Talvez o principal traço que distinga as pessoas da nossa modernidade tardia seja a pluralidade de papéis que elas são levadas a exercer ao longo da vida, pelas razões as mais diversas. Mário de Andrade traduziu essa pulsão ao ecletismo numa síntese conhecida: “Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta”. Por trás da sentença, havia, latente, o propósito de explicar por que ele enveredou por tantas searas do saber, da crônica à poesia, do romance à antropologia, do folclore à medicina, da música à epistolografia e mais.
Para não esquecer de dizer Enélio de Lima Petrovich
12 de janeiro de 2012 às 21:48 | 1 ComentárioO Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, fundado em 29 de março de 1902, leva uma vantagem qualitativa incontornável sobre os seus similares: a prevalência do tempo. Mais antiga instituição cultural em atividade no Estado, ele se reveste de uma legitimidade que só o tempo é capaz de conferir, sem demérito para os demais.
A educação dos sentidos em “Habitar teu nome”
7 de janeiro de 2012 às 18:22 | 1 ComentárioO quanto um título significa num volume de poesia, além de simplesmente nomeá-lo? É de supor que muitos poetas o utilizem tão somente como um recurso de identificação, uma mera formalidade que pouco interfira na estrutura e no espírito do livro. No caso específico da poesia de Marize Castro, isso parece acontecer, se se pensa, por exemplo, em seu mais recente trabalho, “Habitar teu nome”, lançado no apagar das luzes de 2011.
Lembrança de uma ideia machadiana de Natal
22 de dezembro de 2011 às 10:42 | 3 Comentários
O comércio sempre soube converter valores em dinheiro, projetos em dívidas, sonhos em hipotecas. E a queixa que transparece no “Soneto de Natal”, de Machado de Assis, revela que esse saber dista de outros tempos, mais nervosos que os correntes. E não é preciso lembrar as crises que oxigenam os noticiários da mídia, que já não engana ninguém no seu propósito de consagrar a má notícia como sinônimo de notícia. E quem duvida que um cidadão atordoado por um bombardeio constante de notícias (más) é um cidadão menos crítico, menos atento ao que convém a ele próprio?
A terapia pelo livro, segundo Ronaldo Brito
12 de dezembro de 2011 às 13:00 | 1 ComentárioFoto: Hans-von-Manteuffel
Quando visitou a redação do jornal cultural “O Galo”, na Fundação José Augusto, em outubro de 2001, o cearense/pernambucano Ronaldo Correia de Brito era um festejado teatrólogo inspirado na cultura popular nordestina, “a nossa maior mina, o nosso subsolo de petróleo”, como ele a definiu em entrevista que deu a nós, àquela época, e que foi publicada em novembro daquele ano nas páginas de “O Galo”. O contista, porém, já dissera a que viera, pois seu livro “As Noites e os Dias” começava a trilhar um caminho de reconhecimento crítico e de êxito popular.
O brilho farto da literatura de espetáculo
7 de dezembro de 2011 às 22:19 | 9 ComentáriosEscritor Miguel Sousa Tavares e o jornalista Woden Madruga no Flipipa 2011
A literatura e seus valores contemporâneos viraram moeda miúda por esses dias que se sucederam ao Festival Literário da Pipa-Flipipa e ao Encontro de Escritores de Língua Portuguesa-EELP. Com direito às estrelas mais luminosas da constelação das letras brasileiras e portuguesas, os dois encontros não deixam de apresentar muitos pontos em comum. Um deles, mas não o menos importante, a importância de discutir o próprio fazer literário como uma extensão da obra autoral.
Matusalém e outros judeus assediados por demônios
3 de novembro de 2011 às 11:20 | 1 ComentárioDécimo volume de contos publicado por Isaac Bashevis Singer em inglês, em 1985, e lançado no ano passado no Brasil pela Companhia das Letras, na tradução de Alexandre Hubner, “A Morte de Matusalém e outros contos” é dessas obras diante das quais de pouco vale se tecer elogios exaltando suas incontáveis qualidades, sua prosa objetiva e certeira, seu ritmo sempre em crescendo, seu uso inteligente e original da rica tradição judaica.
Narrativas de Pablo Capistrano namoram o fantástico
18 de outubro de 2011 às 17:46 | ComentarDos três contos que compõem “É preciso ter sorte quando se está em guerra”, novo livro de Pablo Capistrano, dois seguramente se filiam “espontaneamente” ao gênero fantástico. Referimo-nos a “A Escada de Jacó” e “O Sutra do Girassol”. “Saudades do amor”, porém, guarda um clima que, embora se desenrole em terreno realista, resvala ao fim numa fronteira tão indistinta que irmana seu personagem à mesma grei dos protagonistas das narrativas fantásticas já aludidas.
Rimbaud nas fronteiras da crítica e da história
9 de outubro de 2011 às 18:20 | 4 ComentáriosAs formas de traduzir o poema “Le Bateau ivre”, de Arthur Rimbaud, parecem tão infinitas quanto suas interpretações. A “imaginação tradutória”, que às vezes insiste em contentar-se com o óbvio, outras vezes pode escorraçá-lo porta afora para convocar o seu sucedâneo mais inesperado. Como quando alguém resolve traduzir “Une saison à l’enfer”, do mesmo poeta, por “Uma cerveja no inferno”, eludindo o óbvio que seria “uma estação no inferno”ou algo mais ou menos análogo.
Romance de Robert Walser antecipa universo kafkiano
2 de setembro de 2011 às 16:11 | ComentarSe o adjetivo “kafkiano” está definitivamente incorporado ao nosso tempo para designar tudo que recaia no terreno do insólito ou do suprarreal, então vale a máxima borgiana de que determinados obras produzem automaticamente seus predecessores. O romance “Jakob Von Gunten: um diário”, de Roberto Walser, se enquadra, por foros legítimos, na classe de obras que anunciariam o advento de Franz Kafka.
Ciranda de amores fáceis na terra de Kafka
15 de agosto de 2011 às 11:17 | ComentarHá uma crença bastante arraigada na tradição literária de que o exótico, o estranho, o não familiar, constitui uma forte motivação para a criação de ficção. Daí que a viagem ― busca do desconhecido ―, exerça um fascínio quase unânime entre escritores, o que resultou numa modalidade muito específica de escritura, que é a literatura de viagem. É ocioso citar exemplos porque eles estão para aonde quer que voltemos o olhar curioso e indagador.
Livro alinha Renard Perez ao romance de formação
8 de agosto de 2011 às 15:14 | 1 ComentárioVinte e oito anos depois da sua segunda edição, que portava a chancela da Editora Civilização Brasileira em parceria com o Instituto Nacional do Livro, sai agora, em terceira edição, o livro “Começo de caminho: o áspero amor”, de Renard Perez, agora chancelado pelo Instituto Pró-Memória de Macaíba e a editora mossoroense Sarau das Letras, e tendo na capa um belo trabalho gráfico do artista plástico Dorian Gray. O prefácio é assinado por Clauder Arcanjo, enquanto as orelhas têm a marca de Valério Mesquita. A nós coube a revisão e a atualização ortográfica da obra.
Sobre um capítulo faltante na nossa história literária
2 de agosto de 2011 às 15:00 | 2 ComentáriosQue fim levou o romance “Os Mortos”, de Henrique Castriciano, cujos dois primeiros capítulos foram publicados na Revista do Centro Polimático, entre 1920 e 1921, conforme registra Otacílio Alecrim em seus “Ensaios de Literatura e Filosofia” (1955)? Fato curioso é narrado por Otacílio, reportando-se à conversa que teve com o poeta de “Mãe”, então enfermo. Diz ele que, ao comentar seu livro, Castriciano observou: “No romance, se puder concluí-lo, terminará o espírito vencendo a matéria; mas, na vida do autor, persiste a matéria em vencer o espírito”. Remata Otacílio: “Infelizmente, daí em diante, o Dr. Henrique não fez senão ‘morrer’ com o seu próprio romance”.
A propósito de mais um Dia do Escritor
22 de julho de 2011 às 16:23 | ComentarPor Nelson Patriota
Com a irreverência que lhe deu quase tanta notoriedade quanto suas caçadas africanas, o escritor Ernest Hemingway não resistiu a criticar seu próprio ofício quando perguntado, certa vez, sobre o que deveria fazer alguém que planejasse ser escritor: “Digamos que ele deva enforcar-se, por descobrir que escrever bem é difícil a ponto de ser impossível. Então, ele deveria ser retirado da forca impiedosamente e forçado por si próprio a escrever o melhor que possa para o resto de sua vida. Pelo menos terá, como ponto de partida, a história do enforcamento”.
valter hugo mãe e a polêmica sobre o ato de criar
19 de julho de 2011 às 11:09 | 2 ComentáriosUma das estrelas da 9ª Festa literária Internacional de Paraty, RJ, que terminou domingo passado, o angolano valter hugo mãe é mais uma dessas revelações que Portugal se encarrega de irradiar para a literatura lusófona de nossos dias e que começa a se fazer conhecido entre os leitores brasileiros, graças ao lançamento de seus romances “A máquina de fazer espanhóis” (Cosac Naify) e “O remorso de baltazar serapião” (34).
Um Bloomsday para não se perder de vista
13 de junho de 2011 às 18:43 | 9 Comentários
Para espanto geral da tribo, Natal e Dublin têm um encontro marcado nesse 16 próximo, quando se comemorará (é quase ocioso repetir) mais um Bloomsday, o famigerado Dia de Bloom em sua peregrinação sacroprofana pelas ruas, bares, bordéis, mas também igrejas, praças e colégios de uma Dublin que o irlandês James Joyce estratificou em seu romance “Ulisses”.
Como das vezes anteriores, as comemorações ficarão por conta do professor e poeta Chico Ivan (foto), esse incansável intérprete do mestre irlandês, e que autografará seu novo livro, que vem a ser uma tradução do “Anfion”, poema dramático do francês Paul Valéry.
Razões e desrazões da norma que se quer culta
6 de junho de 2011 às 16:57 | 1 ComentárioO português falado no Brasil é, conforme se sabe, língua em que a fala e a escrita apresentam grandes discrepâncias. Basta que se atente para as intermináveis discussões havidas entre brasileiros e portugueses em busca de um ponto de vista comum que anulasse as diferenças de timbre e de grafia que separam cada vez mais os falares deste e daquele lado do Atlântico. O acordo ortográfico firmado em 1990 e já em prática no Brasil continua a esperar que os portugueses decidam adotá-lo. Mas as perspectivas parecem cada vez mais adversas a essa unanimidade.
Um museu de Praga que os guias evitam
1 de junho de 2011 às 21:35 | 2 ComentáriosOs programas e os guias de turismo o ignoram a favor de atrações mais ao gosto da modernidade de um setor que se pretende realista. A esse propósito, não faltam atrações à Cidade Velha, como o Castelo de Praga, o Relógio Astronômico da Praça da Cidade Velha, o Quarteirão Judaico, a Catedral de São Vito, os Jardins Reais, a Ponte São Carlos sobre o Rio Moldau, rio, aliás, navegável por esta época do ano.
Visita a Berlim sob luz de primavera
20 de maio de 2011 às 18:36 | 1 ComentárioSe o turismo costuma ser uma experiência de surpresas e admirações, pelo inusitado da paisagem e das particularidades culturais e físicas de uma determinada cidade ou região, essa experiência resulta em dobro quando alimentamos expectativas bem fundamentadas sobre o que ela nos reserva. Deu-se algo assim comigo, numa viagem recente de dez dias pelo Leste europeu, começando por Berlim.
Um romance kafkiano de Haruki Murakami
15 de maio de 2011 às 21:33 | ComentarA carreira do adjetivo “kafkiano” na literatura contemporânea parece não ter limites. Sua presença se faz sentir nas mais diversas latitudes.
E a literatura japonesa não se constitui uma exceção a essa tendência. Nas 570 páginas de “Kafka à beira-mar” (Alfaguara, 2008, Prêmio Kafka 2006), de Haruki Murakami, em tradução de Keiko Gotoda direto do japonês, o tema tipicamente kafkiano do estranhamento do mundo é de uma constância ininterrupta.











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