônicas do escritor ceará-mirinense, inéditas em livro, enfocando diversos assuntos da vida norte-rio-grandense. É preciso salientar que Edgar Barbosa é uma das grandes referências na nossa crônica. Estou organizando um novo livro, reunindo alguns dos artigos que venho publicando nos últimos três anos no jornal Tribuna do Norte e no site substantivoplural.com.br. Todos os textos devem tratar de autores e livros norte-rio-grandenses.

13 de abril de 2010

Acerca de alguns dispersos de Edgar Barbosa

Por Nelson Patriota

Jornalistas e escritores costumam deixar atrás de si, com o passar dos anos, amiúde inadvertidamente, um volumoso acervo daquilo que comumente é designado por “esparsos e dispersos”. São textos que, por algum motivo, ficaram como que esquecidos pelo autor, ou à espera de uma oportunidade para publicação que não aconteceu. Às vezes é necessário o esforço de uma geração posterior para que esses textos saiam do limbo do anonimato.

Diferentemente do ofício do livreiro e do editor, o trabalho do pesquisador de dispersos, que inclui também a preparação de texto, tem um sério óbice: a defasagem, haja vista que se ocupa de escritos que foram destinados a um público já deixado para trás. Trata-se, portanto, de um trabalho que só encontra justificativa na expectativa de que o acervo em organização ultrapasse, em virtude de suas qualidades intrínsecas, como estilo, temática, informação de primeira mão, os umbrais da sua época e desperte o interesse de novos leitores.

A trajetória de cronista do escritor Luís da Câmara Cascudo é um bom exemplo desse fenômeno, na medida em que permanece um desafio que, até hoje, não foi devidamente equacionado pelas diversas instituições culturais do Estado. É louvável, nesse aspecto, o esforço que o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, através do seu presidente, o escritor Enélio Petrovich, vem fazendo junto à Editora da UFRN, ao Sebo Vermelho e outros, para dar conta do projeto serial “O Livro das Velhas Figuras”, reunindo as centenas de Actas diurnas que Cascudo deixou na imprensa potiguar.

O trabalho solitário e incansável do escritor Jurandy Navarro na recuperação da obra relegada pelo padre Luiz Monte é outro exemplo que vem se traduzindo em resultados que totalizam, até agora, dez volumes. Esse número, porém, ainda é parcial e deve ganhar um acréscimo ainda este ano.

Edgar Barbosa também se presta a exemplificar essa condição de autor de “dispersos e esparsos” que convidam à publicação. Sua longa passagem pelo jornal A República, em fins dos anos 1920, enveredando pelas três décadas seguintes, e abrindo-se numa estreita colaboração com outros veículos da nossa imprensa, tipifica bem tal condição. São dezenas de centenas de textos – crônicas, artigos, notas, críticas, observações das mais várias espécies – que permanecem em boa parte inédita.

Uma fração desse acervo, no qual sobressaem perfis de intelectuais norte-rio-grandenses, o próprio Edgar Barbosa se encarregou de selecionar e publicar, sob o título de Imagens do Tempo, em 1966, através da Imprensa Universitária da UFRN.

Uma outra fornada de inéditos seus compõe o  livro “Artigos e Crônicas de Edgar Barbosa – Volume 1 (1927-1938”, que tivemos a missão de organizar e que foi lançado pela editora da UFRN, dias atrás, num evento acadêmico.

A edição teve uma acolhida favorável, entre outros, por parte do jornalista Woden Madruga, o qual, em pelo menos três datas de seu “Jornal de WM”, além de reiterar a excelência da prosa barbosiana, se demorou longamente na figura da vaporosa e elusiva Didi da Câmara, poetisa que foi objeto de uma crônica do ensaísta ceará-mirinense, mas cuja identidade e respectiva obra permanecem envoltas em instigante nebulosa.

Em sua Cena Urbana do dia 1º deste mês, o jornalista Vicente Serejo entendeu que a edição que organizamos para a Editora da UFRN seria uma reedição, sob outro nome, de Imagens do Tempo. Esclarecemos que se trata de obras diferentes. O livro organizado por Edgar Barbosa reúne textos que ele publicou na última fase de sua participação em A República, isto é, no período compreendido entre 1947 a 1957; o nosso, remonta aos anos de 1927 a 1938.

Por fim, adiantamos que a edição de Artigos e Crônicas de Edgar Barbosa deverá ser acompanhada de um segundo volume, a sair ainda este ano, conforme projeto aprovado pela direção da Edufrn.

6 de abril de 2010

Como o acaso fez de Bartola um escritor

Por Nelson Patriota

Costuma-se falar da “carreira” de escritor, do mesmo modo como se fala da carreira dos funcionários públicos, dos militares etc. Há, implícita aí, a certeza de que algo corre por sobre o fio do tempo, seguindo um ciclo que culmina com a aposentadoria – no caso dos funcionários públicos, inclusive o das armas. A “carreira” de um escritor não oferece um quadro tão nítido de ciclo a percorrer, de metas a cumprir culminando num previsível fim.

Seria mais adequado se falar na “carreira” que um escritor constrói, e o máximo de proximidade que ela permite com a noção de ciclo citada acima é que, ao invés de galgar postos e acumular benefícios, um escritor escreve livros, lança-os em eventos planejados para essa finalidade… E quase nunca se aposenta.

Nesse aspecto, a carreira do escritor Bartolomeu Correia de Melo, o Bartola, é um exemplo perfeito do escritor referido acima. Apenas paradoxalmente, a carreira de escritor de Bartola começou com a proximidade de sua aposentadoria como professor universitário do departamento de Química da UFRN. À medida que um profissional declinava, outro ascendia.

Resultou dessa progressão que o escritor começou a se impor ao professor. Agora que o escritor reina sem concorrência, pode-se falar que Bartola administra sua carreira de escritor com disciplina e método. Mas sem planos de aposentadoria…

Outro detalhe que chama a atenção, é que quase tudo que diz respeito à carreira literária de Bartola começou por obra do acaso, como ele confessou na entrevista publicada nesta TN no dia 20 passada, concedida à repórter Maria Betânia Ribeiro. Dentre casualidades outras, salientou o escritor o fato de ter nascido numa família de leitores, especialmente sua mãe, mas também o seu irmão, o poeta Paulo de Tarso Correia de Melo. A convivência com escritores e leitores de ficção se tornou algo familiar para ele desde muito cedo. Nesse ponto, sua trajetória de vida intelectual não difere substancialmente da de outros escritores, embora haja aqueles que se explicam por uma vertente mais “heroica”: os chamados “self-made writers”, escritores que se fizeram sozinhos, se é possível se falar assim. Minoritários, com certeza.

A certa altura da vida, após realizar uma carreira bem-sucedida no ensino superior, Bartola se perguntou: “por que não tentar escrever algumas das histórias que testemunhei ou me contaram (ou imaginei?) nas minhas andanças por Ceará Mirim e adjacências?”

Foi aí que o escritor realmente nasceu. Outro acaso se encarregou de conduzi-lo ao Olimpio dos escritores: a iniciativa do escritor Carlos-Newton Júnior de inscrevê-lo, sem que ele o soubesse, no concurso da União Brasileira de Escritores, seção pernambucana, iniciativa que culminou com Bartola arrebatando o primeiro prêmio com o livro Lugar de estórias, coleta meio ao acaso que ele havia de alguns dos contos que vinha escrevendo desde há alguns anos. De acréscimo, obteve ainda um contrato com a editora Bagaço, do Recife.

Um outro acaso o transformaria em best-seller de livros infantis, graças a um arquivo  eletrônico enviado para a Bagaço com contos do seu segundo livro, Estórias quase cruas, no qual constava um conto infantil que Bartola escrevera para os seus netos, mas que não pensava publicar.

Frente a tantas casualidades, pensamos que hoje Bartola já pode dispensar os serviços desse operoso e imponderável auxiliar. Referimo-nos ao seu terceiro livro de contos, Tempo de estórias, que ele lançará no dia 14 próximo, e que reúne mais quinze contos inéditos e cinco outros retirados do livro Estórias quase cruas, o qual que ele decidiu que não será mais reeditado.

Na orelha que escrevemos para esse livro, perguntamos: qual Bartola é o melhor? Será o dos contos novos ou o dos antigos? No fundo, trata-se de uma pergunta ociosa, tirante o fato de ser mais um estímulo motivador ao leitor. Porque é mais que evidente que a literatura que Bartola escreve há duas décadas com um estilo todo seu e uma arte toda própria dispensa estímulos. Fica então a provocação: qual Bartola é melhor: o de ontem ou o de hoje? Responda o leitor”.

4 de abril de 2010

Observações sobre uma anedota kafkiana

Por Nelson Patriota

Diz uma anedota que o filósofo Gyorgy Lukács reviu suas opiniões sobre a obra de Franz Kafka depois dos excessos praticados pelos soviéticos em represália à revolução húngara de 1956, defendida, entre outros, pelo autor de A teoria do romance. Se, até então, Kafka não passava, para o filósofo húngaro, de um autor “burguês” e “alienado”, depois da repressão soviética, sobretudo depois do contato direto com a burocracia estalinista e seus métodos persuasivos nada ortodoxos,  ele reabilitou Kafka para o rol dos escritores “realistas” (na nomenclatura lukacsiana, uma qualidade acima de qualquer disputa).

Condenações de suspeitos antes de (ou sem) serem julgados, labirintos jurídicos intermináveis, barreiras burocráticas intransponíveis, enfim a ocorrência sem prévio anúncio do absurdo e do grotesco no mundo da vida cotidiana foram argumentos decisivos para que Lukács reabilitasse o escritor tcheco.

É possível dizer que, desde o final dos anos 1950, portanto, as obras de Kafka ganharam direito a um lugar no cânone socialista, pouco depois do seu triunfo na sociedade burguesa europeia.

Esse processo culminou na popularização do adjetivo “kafkiano”, sempre que alguém depara, no seu dia a dia, com um fato de ordem burocrática cuja razão de ser é supostamente atanazar a vida das pessoas. Ocorrências de situações absurdas, confusas, de motivações obscuras, também costumam ser rotuladas de kafkianas.

Pode-se dizer, todavia, que a semântica do adjetivo kafkiano ainda não está de todo consumada. O escritor americano Louis Begley acaba de lançar no Brasil seu “O mundo prodigioso que tenho na cabeça: Franz Kafka”, onde volta a discutir, entre outros assuntos, o polêmico termo. Embora evite conjeturar novas hipóteses, Begley anima a discussão ao defender que “kafkiano” não seria senão o efeito que a obra de Kafka produz nos seus leitores, experiência que, para o biografo americano, pode se resumir a uma espécie de “claustrofobia do mundo”.

Ou, nas palavras de Modesto Carone (primeiro tradutor brasileiro do Kafka original) kafkiano seria um termo aplicável a uma “situação de impotência do indivíduo moderno que se vê às voltas com um superpoder que controla sua vida sem que ele ache uma saída para essa versão planetária da alienação – a impossibilidade de moldar seu destino segundo uma vontade livre de constrangimentos”.

A definição de Carone, dada ao jornal Folha de S. Paulo no dia 27 do mês passado, é problemática na medida em que limita os múltiplos significados possíveis de “kafkiano” a um sentido político. Talvez este comporte a somatória dos demais, mas não é, certamente, o único.

A ideia de “claustrofobia do mundo”, citada por Begley, ou de “estranhamento do mundo”, como outros observadores assinalaram (lembremos do enredo de A metamorfose, ou do conto “Um médico de aldeia”) são políticos, mas não o são exclusivamente. Elementos existenciais, filosóficos, psicológicos, alegóricos etc. se somam num amálgama que admite,por exemplo, uma interpretação “realista” por parte do rigoroso filósofo Giorgy Lukács, ou religioso, como ocorreu ao amigo de Kafka, Max Brod.

O psicanalista Enrique Mandelbaum (também citado pela Folha) contribui para esse debate com uma observação pouco lembrada, mas perfeitamente cabível: “kafkiana é uma conversa amigável que descamba para uma floresta de mal-entendidos”.

Observações dessa ordem servem no mínimo para realçar a plasticidade desse estranho adjetivo que se tornou uma chave interpretativa indispensável para a compreensão da vida cotidiana em nossa época.

19 de março de 2010

Um tufão chamado Nina Rizzi

Por Nelson Patriota

Nina Rizzi visitou Natal no fim da semana passada. Blogueira, militante de movimento reformista do campo, poetisa, Nina Rizzi andou pelo velho Centro, visitou o Sebo Vermelho, conheceu o Beco da Lama com seu corredor de bares repletos de boêmios, bebeu e proseou com um grupo de admiradores hipnotizados pela sua gama de adereços sedutores: juventude, espontaneidade, beleza, talento e uma isenção edênica para pecar sem pecar porque tem certeza de que esta é a sua estação e não está disposta a desperdiçá-la.

Moacy Cirne, Jarbas Martins, Abimael Silva, Francisco Sobreira, Nei Leandro, Inácio Magalhães… Todos se sentiram de repente mais joviais, mais vivos, mais recompensados das cobranças da vida, após a visita de Nina Rizzi. É bem verdade que foi uma visita meteórica (precisaria amanhecer em Fortaleza na segunda-feira), mas deixou impressões duradouras, como a sugerir que a beleza caminha sob pés alados (Diana) e é tão indescritível como a Helena disputada por gregos e troianos.

De nossa parte, confessamos com pesar que faltamos aos locais por onde transitou a sedutora Nina (nome é destino, então, e esse parece ser o das Ninas). Em compensação, ela nos deixou um exemplar do livro no qual verseja ao lado de outras iguais. Trata-se de Dedo de moça uma antologia das escritoras suicidas ― desde já o agradecemos ­― que, felizmente, é mesmo o que parece: uma rica metáfora poética de autoras, aliás, bem vivas.

Nina Rizzi aí é descrita, nos créditos finais, como “historiadora, escritora e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST)”. Outra informação importante: Nina Rizzi é “sem raízes, vive atualmente em Fortaleza [...] edita o blog Ellenismos e escreve no Putas Resolutas. [ ninarizzi@gmail.com]”.

Meditemos nesta informação biográfica dada em boa hora pelo anônimo resenhista do livro: Nina Rizzi é “sem raízes”. Terá isso algo a ver com o fato de a poetisa vasculhar os campos, de quando em vez, junto com bandos de outros desenraizados? Ou se trataria de outra semântica, lapso de polissemia que escapou a quem escreveu? As origens italianas que o sobrenome denuncia talvez pesem para o seu atual (queremos crer, provisório) desenraizamento…

Esse dubitativo conflito botânico, aliás, comparece às primeiras linhas do seu poema “A valise” (antologizado em Dedo de moça: “se, esquerdatária, vivo tanto seca/ posso vender qualquer coisa/ pra que não sucumba, oh dona de adversidades.// uma faca de passar manteiga/ ― a espessa gordura que me cobre,/ me serve de chave, burra, nos pulsos.// se vivo de (me) ver-dura,/ quedo horrorizada ante as carnes mortas.// é nos entretantos, os mais sutis, que me escamo-teio”.

Visto assim de relance o poema, salta aos olhos que as palavras não chegam para o tanto que Nina (Rizzi) tem a dizer. Como se decidir por um único sentido, ante palavras-valise como esquerdatária, seca, ver-dura, gordura, escamo-teio, nessa poética de múltiplos dizeres?

Dedo de moça prossegue a luta de Nina Rizzi em outras trincheiras. Uma delas é nitidamente aquela que em nossos tempos se esforça para consumar a compatibilização entre sexo e gênero, em suas variadas e criativas possibilidades. Aí se destacam sobretudo os poemas ligeiros e precisos de Adelaide de Julinho (parente de um certo e caviloso Julinho de Adelaide). Outra questão lida com o tópico nunca resolvida sobre uma possível escrita de sexo feminino.

Cremos que essa seja uma questão atualmente esquecida das discussões de gênero, talvez devido às inúmeras dificuldades que surgem quando se tenta sexualizar a gramática e a semântica, razão pela qual os estudiosos da linguagem tradicionalmente a têm evitado.

As escritoras suicidas, tendo à frente a militante Nina Rizzi, tornaram-se agora uma referência poética entre nós. Com novos motivos na praça, não é exagero se afirmar que a poesia anda por aí de cara nova…

24 de fevereiro de 2010

Apresentação do livro “No outono da memória”

Por Nelson Patriota

Nelson Patriota

Cada vida humana é de tal modo única que começa a se distinguir de todas as demais desde antes da sua concepção. E isso tem uma explicação simples, na medida em que cada vida nasce da história que se entrecruza com outras vidas que não se resumem exclusivamente à de seus pais biológicos; nela palpitam os anseios, as esperanças, desejos e ações de avós, primos, cunhados, sobrinhos, netos, amigos, numa teia que parece se expandir em todas as direções.

Com mais razão, a vida que amadurece longamente é um encadeamento de vidas, paralelas, compartilhadas aqui, separadas acolá, mas voltando a se contatarem com maior ou menor regularidade, de acordo com as conveniências sociais, familiares, pessoais…

É assim a vida do jornalista Ubirajara Macedo na sua longa expansão vital, cujo núcleo originário se localiza num humilde distrito do município de Macaíba, RN, mas cujo vértice está sempre mais além de um vértice anterior, que ficou para trás, nalgum projeto concretizado. Como não esquecemos a lição do poeta de Itabira, repetimos: “as coisas findas/muito mais que lindas/ essas ficarão”.

Ubirajara Macedo, ou Bira, como é carinhosamente tratado pelos familiares mais próximos e pelos amigos mais chegados, tem muito que dizer, e o diz, em termos das coisas findas referidas no poema de Drummond, neste depoimento em primeira pessoa que recolhemos ao longo de seis meses de conversas intermitentes, mas obedecendo a uma cronologia até certo ponto conservadora, na medida em que o relato de uma vida o exige.

Da infância em Macaíba a memória voluntária de Bira (às vezes, a involuntária também) sai em busca de uma última lição de Dona Olímpia, sua mestra de coisas campestres, para se deter num verso de Bilac; capta em seguida a figura do Dr. Ubirajara Ferreira, dentista com veleidades de música clássica e que gostava de compartilhá-la em sua casa com os alunos de Dona Olímpia, aliás, Dona Olímpia Ferreira, sua muito digna senhora. Outros personagens desfilam ante o palco, sendo paulatinamente chamadas ao proscênio das lembranças mais caras.

Aí se demoram, por razões óbvias, figuras que protagonizaram papéis fundadores dos valores de Bira, como seu pai, Antônio Corcino de Macedo, mestre-escola, e sua mãe, Alice de Almeida Macedo, doméstica. Ditos assim, encerrados num único papel, seus genitores poderiam parecer atores transitórios no drama do narrador. A leitura do livro mostrará, porém, que seu pai não se cingiu única e exclusivamente ao papel de mestre-escola, tampouco sua mãe ao de prendas domésticas.

No decorrer da narrativa ver-se-á que, apesar da sua sólida formação católica, ou melhor, graças a ela, Bira protagonizou atos de coragem e civismo que emularam os feitos de militantes políticos de esquerda, especialmente aguerridos, de sua época, quando as sombras do arbítrio desceram sobre a nação.

Não se deve ignorar que Bira revelou desde cedo uma clara vocação para o jornalismo. E essa profissão, como sabemos, abre portas e descortina frestas do mundo que permanecem fechadas à maioria das pessoas. De fato, o jornalista Ubirajara Macedo tem o muito que contar. Conviveu com homens rudes, do agreste e algures, mas também com párocos, migrantes e refugiados políticos que buscaram abrigo na casa de seus pais, agora em Natal, quando da desastrado levante comunista de 1930; estudou no Ateneu Norte-rio-grandense numa época em que o escol da inteligência natalense nele pontificava. Em seus corredores era comum um estudante deparar com o professor Câmara Cascudo ou com seus colegas Clementino Câmara, Hostílio Dantas, Edgar Barbosa, Esmeraldo Siqueira; ou trocar idéias com Luís Maranhão, José Gonçalves de Melo, João Wilson Mendes Melo, José Hermógenes de Andrade Filho…

Após uma curta experiência no rádio, Bira se desloca finalmente para o centro dos seus interesses: as notícias do mundo. O veículo que lhe forneceria essa plataforma seria o tradicional e combativo jornal A República. O período que ali passou, nos anos 1960, valeria por um diploma superior. Na sua redação, encontrou Veríssimo de Melo, Myriam Coeli, Celso da Silveira, Sebastião Carvalho… Era no tempo em que escritores militavam na bastilha dos jornais.

Mas a culminância desse processo de eventos “jornalísticos” ainda estava em gestação nos desvãos do tempo. Ou no ovo da serpente. Para lembrar a metáfora que o sueco Ingrid Bergman usou para nomear o clima pré-nazista na Alemanha de Weimar, assunto de um famoso filme seu.

Em 1º de abril de 1964, Bira estava à frente da editoria da Tribuna do Norte quando eclodiu o golpe militar e teve de dar satisfações aos mandatários da hora. Não demorou a que as guantes do arbítrio lhe retirassem do seio do seu lar. Uma contemporânea sua, a escritora Mailde Pinto, resumiu esses acontecimentos sob a rubrica  “Aconteceu em 64”, nome do livro que dedicou ao tema.

Os longos meses que Bira passou nas masmorras do regime autoritário pós-64 não conseguiram fazê-lo abjurar os seus valores cristãos-cívicos, cristãos-nacionalistas, cristãos-políticos. Nesse período, ele permaneceu, como se verá, mais próximo à visão de mundo dos comunistas com quem dividiu celas – Luiz Maranhão, Djalma Maranhão, Carlos Lima, Vulpiano Cavalcanti, entre tantos outros – do que com qualquer outra visão de mundo, inclusive aquela que a Igreja tradicionalmente pregava.

Os detalhes dessa experiência Bira os contou no livro “E lá fora se falava em Liberdade” (Natal. Sebo Vermelho: 2001).

Dissipadas as sombras do arbítrio, Bira está em São Paulo, e se entrega ao burburinho da Cidade Grande, com suas ofertas inesgotáveis de bens concretos ou simbólicos, de vida luxuriante de prazeres e de trabalho. E aí o jornalista macaibense, também funcionário público dos Correios, se desdobra em rotinas diárias e noturnas de trabalho, estas últimas, inicialmente no rádio, em seguida na prestigiosa Folha de S. Paulo.

Dessas experiências, Bira guarda lições preciosas, como revela neste livro. Guarda também modos de amizades que ali começaram ou lá se consolidaram, bens simbólicos inestimáveis na contabilidade dos afetos e do crescimento interior.

Uma dessas amizades responde pelo nome de Carlos, o livreiro Carlos Lima, da Clima Editora e que encontrou em Bira o sócio ideal para um projeto ousado no campo jornalístico. O lançamento da “Folha dos Municípios” se tornou possível com a volta de Bira de São Paulo, já aposentado dos Correios e carente dos ares da província.

A experiencia, com duração de três anos, terminaria com a ida de Bira para o Diário de Natal, jornal onde encerraria suas atividades profissionais em grande estilo.

Outros apelos que já gestavam no seu vasto ciclo de amizades logo o colocaram no centro de um projeto artístico. O local foi o “Beco da Glória”, da cantora Glorinha Oliveira, onde se reuniam jornalistas, poetas, boêmios. O radialista Luiz Cordeiro foi o idealizador. Mas a presença de Bira no grupo foi fundamental para o nascimento do Clube dos Amantes da Boa Música, grêmio que logo ficou conhecida em toda a cidade pela sua sigla: Clambom. Para se aquilatar a verdadeira importância desse clube é preciso se ler o livro “Clambom: um clube em defesa da boa música – 16 anos defendendo a Música Popular Brasileira”, que Bira escreveu em parceria com o clambonista Pedro Ivo Cavalcanti, em 2008.

Nesse ínterim, Bira descobriu o pendor para as viagens, longas viagens que o levaram a países os mais exóticos, os mais distantes, os mais corajosos. Algumas delas deixaram lembranças imorredouros, como ele destaca; outros foram tão instigantes, que ele precisou retornar para conferir um detalhe, uma emoção incompleta, uma bebida exótica ou um prato tradicional.

As testemunhas e protagonistas da vida do jornalista Ubirajara Macedo, seus afetos familiares, estão todos aqui. A primeira esposa Doralice, com quem teve os filhos Júlio Mário Varela de Macedo, Rosana Varela de Macedo e Isabela Varela de Macedo. Veio depois o divórcio, quando Bira casou-se em segundas núpcias com Maria de Lourdes Pereira, adotando suas filhas Virna e Viveca que, com o passar dos anos, se tornaram também filhas dele. E teve os amigos: Taís Marques,

Nessa economia de afetos familiares, há abundantes provas de amor filial e paternal. Declarações em prosa e em verso do próprio narrador e uma carta da sua filha Rosana, que autorizou sua publicação aqui.

Era previsível que uma obra desta natureza se encerrasse sob uma atmosfera de desvelos e desprendimentos em torno do eixo familiar, confirmando que “a família é verdade”, como reza o verso de Pessoa.

Nosso trabalho foi traçar um roteiro para esse panorama simultaneamente uno e múltiplo, como o é toda vida humana. Depois, precisamos questionar suas possibilidades, explorar suas lembranças, dar-lhe uma forma coerente e regular até o seu desfecho, corrigindo e retocando o texto conforme as exigências nossas, digo: nossas e do narrador, mas em ordem inversa de prioridade.

Caberiam alguns lugares-comuns neste último parágrafo, porém preferimos dispensá-los do leitor, a fim de não retardar por mais tempo o seu prazer de conhecer a história do jornalista Ubirajara Macedo, um homem do seu tempo. Seria preciso dizer mais a seu favor? Acrescentaríamos que ele se mostrou à altura dos desafios que teve à frente e deu provas de amor à liberdade.

18 de fevereiro de 2010

A defesa da cultura num diálogo borgiano

Por Nelson Patriota

Em seu conto “O informe de Brodie” (homônimo do livro), Jorge Luis Borges conta que encontrou dentro de um exemplar de As mil e uma noites de Lane um informe assinado por um viajante inglês, de nome David Brodie, que ele agora traduzia. O documento versava sobre um estranho povo, denominado Yahoos, que possuía, entre outras, as seguintes características: tinham costumes bárbaros e raros dentre eles possuindo nomes. Ademais, pescavam com as mãos e devoravam os cadáveres crus dos feiticeiros e dos reis, para assimilarem suas virtudes. Quase desprovidos de memória, seus feiticeiros gozavam, no entanto, da faculdade de prever com segurança fatos que aconteceriam dali a dez ou a quinze minutos.

Em seu informe, Brodie enumera outras qualidades dos Yahoos, afora aquela relacionada com os prognósticos iminentes: têm instituições, inclusive a da realeza, manejam uma linguagem baseada em conceitos genéricos, creem, como os hebreus e os gregos, na raiz divina da poesia e adivinham que a alma sobrevive à morte do corpo. Essas qualidades, na opinião do operoso relator, redimiriam os Yahoos, legitimando a defesa de sua cultura.

No livro Borges/Osvaldo Ferrari – Sobre a filosofia e outros diálogos (Hedra, 2009), com organização e tradução de John Kuinghttons, Borges retoma o tema desenvolvido no “Informe de Brodie”, dessa vez justificando-o filosoficamente: “É claro que toda cultura é mais ou menos rudimentar, mas temos de tentar salvá-la”.

Mais adiante, Borges reforça sua defesa da cultura in abstrato com a seguinte alegação: “Penso que a cultura não pode ser entendida sem a ética”. Isso equivale a dizer que, para ele, cultura se confunde com ética de forma inextricável e, além do seu largo sentido filosófico, teórico, oferece às pessoas uma práxis social pautada pela correção, pelo princípio da razão e do diálogo, em suma, pela ética.

O diálogo, aliás, é o tema eleito por Borges para discorrer, no seu tête-à-tête com Ferrari, sobre as virtudes desse gênero eminentemente social, segundo ele, criado pelos gregos: “No diálogo se consideram as diversas opiniões possíveis, e, de alguma maneira, se substitui o dogma e a prece também”.

Ainda dentro desse tema, Borges considera que um bom ponto de partida para o diálogo é supor que o interlocutor tem razão, lição que diz ter aprendido com os japoneses, nas duas viagens que fez ao Japão, país que o impressionou a ponto de levá-lo a estudar o idioma japonês.

Idêntica virtude percebe no idioma francês, em cuja conversação as palavras parecem admite inflexões de sentido, sublinhando pequenas diferenças, recusando outras, mas cortesmente. Em suma, o francês é, em seu modo de ver, um “idioma pensativo, digamos, não é um idioma que parte de uma verdade pressuposta, mas que está estudando os diversos matizes, as diversas possibilidades de um tema qualquer”.

Não deixa de ser interessante a visão de Borges sobre o declínio da leitura literária, fenômeno já claramente perceptível na última década do século passado. Seu diagnóstico, porém, é sumamente original. Trata-se, segundo ele, nada menos do que uma espécie de ascetismo. Mas de um ascetismo todo particular, praticado por “masoquistas que se castigam, não se sabe por que motivos, se abstendo dessa felicidade (a leitura) que está tão perto de todos”.

Outro traço marcante desse fenômeno, segundo Borges, é que se trata de um ascetismo que é praticado de maneira inconsciente, já que ninguém o justifica, o que o torna, portanto, intrigante e difuso, sugerindo-lhe prenúncios de um futuro em que a única função dos livros seria meramente decorativa.

Contra esse cenário culturalmente apocalíptico, Borges propõe um antídoto: a leitura em voz alta. E lamenta: “Mas é claro que isso agora está se perdendo, já que as pessoas estão perdendo o ouvido. Infelizmente, todos são capazes de leitura em voz baixa, porque não escutam o que leem, passam diretamente para o sentido do texto”, conclui.

DESTAQUE

“Borges considera que um bom ponto de partida para o diálogo é supor que o interlocutor tem razão, lição que diz ter aprendido com os japoneses, nas duas viagens que fez ao Japão, país que o impressionou a ponto de levá-lo a estudar o idioma japonês”.

2 de fevereiro de 2010

Jarbas reúne seus inéditos e dispersos

Por Nelson Patriota

Atendendo a sugestão do livreiro Abimael Silva, o poeta Jarbas Martins está reunindo seus dispersos em livros, jornais, revistas e gavetas, com isso, dando forma a um novo livro, que terá o sugestivo nome de “re-Visões e outros poemas contra-acabados” (qualquer eco ao seu livro Contracanto não é mera coincidência, mas a construção “contra-acabados” ele tributa ao poeta Augusto de Campos). A ideia de Jarbas é que ainda este ano seu novo livro de poemas seja lançado, certamente num grande evento literário, à altura das expectativas que cercam de idiossincrasias a figura do poeta.

De fato, Jarbas Martins costumava jactava-se, até poucos anos atrás, de ser autor de um único livro de versos, Contracanto, lançado em 1996 pela Editora da UFRN, e que, certamente, está esgotado. Seus namoros com a poesia, porém, já haviam rendido, dois anos antes de Contracanto, um curioso e singular livreto intitulado 14 versus 14 – itinerário do soneto norte-rio-grandense – seleção e crítica. Essa obra, aliás, constitui outro projeto literário em que Jarbas vem trabalhando com vistas a uma segunda edição. A seleção de poemas não sofrerá alterações, mas o curto ensaio que enfeixou a primeira edição será substituído por uma longa reflexão crítica em torno da história do soneto enquanto estilo poético, mas sem perder de vistas as características que ele assume quando transplantado para a seara das nossas letras.

14 versus 14, que é também uma “viagem em busca da aura perdida do soneto”, conforme a definição do seu autor, seria seguida de Contracanto e, em 2008, de Antielegia para Emmanuel Bezerra. Assim, a veleidade que Jarbas alimentou de ser o poeta de um único livro está se desfazendo, graças às injunções da própria poesia.

Essa mudança deve ser vista como uma consequência natural de sua história como poeta vivendo em um contexto muito específico, do qual ele faz absoluta questão de não desenraizar-se e para o qual vem dando uma contribuição das mais singulares e significativas.

É suficiente que se atente para o escopo de abrangência da sua poesia, em inquieta expansão, para aí se perceber o quanto ela exibe de colorido, de variegado, de pensado e de experimentado. Desde Contracanto, formas clássicas, como o soneto, convivem, em Jarbas, com experiências induzidas pela eclosão do concretismo e do pós-concretismo, especialmente sob a forma do poema processo, “pecado” em que também incorreram conterrâneos seus, como Dailor Varela, Moacy Cirne, Bosco Lopes, Anchieta Fernandes e Nei Leandro de Castro.

Nel mezzo del cammin, a arte tradutória, exemplarmente defendida pelo poeta Luís Carlos Guimarães entre nós, sobretudo depois da publicação do seu 113 traições bem-intencionadas, sugeriu a Jarbas experiências nessa senda. Daí, vieram as traduções de Henri Michaux, de Jorge Luis Borges, de César Vallejo, entre outros, que ele publicou em algumas edições do jornal cultural O Galo, na Revista do Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Norte e também na Antologia poética de tradutores norte-rio-grandenses, que organizamos para a Editora da UFRN, em 2008. Sub-repticiamente, houve também o reencontro com o soneto, gênero que, hoje, parece merecer uma especial atenção de Jarbas, pelas possibilidades que lhe vem oferecendo em termos de expressão poética.

O acervo de traduções, de sonetos e de outras formas poéticas que Jarbas Martins vem produzindo nestes últimos anos justifica plenamente o projeto editorial de Abmael Silva para um novo livro do autor de Contracanto.

A propósito dessa obra, já não seria tempo de dar-lhe uma segunda edição, haja vista que se encontra fora de catálogo há mais de duas décadas? Não pensamos, evidentemente, numa mera reposição de um título esgotado, mas numa reedição comportando um novo projeto gráfico e uma exposição introdutória assinada pelo próprio poeta, além, evidentemente, de uma seleção da fortuna crítica escrita à sua margem nesse entretempo. Mais do que servir à memória literária potiguar, uma obra com tais características faria justiça ao papel que Contracanto merece ocupar nas nossas letras.

24 de janeiro de 2010

A “má consciência” de David Grossmann

Por Nelson Patriota

Egresso da primeira geração de autores nascidos no estado de Israel, David Grossmann precisou se desvencilhar dos clichês, dos slogans e das meias-verdades próprias a um estado beligerante para se tornar escritor. Ou teria sido o inverso, ou seja, tornou-se escritor para se desvencilhar dos clichês, dos slogans e das meias-verdades. Dentro da categoria “meia-verdade” ele colocou um valor de grande importância para o seu povo: a crença no Deus bíblico Jeová, ou “o nome impronunciável”, “aquele que é quem é”.

Só assim, desprovido de transcendência e armado só com aquilo que pode provir das palavras, ele pôde construir uma obra literária. Na segunda-feira passada, como entrevistado do programa “Roda Viva”, da TV Cultura, David Grossmann teve oportunidade de falar ao público brasileiro sobre seu produtivo ateísmo, bem como sobre alguns de seus romances, dentre eles, “A mulher foge”, já lançado no Brasil e que trata de um tema difícil ao Israel de hoje: o pacifismo: uma mulher foge de casa para não receber a notícia de que o filho, enviado à frente de batalha, faleceu. Ela acredita que enquanto a fatídica notícia não a alcançar, seu filho terá alguma chance de estar vivo.

Falou também de outro livro seu, ainda sem título em português, e conhecido, por enquanto, por seu título inglês, embora Grossmann escreva em hebraico. Trata-se de The Yellow Wind (“O vento amarelo”) e que se enquadra no gênero literário de não ficção, conforme a nomenclatura proposta por Gay Talese.

The Yellow Wind revela a busca de Grossmann por palavras fugitivas, quiçá enfermas. É curioso que ele imagine um hospital para tais palavras. É uma “medida preventiva”. O que seria da humanidade dos homens e das mulheres se todas as palavras adoecessem e, portanto, já não pudessem nomear as coisas ou as nomeassem só parcialmente, contraditoriamente, negativamente?

As palavras fugitivas referidas em The Yellow Wind são justamente as meias-palavras, inclusive os clichês, os slogans, as frases-feitas, as palavras vazias, as únicas ao alcance do entendimento dos “hollow men” de que T. S. Eliot fala em seu poema homônimo. É contra esses “homens ocos” que Grossmann investe cheio de palavras revitalizadas, a fim de fazê-los ouvir verdades relativas, plausíveis, limitadas. Humanas.

Para chegar a essas palavras, Grossmann disse que atravessou um tempo não superior a 30 minutos a pé até chegar a uma aldeia palestina. Apresentou-se como alguém que desejava ouvir o outro lado, como qualquer repórter minimamente informado o faria. Ou como qualquer sociólogo ligado à novíssima ciência das narrativas de vida, saber que tem como dístico a sentença do filósofo alemão Wilhelm Schapp: “Nada existe fora das histórias”.

Ao ouvir as histórias palestinas, Grossmann se deu conta de que a propaganda oficial disseminada em seu país, em seu maniqueísmo desesperado ― “Será que eles creem que tudo permanecerá como está?” ― havia conseguido adiar aquele seu encontro com o outro de um modo quase perfeito. O único erro do establishment foi ter esquecido de avisar aos árabes e cristãos de Jerusalém que a fraternidade cristã ainda teria alguma chance, mesmo com Jerusalém anexada ao lado judaico da cidade.

David Grossmann é hoje um dos representantes do pacifismo em seu país, posição repudiada pela direita israelense, no poder desde sempre, bem como pelos pequenos partidos religiosos que dão sustentação ao governo de Olmert.

Como a narradora de “A mulher foge”, Grossmann tenta dizer que só tem as palavras, mas são palavras suas, arrancadas de dentro da sua alma dilacerada pela perda do filho numa guerra insana e pela deriva que ameaça arrastar seu país a mais e mais guerras, como se a guerra fosse o estado natural de uma nação. Ou até que o mundo esqueça os assentamentos que se multiplicam sobre o solo palestino, terra ocupada, “terra disputada”, na engenharia semântica do estado armado.

“Má consciência” do estado, Grossmann, como Amós Oz segue buscando a palavra capaz de implodir a intolerância, a guerra, o autoengano, a aliança com um deus parcial, o engodo universal. Enquanto não depara com essa palavra realmente revolucionária, vai escrevendo seus livros. Talvez um dia eles se fundam num único livro, e este, por sua vez, na palavra salvadora.

13 de janeiro de 2010

Prosas da linhagem guimarantina

Por Nelson Patriota

No apagar das luzes desse ano de 2009, um lançamento literário conseguiu surpreender de muitas maneiras os leitores atentos à temporada de autógrafos que movimentou livrarias e centros culturais da Capital, especialmente ao longo de seus dois últimos meses. O livro As duas borboletas do entardecer reservava algumas surpresas: dois contos inéditos do poeta Luís Carlos Guimarães, falecido em 2001, e a estreia como ficcionista de seu filho mais velho Luis Ricardo, assinando outros dois textos de ficção.

Contos do poeta de A lua no espelho já haviam saído postumamente pela Editora Bagaço, do Recife, em 2002, sob o título de O funil, reunindo histórias protagonizadas pelo seu alter ego Amâncio Puá, e mais três outros contos formando um grupo à parte, quais sejam: o premiado “A pastora e o arco-íris”, além de “A menina da janela” e “A viajante estrela companheira”.

A publicação de O funil, aliás, já traz a assinatura de Ricardo Luís na sua organização e seleção, indicando que o primogênito do poeta se sentia, havia algum tempo, tentado a seguir pelas veredas abertas por seu pai na área da prosa.

Com esse novo livro, escrito a quatro mãos, a obra ficcional de Luís Carlos Guimarães está presumidamente completa, deixando evidente que o poeta via a arte do conto como um campo o qual pretendia explorar sem abdicar, naturalmente, da poesia, até porque parte significativa da sua obra em prosa se apoiava claramente nos seus dotes poéticos, exibindo um requinte raramente alcançado junto a muitos dos nossos prosadores. Salientemos ainda, para fazer justiça ao poeta, que entre a poesia e a prosa, Luís Carlos abrira uma terceira via: a tradução poética, que resultara na brilhante coletânea 113 traições bem-intencionadas, na qual pretendia prosseguir, graças à boa recepção que tivera essa sua obra singular, a qual ganharia em 2007 uma segunda edição chancelada pela Editora da UFRN.

Mas, se havia uma unidade temática entre os contos do ciclo Amâncio Puá, bem como entre os três contos que encerram O funil, é sobretudo o estilo (que, desde Buffon, “c’est l’homme”) que garante a coesão ao livro, através de uma prosa que namora muito de perto a linguagem que o poeta esparramou sem medida nos seus poemas.

Não é exatamente isso que se observa nesse par de contos póstumos. Se em “As duas borboletas do amanhecer” o narrador rivaliza com o poeta na descrição impressionista do ambiente, aluno atento dos recortes parisienses dos poemas em prosa de Baudelaire, a segunda narrativa carece de maior distinção, lembrando mais a urdidura das anedotas que animam as rodas masculinas nos bares, que é uma forma de conto, mas sem ambições literárias.

Quanto ao outro rebento guimarantino, Ricardo Luís, revela-se em ambos os contos que assina – “O caso das bananas preciosas” e “A romaria em Juazeiro” um experiente e atento observador da realidade, com sensibilidade para o pitoresco e extraordinário. Trata-se de duas histórias plausíveis, observadas em suas linhas gerais e possivelmente, no caso da primeira, vivida, o que lhe confere um hiper-realismo narrativo pelo volume de informações paralelas que caberiam mais adequadamente numa novela ou romance. São excessos, porém, que não chegam a prejudicar o relato, se o leitor acompanhar o narrador até o foco do conto.

Quanto a “A viagem a Juazeiro” poder-se-ia chamar propriamente de “Milagre em Juazeiro”, já que é disso que trata a pequena peça narrativa, em sua estrutura um tanto difusa no que tange ao enredo. É também uma miniatura literária traçada sobre o pano de fundo do velho e até agora não resolvido tema do coronelismo, com suas sabidas sequelas sociais, econômicas, culturais.

Ricardo Luís se lança ficcionista “pegando uma carona” – como ele próprio salientou – em sobras do acervo do seu pai Luís Carlos, o Lula Capeta que o poeta glosou em O funil. A licença poética, por assim dizer, foi usada nesse As duas borboletas do amanhecer. A partir de agora, o herdeiro intelectual da estirpe guimarantina deve caminhar sobre os seus próprios pés, se quiser dar prosseguimento à expectativa que criou com o lançamento desse livro em parceria.

25 de dezembro de 2009

Balanço do ano literário

Por Nelson Patriota

Uma crônica de fim de ano deve, de regra, debruçar-se sobre os umbrais do novo ano e antecipar suas potencialidades a partir do legado que lhe deixa o ano morrente. Mas por que não admitir, por exemplo, que a norma seja provisoriamente posta de lado e, ao invés do novo ano, o ano velho, que está prestes a se despedir, seja seu protagonista, nela expondo suas razões, como o romancista José de Alencar o fez numa crônica datada de 1854 intitulada justamente “Ano velho”?

Utilizando-se de um velho artifício muito familiar aos romancistas do Oitocentos, Alencar é visitado por um senhor idoso, o qual se identifica como sendo o ano de 1854. Seu objetivo é de fazer uma exposição de motivos a seu favor, em represália às inúmeras queixas e críticas que lhe fez o autor de Iracema em escritos publicados nos “folhetins” diários do jornal Correio Mercantil.

Salta à vista que se trata de um diálogo de viés onírico, que Alencar se apressa a atribuir a uma razão suficiente: a leitura de uns contos de E. T. A. Hoffmann, o cruento autor de “O homem de areia”, que já havia inspirado a Machado uns tantos contos góticos…

À luz de hoje, quando vampiros lividamente vegetarianos viram motivo de idolatria juvenil, personificar um ano exaurido sob uma forma humana seria um artifício por certo fora de moda, mesmo porque Hoffmann já não constitui um padrão de assombro para os nossos tempos. Por isso, sem precisar reatualizar um subterfúgio oitocentista, poderíamos olhar retrospectivamente o ano que está findando considerando-o, por exemplo, sob o ponto de vista literário (vertente que nos interessa mais de perto), e nos propor a seguinte pergunta: 2009 foi um ano fecundo, do ponto de vista das nossas letras?

Não temos dúvida em respondê-la afirmativamente. Quer no campo da ficção, quer no da poesia, da memória, dos estudos críticos, são muitos e bons os exemplos a citar, a começar pelo romance A fortaleza dos vencidos, de Nei Leandro de Castro, que abriu novas e graves questões à nossa ficção, seguido de Parnamirim Field, de Lenílson Antunes, o qual explora com humor e abundante informação histórica o episódio da segunda guerra em Natal, além de Memórias de Bárbara Cabarrús, de Nivaldete Ferreira (foto acima), novela constituída de fragmentos que podem ser lidos independentemente do contexto da obra.

A poesia viveu uma de suas estações mais férteis, como o provam títulos como Resina de Diva Cunha, Lábios-espelhos de Marize Castro, Talhe Rupestrepoesia reunida e inéditos, de Paulo de Tarso Correia de Melo, Dança em seda nua de Lívio Oliveira, Antielegia para Emmanuel Bezerra de Jarbas Martins e, mais recentemente, Almas nuas de Zedelfino. Esse conjunto de obras, apesar de exibir nomes dos mais importantes da nossa poesia contemporânea, apresenta um viés preocupante na medida em que carece de nomes novos, tirante o de Zedelfino, que goza da condição de poeta bissexto.

A literatura de viagens apresentou pelo menos dois títulos dignos de menção: Portão de embarque II – Portugal, de Manoel Onofre Jr., e Pelas ruas de Havana, de Rubens Coelho.

A crônica foi destaque com Na outra margem, o amanhã, de Cláudio Emerenciano, enquanto a história literária ganhou três trabalhos arrojados: Jorge Fernandes, o viajante do tempo modernista, de Maria Lúcia de Amorim Garcia, Belle Époque na esquina, de Tarcísio Gurgel e Geringonça nordestina, a fala proibida do povo (em 2ª edição) de Geraldo Queiroz.

Na área do conto, tivemos a revelação de Públio José, com Contos. Porque conto, e de Lima Neto, com Um conto em cinco vozes; tivemos ainda Lápis nas veias, minicontos de Clauder Arcanjo, Tempo de estórias de Bartolomeu Correia de Melo, e o nosso Colóquio com um leitor kafkiano.

Visto esse breve panorama, parcial e pessoal, poderíamos afirmar que a literatura norte-rio-grandense deixa 2009 com um saldo positivo, observada a ressalva já referida, tanto no gênero de ficção como no de não ficção.