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24 de fevereiro de 2010

Apresentação do livro “No outono da memória”

Por Nelson Patriota

Nelson Patriota

Cada vida humana é de tal modo única que começa a se distinguir de todas as demais desde antes da sua concepção. E isso tem uma explicação simples, na medida em que cada vida nasce da história que se entrecruza com outras vidas que não se resumem exclusivamente à de seus pais biológicos; nela palpitam os anseios, as esperanças, desejos e ações de avós, primos, cunhados, sobrinhos, netos, amigos, numa teia que parece se expandir em todas as direções.

Com mais razão, a vida que amadurece longamente é um encadeamento de vidas, paralelas, compartilhadas aqui, separadas acolá, mas voltando a se contatarem com maior ou menor regularidade, de acordo com as conveniências sociais, familiares, pessoais…

É assim a vida do jornalista Ubirajara Macedo na sua longa expansão vital, cujo núcleo originário se localiza num humilde distrito do município de Macaíba, RN, mas cujo vértice está sempre mais além de um vértice anterior, que ficou para trás, nalgum projeto concretizado. Como não esquecemos a lição do poeta de Itabira, repetimos: “as coisas findas/muito mais que lindas/ essas ficarão”.

Ubirajara Macedo, ou Bira, como é carinhosamente tratado pelos familiares mais próximos e pelos amigos mais chegados, tem muito que dizer, e o diz, em termos das coisas findas referidas no poema de Drummond, neste depoimento em primeira pessoa que recolhemos ao longo de seis meses de conversas intermitentes, mas obedecendo a uma cronologia até certo ponto conservadora, na medida em que o relato de uma vida o exige.

Da infância em Macaíba a memória voluntária de Bira (às vezes, a involuntária também) sai em busca de uma última lição de Dona Olímpia, sua mestra de coisas campestres, para se deter num verso de Bilac; capta em seguida a figura do Dr. Ubirajara Ferreira, dentista com veleidades de música clássica e que gostava de compartilhá-la em sua casa com os alunos de Dona Olímpia, aliás, Dona Olímpia Ferreira, sua muito digna senhora. Outros personagens desfilam ante o palco, sendo paulatinamente chamadas ao proscênio das lembranças mais caras.

Aí se demoram, por razões óbvias, figuras que protagonizaram papéis fundadores dos valores de Bira, como seu pai, Antônio Corcino de Macedo, mestre-escola, e sua mãe, Alice de Almeida Macedo, doméstica. Ditos assim, encerrados num único papel, seus genitores poderiam parecer atores transitórios no drama do narrador. A leitura do livro mostrará, porém, que seu pai não se cingiu única e exclusivamente ao papel de mestre-escola, tampouco sua mãe ao de prendas domésticas.

No decorrer da narrativa ver-se-á que, apesar da sua sólida formação católica, ou melhor, graças a ela, Bira protagonizou atos de coragem e civismo que emularam os feitos de militantes políticos de esquerda, especialmente aguerridos, de sua época, quando as sombras do arbítrio desceram sobre a nação.

Não se deve ignorar que Bira revelou desde cedo uma clara vocação para o jornalismo. E essa profissão, como sabemos, abre portas e descortina frestas do mundo que permanecem fechadas à maioria das pessoas. De fato, o jornalista Ubirajara Macedo tem o muito que contar. Conviveu com homens rudes, do agreste e algures, mas também com párocos, migrantes e refugiados políticos que buscaram abrigo na casa de seus pais, agora em Natal, quando da desastrado levante comunista de 1930; estudou no Ateneu Norte-rio-grandense numa época em que o escol da inteligência natalense nele pontificava. Em seus corredores era comum um estudante deparar com o professor Câmara Cascudo ou com seus colegas Clementino Câmara, Hostílio Dantas, Edgar Barbosa, Esmeraldo Siqueira; ou trocar idéias com Luís Maranhão, José Gonçalves de Melo, João Wilson Mendes Melo, José Hermógenes de Andrade Filho…

Após uma curta experiência no rádio, Bira se desloca finalmente para o centro dos seus interesses: as notícias do mundo. O veículo que lhe forneceria essa plataforma seria o tradicional e combativo jornal A República. O período que ali passou, nos anos 1960, valeria por um diploma superior. Na sua redação, encontrou Veríssimo de Melo, Myriam Coeli, Celso da Silveira, Sebastião Carvalho… Era no tempo em que escritores militavam na bastilha dos jornais.

Mas a culminância desse processo de eventos “jornalísticos” ainda estava em gestação nos desvãos do tempo. Ou no ovo da serpente. Para lembrar a metáfora que o sueco Ingrid Bergman usou para nomear o clima pré-nazista na Alemanha de Weimar, assunto de um famoso filme seu.

Em 1º de abril de 1964, Bira estava à frente da editoria da Tribuna do Norte quando eclodiu o golpe militar e teve de dar satisfações aos mandatários da hora. Não demorou a que as guantes do arbítrio lhe retirassem do seio do seu lar. Uma contemporânea sua, a escritora Mailde Pinto, resumiu esses acontecimentos sob a rubrica  “Aconteceu em 64”, nome do livro que dedicou ao tema.

Os longos meses que Bira passou nas masmorras do regime autoritário pós-64 não conseguiram fazê-lo abjurar os seus valores cristãos-cívicos, cristãos-nacionalistas, cristãos-políticos. Nesse período, ele permaneceu, como se verá, mais próximo à visão de mundo dos comunistas com quem dividiu celas – Luiz Maranhão, Djalma Maranhão, Carlos Lima, Vulpiano Cavalcanti, entre tantos outros – do que com qualquer outra visão de mundo, inclusive aquela que a Igreja tradicionalmente pregava.

Os detalhes dessa experiência Bira os contou no livro “E lá fora se falava em Liberdade” (Natal. Sebo Vermelho: 2001).

Dissipadas as sombras do arbítrio, Bira está em São Paulo, e se entrega ao burburinho da Cidade Grande, com suas ofertas inesgotáveis de bens concretos ou simbólicos, de vida luxuriante de prazeres e de trabalho. E aí o jornalista macaibense, também funcionário público dos Correios, se desdobra em rotinas diárias e noturnas de trabalho, estas últimas, inicialmente no rádio, em seguida na prestigiosa Folha de S. Paulo.

Dessas experiências, Bira guarda lições preciosas, como revela neste livro. Guarda também modos de amizades que ali começaram ou lá se consolidaram, bens simbólicos inestimáveis na contabilidade dos afetos e do crescimento interior.

Uma dessas amizades responde pelo nome de Carlos, o livreiro Carlos Lima, da Clima Editora e que encontrou em Bira o sócio ideal para um projeto ousado no campo jornalístico. O lançamento da “Folha dos Municípios” se tornou possível com a volta de Bira de São Paulo, já aposentado dos Correios e carente dos ares da província.

A experiencia, com duração de três anos, terminaria com a ida de Bira para o Diário de Natal, jornal onde encerraria suas atividades profissionais em grande estilo.

Outros apelos que já gestavam no seu vasto ciclo de amizades logo o colocaram no centro de um projeto artístico. O local foi o “Beco da Glória”, da cantora Glorinha Oliveira, onde se reuniam jornalistas, poetas, boêmios. O radialista Luiz Cordeiro foi o idealizador. Mas a presença de Bira no grupo foi fundamental para o nascimento do Clube dos Amantes da Boa Música, grêmio que logo ficou conhecida em toda a cidade pela sua sigla: Clambom. Para se aquilatar a verdadeira importância desse clube é preciso se ler o livro “Clambom: um clube em defesa da boa música – 16 anos defendendo a Música Popular Brasileira”, que Bira escreveu em parceria com o clambonista Pedro Ivo Cavalcanti, em 2008.

Nesse ínterim, Bira descobriu o pendor para as viagens, longas viagens que o levaram a países os mais exóticos, os mais distantes, os mais corajosos. Algumas delas deixaram lembranças imorredouros, como ele destaca; outros foram tão instigantes, que ele precisou retornar para conferir um detalhe, uma emoção incompleta, uma bebida exótica ou um prato tradicional.

As testemunhas e protagonistas da vida do jornalista Ubirajara Macedo, seus afetos familiares, estão todos aqui. A primeira esposa Doralice, com quem teve os filhos Júlio Mário Varela de Macedo, Rosana Varela de Macedo e Isabela Varela de Macedo. Veio depois o divórcio, quando Bira casou-se em segundas núpcias com Maria de Lourdes Pereira, adotando suas filhas Virna e Viveca que, com o passar dos anos, se tornaram também filhas dele. E teve os amigos: Taís Marques,

Nessa economia de afetos familiares, há abundantes provas de amor filial e paternal. Declarações em prosa e em verso do próprio narrador e uma carta da sua filha Rosana, que autorizou sua publicação aqui.

Era previsível que uma obra desta natureza se encerrasse sob uma atmosfera de desvelos e desprendimentos em torno do eixo familiar, confirmando que “a família é verdade”, como reza o verso de Pessoa.

Nosso trabalho foi traçar um roteiro para esse panorama simultaneamente uno e múltiplo, como o é toda vida humana. Depois, precisamos questionar suas possibilidades, explorar suas lembranças, dar-lhe uma forma coerente e regular até o seu desfecho, corrigindo e retocando o texto conforme as exigências nossas, digo: nossas e do narrador, mas em ordem inversa de prioridade.

Caberiam alguns lugares-comuns neste último parágrafo, porém preferimos dispensá-los do leitor, a fim de não retardar por mais tempo o seu prazer de conhecer a história do jornalista Ubirajara Macedo, um homem do seu tempo. Seria preciso dizer mais a seu favor? Acrescentaríamos que ele se mostrou à altura dos desafios que teve à frente e deu provas de amor à liberdade.

18 de fevereiro de 2010

A defesa da cultura num diálogo borgiano

Por Nelson Patriota

Em seu conto “O informe de Brodie” (homônimo do livro), Jorge Luis Borges conta que encontrou dentro de um exemplar de As mil e uma noites de Lane um informe assinado por um viajante inglês, de nome David Brodie, que ele agora traduzia. O documento versava sobre um estranho povo, denominado Yahoos, que possuía, entre outras, as seguintes características: tinham costumes bárbaros e raros dentre eles possuindo nomes. Ademais, pescavam com as mãos e devoravam os cadáveres crus dos feiticeiros e dos reis, para assimilarem suas virtudes. Quase desprovidos de memória, seus feiticeiros gozavam, no entanto, da faculdade de prever com segurança fatos que aconteceriam dali a dez ou a quinze minutos.

Em seu informe, Brodie enumera outras qualidades dos Yahoos, afora aquela relacionada com os prognósticos iminentes: têm instituições, inclusive a da realeza, manejam uma linguagem baseada em conceitos genéricos, creem, como os hebreus e os gregos, na raiz divina da poesia e adivinham que a alma sobrevive à morte do corpo. Essas qualidades, na opinião do operoso relator, redimiriam os Yahoos, legitimando a defesa de sua cultura.

No livro Borges/Osvaldo Ferrari – Sobre a filosofia e outros diálogos (Hedra, 2009), com organização e tradução de John Kuinghttons, Borges retoma o tema desenvolvido no “Informe de Brodie”, dessa vez justificando-o filosoficamente: “É claro que toda cultura é mais ou menos rudimentar, mas temos de tentar salvá-la”.

Mais adiante, Borges reforça sua defesa da cultura in abstrato com a seguinte alegação: “Penso que a cultura não pode ser entendida sem a ética”. Isso equivale a dizer que, para ele, cultura se confunde com ética de forma inextricável e, além do seu largo sentido filosófico, teórico, oferece às pessoas uma práxis social pautada pela correção, pelo princípio da razão e do diálogo, em suma, pela ética.

O diálogo, aliás, é o tema eleito por Borges para discorrer, no seu tête-à-tête com Ferrari, sobre as virtudes desse gênero eminentemente social, segundo ele, criado pelos gregos: “No diálogo se consideram as diversas opiniões possíveis, e, de alguma maneira, se substitui o dogma e a prece também”.

Ainda dentro desse tema, Borges considera que um bom ponto de partida para o diálogo é supor que o interlocutor tem razão, lição que diz ter aprendido com os japoneses, nas duas viagens que fez ao Japão, país que o impressionou a ponto de levá-lo a estudar o idioma japonês.

Idêntica virtude percebe no idioma francês, em cuja conversação as palavras parecem admite inflexões de sentido, sublinhando pequenas diferenças, recusando outras, mas cortesmente. Em suma, o francês é, em seu modo de ver, um “idioma pensativo, digamos, não é um idioma que parte de uma verdade pressuposta, mas que está estudando os diversos matizes, as diversas possibilidades de um tema qualquer”.

Não deixa de ser interessante a visão de Borges sobre o declínio da leitura literária, fenômeno já claramente perceptível na última década do século passado. Seu diagnóstico, porém, é sumamente original. Trata-se, segundo ele, nada menos do que uma espécie de ascetismo. Mas de um ascetismo todo particular, praticado por “masoquistas que se castigam, não se sabe por que motivos, se abstendo dessa felicidade (a leitura) que está tão perto de todos”.

Outro traço marcante desse fenômeno, segundo Borges, é que se trata de um ascetismo que é praticado de maneira inconsciente, já que ninguém o justifica, o que o torna, portanto, intrigante e difuso, sugerindo-lhe prenúncios de um futuro em que a única função dos livros seria meramente decorativa.

Contra esse cenário culturalmente apocalíptico, Borges propõe um antídoto: a leitura em voz alta. E lamenta: “Mas é claro que isso agora está se perdendo, já que as pessoas estão perdendo o ouvido. Infelizmente, todos são capazes de leitura em voz baixa, porque não escutam o que leem, passam diretamente para o sentido do texto”, conclui.

DESTAQUE

“Borges considera que um bom ponto de partida para o diálogo é supor que o interlocutor tem razão, lição que diz ter aprendido com os japoneses, nas duas viagens que fez ao Japão, país que o impressionou a ponto de levá-lo a estudar o idioma japonês”.

2 de fevereiro de 2010

Jarbas reúne seus inéditos e dispersos

Por Nelson Patriota

Atendendo a sugestão do livreiro Abimael Silva, o poeta Jarbas Martins está reunindo seus dispersos em livros, jornais, revistas e gavetas, com isso, dando forma a um novo livro, que terá o sugestivo nome de “re-Visões e outros poemas contra-acabados” (qualquer eco ao seu livro Contracanto não é mera coincidência, mas a construção “contra-acabados” ele tributa ao poeta Augusto de Campos). A ideia de Jarbas é que ainda este ano seu novo livro de poemas seja lançado, certamente num grande evento literário, à altura das expectativas que cercam de idiossincrasias a figura do poeta.

De fato, Jarbas Martins costumava jactava-se, até poucos anos atrás, de ser autor de um único livro de versos, Contracanto, lançado em 1996 pela Editora da UFRN, e que, certamente, está esgotado. Seus namoros com a poesia, porém, já haviam rendido, dois anos antes de Contracanto, um curioso e singular livreto intitulado 14 versus 14 – itinerário do soneto norte-rio-grandense – seleção e crítica. Essa obra, aliás, constitui outro projeto literário em que Jarbas vem trabalhando com vistas a uma segunda edição. A seleção de poemas não sofrerá alterações, mas o curto ensaio que enfeixou a primeira edição será substituído por uma longa reflexão crítica em torno da história do soneto enquanto estilo poético, mas sem perder de vistas as características que ele assume quando transplantado para a seara das nossas letras.

14 versus 14, que é também uma “viagem em busca da aura perdida do soneto”, conforme a definição do seu autor, seria seguida de Contracanto e, em 2008, de Antielegia para Emmanuel Bezerra. Assim, a veleidade que Jarbas alimentou de ser o poeta de um único livro está se desfazendo, graças às injunções da própria poesia.

Essa mudança deve ser vista como uma consequência natural de sua história como poeta vivendo em um contexto muito específico, do qual ele faz absoluta questão de não desenraizar-se e para o qual vem dando uma contribuição das mais singulares e significativas.

É suficiente que se atente para o escopo de abrangência da sua poesia, em inquieta expansão, para aí se perceber o quanto ela exibe de colorido, de variegado, de pensado e de experimentado. Desde Contracanto, formas clássicas, como o soneto, convivem, em Jarbas, com experiências induzidas pela eclosão do concretismo e do pós-concretismo, especialmente sob a forma do poema processo, “pecado” em que também incorreram conterrâneos seus, como Dailor Varela, Moacy Cirne, Bosco Lopes, Anchieta Fernandes e Nei Leandro de Castro.

Nel mezzo del cammin, a arte tradutória, exemplarmente defendida pelo poeta Luís Carlos Guimarães entre nós, sobretudo depois da publicação do seu 113 traições bem-intencionadas, sugeriu a Jarbas experiências nessa senda. Daí, vieram as traduções de Henri Michaux, de Jorge Luis Borges, de César Vallejo, entre outros, que ele publicou em algumas edições do jornal cultural O Galo, na Revista do Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Norte e também na Antologia poética de tradutores norte-rio-grandenses, que organizamos para a Editora da UFRN, em 2008. Sub-repticiamente, houve também o reencontro com o soneto, gênero que, hoje, parece merecer uma especial atenção de Jarbas, pelas possibilidades que lhe vem oferecendo em termos de expressão poética.

O acervo de traduções, de sonetos e de outras formas poéticas que Jarbas Martins vem produzindo nestes últimos anos justifica plenamente o projeto editorial de Abmael Silva para um novo livro do autor de Contracanto.

A propósito dessa obra, já não seria tempo de dar-lhe uma segunda edição, haja vista que se encontra fora de catálogo há mais de duas décadas? Não pensamos, evidentemente, numa mera reposição de um título esgotado, mas numa reedição comportando um novo projeto gráfico e uma exposição introdutória assinada pelo próprio poeta, além, evidentemente, de uma seleção da fortuna crítica escrita à sua margem nesse entretempo. Mais do que servir à memória literária potiguar, uma obra com tais características faria justiça ao papel que Contracanto merece ocupar nas nossas letras.

24 de janeiro de 2010

A “má consciência” de David Grossmann

Por Nelson Patriota

Egresso da primeira geração de autores nascidos no estado de Israel, David Grossmann precisou se desvencilhar dos clichês, dos slogans e das meias-verdades próprias a um estado beligerante para se tornar escritor. Ou teria sido o inverso, ou seja, tornou-se escritor para se desvencilhar dos clichês, dos slogans e das meias-verdades. Dentro da categoria “meia-verdade” ele colocou um valor de grande importância para o seu povo: a crença no Deus bíblico Jeová, ou “o nome impronunciável”, “aquele que é quem é”.

Só assim, desprovido de transcendência e armado só com aquilo que pode provir das palavras, ele pôde construir uma obra literária. Na segunda-feira passada, como entrevistado do programa “Roda Viva”, da TV Cultura, David Grossmann teve oportunidade de falar ao público brasileiro sobre seu produtivo ateísmo, bem como sobre alguns de seus romances, dentre eles, “A mulher foge”, já lançado no Brasil e que trata de um tema difícil ao Israel de hoje: o pacifismo: uma mulher foge de casa para não receber a notícia de que o filho, enviado à frente de batalha, faleceu. Ela acredita que enquanto a fatídica notícia não a alcançar, seu filho terá alguma chance de estar vivo.

Falou também de outro livro seu, ainda sem título em português, e conhecido, por enquanto, por seu título inglês, embora Grossmann escreva em hebraico. Trata-se de The Yellow Wind (“O vento amarelo”) e que se enquadra no gênero literário de não ficção, conforme a nomenclatura proposta por Gay Talese.

The Yellow Wind revela a busca de Grossmann por palavras fugitivas, quiçá enfermas. É curioso que ele imagine um hospital para tais palavras. É uma “medida preventiva”. O que seria da humanidade dos homens e das mulheres se todas as palavras adoecessem e, portanto, já não pudessem nomear as coisas ou as nomeassem só parcialmente, contraditoriamente, negativamente?

As palavras fugitivas referidas em The Yellow Wind são justamente as meias-palavras, inclusive os clichês, os slogans, as frases-feitas, as palavras vazias, as únicas ao alcance do entendimento dos “hollow men” de que T. S. Eliot fala em seu poema homônimo. É contra esses “homens ocos” que Grossmann investe cheio de palavras revitalizadas, a fim de fazê-los ouvir verdades relativas, plausíveis, limitadas. Humanas.

Para chegar a essas palavras, Grossmann disse que atravessou um tempo não superior a 30 minutos a pé até chegar a uma aldeia palestina. Apresentou-se como alguém que desejava ouvir o outro lado, como qualquer repórter minimamente informado o faria. Ou como qualquer sociólogo ligado à novíssima ciência das narrativas de vida, saber que tem como dístico a sentença do filósofo alemão Wilhelm Schapp: “Nada existe fora das histórias”.

Ao ouvir as histórias palestinas, Grossmann se deu conta de que a propaganda oficial disseminada em seu país, em seu maniqueísmo desesperado ― “Será que eles creem que tudo permanecerá como está?” ― havia conseguido adiar aquele seu encontro com o outro de um modo quase perfeito. O único erro do establishment foi ter esquecido de avisar aos árabes e cristãos de Jerusalém que a fraternidade cristã ainda teria alguma chance, mesmo com Jerusalém anexada ao lado judaico da cidade.

David Grossmann é hoje um dos representantes do pacifismo em seu país, posição repudiada pela direita israelense, no poder desde sempre, bem como pelos pequenos partidos religiosos que dão sustentação ao governo de Olmert.

Como a narradora de “A mulher foge”, Grossmann tenta dizer que só tem as palavras, mas são palavras suas, arrancadas de dentro da sua alma dilacerada pela perda do filho numa guerra insana e pela deriva que ameaça arrastar seu país a mais e mais guerras, como se a guerra fosse o estado natural de uma nação. Ou até que o mundo esqueça os assentamentos que se multiplicam sobre o solo palestino, terra ocupada, “terra disputada”, na engenharia semântica do estado armado.

“Má consciência” do estado, Grossmann, como Amós Oz segue buscando a palavra capaz de implodir a intolerância, a guerra, o autoengano, a aliança com um deus parcial, o engodo universal. Enquanto não depara com essa palavra realmente revolucionária, vai escrevendo seus livros. Talvez um dia eles se fundam num único livro, e este, por sua vez, na palavra salvadora.

13 de janeiro de 2010

Prosas da linhagem guimarantina

Por Nelson Patriota

No apagar das luzes desse ano de 2009, um lançamento literário conseguiu surpreender de muitas maneiras os leitores atentos à temporada de autógrafos que movimentou livrarias e centros culturais da Capital, especialmente ao longo de seus dois últimos meses. O livro As duas borboletas do entardecer reservava algumas surpresas: dois contos inéditos do poeta Luís Carlos Guimarães, falecido em 2001, e a estreia como ficcionista de seu filho mais velho Luis Ricardo, assinando outros dois textos de ficção.

Contos do poeta de A lua no espelho já haviam saído postumamente pela Editora Bagaço, do Recife, em 2002, sob o título de O funil, reunindo histórias protagonizadas pelo seu alter ego Amâncio Puá, e mais três outros contos formando um grupo à parte, quais sejam: o premiado “A pastora e o arco-íris”, além de “A menina da janela” e “A viajante estrela companheira”.

A publicação de O funil, aliás, já traz a assinatura de Ricardo Luís na sua organização e seleção, indicando que o primogênito do poeta se sentia, havia algum tempo, tentado a seguir pelas veredas abertas por seu pai na área da prosa.

Com esse novo livro, escrito a quatro mãos, a obra ficcional de Luís Carlos Guimarães está presumidamente completa, deixando evidente que o poeta via a arte do conto como um campo o qual pretendia explorar sem abdicar, naturalmente, da poesia, até porque parte significativa da sua obra em prosa se apoiava claramente nos seus dotes poéticos, exibindo um requinte raramente alcançado junto a muitos dos nossos prosadores. Salientemos ainda, para fazer justiça ao poeta, que entre a poesia e a prosa, Luís Carlos abrira uma terceira via: a tradução poética, que resultara na brilhante coletânea 113 traições bem-intencionadas, na qual pretendia prosseguir, graças à boa recepção que tivera essa sua obra singular, a qual ganharia em 2007 uma segunda edição chancelada pela Editora da UFRN.

Mas, se havia uma unidade temática entre os contos do ciclo Amâncio Puá, bem como entre os três contos que encerram O funil, é sobretudo o estilo (que, desde Buffon, “c’est l’homme”) que garante a coesão ao livro, através de uma prosa que namora muito de perto a linguagem que o poeta esparramou sem medida nos seus poemas.

Não é exatamente isso que se observa nesse par de contos póstumos. Se em “As duas borboletas do amanhecer” o narrador rivaliza com o poeta na descrição impressionista do ambiente, aluno atento dos recortes parisienses dos poemas em prosa de Baudelaire, a segunda narrativa carece de maior distinção, lembrando mais a urdidura das anedotas que animam as rodas masculinas nos bares, que é uma forma de conto, mas sem ambições literárias.

Quanto ao outro rebento guimarantino, Ricardo Luís, revela-se em ambos os contos que assina – “O caso das bananas preciosas” e “A romaria em Juazeiro” um experiente e atento observador da realidade, com sensibilidade para o pitoresco e extraordinário. Trata-se de duas histórias plausíveis, observadas em suas linhas gerais e possivelmente, no caso da primeira, vivida, o que lhe confere um hiper-realismo narrativo pelo volume de informações paralelas que caberiam mais adequadamente numa novela ou romance. São excessos, porém, que não chegam a prejudicar o relato, se o leitor acompanhar o narrador até o foco do conto.

Quanto a “A viagem a Juazeiro” poder-se-ia chamar propriamente de “Milagre em Juazeiro”, já que é disso que trata a pequena peça narrativa, em sua estrutura um tanto difusa no que tange ao enredo. É também uma miniatura literária traçada sobre o pano de fundo do velho e até agora não resolvido tema do coronelismo, com suas sabidas sequelas sociais, econômicas, culturais.

Ricardo Luís se lança ficcionista “pegando uma carona” – como ele próprio salientou – em sobras do acervo do seu pai Luís Carlos, o Lula Capeta que o poeta glosou em O funil. A licença poética, por assim dizer, foi usada nesse As duas borboletas do amanhecer. A partir de agora, o herdeiro intelectual da estirpe guimarantina deve caminhar sobre os seus próprios pés, se quiser dar prosseguimento à expectativa que criou com o lançamento desse livro em parceria.

25 de dezembro de 2009

Balanço do ano literário

Por Nelson Patriota

Uma crônica de fim de ano deve, de regra, debruçar-se sobre os umbrais do novo ano e antecipar suas potencialidades a partir do legado que lhe deixa o ano morrente. Mas por que não admitir, por exemplo, que a norma seja provisoriamente posta de lado e, ao invés do novo ano, o ano velho, que está prestes a se despedir, seja seu protagonista, nela expondo suas razões, como o romancista José de Alencar o fez numa crônica datada de 1854 intitulada justamente “Ano velho”?

Utilizando-se de um velho artifício muito familiar aos romancistas do Oitocentos, Alencar é visitado por um senhor idoso, o qual se identifica como sendo o ano de 1854. Seu objetivo é de fazer uma exposição de motivos a seu favor, em represália às inúmeras queixas e críticas que lhe fez o autor de Iracema em escritos publicados nos “folhetins” diários do jornal Correio Mercantil.

Salta à vista que se trata de um diálogo de viés onírico, que Alencar se apressa a atribuir a uma razão suficiente: a leitura de uns contos de E. T. A. Hoffmann, o cruento autor de “O homem de areia”, que já havia inspirado a Machado uns tantos contos góticos…

À luz de hoje, quando vampiros lividamente vegetarianos viram motivo de idolatria juvenil, personificar um ano exaurido sob uma forma humana seria um artifício por certo fora de moda, mesmo porque Hoffmann já não constitui um padrão de assombro para os nossos tempos. Por isso, sem precisar reatualizar um subterfúgio oitocentista, poderíamos olhar retrospectivamente o ano que está findando considerando-o, por exemplo, sob o ponto de vista literário (vertente que nos interessa mais de perto), e nos propor a seguinte pergunta: 2009 foi um ano fecundo, do ponto de vista das nossas letras?

Não temos dúvida em respondê-la afirmativamente. Quer no campo da ficção, quer no da poesia, da memória, dos estudos críticos, são muitos e bons os exemplos a citar, a começar pelo romance A fortaleza dos vencidos, de Nei Leandro de Castro, que abriu novas e graves questões à nossa ficção, seguido de Parnamirim Field, de Lenílson Antunes, o qual explora com humor e abundante informação histórica o episódio da segunda guerra em Natal, além de Memórias de Bárbara Cabarrús, de Nivaldete Ferreira (foto acima), novela constituída de fragmentos que podem ser lidos independentemente do contexto da obra.

A poesia viveu uma de suas estações mais férteis, como o provam títulos como Resina de Diva Cunha, Lábios-espelhos de Marize Castro, Talhe Rupestrepoesia reunida e inéditos, de Paulo de Tarso Correia de Melo, Dança em seda nua de Lívio Oliveira, Antielegia para Emmanuel Bezerra de Jarbas Martins e, mais recentemente, Almas nuas de Zedelfino. Esse conjunto de obras, apesar de exibir nomes dos mais importantes da nossa poesia contemporânea, apresenta um viés preocupante na medida em que carece de nomes novos, tirante o de Zedelfino, que goza da condição de poeta bissexto.

A literatura de viagens apresentou pelo menos dois títulos dignos de menção: Portão de embarque II – Portugal, de Manoel Onofre Jr., e Pelas ruas de Havana, de Rubens Coelho.

A crônica foi destaque com Na outra margem, o amanhã, de Cláudio Emerenciano, enquanto a história literária ganhou três trabalhos arrojados: Jorge Fernandes, o viajante do tempo modernista, de Maria Lúcia de Amorim Garcia, Belle Époque na esquina, de Tarcísio Gurgel e Geringonça nordestina, a fala proibida do povo (em 2ª edição) de Geraldo Queiroz.

Na área do conto, tivemos a revelação de Públio José, com Contos. Porque conto, e de Lima Neto, com Um conto em cinco vozes; tivemos ainda Lápis nas veias, minicontos de Clauder Arcanjo, Tempo de estórias de Bartolomeu Correia de Melo, e o nosso Colóquio com um leitor kafkiano.

Visto esse breve panorama, parcial e pessoal, poderíamos afirmar que a literatura norte-rio-grandense deixa 2009 com um saldo positivo, observada a ressalva já referida, tanto no gênero de ficção como no de não ficção.

15 de dezembro de 2009

O livro tardio de Zedelfino

Por Nelson Patriota

A literatura norte-rio-grandense é rica em exemplos de autores de um livro só (quase escrevíamos: autores “unilivros”). Auta de Souza com Horto; Jorge Fernandes com o Livro de Poemas de Jorge Fernandes; Miguel Cirilo, com Os elementos do Caos; Bosco Lopes, com Corpo de Pedra são assim alguns casos bem conhecidos desse fenômeno literário tão caracteristicamente nosso. Coincidentemente, esses quatro poetas escreveram seus livros ainda jovens e, por razões distintas, não tornaram a publicar. A brevidade da vida de Auta de Souza impediu-a de prosseguir com sua obra literária. Jorge Fernandes, embora continuasse a escrever depois de lançar seu livro em 1927, não teve motivação suficiente para voltar a publicar, dadas circunstanciais diversas que têm a ver tanto com as idiossincrasias do poeta como com a baixa recepção crítica ao seu livro na década subsequente ao seu lançamento. Miguel Cirilo, após publicar seu bem-avaliado Os elementos do Caos, deixou a literatura e embarcou numa viagem de busca existencial que o levou a recorrer lugares e modelos culturais alternativos, mas o impediu de reencontrar o caminho da escritura poética, embora voltasse a ler poesia nos últimos anos de vida. Bosco Lopes, após publicar seu livro com relativo sucesso e não poucas dificuldades, não conseguiu resistir aos falsos brilhantes da vida boêmia e disso resultou um divórcio irremediável da poesia.

Sabe-se bem, todavia, que a poesia não está condicionada a fatores etários e, como Jorge Fernandes, um poeta pode ir colecionando poemas que escreva ora aqui, ora ali, e que de repente apresentem um número suficiente para compor um livro. Nem sempre, porém, essa constatação resulta em livro. Daí que tantos poetas ficam conhecidos apenas entre seus amigos mais próximos, espécies de confidentes da poesia “renegada”.

Foi assim com o poeta Zedelfino, durante um tempo relativamente longo. Até que ele decidiu que era chegada a hora de dar à poesia norte-rio-grandense deste fim de ano e de década seu Almas nuas, que tem prefácio do cronista Vicente Serejo. Trata-se de um conjunto de poemas vindos à luz na época da maturidade quando, segundo Drummond, “os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme” (“Campo de flores”) e que, no entanto, dialogam em perfeita harmonia entre si. Semelhanças vocais ou formais, polissemias, aliterações se atropelam por assim dizer na sucessão dos versos de Zedelfino, cristalizando imagens, reiterando similaridades sonoras, brincando com o duplo sentido de um substantivo/verbo, provando mais uma vez das possibilidades ilimitadas que poesia e língua comungam e de que parecem nunca se fatigar. Não admira que nesse processo pelo menos uma alma finde por se desnudar: a do próprio poeta. Ou será o de sua persona poética?

A uma segunda leitura desse pequeno volume poético, o leitor logo se dará conta de que assiste a uma reedição daquela ingente e vã luta com as palavras, naquele exato sentido que lhe atribuiu o já citado Drummond em outro poema famoso (“O lutador”).

Com efeito, em “Fraturas”, o autor está alerta para as vicissitudes que a palavra pode oferecer, cerceando-o e escamoteando sentidos, construções, imagens. Poesia em fraturas, diz o poeta: “ah, as palavras/ num vai e vem/ em minha mente/ se abrem e fecham/ em copas como lábios/ como portas/ como dedos de mãos/ que vagas imitam/ em arco envergam-se/ sobem e descem/ às folhas de papel/ se curvam se rendem/ e escrevem/e não dizem [...] é que elas se escondem/ nos vãos da casa/ na janela no telhado/ debaixo da escada/ nas frestas do chão/ em utensílios de pouco/ ou nenhum valor/ esquecidas em armários [...]”.

O poema resume, portanto, essa busca pelo que as palavras efetivamente expressam e aquilo que elas poderiam de fato expressar, traço que fica muito patente na própria composição do longo poema, entremeado de pausas e reticências sinalizadoras dos limites verbais em que o poema naturalmente chega, seja pela necessidade de anunciar seu fecho, seja pelo fato de o poeta renunciar a prosseguir em seu propósito.

Tal como comprovou o poeta de Itabira, Zedelfino também tirou a prova dos noves do embate com as palavras e recolheu o poema; a luta não foi, portanto, de todo vã.

1 de dezembro de 2009

Palumbo: Uma revista de quê?

Por Nelson Patriota

Desde meados deste mês a revista Palumbo ganhou as bancas de Natal, trazendo uma proposta de “inovar sem acabar, de determinar o novo sem destruir a memória. De enxergar longe e transformar a visão captada em mensagem para todos”, conforme reza o editorialista Osair Vasconcelos em seu número inaugural.

Explicando a que veio, prossegue o editorialista: trata-se de uma “revista de texto na era das micromensagens”. E, mais adiante, argumenta a propósito do twitter: “para que ficar em mensagens tão curtas [...] quando há tanto para contar, discutir, relatar, perguntar [...]”.

Quando se tem um campo tão amplo de possibilidades, não há senão que explorá-lo, sem se preocupar com rótulos limitadores. palumbo, que presta homenagem ao urbanista italiano que sonhou, como Manoel Dantas, com uma Natal futurista, não é, por exemplo, uma revista de cultura. Pelo menos, não apenas isso. Seria mais bem definida como uma “revista de ideias” ou de “entretenimento”. Uma terceira possibilidade: uma revista de variedades…

Como a revista Piauí, com a qual, aliás, compartilha semelhanças explícitas, como o formato gráfico, o tipo de papel e a pauta generalista. Em compensação, tem apenas a metade das páginas da Piauí, nem lhe imita o humor quase obsessivo, ao contrário do que já faz há alguns anos a mossoroense Papangu.

Dizer que palumbo veio em boa hora é repetir um lugar-comum. Há sempre espaço para o novo, sobretudo quando tem por trás de si boas ideias, experiência e os meios para executá-las. E a propósito de ideias, um olhar sobre o passado pode ser bem-vindo, como a matéria “Aída Cortez – 35 anos depois”, assinada por Albimar Furtado, ou “Belle Époque na esquina”, ou ainda “O homem que criou outra Natal”, excertos retirados do livro Belle Époque na Esquina, de Tarcísio Gurgel, que foi lançado no dia 28 último. Até mesmo uma discussão sobre um assunto árido, embora momentoso, como o twitter, um modismo da internet que deve ter custado muitas madrugadas a Carlos de Souza. Em compensação, não estou certo de que traçar perfil de socialites seja o melhor aproveitamento dos múltiplos talentos da poetisa Marize de Castro…

A propósito, a música está mais bem representada do que a literatura, pelo menos numericamente, nesse primeiro número da palumbo. Enquanto se comenta apenas o livro de Tarcísio Gurgel, apesar da enxurrada de títulos novos de autores norte-rio-grandenses que chegou às livrarias nestes últimos meses, a música ganha dois enfoques circunstanciados: uma entrevista com o saxofonista Paulo Moura, feita por Dácio Galvão, e uma discussão sobre música diegética, assinada por Jorge Galvão, aliás, dois profissionais da área. Quanto às notinhas sobre livros condensadas no “Menu novembro” , estão longe de substituir uma avaliação pessoal das obras.

Matérias polêmicas também são oportunas se mexem com ídolos populares, especialmente um ídolo caído, como Wilson Simonal, e tendo como entrevistado o empresário da noite João Santana. Incansável defensor de Simonal, por quem nutre uma quase idolatria, João Santana fala aos borbotões, e nem sempre coordena as suas ideias. Editar, portanto, o texto transcrito da fita sem antes submetê-lo a um tratamento editorial – principalmente se se trata de uma conversa muito longa – às vezes resulta como um tiro que sai pela culatra: cansa e confunde o leitor. O finado Pasquim, que era useiro e vezeiro na arte de jogar conversa fora em entrevistas quilômetros escolhia muito a dedo seus entrevistados. A precaução era oportuna: se a entrevista é longa, o entrevistado tem de ser no mínimo um causeur.

De todo o modo, palumbo está aí e auguramos-lhe vida longa. Quanto ao seu perfil, queremos crer que seja o de uma revista de idéias, categoria flexível em que cabe perfeitamente à vontade uma publicação que envolve tantas cabeças pensantes da cidade. Seria muito imaginar que palumbo viesse a cumprir o destino de uma A Cigarra dos nossos tempos?

30 de outubro de 2009

Contos e causos de Públio José

Por Nelson Patriota

O rico repertório de causos sertanejos é uma fonte segura para um ficcionista novato. Por essa razão, fez bem o jornalista Públio José em buscar na sua vivência interiorana a substância que enforma a matéria das histórias reunidas em seu livro de estreia “Contos. Porque conto”.

Na apresentação que faz ao livro, o escritor Tarcísio Gurgel salienta justamente a presença dos causos na escrita ficcional de Públio José, na medida em que ele traz ao leitor pequenas histórias ambientadas em vilas e pequenas cidades sertanejas e agrestes, das quais informa detalhes socioeconômicos gerais, e onde destaca um fato curioso, habitualmente engraçado, envolvendo algum personagem popular. As ilustrações de Vancildo Cabral Cardoso (Jupy) e Rita Gurgel dão a cada conto um colorido adicional.

A ficção de Públio José seria, assim, uma escritura sem preocupações de ordem formal ou estética, situando-se naquilo que o professor Tarcísio Gurgel descreve como “as graças do quê mais do que os salamaleques do como”? Ou seja, se a história diverte o leitor, por que reparar se ela não se apresenta numa forma literária sofisticada?

O reparo que se poderia fazer a esse tipo de exortação é que nem toda história se propõe a divertir; não exclusivamente só a isso. Tampouco se deve dividir os escritores entre os que divertem mais e os que divertem menos. Nisso, o professor Tarcísio Gurgel acerta ao assinalar que essas são questiúnculas acadêmicas.

Nem se aplica aos contos de Públio José esse caráter unívoco de divertir por divertir. Ao lado da diversão, como assinalamos acima, ele agrega costumes, lugares, crendices, particularidades da vida sertaneja (ou agreste), entre outras. Isso confere aos contos uma riqueza que, individualmente, eles não parecem ter. A par disso, destaque-se o apuro e a correição da linguagem, decantada nos muitos anos de atividades jornalísticas do autor.

O cenário que se abre ao leitor é rigorosamente nordestino, embora apresente elementos comuns a outras regiões e culturas. Como imaginar uma coletânea de causos sem, digamos, um diabo que seduz um ambicioso, o que não passa de mais uma versão popular de um velho tema medieval que tem um motivo trágico, em outras tantas versões do drama do Fausto, seja o de Goethe, seja o de Marlowe, etc. Isso em nada tira o brilho do conto “A pereba do agiota”. Como não ver no conto “A mão misteriosa” um daqueles causos inverossímeis que compõem a biografia popular de Pedro Malasarte? Em “O Rui Barbosa de Macau” e “O francês invade Seridolândia”, deparamos a mesma crítica e a mesma incredulidade do sertanejo respondendo a tudo aquilo que lhe pareça excessivo ou inverossímil.

Numa outra vertente, o autor sobe literalmente aos palcos dos comícios do interior para flagrar um disparate pronunciado por um chefe político, ou uma alusão que foge ao entendimento do homem interiorano que, ao ouvir “Robespierre”, entende “pobre do Pié”, um deficiente físico indigente que, de repente, vê sua vida mudada graças ao equívoco.

Já em “Dedo assassino” Públio como que franze o cenho para narrar a trágica e inglória luta de um sertanejo contra a picada de uma cascavel. É interessante observar que o escritor Nilson Patriota tratou de tema análogo em seu conto “Picada de cobra”, o qual tem um fim igualmente trágico, traduzindo um saber comum do sertanejo no trato com os ofídios.

Os contos situados na fazenda “Barrinha”, em São José de Campestre, com seus habitantes permanentes – o casal Lenira e Lindolfo, a empregada Maria Rosa, os trabalhadores eventuais e ocasionais visitantes constituem um núcleo narrativo à parte dos demais relatos de “Contos. Porque conto”. De fato, são narrativas que sintetizam uma abordagem mais pessoal do autor ao seu mundo da infância, reminiscências soltas que poderão vir a constituir um volume próprio, quem sabe costuradas por um fio conduzido pelo mesmo narrador impessoal que aparece fugazmente nesses causos e contos, dos quais transparece uma grande riqueza demográfica e sociológica e que são, a nosso ver, a parte melhor do livro.

22 de outubro de 2009

Polemicas em torno de um prêmio preterido

Por Nelson Patriota

A outorga dos prêmios Nobel feita anualmente pela Academia de Ciências de Estocolmo, na Suécia, já se tornou parte indissociável da nossa contemporaneidade. Não interessa tanto saber quem ganhou nessa ou naquela categoria, mas em principio que as comendas foram concedidas. É um fato que assinala a favor de uma ordem de normalidade de vida, num mundo em constante e crescente instabilidade.

Há quem veja com ironia a concessão do Nobel da Paz ao presidente Barak Obama, herdeiro de três guerras e mantenedor de duas delas – Paquistão e Afeganistão –, quando ainda não completou sequer um ano de governo. A academia sueca pode ter feito, porém, uma aposta preventiva de uma terceira guerra. Contra o Irã, por exemplo, sob pressão do lobby industrial-militar americano há pelo menos uma década. E esse lobby existe, afinal, para que se façam guerras. War is business, stupid!

Não foi surpresa menor a escolha da alemã Herta Müller para o Nobel de Literatura. Em entrevista à Folha, Lya Luft lembrou que traduziu um romance dessa autora, mas sequer sabia declinar-lhe o nome. Para não ficar de todo desamparado nessa área, sugiro que o leitor consiga um exemplar do livro “Escombros e caprichos – O melhor do conto alemão no século XX”– organizado por Rolf G. Renner e Marcelo Backes. Ali irá encontrar “A canção de marchar”, conto de duas páginas de Herta Müller. Arriscaríamos dizer que esse não está entre os melhores contos da antologia. Mas se a autora ganhou o Nobel, certamente tem muitos méritos. Então, a falha deve ser debitada aos organizadores, que não souberam escolher bem.

A academia sueca tem suas razões. Suspeitamos que muitas delas pertençam à categoria de “razões de estado”  ou razões secretas. Afinal, ao escolher Herta Müller, um nome europeu, preteriu os nomes de Philip Roth (americano), Joyce Carol Oates (americana), Amós Oz (israelense), Mario Vargas Llosa (peruano), entre outros tantos elegíveis à premiação. Os críticos da Academia resumem seus argumentos à palavra eurocentrismo. Há quem pondere, todavia, que isso é apenas uma fase passageira da instituição, já que o próprio secretário, Horace Englund, nega com veemência veleidades eurocêntricas…

É nessas ocasiões que costumeiramente vêm à tona lembranças desfavoráveis à Academia. Vladimir Nabokov, no começo dos 1900, e Jorge Luis Borges, no final desse século, passaram ao largo de suas atenções. Então seus nomes não teriam chegado às salas secretas dos seus pressurosos jurados?

Sim, porque o processo de escolha de um prêmio Nobel é um desses segredos só comparáveis ao que cerca a fórmula de certo centenário refrigerante. Pouquíssimos humanos participam diretamente de suas decisões. E num mundo onde quase tudo é devassado em detalhes, é crível que nenhum estudo, nenhuma reportagem de fundo haja sido feita até hoje sobre o processo de tomada de decisão da academia sueca?

Sabe-se, porém, que seus jurados recolhem opiniões emitidas por determinadas fontes, que funcionam como uma espécie de termômetro da opinião pública mundial. Sabe-se também, todavia, que os jurados têm independência o suficiente para descartar as opiniões recolhidas. No caso da escolha de Herta Müller deve ter acontecido algo desse tipo. E mais uma vez o nome relegado foi o do americano Philip Roth.

A preterição do nome de Roth, aliás, já está se tornando um desses casos vencidos, considerando a insistência com que seu nome vem sendo lembrado e descartado, sistematicamente, às vésperas da escolha do Nobel de Literatura há pelo menos dez anos. Algo que aconteceu também com Jorge Luis Borges, que nunca ganhou o prêmio.

A obra de Borges dispensa as láureas do Nobel, transformado que foi num dos nomes canônicos da literatura do século XX. O nome de Philip Roth também não se apagará se o Nobel lhe for sempre subtraído. Afinal, Roth continua escrevendo obras-primas desde “O complexo de Portnoy” até “Indignação”, seu último romance lançado no Brasil. Mas o esquecimento do seu nome, ano após ano, deixa uma incômoda impressão de que algo não está funcionando como deveria em termos daquela premiação.

15 de outubro de 2009

Uma entrevista de Ronaldo de Brito

Por Nelson Patriota

Numa entrevista recente dada a esta TN, o premiado escritor cearense Ronaldo Correia de Brito colocou em circulação uma das sentenças mais pertinentes ao ato de escrever: o momento de dar por terminado um livro, um ensaio, um texto qualquer. A máxima, de autoria de Jorge Luis Borges, diz: “Publico para não ter mais que corrigir”.

A atualidade da frase é de tal magnitude que, em casos extremos, produz quer um frenesi por publicar, quer uma barreira de escrúpulos e cautelas capazes de inibir de forma definitiva que certo projeto literário realize seu destino mallarmeniano: tornar-se livro.

Ronaldo está ciente de que se fosse atentar para todas as minudências que uma revisão autoral exige, não publicaria com a regularidade com que o faz. E nestes últimos anos ele tem podido se dar ao luxo de escolher entre continuar revisando textos que perigam envelhecer, e escrever novos trabalhos, dando aqueles ao prelo. Cumprindo à risca esse método, Ronaldo vem lançando livros com regular freqüência desde 1997, quando estreou com “As noites e os dias”. Seu primeiro romance, “Galileia”, lançado o ano passado pela Cosac Naify não foi selecionado para o prêmio Portugal Telecom, o qual, segundo notícia veiculada pela Folha esta semana, vem evitando os romances realistas, segundo a reportagem do jornal apurou ao analisar os dez finalistas à premiação. Isso transforma Ronaldo num escritor realista? Pena que Ronaldo não foi questionado se vê a si mesmo como um escritor realista.

Foi com essas credenciais que Ronaldo Correia de Brito se fez presente ao Festival Literário de Pipa, que começou na quinta-feira passada, retomando contato com escritores e leitores norte-rio-grandenses de sua obra, a qual está repercutindo fortemente nos principais meios literários do país. No mês passado, por exemplo, ganhou o 2º Prêmio São Paulo de Literatura, no valor de 200 mil, juntamente com o gaúcho Altair Martins (livro do ano e veterano).

Sua não indicação para o Portugal Telecom talvez se deva justamente ao fato de já ter sido contemplado com um importante prêmio literário este ano, levando os organizadores desse outro grande troféu literário binacional a dar oportunidade a outros autores ainda pouco ou não suficientemente bem conhecidos (ou premidos).

A entrevista de Ronaldo ao experiente jornalista Carlos de Souza explora assuntos controversos, como conflitos do tipo regional x universal, arcaico x globalizado, erudição x analfabetismo, mas é na relação escritor x internet que Ronaldo revela estar em boa sintonia com a modernidade. Desde que começou a escrever para uma revista da rede passou a cumprir algumas das recomendações de Italo Calvino feitas em seu livro “Seis propostas para o próximo milênio”: rapidez, multiplicidade, visibilidade. E confessa: “Desde que passei a escrever para uma revista da net, a Terra Magazine, me sinto mais corajoso, mais ousado e mais ágil”. Coragem, ousadia e agilidade são, de fato, requisitos indispensáveis para se levar adiante um trabalho intelectual, mas talvez na rede sejam vividos mais intensamente pelo imediatismo e volume das respostas que um escritor com o renome de um Ronaldo Correia de Brito é capaz de suscitar.

A morte também merece uma especial reflexão, quase uma reverência (Ronaldo é médico) por parte do autor de “Galiléia”: “Sem o tema da morte não existiria literatura. Sherazade narra para vencer a condenação à morte e manter-se viva”. Em última instância, portanto, a morte é uma aliada do escritor; o homem bicentenário da ficção científica não tem qualquer pendor para as letras…

O realismo de Ronaldo Correia de Brito também não poupa o fetiche dos livros. Para esse autor, o glamour que cerca os eventos literários é bom por uma única razão: ajudam a tirar a aura sobrenatural da literatura e dos livros. Por serem objetos de consumo, naturalmente concorrem no mercado com “cremes de pele, alisantes de cabelo, celulares e relógios”. Por isso, impõem dilemas do tipo: comprar livros ou tomar dez cervejas? Muitos jovens se veem obrigados a uma escolha dessa forma. Modestamente, Ronaldo os ajuda na decisão, ao dizer: “Sempre preferi comprar livros”.

12 de outubro de 2009

Um romance premiado de Ronaldo de Brito

Por Nelson Patriota

Como o faraó do romance A Pirâmide, de Ismael Kadaré, o patriarca da família Rego Castro, de Galiléia, romance lançado em 2008 pelo cearense Ronaldo Correia de Brito, construiu seu túmulo e agora enfrenta um conflito: não se decide a morrer. Como os habitantes da vila de Comala, do romance Pedro Páramo de Juan Rulfo, os personagens de Galiléia falam com os mortos e sofrem interferências destes em suas vidas. Por essas e outras razões, o romance recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura este ano.

Se ainda fizesse sentido falar de regionalismo, não faltaria quem apontasse as virtudes dessa suposta escola literária, embora reconhecendo que o gênero padeceria de limitações, quando comparadas aos seus congêneres não regionalistas. Felizmente esse tipo de discussão se provou estéril e não partimos mais do grau zero da análise sob o pressuposto de uma vantagem ou desvantagem de gênero.

Visto em sua totalidade, Galiléia é um romance ambicioso, na medida em que se fragmenta e se recompõe a cada capítulo, trazendo a cada vez um protagonista à cena, recurso posto em prática por Balzac em larga medida na sua Comédie Humaine. Com meios mais pragmáticos, Ronaldo pratica a recriação balzaquiana no corpo desse seu primeiro romance, após experiências bem-sucedidas em livros como As Noites e os Dias, Faca, Livro dos Homens, em que praticamente exauriu as possibilidades oferecidas pelo conto.

O núcleo narrativo de Galiléia é a viagem que três primos empreendem do Recife a Arneirós, interior do Ceará, para assistirem aos últimos momentos do avô Raimundo Caetano, um velho patriarca que mandou construir seu próprio túmulo e decide deixar de lutar pela vida. Isso não significa, porém, que a morte lhe chegará de imediato. Pelo contrário, há uma certa dissimulação do ancião por trás da sua aparente renúncia à vida, o que retarda sua morte para além das expectativas dos seus familiares.

É nesse cenário de nervos à flor da pele entre os familiares do patriarca que os dramas existenciais de cada um dos personagens de Galiléia começam a despontar. Adonias, o narrador, médico e, portanto, candidato natural à guarda dos últimos momentos do avô Caetano, torna-se como que o ponto de convergência de todas as tensões.

O fato de Ronaldo Correia de Brito ser também médico ajuda a entender a tensão que se opera sobre Adonias. A experiência com o sofrimento humano em suas inúmeras formas é captada e analisada primeiro por ele, fazendo dele o protagonista final que se apossa involuntariamente do papel que caberia ao velho Raimundo Caetano.

Nesse entremeio, o autor encontra espaço para tecer ácidas críticas aos fundamentos do movimento armorial e a seu patriarca Ariano Suassuna, através do personagem “tio Salomão”. Sobre ele, diz Ronaldo, entre outras coisas: “Tio Salomão preenche a falta de sexo com delírios míticos sobre a mistura dos ibéricos, índios e negros, dando origem ao povo do sertão. Julga-se um intérprete da cultura brasileira, porta-voz dos pobres e desvalidos, sem abrir mão de regalias de nobre. Recuei nas investidas que fez sobre mim, tentando converter-me ao seu movimento”.

Quanto à prosa de Ronaldo, cumpre reconhecer que ele consegue um fino equilíbrio entre a chamada norma culta da língua e a linguagem das ruas. Todavia, quando o narrador mergulha dentro de si em reflexões conflitantes, esse equilíbrio é rompido por termos como necrolepsia, peristaltismos, e um que outro similar que soa forçado num contexto rural. São faltas, porém, que não chegam a comprometer a urdidura do romance e seu desenlace em aberto.

De fato, são tão marcantes as experiências vividas por Adonias, persona do autor, a ponto de que sua vida burguesa pregressa, ou seja, a família e o trabalho, se esfumaçam pouco a pouco, deixando o protagonista num vazio existencial absoluto. Falta-lhe disposição para retomar a ordem protocolar do cotidiano, destituída agora de qualquer certeza. O desvario que encerra o romance dá uma boa medida da visão de mundo que Ronaldo Correia de Brito tem da vida, e o que isso representa como matéria romanesca.

5 de outubro de 2009

Do chão poético do livro “Resina”

Por Nelson Patriota

A exemplo do que Zila Mamede fez com Navegos e Paulo de Tarso Correia de Melo com Talhe Rupestre – poesia reunida e inéditos, Diva Cunha aproveita a escritura de Resina para nele reunir quase toda a sua poesia até agora. A exceção é Armadilha de vidro (2002), com certeza por se tratar de uma obra por demais recente.

A edição de Resina, feita com o habitual cuidado que cerca os livros da Una, da poetisa Marize Castro, resgata com vantagens editoriais os primeiros livros de Diva Cunha, colocando-os outra vez em circulação dentro de padrões gráficos modernos, apresentados em tipos gráficos mais adequados à escrita poética contemporânea, vazados sobre um pólen não menos adequado aos mesmos fins.

Mas como ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, como reza o adágio de Heráclito, no trabalho de recolha dos velhos livros Diva Cunha não resistiu à tentação de uma mudança aqui, um retoque mais adiante, de forma que findou por revisar, em certa medida, algumas das suas obras. Confrontando-se, por exemplo, Coração de Lata (1996) com a sua reedição no corpo de Resina, observam-se algumas dessas “revisões”. Os poemas “Lençol branco”, “Formiga no supermercado” e “Auto-retrato com direito a retoques” foram suprimidos. Outras mudanças, de natureza mais sutil, aparecem aqui e ali. Por exemplo, a crase do poema “Bates à minha porta” desaparece em sua reedição, enquanto a forma verbal “são”, do poema “Outros são os dias” é suprimida, resultando em “Outros os dias”. A repetição do poema “De prata é meu coração de lata” nas páginas 113 e 232, de Resina, parece, contudo, ser fruto de um lapso editorial.

A leitura dos inéditos de Resina, por sua vez, revela-se um exercício instigante pela repetição de alguns temas, que indicam um propósito ou uma preocupação (ou convicção) contemporânea da autora, e menos a possibilidade de mera coincidência.

A poética da vida cotidiana explode em cada verso desses poemas, como a cumprir o credo drummondiano de que ao poeta cabe cantar “a vida presente, o mundo presente”. Daí porque a poetisa confirma mais uma vez sua preferência pelas formas breves do poema, resvalando não raras vezes no hai-kai e na poesia minimalista, como a indicar que a leveza da forma deve coincidir com a leveza do conteúdo.

Essa é a regra, mas não tem exclusividade sobre o amálgama de palavras que resulta no poema. Entre o amorfo e o poético descortina-se um percurso de incertezas, e novos motivos podem ser acrescidos aos incorporados em outros livros. Será por isso, talvez, que o motivo “Deus” ganhou especial relevo na poesia nova de Resina. Pelo menos em três poemas se fazem presentes motivos religiosos em variados contextos: na relação poeta & Deus, em “Quando Deus me habita”; na reflexão poética sobre Deus em “Leio a Bíblia”, e na certeza metafísica manifesta em “Deus me mantém”. Num quarto poema novo, “O corpo contém” a poetisa volta a mencionar o nome “Deus”, como a indicar que esse é um tema recorrente de suas reflexões hodiernas, embora o faça num sentido não específico. Ainda assim, não lhe subtrai atributos divinos: o pequeno mundo de cada dia enquanto morada de um D(d)eus.

As questões de gênero, porém, têm seu lugar em Resina. Um espécime dessa poesia de ranço feminista e tonalidades androfóbicas emerge em “Homem bicho frouxo”, poema no qual a autora supõe o homem feminilizado. Escreve Diva: “Imagina o mundo/ crescendo redondo/ na barriga de um macho desses”. E conclui: “Nem nascia o novo/ nem se fundava a História”. No fundo, o poema é um elogio à confortável separação natural dos sexos, sob a interface ácida da generalizante afirmação do título.

Mesmo as filhas do segundo sexo não passam incólumes pelo crivo de Resina. No poema “Certas mulheres catam coisas pequeninas”, elas são comparadas aos homens, que “não contam nada/ ocupadas com coisas incontáveis”.

É com poemas desconcertantes assim que Diva Cunha poetiza do alto de Resina, no qual a simples poética do cotidiano ficou um tema estreito em demasia para tantos dizeres.

3 de outubro de 2009

Poesia, um assunto de mulher

Por Nelson Patriota

A edição do 13º encontro nacional Mulher e Literatura, encerrado ontem num hotel da Via Costeira, em Natal, foi abordado na imprensa potiguar escrita com um anacronismo: “literatura é coisa de mulher?” Não é difícil para um estudante secundário de escola pública lembrar nomes como os de Safo de Lesbos, entre os gregos da antiguidade, ou o da norte-rio-grandense Nísia Floresta, no século XVIII, ou de Auta de Souza, no início do século passado, entre os inúmeros poetas do segundo sexo. Enfim, literatura, como os demais produtos culturais humanos, sempre teve aportes dos dois sexos. O mais espantoso de tudo isso é estarmos aqui repetindo uma tão gritante obviedade…

Se insistir num anacronismo já soa preconceituoso, formulá-lo chega a ser deselegante, sobremodo quando a interpelada é uma poetisa portuguesa que responde pelo nome de Maria Teresa Horta, e cuja obra está antologiada em modernas coletâneas da poesia lusófona dos nossos dias, como a “Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea – um panorama”, organizada pelos poetas Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno.

Elegante, a poetisa não conseguiu evitar a armadilha das discussões de gênero, que desde três ou quatro décadas dominam os encontros literários e artísticos do mundo inteiro, contaminando com a ideologia dos sexos um tema ao qual oferece mais sombras do que luz. Mas uma citação de Virginia Woolf, aliás, a menos feminista das escritoras inglesas avant la lettre, ajudou-a a fazer um acerto de contas com a questão. Horta citou de memória um argumento que sobressai pela sua ingenuidade: “Por que ela (a poetisa) teria de escrever sob parâmetros masculinos e, não, sob os seus, de suas vivências e do seu modo de enxergar seu mundo, o feminino?”

Seria surpreendente se o contrário fosse exequível. Pergunta que, como não ocorreu ao repórter, encerrou a fase “polêmica” da entrevista com a homenageada portuguesa. Em outro momento, ela teria a oportunidade de lançar para o numeroso público do encontro o seu livro “Poemas do Brasil”, espécie de retribuição simbólica ao prêmio que veio receber entre nós.

Mas, ao lado da portuguesa Maria Teresa Horta, o encontro “Mulher e Literatura” teve outros desdobramentos. Por exemplo, voltou o foco de suas homenagens também para a poesia potiguar. E a escolha recaiu sobre a poetisa Diva Cunha que, a exemplo de sua colega lusitana, retribuiu a escolha autografando na quinta-feira passada, durante o encontro, seu novo livro de poemas, “Resina”.

“Resina” sucede a “Armadilha de vidro”, lançado em 2004 pela Una, o qual, por sua vez, sucedeu a “Coração de Lata”, de 1996. Antes, publicou “Canto de página”, em 1986, e “A palavra estampada”, em 1993. Cinco títulos de poesia, portanto, que refletem uma maneira própria de encarar o fazer poético: com economia e moderação, comportamento que a aproxima do numeroso contingente de escritores que conjuga, junto ao verbo escrever, o verbo cortar, ali onde outros elegem o alternativo reescrever. Poesia discreta, quase minimalista, de coisas concretas, drummondiana, real.

Não obstante, Diva Cunha não é só uma mulher que escreve poesia. É também uma pesquisadora da literatura norte-rio-grandense e de outros temas que foi recolhendo vida afora, fosse na academia, fosse no próprio contato com o mundo dos livros. Isso a levou a diversificar seu foco de interesses na literatura. Assim, a pesquisa passou a disputar espaço com a sua poesia e, pouco a pouco, foi ganhando crescente atenção de sua parte. A parceria com a professora Constância Lima Duarte, mineira com interesses literários vinculados à vida e à obra de Nísia Floresta, só veio reforçar essa vertente da obra de Diva.

A homenagem que o 13º encontro Mulher e Literatura fez à poetisa de “Resina” é obviamente extensiva à organizadora de livros como “Iniciação à poesia do Rio Grande do Norte” (1999) e “Via Láctea – de Palmyra a Carolina Wanderley” (2003), ambos em cooperação com a colega mineira. Sem implicações de gênero, naturalmente.

1 de outubro de 2009

Sobre um poema longo de Fernando Monteiro

Por Nelson Patriota

Como o mar de Valéry, que vaza incessantemente do seu “Cemitério marinho”, o poema longo de Fernando Monteiro, intitulado “Vi uma foto de Anna Akhmátova” avança e reflui, num recomeço obstinado e fiel a uma lógica interna inalcançável ao leitor, como a indicar que esse é um tributo a que o poeta não se pode furtar: repetir-se para finalmente encontrar, após esse sísifo retorno sobre si mesmo, um rumo novo que finda se negando mais na frente; ao retorno sobre os seus próprios pés.

É por essa razão que certos poetas, sobretudo os niilistas como Fernando Monteiro, encontram na prosa um sucedâneo à poesia que se lhes subtrai, como Dafne a Apolo. Essa e outras razões levaram o poeta Fernando Monteiro a mitigar a sede de poesia que lhe propiciara escrever suas primeiras obras – por acaso, iniciada com “Memórias do mar sublevado”, um “poema longo” (outros poetas teriam sobreposto à palavra poema algum adjetivo mais específico: épico, romântico, trágico etc., adjuntos que teriam ao menos uma vantagem sobre o impreciso designativo “longo”: esclarecer a natureza do poema, ao invés de buscar um referencial “numérico”). A propósito, poemas longos são um gênero familiar aos pernambucanos Alberto da Cunha Melo e Marcus Accioly, como se dá com “Meditação sob os lajedos”, e “Yacala”, do primeiro, e “Latinomérica”, do segundo.

O Fernando Monteiro do poema longo “Vi uma foto de Anna Akhmátova”, porém, é um escritor em plena maturidade de sua arte, erigida sobre a trilogia Graumann, entre outros romances e contos, além de estudos biográficos sobre o faraó Akhenaton e o arabista T. E. Lawrence.

O processo criativo de “Vi uma foto de Anna Akhmátova” obedece à lógica estabelecida há muito pelo visionário William Blake do verso: “to see a world in a grain of sand/ and a heaven in a wild flower” (ver um mundo num grão de areia/ e um céu numa flor silvestre). De fato, a corrente de versos que transborda do livro foi desencadeada pela visão de uma foto da poetisa Anna Akhmátova num sebo recifense. Na pluralidade de sugestões que a foto lhe suscitou, Fernando encontrou seu grão de areia há muito perdido; reencontrou sua poesia.

Esse reencontro, todavia, não se dá de modo tranquilo. O poeta está diante do seu leitmotiv como ante um caleidoscópio: a visão se mexe e se move em muitos sentidos, obrigando-o a seguir ora nessa, ora naquela direção. Cada trecho iniciado com o verso “Vi uma foto de Anna Akhmátova” descerra uma cortina, afasta uma névoa, clareia um desvão escuro que dificultava a visualização plena dessa cujo enigma está não no sorriso, como a Mona Lisa, mas na penumbra que cai levemente sobre seus olhos, obnubilando-os com imprevisível vagar.

O poema longo de Fernando Monteiro não poderia portar o atributo de romântico, porque não há lugar para lirismo em suas linhas. Poderia, porventura, autoproclamar-se de trágico, porque por ele transitam crimes imperiais, guerras indefensáveis e as cinzas de um mundo que passou. Poderia, ainda, denominar-se “nostálgico”, porque é isso que seus versos destilam pausadamente: de um passado que se repete como sucedâneo para o desencanto com o mundo atual.

De fato, entre o hic et nunc (“aqui e agora”) dos epicuristas e o nec metus nec spes (“nem medo, nem esperança”) dos estóicos, Fernando Monteiro seguramente optaria pelo credo destes, como deixa entrever na crítica que faz aos poetas contemporâneos no corpo do seu poema longo, que deixa atrás de si um cenário de escombros e ruínas. À trindade modernista formada por Carlos, Mário e Manuel, ele prefere Maria Ester Bueno, Éder Jofre, Noel Rosa. É em busca da Rússia longínqua que ele parte na esperança de encontrar explicação para “as semelhanças dos loucos e dos santos no Nordeste delirante”.

Entre tantas digressões, Fernando Monteiro conserva firme nas mãos o fio de Ariadne do seu poema longo. Por isso, chega (ou é levado) ao porto último. Não sem antes permitir-se um furtivo intermezzo lírico e interrogativo: “Todos os pássaros cujo piar nublado/ eu escutei nascendo na dobra/ de uma manhã do passado/ estarão mortos?”.

28 de agosto de 2009

Escrever, enfim, é um ofício secular

Por Nelson Patriota

A crença de que a literatura é uma espécie de ofício que alguém aprende por seus próprios meios, dispensando qualquer auxílio exterior, começa a ganhar ares de ideia passadiça. De fato, está se firmando pouco a pouco um novo paradigma nessa área: cursos regulares para a formação de escritores (denominados em inglês de “creative writing” = escrita criativa) que, ao final, concedem aos inscritos um “diploma de autor”. Tais cursos não só são viáveis, como já aconteçam regularmente em muitos países, sendo que, nos Estados Unidos, a elite literária contemporânea é oriunda dessa espécie de cursos e vem arrebatando com certa regularidade, da década passada para cá, o principal prêmio literário daquele país: o Pulitzer de Ficção.

Essa moda, todavia, não é de todo inédita no Brasil, se lembrarmos que o escritor pernambucano Raimundo Carrero é um pioneiro nessa área desde os anos 1980, quando fez um curso semelhante na Universidade de Iowa, EUA. Desde então, vem ministrando no Recife cursos regulares para a formação de ficcionistas, além de ser autor de um dos poucos manuais do gênero escritos em português. Trata-se do livro A Preparação do Escritor (Iluminuras).

Se Raimundo Carrero tem o mérito de ter introduzido no Brasil os cursos para formação de autor, é no sul/sudeste onde eles aparecem em plena efervescência, conforme reportagem do caderno “Mais!”, da Folha de S. Paulo do último domingo. A Casa das Rosas, na capital paulista, está com suas aulas para a formação de autor lotadas, apesar de oferecer meia dúzia de oficinas de escrita criativa. Uma das atrações dos cursos é o escritor Marcelino Freire (ex-aluno de Raimundo Carrero), que mantém outra oficina no Espaço Barco, também em São Paulo.

Mas, o que se discute, de fato, nessas oficinas, que atrai um número cada vez maior de interessados? Para esclarecer essa questão, a Folha ouviu o já citado Marcelino Freire e mais os professores Luiz Antônio de Assis Brasil e Luís Augusto Fisher. A cada um deles, pediu que pontificassem sobre duas vertentes da literatura: a leitura e a escrita.

O resultado do questionário mostra um pouco do que deve ser a rotina desses cursos que visam a habilitar seus alunos nessa pouco clara seara da “leitura criativa”. Com visão mais conservadora, Luiz Antônio de Assis Brasil recomenda ignorar os best-sellers, usar em abundância o ponto final e dedicar mais tempo à leitura do que a escrita.

Teatral, Marcelino Freire joga com o contraditório e recomenda que “quanto mais um livro fizer mal, melhor” (faltou explicar em que sentido um livro faz mal), para, em seguida, advertir: “Desconfie das dicas que lhe dão”.  Mais comedido, Luís Augusto Fisher contemporiza: “Um texto literário, obra de arte que é (ou aspira a ser), tem direito de ser como é. Isso alerta para a necessidade de a leitura ser respeitosa: o leitor deve dispor-se a receber as informações e as formas do texto tal como o autor as concebeu. Mas isso não impede que o leitor comum pule fora ao perceber que seu honesto empenho de leitura não está sendo recompensado”. Sobre a leitura, Fisher diz, entre outras coisas: “”Embora no sentido trivial o leitor é quem escolhe o texto que vai ler, num sentido mais profundo é o texto que escolhe seu leitor”.

É fácil, portanto, retirar ideias práticas comuns desse domínio das letras, não obstante o fato de que a visão de mundo de cada instrutor seja às vezes de ordem muito pessoal. Mas não resta dúvida de que a formalização do ato de escrever (que necessariamente também implica o da leitura) descortina um campo vasto de novas possibilidades e pode ser um diferencial do nosso tempo, no qual o fetiche do livro exerce um fascínio de rara espécie. De fato, há uma pulsão social que move cada vez mais pessoas a tentar a escrita, sob qualquer uma de suas formas. Cursar um desses programas de “escrita criativa” pode resultar benéfico não só para o futuro autor, mas também para seus eventuais leitores.

27 de agosto de 2009

Uma antologia da epopeia do sertão

Por Nelson Patriota

Fiel ao espírito sistematizador do seu tempo, o poeta Carlos Newton Júnior não resistiu à tentação de se aventurar nos meandros da tradição literária para dela extrair uma síntese. O resultado é uma antologia. Seu nome é O Cangaço na poesia brasileira (Escrituras, SP: 2009).          Não custa lembrar que esse pernambucano, que lecionou por vários anos na UFRN e deixou contribuições à poesia norte-rio-grandense é, antes de tudo, um pesquisador da cultura nordestina, sobretudo nas questões ligadas à poesia popular e ao movimento armorial. Por isso, cotejar poesia popular e poesia culta (ou erudita, como ele prefere) no terreno daquilo que ele denomina de “epopeia do sertão”, seria uma motivação difícil de resistir por muito tempo. Mas talvez o tenha surpreendido no percurso a quantidade dos poetas “eruditos” que se deixaram atrair pelo drama do cangaço, embora com resultados irregulares. Aliás, essa parece ser uma fatalidade da poesia: todos os temas parecem estar abertos a todos os poetas, mas, de fato, poucos o estão, ao menos para a grande maioria deles. Quando esse limite não é respeitado, o resultado é poesia irregular, geralmente inferior à que o poeta produz quando trata de seus temas próprios.

Como era de esperar, a figura de Virgulino Ferreira, o Lampião, preside o cangaço, em torno do qual, direta ou indiretamente, gravitam os 35 poetas coletados, dos quais quatro norte-rio-grandenses: Dorian Gray Caldas, Márcio de Lima Dantas, Newton Navarro e Homero Homem.

É uma participação seguramente modesta, não obstante ter sucedido em solo potiguar o ataque de Lampião e seu bando a Mossoró, seguramente um dos episódios mais dramáticos dessa saga. A centralidade dessa página é, aliás, sublinhada pelo próprio autor, no curto ensaio intitulado “O cangaço na poesia brasileira”, que escreveu a título de apresentação.

Uma provável explicação para a singela participação, na obra, de poetas potiguares e, especificamente, do tratamento poético do tema do ataque a Mossoró seria a pressa natural que aflige todo antologista, o que costuma se traduzir em omissões e lacunas. A alternativa seria simplesmente admitir que, embora de grande apelo poético, a grande maioria dos poetas potiguares passou ao largo do episódio.

Quanto àqueles poetas que ouviram os ecos da contenda, assinalamos, entre os antologiados, o nome de Dorian Gray Caldas, no poema O ataque de Lampião a Mossoró, e o de Homero Homem, em Conversa de cangaceiros a cavalo no dia em que atacaram Mossoró.

A controversa figura de Lampião não poderia aparece unânime na antologia. De fato, se, em alguns poemas, é transfigurado como um herói nietzschiano, situado acima do bem e do mal, como no inspirado poema “Um capitão chamado Virgulino”, do cearense Francisco Carvalho, o pernambucano Carlos Pena Filho, em seu poema “Episódio sinistro de Virgulino Ferreira” evita incensar os feitos do temido cangaceiro, preferindo retratá-lo como um personagem fadado a cumprir um destino trágico. Esta, portanto, é uma vertente oposta àquela praticada por um Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, Francisco das Chagas Batista, entre outros mestres do cordel cujas produções costumeiramente abstraem os malefícios do cangaço para palmilhar o caminho que conduz seus protagonistas ao Parnaso.

Na rubrica das curiosidades da antologia, o soneto de Alexei Bueno, explicando porque recusou o convite do autor para escrever sobre o cangaço, é digno de registro (ao menos em parte). O poeta carioca argumenta: “Para entrar, Carlos Newton, nesta obra/ só pela negação. Posso eu, um reles/ ser urbano e livresco falar deles?/ [...]”.

No mais, poemas de Ariano Suassuna, Walmir Ayala, João Cabral de Melo Neto, Ascenso Ferreira, Sérgio de Castro Pinto, Jorge de Lima, Marcus Accioly, Murilo Mendes, Virgílio Maia e do próprio antologista, entre outros.

Às vezes é preciso apontar o óbvio, que passa despercebido justamente por ser demasiadamente visível. Um dos méritos da antologia de Carlos Newton Júnior reside nisso: mostrar que a grande poesia brasileira também ouviu o apelo dramático-poético do cangaço e nele encontrou motivos para enquadrá-lo sob metro e rima, em alguns casos, à altura de suas melhores realizações.

13 de julho de 2009

Um romance à rédea solta

Por Nelson Patriota

Uma rara combinação de memória e imaginação urde a tessitura de “A fortaleza dos vencidos” (edições Arx da Saraiva), quarto título ficcional e 16ª obra do poeta e romancista norte-rio-grandense Nei Leandro de Castro, cujo lançamento aconteceu na quinta-feira passada.

A memória domina a maior parte da narrativa, haja vista que esta trata de fatos reais da história política brasileira, na qual age o par de protagonistas formado por Esmeraldino e Marionalda, cujas histórias de vida jamais os deveriam ter aproximado. Quando o destino contraria essa norma – e é o que acontece nessa nova história de Nei Leandro –, o resultado é sempre o mesmo: ódios tempestuosos dão lugar às veleidades sentimentais que violaram a fronteira da lógica das relações humanas.

Alternando capítulos, Nei Leandro vai tecendo uma trama que se revela a cada passo mais e mais complexa, terminando por envolver debaixo de si de meio século de história brasileira e trazendo ao centro do palco atores que protagonizaram acontecimentos capitais dessa história. Em âmbito local, assomam ao proscênio do romance os nomes de Luís Ignacio Maranhão, Djalma Maranhão, Vulpiano Cavalcanti e Câmara Cascudo, entre outros, os quais exercem um papel decisivo junto a Esmeraldino, direcionando-o para a política e a poesia, o que finda por refletir também sobre a história de vida de Marionalda.

E, contrariando um dos corolários da Escola dos Annales, que prega que a história nada ensina, Nei Leandro pinta com tal realismo as sessões de tortura a que Esmeraldino é submetido nas celas do DOI-Codi, no Rio de Janeiro, que voltamos a ter diante de nós esse pesadelo da nossa história recente e toda a gama de acontecimentos odiosos que infelicitaram a vida brasileira desde aquele 1º de abril de triste memória.

Embora a política conduza as linhas subliminares da trama de “A Fortaleza dos vencidos”, ela não exaure seu rico material novelesco. Nele há lugar para idílios amorosos porque, afinal, Esmeraldino é poeta. Mas essa condição infelizmente não garante relacionamentos felizes, como demonstram seus amores com Daisy e Laura, sem falar na execrável Marionalda.

Outras vias do romance se abrem para releituras de acontecimentos marcantes da história potiguar, como os massacres de Cunhaú e Uruaçu, quando o Autor dá voz ao estigmatizado Jacó Rabbi, ouvindo, por assim dizer, sua versão daqueles fatos.

Essa revisão inclui passagens pela vida e martírio de André de Albuquerque Maranhão, pelo massacre do Castelo Keulen, em Natal, e pelo suposto heroísmo do soldado Luís Gonzaga no entrevero de 1935 com os comunistas. O bandido Antônio Baracho, famigerado protagonista da crônica policial natalense dos anos 1960, desfila sob novas roupagens ante os olhos de espanto do leitor…

Para trazer tantos fatos díspares e meio fora do script à sua trama, Nei Leandro se vale de artifício engenhoso, que rivaliza com o que empregou, anos atrás, na transformação do caixeiro-viajante José Araújo em Ojuara: um delírio alcoólico que acomete Marionalda/madame Cibele durante uma tenebrosa chuvarada que se abate sobre Natal.

De repente, a ex-cartomante se encontra no interior da Fortaleza dos Reis Magos e tem diante de si os espectros de Antônio Baracho, do soldado Luís Gonzaga, de Jacó Rabbi, de André de Albuquerque Maranhão, de Zé Limeira Filho e do ex-marido Esmeraldino, os quais a submetem a julgamento pelo crime de traição.

O julgamento é longo e dramático, dividindo as opiniões dos jurados e reiterando opiniões que guardam coerência com suas vidas pregressas. Logo que é proferido o veredicto, e enquanto pouco a pouco a ré torna a si, os mesmos maçaricos que, no início do livro, riscavam o céu da manhã natalense (como o fizeram com igual indiferença na saga dos Cançado, em O dia das moscas), tornam a riscar esse mesmo céu (mas que agora é outro), enquanto a alegoria se recolhe ao lugar que lhe reservou o escritor para quando a concluísse.

Algum tempo transcorrerá até que “A fortaleza dos vencidos” seja assimilada pelos seus leitores. Então será possível dizer se nele Nei Leandro de Castro realizou com engenho e arte o romance-síntese de uma geração.

13 de julho de 2009

História e memória em dois novos livros

Por Nelson Patriota

A chegada quase simultânea dos livros “Pelas ruas de Havana”, de Rubens Coelho, e “Parnamirim Field – o último pouso”, de Lenilson Antunes, às livrarias, dá mostras de certa vitalidade da literatura norte-rio-grandense em dois campos diferentes, haja vista que o primeiro recai sob o gênero de relato pessoal, enquanto o segundo incursiona pela ficção histórica.

Como nada do que acontece na literatura é por acaso, Lenilson se adianta ao especulativo leitor e destaca que nasceu no auge da Segunda Grande Guerra. Esse fato por si só não é capaz de gerar um ficcionista, mas quando associada a outros – estudos sociológicos, por exemplo – e, last but not least, imaginação e talento, apoiados numa sólida pesquisa historiográfica, podem explicar o tardio mas surpreendente romance que urdiu com engenho e arte.

Na orelha para “Parnamirim Fiel”, Nei Leandro de Castro assinala que há muitos estudos inspirados no papel que o então “Parnamirim Field” desempenhou na Segunda Guerra. Mas esse seria o primeiro romance que o tema inspirou. E não lhe faltam elementos clássicos da ficção histórica, como a ambientação realista, espionagem internacional com seus agentes secretos nem sempre à altura de suas missões, além de amor, paixão, ambição e outros ingredientes imponderáveis, como o humor, e que fazem a diferença entre o real e o possível, de que só a boa ficção é capaz.

O livro do cearense-potiguar Rubens Coelho, que fez de Mossoró sua cidadela, lida, a exemplo do de Lenilson Antunes, com um fato singular, mas confere a ele um tratamento de depoimento, embora lhe recuse a rubrica de memórias. Entendemos que assim proceda por restringir a abrangência do livro a episódios pontuais aos quais faltam a reflexão e a análise constituintes das memórias lato sensu.

A rigor, “Pelas ruas de Havana” é o exorcismo de uma fantasia política que o autor desenvolveu e alimentou durante os muitos anos em que militou nas barricadas contra a ditadura de 64, na clandestinidade país afora. Era preciso conhecer Havana; era preciso ver de perto a diferença que o socialismo de inspiração soviética teria feito na ilha caribenha de José Martí e Fidel Castro.

Passadas a distensão e a anistia e restaurada a ordem democrática no país, Rubens Coelho finalmente encontrou a ocasião propícia para verificar de perto o que havia por trás do sonho pregresso do socialismo à Cuba, sobre o qual a opinião pública internacional se achava dividida desde a queda do muro de Berlim, em 1989.

Relato de maturidade, “Pelas ruas de Havana” é um livro que se pretende realista, ou seja, fiel à crueza dos fatos quando eles assim se apresentem. E essas são características presentes em grande monta nas suas páginas, como o leitor logo perceberá, haja vista a distância que comumente separa a realidade da utopia.

Nem sempre os fatos depõem contra o governo revolucionário. A tranquilidade aparente das ruas de Havana indica que a violência urbana é um problema urbano inexistente na ilha de Pablo Milanez e “Bola de Nieve”. As crianças cubanas parecem estar todas recolhidas às escolas nos dias comuns e não há indícios de motins populares. Nada disso, porém, impediu que o ex-militante político deixasse de detectar a incômoda presença do comércio do sexo na ilha, desde praticamente o primeiro dia da sua chegada.

Reportagem-verdade, como se dizia nos tempos heróicos do jornalismo engajado, “Pelas ruas de Havana” se dispensa o esforço de fazer proselitismo. A Rubens, bastam os fatos. Nem mesmo sabemos, ao final da leitura, se o Autor, em seu balanço final da viagem, saiu frustrado ou confiante. Questionado a esse respeito, ele poderia talvez retrucar que o leitor fizesse a si mesmo a pergunta a partir dos fatos, abundantes, que ele disseminou no texto. Este é, aliás, um bom exercício da chamada “leitura ativa” ou “participativa”. Vale frisar que os resultados de tal exercício costumam ser surpreendentes.

13 de julho de 2009

Jornalismo contrasta decisão do STF

Por Nelson Patriota

A decisão do STF no sentido de que a atividade jornalística não requer diploma ainda causa perplexidade, onde quer que dois ou mais jornalistas se encontrem. Nas entrelinhas, soa ainda mais esdrúxula a decisão: seria como afirmar que se trata de uma profissão que não requer qualquer preparação, treinamento ou especialização; um ofício destituído de qualquer especificidade. Portanto, ao alcance de qualquer leigo.

Seria o jornalismo algo comparável à profissão de administrador, que requer mais um senso prático e objetivo da empresa do que aptidões específicas em determinadas áreas-meios ou fins? Seria como o ofício de escritor, para o que bastaria desenvolver uma forma própria de conduzir uma narrativa, desde que detendo conhecimentos básicos da escrita? Seria, ainda, algo assemelhado ao trabalho do revisor de textos, que demanda basicamente um conhecimento geral da língua?

Embora guarde semelhança com as profissões de administrador, escritor, revisor de textos e outras, o trabalho do jornalista tem algumas especificidades que as distinguem e que dificilmente podem ser adquiridas fora de um curso regular universitário. O domínio da técnica redacional das matérias noticiosas é uma delas, incluindo aí a busca da neutralidade como sentido ético do texto, em contraste com o engajamento que todo veículo ético assume quando lida com questões que digam respeito ao interesse coletivo. Um veículo que descuide dessas duas facetas, dificilmente será bem-vindo junto à opinião pública.

Além desses aspectos gerais, o jornalismo assume características plurais dentro de cada veículo, de acordo com cada seção em pauta. Como esperar que um leigo acompanhe simultaneamente a vida cultural e a forma de noticiá-la num veículo, mediante entrevistas, resenhas, reportagens etc., características que marcam o jornalismo cultural, e que variam conforme a natureza de cada veículo?

Não que um leigo não possa assinar uma coluna específica num determinado jornal ou revista. Pelo contrário, a participação de especialistas não-jornalistas na imprensa foi sempre uma colaboração saudável, contribuindo para o pluralismo informativo em bases seguras. Não é essa a questão em pauta, haja vista que nenhum jornalista sensato quis jamais assinar colunas de assuntos técnicos como medicina, psicologia, astrofísica etc. Nem previa tais “reservas” para jornalista a lei revogada pelo STF, ao contrário do que alguns veículos chegaram a noticiar equivocadamente. Não se trata, portanto, de abrir licitações para a entrega de veículos noticiosos a empreendedores leigos, pois estes não se sentiriam à altura de assumir tais riscos.

Mas é inegável que a decisão do STF causou sérios danos ao jornalismo, como o de sugerir que se trata de uma atividade que pode ser exercida por qualquer leigo, o que vale para coisas destituídas de qualquer complexidade. Como se lidar com uma linguagem, uma técnica e um estilo comprometidos com a clareza e a objetividade estivesse ao alcance do homem da rua!

Em decorrência da mesma decisão, muitas vocações jornalísticas poderão ser seriamente prejudicadas, não só porque começarão a questionar o valor do esforço que estarão fazendo para obter um diploma nessa área, mas sobretudo porque o Estado, como mantenedor desses cursos, poderá passar a discriminá-los em favor de cursos outros. No longo prazo, isso significaria o desmonte de uma atividade a qual, graças a seu papel crucial na formação da opinião pública, ficou conhecido como “o quarto poder”.

Inevitavelmente, um sentido retaliatório seria atribuído a medidas de tal natureza. Especialmente pelo efeito devastador de suas consequências, na medida em que a precarização da atividade jornalística teria reflexos negativos no âmbito da sociedade, deixando-a menos informada acerca de questões cruciais e que exigem ampla discussão coletiva.

Independentemente de todo esse imbróglio, bons jornalistas continuarão a ser formados nas boas universidades. E esse é o lugar aonde as empresas jornalísticas irão recrutá-los, a fim de continuar fornecendo informação confiável, inteligível e correta.

13 de julho de 2009

Orwell cruza a soleira da internet

Por Nelson Patriota

Discutir internet e jornalismo profissional pode não ser uma boa sugestão de pauta para um noticioso contemporâneo. Começa que os adeptos da internet consideram jornais e revistas coisas absolutamente desnecessárias, ultrapassadas e obsoletas. Daí que quando deparam alguém que faz um juízo não menos maniqueísta da internet, inevitavelmente ocorrem conflitos e desentendimentos difíceis de conciliar.

Foi o que aconteceu na mesa-redonda sobre blogs, jornalismo e cultura, celebrando os dois anos de existência do site www.substantivoplural.com.br, que aconteceu dia 12 passado, no pequeno auditório da Livraria Siciliano localizada no Midway Mall. O debate mediado pelo jornalista Tácito Costa contou com as participações de Daniel Dantas, Nelson Patriota, Alex de Souza e Kênia Castro.

Pelo fato de ter cabido a nós a tarefa de abrir o encontro com um comentário sobre o livro O culto do amador, de Andrew Keen, a fim de apresentar as diversas alternativas de discussão do tema principal, não pudemos deixar de frisar que o subtítulo do livro já é uma tomada de posição crítica sobre a internet. De fato, segue-se abaixo do título a seguinte frase: “Como blogs, YouTube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores”.

Os argumentos apresentados por A. Keen, que resumi a tópicos de música, “jornalismo-cidadão” e invasão de privacidade causaram visível mal-estar a alguns colegas da mesa, sobretudo àqueles que fazem uma ideia altamente louvável da internet, mas demonstram pouca disposição em discuti-la.

Ao invés disso, preferem apontar as vantagens e as “janelas de oportunidade” que a Web 2.0 trouxe para todos, indistintamente, como uma espécie de Fiat laico posto em movimento pelo engenho humano.

Alguém sugeriu, durante a discussão, que os jornais ainda são mais lidos do que as páginas noticiosas da internet porque ainda há menos PCs do que jornais, como se entre ambos se travasse uma competição irreconciliável.

Fo preciso que alguém lembrasse a esse debatedor que computadores e jornais são bens de consumo acessíveis às classes A, B e C e que entre eles não se verifica qualquer fator de exclusão. Antes, são vistos como bens que se completam.

Isso é especialmente verdadeiro quando se trata de apurar informação, aprofundá-la e desdobrar seu alcance e abrangência. E isso inclui a equivocada ideia de que a internet trouxe consigo o fim da notícia. Aliás, trata-se de uma dessas não-notícias que podem ter graves consequências para o papel que as ideias de verdade e mentira desempenham no mundo da vida.

Imaginar um tempo em que todas as informações disponíveis nos cheguem através da Web 2.0 e de suas sucessoras, corresponderia a admitir um cenário orwelliano no qual verdade e mentira pouco difeririam entre si porque as hordas humanas, destituídas de valores éticos, já não teriam parâmetros para distingui-las, durante as emissões feitas pelo Grande Irmão, aliás Big Brother.

Se não houver mais quem apure as notícias, analise-as e transmita-as através de veículos fidedignos, trabalho que demanda profissionalismo e visão ética da informação, o cenário orwelliano nos esperará na dobra de uma década ou duas. Nesse tempo, haverá apenas “jornalistas-cidadãos”, aqueles informantes que trancadas em seus cubículos privados darão notícias do mundo da vida o qual lhes parecerá cada vez mais estranho, mal ultrapassem a soleira de suas portas. Se o fizerem alguma vez.

Que diferença fariam tais notícias no cenário que George Orwell concebeu em seu 1984 tornado real? A palavra “irrelevante” seria a mais inócua para descrevê-las.