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	<title>Substantivo Plural &#187; Nelson Patriota</title>
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	<description>CULTURA + IDÉIAS + INFORMAÇÕES</description>
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		<title>Um soneto inédito de Deífilo Gurgel</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Feb 2012 17:19:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[Se todo poeta se torna, com o passar dos anos, um metafísico, um filósofo condenado a formular insistentemente perguntas irrespondíveis, não é o caso, então, de censurar o poeta Deífilo Gurgel por ter se dobrado ao metafísico em sua última fase. O soneto “Solidão”, datado de 4 de agosto de 2009, e que nos foi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/02/deifilogurgel.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-40592" title="deifilogurgel" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/02/deifilogurgel-340x272.jpg" alt="" width="204" height="163" /></a>Se todo poeta se torna, com o passar dos anos, um metafísico, um filósofo condenado a formular insistentemente perguntas irrespondíveis, não é o caso, então, de censurar o poeta Deífilo Gurgel por ter se dobrado ao metafísico em sua última fase. O soneto “Solidão”, datado de 4 de agosto de 2009, e que nos foi oferecido pelo autor para o n. 4 da Revista do Conselho Estadual de Cultura (ainda inédita), tem em seu último terceto uma síntese, porém, antimetafísica (um tento para Deífilo), comparável àquela de “Preparação para a morte”, de Manuel Bandeira, em sua lucidez chã, sem véu de alegoria. Diz o verso: “Um dia a Morte, monja silenciosa, / me levará também, só, entre rosas, / para a outra margem desta solidão”.</p>
<p><span id="more-40591"></span>Citemos, porém, os dois quartetos e o terceto faltantes, haja vista que “Solidão”, até onde sabemos, permanece inédito: “Com que festejo, agora, esta chegada /de volta à minha terra, ao chão comum, / se todos já partiram, um a um, / levados pelo Vento, para o Nada? // Com quem dividirei minha risada, / se não encontro mais, aqui, nenhum / dos velhos companheiros de jornada, / que o Vento arrebatou, frágeis anuns? // De que me vale perguntar à Morte / por que os levou, para que Sul ou Norte, / se a Morte não responde à indagação? [...]”.</p>
<p>Mas a poesia de Deífilo Gurgel, vasta vaga que se espraia em tantas margens, comporta a cada arremetida um modo de ser e de ver que se desdobra e se diversifica sempre segundo uma lógica própria que lhe é exclusiva. Ao escrever “Uma história da poesia brasileira”, o carioca Alexei Bueno antologiou, dentre os poetas norte-rio-grandenses vivos, apenas Deífilo Gurgel, representado no livro pelo soneto “A praia”. Bueno justificou a escolha sob o argumento de que se tratava de “um dos sonetos mais belos de nossa poesia”. Diva Cunha e Constância Lima Duarte, em sua “Literatura do Rio Grande do Norte: antologia”, também se curvaram ao encanto dos sonetos de Deífilo, e o mesmo aconteceria com Assis Brasil, em seu livro “A Poesia Norte-Rio-Grandense no século XX”, entre outros.</p>
<p>A rigor, Deífilo Gurgel não poderia ser alinhado ao lado de poetas do lado soturno da vida, como uma leitura descontextualizada do soneto “Solidão” poderia sugerir. Nascido e criado numa praia, acostumado à luz abundante e ubíqua que recobre nossa região, ele teria naturalmente que ser um poeta do lado ensolarado da vida, como, de fato, foi. Dito de outra forma, era uma pessoa alegre, otimista e confiante no trabalho que desenvolvia desde muitos anos, fosse na seara da poesia, fosse naquela outra do folclore, da cultura popular, com seus romanceiros, seus autos populares, que encarava como seu verdadeiro trabalho, por requerer método, pesquisa e análise. Em contraste, a poesia às vezes é puro diálogo interior.</p>
<p>Durante alguns meses do ano de 1999, pude conviver de perto Deífilo Gurgel, privando de suas orientações e de seu saber, quando trabalhamos na feitura do livro “400 nomes de Natal”. O livro foi planejado para celebrar os 400 anos de fundação da cidade de Natal, que se festejariam no ano seguinte. Rejane Cardoso, responsável pela coordenação do projeto, além de Manoel Onofre Jr. e Jardelino Lucena, dividiram conosco os ônus desse livro ambicioso e temerário, que reduz à mesma estatura personagens díspares e desiguais da história potiguar.</p>
<p>Mais tarde, eu reencontraria Deífilo Gurgel no Conselho Estadual de Cultura, ao lado de outros companheiros dessa frágil nau que, no fim das contas, é qualquer instituição cultural pública. O velho poeta não se queixava de nada; via com naturalidade a passagem dos anos que, afinal, é uma herança comum a todos os que têm a fortuna de envelhecer. Essa é uma daquelas lições de vida que não se esquece.</p>
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		<title>Três visões contemporâneas sobre Câmara Cascudo</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Jan 2012 00:38:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[
Talvez o principal traço que distinga as pessoas da nossa modernidade tardia seja a pluralidade de papéis que elas são levadas a exercer ao longo da vida, pelas razões as mais diversas. Mário de Andrade traduziu essa pulsão ao ecletismo numa síntese conhecida: “Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta”. Por trás da sentença, havia, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/01/cascudo.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-39694" title="cascudo" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/01/cascudo-464x253.jpg" alt="" width="398" height="217" /></a></p>
<p>Talvez o principal traço que distinga as pessoas da nossa modernidade tardia seja a pluralidade de papéis que elas são levadas a exercer ao longo da vida, pelas razões as mais diversas. Mário de Andrade traduziu essa pulsão ao ecletismo numa síntese conhecida: “Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta”. Por trás da sentença, havia, latente, o propósito de explicar por que ele enveredou por tantas searas do saber, da crônica à poesia, do romance à antropologia, do folclore à medicina, da música à epistolografia e mais.</p>
<p><span id="more-39693"></span>Seu contemporâneo e êmulo em algumas dessas áreas, o norte-rio-grandense Luís da Câmara Cascudo não precisou repetir o dístico marioandradino, ou exagerá-lo. Sua produção intelectual também se espraiou por vias as mais diversas. Daí o desafio que ela constitui ainda hoje, passados 26 anos de seu trespasse, sem que nossa inteligência tenha sido capaz de realizar um retrato de corpo inteiro do homem ou de sua obra.</p>
<p>Não se trata, entretanto, de uma postura de omissão deliberada. Pelo contrário, continuamos a pensar Cascudo, a tentar entendê-lo em sua complexidade, a conjeturar sobre coisas que ele escreveu, a estudar sua obra. Nossa época, mesmo, aceita de bom grado essa tarefa. E os resultados podem amiúde surpreender.</p>
<p>A revista do TCE, v. 13, n. 1, de 2011, se constitui numa dessas surpresas que publicações oficiais raramente costumam fazer, até porque não é esse o seu métier. Mas acontece que nessa sua última edição, a revista dedicou um caderno inteiro a Câmara Cascudo, e já em sua chamada de capa remete à questão ambígua do papel de Cascudo na cultura brasileira: o de ser simultaneamente um escritor provinciano e universal. E, reconheça-se, essa não é uma questão de somenos importância.</p>
<p>Em textos assinados por Diógenes da Cunha Lima, Sanderson Negreiros e Vicente Serejo, três dentre os mais conhecidos estudiosos da obra de Cascudo entre nós, fica evidente que para cada um desses autores existe um Cascudo distinto do dos demais. Diógenes se detém no amigo que conheceu como professor na Faculdade de Direito e que elegeu para seu mestre. Circunscrito a esse plano, o texto de Diógenes se compraz em realçar a amizade entre mestre e discípulo, ilustrada por tiradas espirituosas e alguns ensinamentos por parte do primeiro, ao mesmo em tempo que destaca o papel especial que o segundo desempenhou nessa relação.</p>
<p>Mais circunspecto e com preocupações de outra ordem, mais próxima à filosofia humanista, o escritor Sanderson Negreiros revela um outro Cascudo, não oposto ao retratado por Diógenes, porém mais contido. Tanto, que chega a compará-lo a um novo Papini, o atormentado escritor italiano que escreveu sobre Deus, o diabo e o dinheiro. A comparação, segundo Sanderson, se deve a que Cascudo foi também “tocado dessa aura de arcar com a responsabilidade de negacear o relativo – que nos decepciona – e aviar-se com o Absoluto, que nos garante”.</p>
<p>Descendo um pouco mais à essência do homem Cascudo, Sanderson considera que, para Cascudo a felicidade “não é dom nem êxtase: está nas menores coisas, que encerram, polpa do instante, o sumo da eternidade”. Dentre os epigramas cascudianos, cita dois: “Faça um ramalhete de suas alegrias miúdas”, e “Não some seus desenganos”.</p>
<p>O Cascudo que se sobressai do artigo de Vicente Serejo é sobretudo o homem de ciência: o pesquisador, o escritor “e começou a grande construção da cultura popular do seu povo”. Mais adiante, o articulista resumirá, numa síntese feliz: “[Cascudo] viveu como um descobridor: vendo e ouvindo, lendo e perguntando, sem nunca pensar em deixar sua terra natal, entre os rios, o mar e os morros, traços de sua própria fisionomia”.</p>
<p>Três Cascudos? O que os textos acima referidos nos proporcionam são três visões contemporâneas sobre o mesmo homem, embora marcadas por divergências, o que também é esperado nesses casos, tendo em vista a complexidade do personagem de que tratam.</p>
<p>*******</p>
<p><strong>Do editor:</strong></p>
<p><strong>Por Jefferson Duarte</strong></p>
<p><strong>A Cozinha Brasileira um suculento caldeirão cultural</strong></p>
<p>Quem me conhece sabe que adoro cozinhar, quando me perguntam que tipo de prato voce gosta de fazer: eu respondo os pratos da minha Cozinha Brasileira.</p>
<p>O Celophane Cultural faz uma homenagem a Luis da Camara Cascudo e seu livro “História da Alimentação no Brasil” que “debulha” as origens desta nossa cozinha tão ampla e misturada que faz do ato de comer do Brasileiro, um importante veio cultural.</p>
<p><a href="http://jeffcelophane.wordpress.com/2011/10/22/a-cozinha-brasileira-um-suculento-caldeirao-cultural/" target="_blank">aqui</a></p>
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		<title>Para não esquecer de dizer Enélio de Lima Petrovich</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/para-nao-esquecer-de-dizer-enelio-de-lima-petrovich/</link>
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		<pubDate>Fri, 13 Jan 2012 00:48:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, fundado em 29 de março de 1902, leva uma vantagem qualitativa incontornável sobre os seus similares: a prevalência do tempo. Mais antiga instituição cultural em atividade no Estado, ele se reveste de uma legitimidade que só o tempo é capaz de conferir, sem demérito para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, fundado em 29 de março de 1902, leva uma vantagem qualitativa incontornável sobre os seus similares: a prevalência do tempo. Mais antiga instituição cultural em atividade no Estado, ele se reveste de uma legitimidade que só o tempo é capaz de conferir, sem demérito para os demais.</p>
<p><span id="more-39442"></span>Era dessa vantagem que se jactava o escritor Enélio Petrovich, motivo, aliás, de algumas incompreensões agora irrelevantes, na medida em que seu passamento as apaga por natural consequência. À ironia – essa idiossincrasia tão comum em nossa vida cultural – o velho presidente do IHG/RN não era indiferente. Sua chegada às reuniões ordinárias do Conselho Estadual de Cultura era invariavelmente anunciada com um bordão: “Boa tarde, imortais morríveis!” A referência a “imortais” se devia ao fato de que a grande maioria dos membros do Conselho também integrava o quadro da Academia Norte-rio-grandense de Letras, inclusive o próprio Enélio Petrovich, o que acrescia um toque de autoironia ao bordão. Ao mesmo tempo, ressaltava a antinomia resultante da combinação das ideias sugeridas por imortal e “morrível”, colidindo em flagrante contradição.</p>
<p>Afeito às sínteses dos ditos populares, Enélio Petrovich era useiro do ditado “Sou o que sou. Se assim te sirvo, aqui estou”, também largamente empregado por seu mestre Câmara Cascudo. A relação de amizade entre esses dois intelectuais é de longínqua data, basta ver que nas obras memorialistas de Cascudo, Enélio é um personagem sempre citado e, ao assumir a ANL, foi saudado por ninguém menos que o próprio mestre do folclore.</p>
<p>Entre o irônico adágio “imortais morríveis” e sua contraparte desafiadora “Sou o que sou. Se assim te sirvo, aqui estou”, Enélio dava vazão ao seu espírito crítico, mas que não se contentava em sê-lo em limites estreitos, sim em largo espectro. Aí entrava a crítica à suposta imortalidade acadêmica e, mais realista, à própria fragilidade humana. A contraparte, lançava aos seus desafetos que, suponho, ficassem na média da maioria: entre poucos e pouquíssimos.</p>
<p>Sua trajetória, animada por lançamentos de livros, homenagens acadêmicas e outras, viagens de interesse pessoal ou atendendo a convites institucionais, discursos, saudações e recepções a sócios e convidados do IHGRN teve o seu auge possivelmente no ano de 2002, quando a celebrada “mais antiga instituição cultural do Estado” festejou seu centenário. Em entrevista ao jornal O Galo, da Fundação José Augusto, na edição de agosto daquele mesmo ano, Enélio explicou seu papel à frente daquele órgão: “Estou na presidência do Instituto desde agosto de 1963. É um cargo não remunerável e que requer tão somente abnegação, como também vontade de realizar algo em prol da cultura norte-rio-grandense, não deixando, nos longos passos já percorridos há quase 40 anos, no esquecimento a memória dos dignitários do saber e da erudição, a exemplo de um Câmara Cascudo, Nestor Lima, Tavares de Lira, Vicente de Lemos, Manoel Rodrigues de Melo e tantos outros”.</p>
<p>A “abnegação” e a “vontade de fazer”, que levaram Enélio Petrovich a permanecer na direção do Instituto Histórico e Geográfico do RN por quase 50 anos, lhe renderam elogios e críticas. Os primeiros, à dedicação com que marcou sua gestão institucional; as segundas, ao centralismo que imprimiu ao cargo. Talvez ambos possam ser tributários do espírito de sua época. Mas com certeza não é possível fazer no calor da hora um julgamento isento de uma obra de quase meio século.</p>
<p>Talvez por estar sempre sintonizado com o presente, Enélio Petrovich levou a tão longo termo o seu estilo de ver e produzir cultura. Sim, porque deixou dezenas de títulos sob diversas rubricas. Sua visão do curto prazo dos projetos não lhe permitia fazer vaticínios no prazo longo. Se questionado, responderia com outro bordão popular: “O futuro a Deus pertence”, e se recolhia ao seu pequeno escritório no IHG, cercado com seus quadros detalhando as diversas estações da sua vida. Certamente absorto num dos seus afazes prediletos: a intriga do bem.</p>
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		<title>A educação dos sentidos em “Habitar teu nome”</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Jan 2012 21:22:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
O quanto um título significa num volume de poesia, além de simplesmente nomeá-lo? É de supor que muitos poetas o utilizem tão somente como um recurso de identificação, uma mera formalidade que pouco interfira na estrutura e no espírito do livro. No caso específico da poesia de Marize Castro, isso parece acontecer, se se pensa, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/01/marize-castro.jpg"><img class="size-medium wp-image-39256  aligncenter" title="marize-castro" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/01/marize-castro-340x226.jpg" alt="" width="340" height="226" /></a></p>
<p>O quanto um título significa num volume de poesia, além de simplesmente nomeá-lo? É de supor que muitos poetas o utilizem tão somente como um recurso de identificação, uma mera formalidade que pouco interfira na estrutura e no espírito do livro. No caso específico da poesia de Marize Castro, isso parece acontecer, se se pensa, por exemplo, em seu mais recente trabalho, “Habitar teu nome”, lançado no apagar das luzes de 2011.</p>
<p><span id="more-39255"></span>Em que medida o título determina o curso que a poesia desse livro deve seguir? Provavelmente nenhuma ou, quando muito, estabelece com ele uma relação frouxa, de pouco compromisso, na medida em que os poemas se diluem nas páginas de forma homogênea, livres de qualquer elemento distintivo, salvo o próprio poema. Note-se que aquilo que aparece no sumário como título, não passa de um meio prático para remeter o leitor ao primeiro verso do poema. De outra forma, a alternativa seria dispensar o sumário.</p>
<p>Em se tratando de Marize Castro, poeta já incorporada ao cânone contemporâneo, esse recurso não se apresenta mais sob a forma de um experimento. É, antes, o prosseguimento de uma prática posta em curso desde seu primeiro livro, “marrons crepons marfins”, de 1984, e que, embora contrariada em “Lábios-espelhos” (2009) e parcialmente em “Rito” (1993), retorna em “Habitar teu nome”.</p>
<p>Seguramente, Marize se sente mais à vontade liberando seus poemas da couraça dos títulos, apêndices às vezes incômodos pelo que apresentam de artificial ou supérfluo. Porém, é possível que haja por trás desse desconforto poético uma segunda razão: a linhagem que vai de “marrons crepons marfins” a “Habitar teu nome” indica que não há solução de continuidade entre seus poemas. Em outras palavras, há um traçado contínuo e regular ligando, como uma marca d’água ou uma linha de sombra, cada livro ao seguinte, cada poema com cada outro poema, de forma a constituir um discurso poético autorreferenciado e que segue em uníssono.</p>
<p>Essa impressão de “familiaridade” que emana da leitura especular de “Habitar teu nome”, relativamente aos seus títulos precedentes, não se confunde, porém, com repetição; é, antes, a continuidade de um projeto poético de natureza centrífuga, que cresce e se expande em várias direções, mas sem renunciar à sua subjetividade própria, paralelamente ao amadurecimento intelectual e à educação sentimental da autora e que encontra, na expressão poética, sua exata tradução.</p>
<p>Por isso, por trás das reticências que suspendem, por assim dizer, o voo de pássaro do poema, congelando-o sob uma determinada forma no ar rarefeito do branco da página, resta uma constatação, uma sugestão que ficou, quem sabe, para um próximo poema; ou mesmo uma confissão, mas nunca explícita.</p>
<p>Em última instância, a poesia de Marize Castro é a sua melhor verdade, como ela o diz explicitamente no poema “Esta palavra”, abrindo “Habitar teu nome”. E anuncia seu custo: “perdi metade do meu coração” a essa “inaudita senhora” (a poesia). A um tão precioso custo, não surpreende que sua poesia se reserve uma dicção introspectiva, voz intimista que parece anunciar cada poema como quem sussurra, não como quem brada; como quem reflete, não como quem improvisa. Ou como alguém cujo sono é feito de “ausências, sobressaltos, espantos”.</p>
<p>Por isso, enfim, lançando mão da imagem de um náufrago, a autora depõe por instantes todas as defesas e anuncia: “disfarço-me / de calmaria / e poucos sabem / quem sou // quem dera que as ondas / fossem mais sinuosas / e os dilúvios / mais constantes // quem dera que entre / essas algas / surgisse a pérola / de antes // somente ela valeria / esse naufrágio” (“disfarço-me”). Esse é também o máximo de explicitude que uma poesia introspectiva como a de Marize Castro pode se permitir, sem abrir mão daquilo que lhe é essencial.</p>
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		<title>Lembrança de uma ideia machadiana de Natal</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Dec 2011 13:42:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O comércio sempre soube converter valores em dinheiro, projetos em dívidas, sonhos em hipotecas. E a queixa que transparece no “Soneto de Natal”, de Machado de Assis, revela que esse saber dista de outros tempos, mais nervosos que os correntes. E não é preciso lembrar as crises que oxigenam os noticiários da mídia, que já [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/teoria-do-medalhão-machado.de_.assis_.jpg"><img class="size-medium wp-image-38622  alignleft" title="teoria do medalhão machado.de.assis" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/teoria-do-medalhão-machado.de_.assis_-307x300.jpg" alt="" width="196" height="191" /></a>O comércio sempre soube converter valores em dinheiro, projetos em dívidas, sonhos em hipotecas. E a queixa que transparece no “Soneto de Natal”, de Machado de Assis, revela que esse saber dista de outros tempos, mais nervosos que os correntes. E não é preciso lembrar as crises que oxigenam os noticiários da mídia, que já não engana ninguém no seu propósito de consagrar a má notícia como sinônimo de notícia. E quem duvida que um cidadão atordoado por um bombardeio constante de notícias (más) é um cidadão menos crítico, menos atento ao que convém a ele próprio?</p>
<p><span id="more-38621"></span>“Mudara o Natal ou mudei eu?”, indagou perplexo o Bruxo de Cosme Velho ao deparar um Natal que pouco, muito pouco, conservava daquilo que ele vivenciara na infância que, até onde sabemos, foi de pobreza e carência. Outros valores, porém, compensaram esse lado mau na sua vida de menino. Laços de família, cuidados maternos, provisão paterna, amizades e projetos de um futuro melhor são algumas dessas possibilidades. Mas já na sua vida adulta o Natal mudara inapelavelmente. A outra possibilidade era de que ele próprio tivesse mudado. Mas, quem sabe, mudaram ambos, o escritor maduro que olhava para trás e não reconhecia o Natal que conhecera na infância, e, portanto, se lhe apresentava outro que não o familiar, posto que ele, Machado, também era outro.</p>
<p>A verdade é que o Natal continua em perpétua mudança. Em nossos tempos, também não o reconhecemos como aquele da infância. Agora, cultua-se abertamente o fetiche do consumo sem rebuços, que porta o nome de papai-noel, e cuja história remonta a um certo Nicolau, santo católico, hoje irreconhecível sob vestes vermelha e branca, gorro vermelho e ventre protuberante de glutão.</p>
<p>A ideia de Natal mudou não menos que a de Deus. Se antes o Deus do Natal era uma criança pobre, um deus-menino indefeso como qualquer criança, pobre de herança, hoje é cada vez mais “moderna” a ideia de um Deus rico e próspero. Sua prosperidade pode ser conferida ao lado de felizes proprietários de automóveis que anunciam, no vidro traseiro dos seus veículos, frases do tipo: “Quando Deus quer, é assim”, como a insinuar malevolamente que o seu Deus é caprichoso e volúvel, e costuma de raro em raro premiar um que outro mortal com bens móveis e caros, como um carro do ano. Considerando que as boas ações humanas são cada vez mais tímidas, ao contrário das más, cada dia mais audaciosas, é de supor que esse felizardo que recebeu de Deus um automóvel não o tenha merecido por uma ação excepcionalmente boa, legítima, justa que porventura praticou. Antes, é mais provável que tenha sido premiado numa loteria celeste tão aleatória e caprichosa como as que frequentam os cassinos clandestinos.</p>
<p>Uma variação desse anúncio caviloso pode ser lida em letras bastante legíveis também no vidro traseiro de alguns automóveis. Está escrito lá: “Propriedade de Jesus”, como a indicar claramente que Jesus (outro nome de Deus) é não menos cioso das questões mercantis do que certos humanos, especialmente aqueles que lidam com recursos alheios. Para que Deus (ou Jesus) se integre plenamente ao seu estilo de vida, é necessário que ele também se apresente sob essa condição humana de proprietário de algo. Especialmente se o bem econômico se enquadra na categoria de sonho de consumo do homem da rua.</p>
<p>Em algum lugar de sua correspondência com Lucílio, o filósofo Sêneca, cético de todos os apelos mundanos, exortou ao seu discípulo: “Só desejarás a justa medida das riquezas: primeiro, o necessário; segundo, o suficiente”. Em tempos de elevado consumo de bens entre os quais dificilmente se pode refletir sobre medidas e cautelas, a exortação do estoico romano soa como um derradeiro chamado à razão. Mas quem o ouviria?</p>
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		<title>A terapia pelo livro, segundo Ronaldo Brito</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Dec 2011 16:00:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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Foto: Hans-von-Manteuffel
Quando visitou a redação do jornal cultural “O Galo”, na Fundação José Augusto, em outubro de 2001, o cearense/pernambucano Ronaldo Correia de Brito era um festejado teatrólogo inspirado na cultura popular nordestina, “a nossa maior mina, o nosso subsolo de petróleo”, como ele a definiu em entrevista que deu a nós, àquela época, e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/Ronaldo-Correia-de-Brito-Fotógrafo-Hans-von-Manteuffel.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-38259" title="Ronaldo-Correia-de-Brito-Fotógrafo-Hans-von-Manteuffel" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/Ronaldo-Correia-de-Brito-Fotógrafo-Hans-von-Manteuffel-340x226.jpg" alt="" width="340" height="226" /></a></p>
<p>Foto: Hans-von-Manteuffel</p>
<p>Quando visitou a redação do jornal cultural “O Galo”, na Fundação José Augusto, em outubro de 2001, o cearense/pernambucano Ronaldo Correia de Brito era um festejado teatrólogo inspirado na cultura popular nordestina, “a nossa maior mina, o nosso subsolo de petróleo”, como ele a definiu em entrevista que deu a nós, àquela época, e que foi publicada em novembro daquele ano nas páginas de “O Galo”. O contista, porém, já dissera a que viera, pois seu livro “As Noites e os Dias” começava a trilhar um caminho de reconhecimento crítico e de êxito popular.</p>
<p><span id="more-38258"></span>O passar dos anos apenas confirmou aquilo que Ronaldo Correia de Brito anunciara nas páginas do periódico cultural que a Fundação José Augusto, sob a presidência do jornalista Woden Madruga, mantinha zelosamente. De fato, Ronaldo publicou na primeira década do século atual outros volumes de contos – “Faca” (2003), “O Livro dos Homens” (2005) e “Retratos Imorais” (2010) – e um romance, “Galileia” (2008), sem que, em qualquer momento, se afastasse do princípio que anunciara no contato que manteve conosco. Sua confiança no “nosso subsolo de petróleo”, ou melhor, na riqueza inesgotável da cultura que é feita e que faz o homem nordestino, só tem se fortalecido.</p>
<p>O sucesso da obra de Ronaldo dá provas de que é possível ser escritor nordestino sem portar um rótulo ou pertencer a uma confraria nobiliárquica ou de outra ordem. E hoje, mais maduro e consciente do seu papel como escritor, ele faz profissão de fé de uma das ideias mais ousadas que um escritor já formulou: “os livros podem preencher todas as faltas na nossa vida”, conforme disse em entrevista ao jornal cultural “Rascunho” (novembro de 2011).</p>
<p>Detalhando melhor sua ideia, Ronaldo explica que chegou a essa conclusão sobre o papel terapêutico dos livros ao se debruçar sobre sua própria história de vida. “A nossa história pessoal é muito incompleta, é muito fragmentária, é muito cheia de hiatos e buracos [...] A literatura pode – na vida de qualquer indivíduo, não apenas na minha – ocupar esse espaço, preencher esses buracos, essas faltas”.</p>
<p>A essa altura já é possível perceber que Ronaldo não distingue autor de leitor. O poder curativo que ele atribui ao livro pode se dar tanto num, como no outro caso. Ou seja, ler é tão importante quanto escrever, em sua opinião, confirmando um pensamento que alguns escritores preferem não arriscar. Ao longo da entrevista ao “Rascunho” ele tem oportunidade de enfatizar algumas vezes essa ideia. Como, por exemplo, quando divaga sobre a infância e se demora no episódio da descoberta do livro da família – “A História Sagrada” – de leitura obrigatória na casa de seus pais. Aos sete anos de idade, conta Ronaldo, ele fez a primeira leitura desse livro. Nesse momento, seu pai o declarou leitor. “A partir daí, minha vida começa”, diz ele.</p>
<p>Mas para que essa emancipação se dê, é preciso preencher uma condição: ler como Jorge Luis Borges leu, ou seja, amando os livros. E isso é uma característica que parece acompanhar Ronaldo ao longo de sua vida. O entusiasmo com que ele se reporta a livros que recebe de autores pouco ou nada conhecidos é uma prova disso. Ou, em suas palavras: “Havia coisas que eram incompreensíveis, que só o livro poderia me dizer, que só o livro poderia me explicar, que só o livro me colocava naquele lugar”.</p>
<p>Ante tamanho entusiasmo, Ronaldo passa a impressão de que gosta de falar mais dos livros que lê do que dos que escreve. Mas que ninguém se engane, trata-se com certeza de uma idiossincrasia que só um autor maduro e consciente do seu papel na vida literária brasileiro pode ostentar. Sem qualquer ostentação. Longe disso.</p>
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		<title>O brilho farto da literatura de espetáculo</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Dec 2011 01:19:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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Escritor Miguel Sousa Tavares e o jornalista Woden Madruga no Flipipa 2011
A literatura e seus valores contemporâneos viraram moeda miúda por esses dias que se sucederam ao Festival Literário da Pipa-Flipipa e ao Encontro de Escritores de Língua Portuguesa-EELP. Com direito às estrelas mais luminosas da constelação das letras brasileiras e portuguesas, os dois encontros [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/FLIPIPA.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-38059" title="FLIPIPA" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/FLIPIPA-340x226.jpg" alt="" width="340" height="226" /></a></p>
<p>Escritor Miguel Sousa Tavares e o jornalista Woden Madruga no Flipipa 2011</p>
<p>A literatura e seus valores contemporâneos viraram moeda miúda por esses dias que se sucederam ao Festival Literário da Pipa-Flipipa e ao Encontro de Escritores de Língua Portuguesa-EELP. Com direito às estrelas mais luminosas da constelação das letras brasileiras e portuguesas, os dois encontros não deixam de apresentar muitos pontos em comum. Um deles, mas não o menos importante, a importância de discutir o próprio fazer literário como uma extensão da obra autoral.</p>
<p><span id="more-38058"></span>O que esses dois eventos tão proximamente coincidentes expressam com letras maiúsculas é sobretudo os múltiplos usos que a literatura é capaz de produzir. Entre uma conferência de Miguel Sousa Tavares sobre sua própria obra ficcional e uma discussão tratando do significado da correspondência de Luís da Câmara Cascudo e Mário de Andrade, vai uma distância que, embora possa parecer ilimitada, encontra inúmeros pontos de contato, a começar pelas formas discursivas e suas variantes entre o texto do autor lusitano contemporâneo e os usos que delas fizeram Cascudo e Mário.</p>
<p>É verdade que o formato escolhido pelos organizadores do EELP não se preocupou tanto com a diversidade de personagens e assuntos que movimentaram a praia da Pipa, repleta de celebridades nacionais. A presença de Rubens Figueiredo merece especial menção, pelo que apresenta de paradoxal. De fato, considerando que ele acaba de realizar um dos trabalhos mais extraordinários na área da tradução literária, ao trazer para o brasileiro contemporâneo o épico “Guerra e paz”, de Liev Tolstói. Dessa vez, e pela vez primeira, diretamente do russo. Além disso, seu romance “Passageiro do fim do dia” ganhou o prêmio São Paulo de Literatura 2011, o mais cobiçado pelos autores.</p>
<p>Apesar dessas distinções, Rubens Figueiredo passou ao largo dos holofotes da Pipa e de sua esfuziante festividade literária. Sem aquela ênfase que, segundo Drummond, nada ganha sentido, o operoso tradutor e romancista não se deixou empolgar com o que viu, talvez devido ao fato de sofrer de uma timidez que se mostra irredutível em certas horas. E apesar dos esforços feitos pelo debatedor Carlos Fialho. Assim, quem poderia ter empolgado a platéia com revelações curiosas e interessantes sobre a trama tolstoiana ou sobre a peregrinação do livreiro Pedro, passageiro do fim do dia, pouco falou.</p>
<p>Mas não se há de negar que a literatura tem seu charme. Os escritores e leitores sempre souberam disso. A surpresa está em que o público geral – essa invenção da mídia e dos sociólogos militantes – comece a se deixar contagiar por esse fenômeno que é capaz de trazer à província, no período de duas semanas alternadas, escritores de Portugal e Angola, autores nacionais recém-premiados, além de outros fenômenos midiáticos permanentes, como o jornalista Fernando Morais e o cantor/compositor Arnaldo Antunes. Ou ainda o cantor Gabriel, o pensador.</p>
<p>Ao lado de todas essas celebridades, não faltou a presença de escritores potiguares para acrescentar o olhar local aos debates com os astros convidados e, em outras ocasiões, revisitar nossos clássicos, como aconteceu, no Flipipa, com a mesa em torno da correspondência entre Câmara Cascudo e Mário de Andrade.</p>
<p>Os dois eventos também coincidiram num ponto intrigante: por que tão escassa representatividade feminina? No Flipipa, apenas a roteirista Thelma Guedes foi a exceção e, considerando o expressivo número de escritoras potiguares em atividade, isso deixou uma impressão (certamente errônea), de misoginia literária&#8230; O EELP, por sua vez, não chegou nem mesmo a quebrar a regra pela tímida exceção.</p>
<p>Mas entre tantas surpresas, a maior delas é seguramente a repercussão que eventos como o Flipipa, o EELP e outros vêm conseguindo, refletindo um interesse público pela literatura que não tem paralelo entre nós. Estranhamente, porém, Natal continua fora do circuito das bienais que, também, fazem sucesso lá fora.</p>
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		<title>Matusalém e outros judeus assediados por demônios</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Nov 2011 14:20:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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Décimo volume de contos publicado por Isaac Bashevis Singer em inglês, em 1985, e lançado no ano passado no Brasil pela Companhia das Letras, na tradução de Alexandre Hubner, “A Morte de Matusalém e outros contos” é dessas obras diante das quais de pouco vale se tecer elogios exaltando suas incontáveis qualidades, sua prosa objetiva [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/matusalem1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-36797" title="matusalem" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/matusalem1.jpg" alt="" width="200" height="306" /></a></p>
<p>Décimo volume de contos publicado por Isaac Bashevis Singer em inglês, em 1985, e lançado no ano passado no Brasil pela Companhia das Letras, na tradução de Alexandre Hubner, “A Morte de Matusalém e outros contos” é dessas obras diante das quais de pouco vale se tecer elogios exaltando suas incontáveis qualidades, sua prosa objetiva e certeira, seu ritmo sempre em crescendo, seu uso inteligente e original da rica tradição judaica.</p>
<p><span id="more-36795"></span>Se tudo isso já é por demais sabido, ainda assim cada uma das vinte histórias reunidas nessa nova seleta de Singer preserva seu roteiro próprio como, por exemplo: um milagreiro que se desencaminha tentado por demônios-fêmeas, aliás fantasmagorias abundantes nesse livro; um Shabat realizado numa Geena que fica pouco a dever às agruras que Dante reservou aos condenados ao seu inferno; ou ainda a intrigante história de uma linha extraviada de um ensaio filosófico publicado num jornal e que vai parar num outro periódico, para desespero do seu cético autor.</p>
<p>Não falta a esses contos uma narrativa que, hoje, tem um nome específico: homoerótica, em linguagem politicamente correta: o caso de um rapaz que foge de sua cidade (trata-se aqui sempre de alguma aldeia polonesa de população judaica) à véspera de um casamento que ele não está preparado para enfrentar. A noiva, em desespero, sai em busca do nubente recalcitrante para constatar, para seu espanto, que ele agora é ela&#8230;</p>
<p>A desenvoltura com que as mulheres judias agem nesses contos, nas “primitivas” aldeias e vilas judaicas disseminadas pela Polônia das primeiras décadas do século passado, é um dos sinais inconfundíveis da modernidade. A afirmação da libido feminina é o verniz que põe em movimento os lances mais ousados de um xadrez ficcional que não cessa de assumir novas combinações a cada entrada de um novo personagem. E se a libido parece sempre em ebulição no mundo terreno, nos planos do além ela parece irresistível.</p>
<p>Se o livro descortina um cenário no qual rabinos, falsários e demônios se altercam e se emulam, como na tessitura da história inicial, “A Morte de Matusalém”, por sua vez, não deixa de fazer um contraponto àquele conto, só que com possibilidades melhores para o mortal que a anima, ao contrário do destino trágico que abraça o personagem de “O Judeu da Babilônia”.</p>
<p>De fato, Matusalém é também um pecador, apesar de sua descendência paterna. O fato de seu pai Enoque ter sido arrebatado aos céus por anjos do Senhor lhe parece motivo mais para incômodo do que para regozijo. É que ele não consegue emular Enoque em santidade, e a passagem dos séculos não lhe ajuda a remediar essa situação, como revela a narrativa.</p>
<p>Nesse décimo volume de contos, Singer se dá o direito de receber narradores ora em seu apartamento em Nova Iorque, ora num convés de navio em que viaja à América Latina, ora a uma mesa de restaurante ou recostado ao balcão de um café. Seus interlocutores parecem mesmo mais ávidos de narrar do que o próprio escritor em as ouvir e, recolhido ao estilo low profile, só de raro em raro se atreve a interromper a narrativa para indagar sobre um episódio, um detalhe qualquer que lhe parece indispensável esclarecer. Com isso, a história contada passa a ser compartilhada com o leitor ainda em seu curso presente, ou seja, enquanto o próprio narrador a relata. Esse é o maior elogio que um escritor pode conceder a seus leitores.</p>
<p>Se a boa ficção é uma porta segura para o encantamento do mundo, a obra de Isaac Bashevis Singer, quer em sua vertente novelesca, quer na vertente do conto, é uma dessas portas indispensáveis que a literatura do século XX pode abrir ao leitor de hoje com a certeza de que ele reagirá com a mesma indizível surpresa que maravilhou os seus contemporâneos.</p>
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		<title>Narrativas de Pablo Capistrano namoram o fantástico</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Oct 2011 20:46:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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Dos três contos que compõem “É preciso ter sorte quando se está em guerra”, novo livro de Pablo Capistrano, dois seguramente se filiam “espontaneamente” ao gênero fantástico. Referimo-nos a “A Escada de Jacó” e “O Sutra do Girassol”. “Saudades do amor”, porém, guarda um clima que, embora se desenrole em terreno realista, resvala ao fim [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/10/pablo-capistrano.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-36301" title="pablo-capistrano" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/10/pablo-capistrano-340x206.jpg" alt="" width="340" height="206" /></a></p>
<p>Dos três contos que compõem “É preciso ter sorte quando se está em guerra”, novo livro de Pablo Capistrano, dois seguramente se filiam “espontaneamente” ao gênero fantástico. Referimo-nos a “A Escada de Jacó” e “O Sutra do Girassol”. “Saudades do amor”, porém, guarda um clima que, embora se desenrole em terreno realista, resvala ao fim numa fronteira tão indistinta que irmana seu personagem à mesma grei dos protagonistas das narrativas fantásticas já aludidas.</p>
<p><span id="more-36300"></span>É ao tema do duplo, elemento clássico das narrativas fantásticas desde Jean-Paul Richter e T.E.A. Hoffmann, que se filia o primeiro conto, remetendo o narrador a confessar um crime que lhe parece não um delito, sim uma redenção. E só a novela gótica oferece terreno propício para essa espécie de alucinação. Não obstante essas raízes clássicas, “A Escada de Jacó” lida com elementos típicos da pós-modernidade, como sites de relacionamento e e-mails, aliados a ocorrências aparentemente gratuitas mas revestidas de uma força irresistível, como um toque fatídico do destino. A referência direta ao mito bíblico, à celebrada “luta com o anjo” travada por Jacó, lança um pouco mais de luz a essa história que, sob alguns aspectos, se mostra vacilante, como se o narrador hesitasse ante a fragilidade do seu argumento.</p>
<p>“Saudades do amor” remete diretamente às questões de gênero, talvez a marca mais “pessoal”, por enquanto, de nossa época. A cegueira da pulsão erótico-amorosa, de fonte freudiana, mostra sua fragilidade. Como no romance “Libido aos pedaços”, de Carlos Trigueiro, a pulsão do desejo se confunde. Mas não lhe é próprio retrair-se, terá de ir até as últimas consequências, deparando frustração e solidão.</p>
<p>“O Sutra do Girassol”, narrativa final, abre caminho, dessa vez, na companhia de um ser fantástico que lembra muito de perto o Odradek kafiano ou o Horlá do último Guy de Maupassant. Em ambos os casos, se trata de um sucessor do homem na escola zoológica mas, na pena de Pablo Capistrano, esse tema ganha contornos mais prosaicos, destituídos que são de qualquer condimento trágico. E tudo isso acontece após um porre a que se dá o protagonista, de nome Ariel, justo no momento em que sobrevém uma convulsão cósmica subitânea. A partir daí a vida do personagem se transforma tão profundamente que ele se torna irreconhecível aos amigos e passa a se nutrir de um único pensamento: a superação do homem atual. E esse ser começa a rondar fantasmagoricamente a vida do transtornado Ariel. Vê-lo parado no corredor, deixa o pobre Ariel atônito, como aquele narrador que depara com um ser estranho que se autonomeia Odradek ou Horlá, conforme a narrativa selecionada.</p>
<p>Os personagens de Pablo Capistrano são, como ele, jovens saudáveis, joviais, otimistas, que costumam se enturmar nos fins de semana para frequentar bares, boates, casas de amigos etc. Os sebos e as livrarias também costumam estar no caminho por onde trafegam, como ilustra a triste história de Rudá e sua paixão equivocada.</p>
<p>Afora isso, o autor se dá toda a liberdade providencial que a ficção põe ao seu alcance e, ao fazer suas escolhas, suas preferências recaem sempre sobre o insólito que se disfarça por trás da normalidade aparente. E quem poderia criticá-lo, se esse é justamente o trabalho do escritor? No caso de Pablo, trata-se não apenas de um escritor bem informado do ponto de vista literário, mas também de um filósofo, o que lhe permite recuar para a condição de um “terceiro narrador” que se entrega a lucubrações de ordem filosófica sobre o que é, ou sobre o que são os diversos sentidos do amor, inclusive em sua tríade grega, e que o faz ainda ser coisas que mal se adivinham.</p>
<p>O diálogo com outros textos literários é uma constante na escrita de Pablo Capistrano. Nesse seu novo livro, isso se evidencia no conto “Saudades do amor”, quando Rudá, após se embriagar literalmente, se embriaga efetivamente, agora com a leitura do celebrado poema “O Uivo” (“Howl”), de Allen Ginsberg, que é reproduzido na tradução de Claudio Willer. Isso confere ao livro um ar se não cosmopolita, ao menos sem compromissos explícitos com a aldeia “tolstoiana”.</p>
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		<title>Rimbaud nas fronteiras da crítica e da história</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Oct 2011 21:20:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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		<description><![CDATA[As formas de traduzir o poema &#8220;Le Bateau ivre&#8221;, de Arthur Rimbaud, parecem tão infinitas quanto suas interpretações. A &#8220;imaginação tradutória&#8221;, que às vezes insiste em contentar-se com o óbvio, outras vezes pode escorraçá-lo porta afora para convocar o seu sucedâneo mais inesperado. Como quando alguém resolve traduzir &#8220;Une saison à l&#8217;enfer&#8221;, do mesmo poeta, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As formas de traduzir o poema &#8220;Le Bateau ivre&#8221;, de Arthur Rimbaud, parecem tão infinitas quanto suas interpretações. A &#8220;imaginação tradutória&#8221;, que às vezes insiste em contentar-se com o óbvio, outras vezes pode escorraçá-lo porta afora para convocar o seu sucedâneo mais inesperado. Como quando alguém resolve traduzir &#8220;Une saison à l&#8217;enfer&#8221;, do mesmo poeta, por &#8220;Uma cerveja no inferno&#8221;, eludindo o óbvio que seria &#8220;uma estação no inferno&#8221;ou algo mais ou menos análogo.</p>
<p><span id="more-36033"></span>A insistência com obras de Rimbaud aqui não é, entretanto, fruto do acaso. É que o rebelde (o mais rebelde dos poetas, arriscaríamos) está outra vez na ordem do dia entre nós, graças à publicação de &#8220;Rimbaud etc: história e poesia&#8221;, de Marcos Silva (Hucitec, 2011), na qual Rimbaud ocupa a maior parte das páginas desse que é o mais &#8220;gaulês&#8221; dos títulos publicados pelo prof essor da USP.</p>
<p>A exegese empreendida por Marcos Silva, diferentemente daquela que se prende aos limites do arcabouço crítico, envereda pela história &#8211; matéria de sua especialidade &#8211; e estabelece com essa ciência conexões essenciais à interpre-tação do caso Rimbaud. Por isso, sua poesia ressurge nessa leitura nova sob vestes revolucionárias, engajadas até, seja em poemas antológicos como &#8220;Le dormeur du Val&#8221; e &#8220;Les Effarés&#8221;. Sobre o primeiro, Marcos Silva dirá: &#8220;Rimbaud, em &#8216;O Barco bêbado&#8217; expressa seu ódio à burguesia, sem sequer mencionar, de forma explícita, esse grupo&#8221;. Quanto ao outro poema, Silva o compara a um &#8220;anti-Sermão da Montanha: enquanto esperam para serem exaltados, os humilhados são, cada vez mais, humilhados&#8221;.</p>
<p>Assim, história e crítica literária se unem irmãmente nesse &#8220;Rimbaud etc&#8221; para empreender um duplo desafio: traduzir a poesia de Rimbaud e interpretá-la sob a luz não só do arsenal crítico, m as também histórico, o que abre sem dúvida novas possibilidades de compreensão desse poeta que continua tão pouco compreendido em nossos tempos devido, certamente, a sua &#8220;radical modernidade&#8221; (Silva).</p>
<p>Além de Rimbaud, outros textos que guardam alguma proximidade com o poeta das &#8220;Voyelles&#8221; e de &#8220;Ma Bohème&#8221; complementam esse novo livro de Marcos Silva, escrito sob a moldura de temas franceses clássicos, e cuja contribuição mais original é certamente o estudo sob o secundário poeta Albert Mérat cujo livro , &#8220;L&#8217;Idole&#8221; foi parodiado no &#8220;Sonnet du trou du cul&#8221;, assinado por Rimbaud/Verlaine.</p>
<p>Não é de somenos importância o texto &#8220;Esmeraldo no mosteiro de Verlaine&#8221;, em que é reavalia a dimensão intelectual desse combativo intelectual potiguar cujo culto à língua e à cultura se resume, mas não se esgota, em seu &#8220;Letras de França&#8221;, autor que foi também de ensaio biográfico sobre Renan e Taine, entre outros.</p>
<p>Não obstante o esforço crítico de exegese e atualização bibliográfica empreendido pelo professor Marcos Silva, seu livro se ressente da falta de diálogo com conterrâneos do autor, notadamente com o poeta Luís Carlos Guimarães das &#8220;113 traições bem-intencionadas&#8221; (Edufrn, 2 ed., 2007), no qual traduziu um conjunto de poemas de Rimbaud, dentre eles, &#8220;Le Dormeur du Val&#8221;, também vertido por Silva nesse seu novo livro. Não hesitaríamos em situar o livro de Lula Guimarães como pioneiro da arte tradutória con-temporânea entre nós.</p>
<p>Causa espécie ainda que nossa &#8220;Antologia Poética de Tradutores Norte-rio-grandenses&#8221; (Edufrn, 2008), na qual consta uma tradução do próprio Marcos Silva do &#8220;Sonnet du trou du cul&#8221;, de Rimbaud/Verlaine, reproduzida nesse &#8220;Rimbaud etc&#8221;, não seja uma única vez citada por Silva a título de fonte bibliográfica. Seria o caso de imaginar que esse autor arrola suas fontes segundo um critério qualitativo próprio, on de cabem de-terminadas fontes, enquanto outras, digamos as &#8220;provincianas&#8221;, são relegadas? Preferimos acreditar tratar-se de um desses casos de lapso, no que tange às duas lacunas citadas, inda mais em se tratando de uma bibliografia que se renova a passos largos, como a de Rimbaud&#8230;</p>
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		<title>Romance de Robert Walser antecipa universo kafkiano</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Sep 2011 19:11:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Se o adjetivo “kafkiano” está definitivamente incorporado ao nosso tempo para designar tudo que recaia no terreno do insólito ou do suprarreal, então vale a máxima borgiana de que determinados obras produzem automaticamente seus predecessores. O romance “Jakob Von Gunten: um diário”, de Roberto Walser, se enquadra, por foros legítimos, na classe de obras que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/09/walser.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-34817" title="walser" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/09/walser-340x268.jpg" alt="" width="340" height="268" /></a></p>
<p>Se o adjetivo “kafkiano” está definitivamente incorporado ao nosso tempo para designar tudo que recaia no terreno do insólito ou do suprarreal, então vale a máxima borgiana de que determinados obras produzem automaticamente seus predecessores. O romance “Jakob Von Gunten: um diário”, de Roberto Walser, se enquadra, por foros legítimos, na classe de obras que anunciariam o advento de Franz Kafka.</p>
<p><span id="more-34816"></span>A biografia do autor, que viveu anonimamente durante vinte anos internado numa instituição psiquiátrica suíça até ser encontrado sem vida na neve, evoca a solidão sem remédio que assombra o mundo kafkiano. Mas é a própria ficção de Walser que anuncia antecipadamente alguns temas próprios ao autor de “O Processo”. A perplexidade de viver num mundo que escapa a toda investida da razão é um desses temas que surge com impositiva nitidez na prosa de “Jakob&#8230;”. A certa altura do livro, o personagem-título confessa que está sempre investigando porque, justifica-se, “segredos exalam perfume muito belo, indizivelmente belo”. Mesmo assim, confessará mais na frente: “Alguma coisa está acontecendo, mas não compreendo o que é”.</p>
<p>O núcleo do romance de Walser é de típica matéria kafkiana: um colégio para formação de criados, mas não se trata de um colégio qualquer. Sua estrutura interna, composta de dependências secretas, jardins misteriosos, câmeras interditas de onde irrompe a determinada hora uma vaporosa figura feminina como que saída de uma novela gótica, conferem ao livro uma atmosfera abafada, onde presságios os mais sombrios parecem grassar como a erva no campo.</p>
<p>Quanto ao campo pedagógico, anima-o uma única lição: “Como deve comportar-se um rapaz?”, ministrada pela enigmática e elusiva Fräulein Lisa Benjamenta, que não resistirá a um amor não correspondido pelo narrador. Ainda assim, num gesto desesperado, ela tenta fazer de Jakob um confidente da hora final, como a buscar nele uma última esperança, no que também fracassa pela impossibilidade de amar que marca esse Dr. Fausto do início do século XX.</p>
<p>Diante desse ambiente temerário, o jovem Jakob não encontra outra defesa senão descrever diligentemente num diário tudo o que ocorre ao seu redor. Mas esse método defensivo não tardará a se mostrar insuficiente perante a aluvião de acontecimentos que se precipitam de toda a parte, formando um cerco que ameaça se fechar em seu entorno.</p>
<p>As contradições não resolvidas de Jakob começam pela sua origem nobre, classe que, historicamente, foi atendida por servos oriundos dos extratos plebeus da sociedade. Quando um nobre tenta inverter essa ordem social, oferecendo-se para regredir à condição servil, mecanismos de alerta começam a tocar denunciando a contradição.</p>
<p>A originalidade do enredo não deve privar o leitor de apreciar demoradamente a prosa de Robert Walser, que deixou em seu “Jakob von Gunten” páginas de uma sutileza surpreendente, o que lhe assegura um lugar destacado na complexa literatura alemã do período imediatamente prévio à Primeira Guerra Mundial.</p>
<p>As anotações de Jakob sobre os seus colegas de estudo são inestimáveis. Típicas “vidas minúsculas”, para aproveitar uma expressão do francês Pierre Michon, esses seres reunidos pelo autor no seu colégio para criados forma um desses conjuntos literários que ficam como referências de leituras e cuja ambientação pode ser em toda a parte e em lugar nenhum. Algumas raízes do adjetivo kafkiano com certeza provieram dessa base ficcional.</p>
<p>O breve estudo de J. M. Cotzee sobre Walser, enfeixado no livro “Mecanismos internos”, dá detalhes biográficos do autor que ajudam a entender o universo ficcional de “Jakob Von Gunten”, ao mesmo tempo em que analisa seu romance “Der Räuber” (“O ladrão”), aliás, inédito em português, e salienta o caráter universal da sua obra. É, em síntese, um bom “recomeço” para Walser neste começo de século.</p>
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		<title>Ciranda de amores fáceis na terra de Kafka</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Aug 2011 14:17:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[O Livro de Praga: narrativas de amor e arte]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Sant’Anna]]></category>

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		<description><![CDATA[
Há uma crença bastante arraigada na tradição literária de que o exótico, o estranho, o não familiar, constitui uma forte motivação para a criação de ficção. Daí que a viagem ― busca do desconhecido ―, exerça um fascínio quase unânime entre escritores, o que resultou numa modalidade muito específica de escritura, que é a literatura [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/08/sergio-santanna.jpeg"><img class="aligncenter size-large wp-image-34201" title="sergio santanna" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/08/sergio-santanna-520x346.jpg" alt="" width="381" height="253" /></a></p>
<p>Há uma crença bastante arraigada na tradição literária de que o exótico, o estranho, o não familiar, constitui uma forte motivação para a criação de ficção. Daí que a viagem ― busca do desconhecido ―, exerça um fascínio quase unânime entre escritores, o que resultou numa modalidade muito específica de escritura, que é a literatura de viagem. É ocioso citar exemplos porque eles estão para aonde quer que voltemos o olhar curioso e indagador.</p>
<p><span id="more-34199"></span>Nesse aspecto, os contos de “O Livro de Praga: narrativas de amor e arte”, de Sérgio Sant’Anna (coleção Amores Expressos, Companhia das Letras, 2011), se constituem num excelente exemplo da literatura viageira dos nossos dias, por tratar-se de um escritor experiente que é colado proposital e desafiadoramente num ambiente a que cabe de modo especial a qualificação de exótico, estranho e não familiar, a que nos referimos acima. Esse ambiente é a cidade de Praga, segundo Carlos Heitor Cony, “a cidade mais bonita da Europa Central”.</p>
<p>Para Sérgio Sant’Anna, porém, as pontes sobre o Moldávia, com suas provocantes estátuas sacro-profanas voltadas para o passeio público, seus cegos de ocasião e seus músicos precocemente virtuosos, como avatares do primeiro Mozart, exercerão uma atração quase hipnótica, embora as ruas e vielas da Cidade Velha também findem por impor seu fascínio. Mas isso terá de esperar pelos desdobramentos de uma trama tão inextricável que bem poderia merecer ao livro o nome de romance ou novela, enfeixando, assim, as seis narrativas, num só urdimento.</p>
<p>O que torna a narrativa de viagem mais fascinante do que outras formas de narrativa, é a irrupção do inesperado que chega com a força de um elemento da natureza, invade o fulcro da narrativa e a embaralha a seu bel-prazer. Nesse aspecto, os seis contos interligados de “O Livro de Praga&#8230;” se esmeram em conceder o mais amplo espaço ao elemento surpresa, beirando as concessões que se dão os contos fantásticos.</p>
<p>É o caso, por exemplo, da narrativa inaugural, intitulada “A pianista”, na qual o narrador, (escritor visitante Antônio Fernandes) é subvencionado pelo seu editor brasileiro para se colocar em disponibilidade para a aventura na capital tcheca e logo na chegada tem uma aventura musical-erótica com uma pianista tcheca.</p>
<p>Na manhã seguinte, sentado sobre a amurada da ponte São Carlos (onde quase sempre se encontra, quer de dia, quer de noite), Fernandes salva uma pretensa suicida de se lançar às águas do Moldávia. Isso abre caminho para nova aventura erótica.</p>
<p>Na história subsequente, em êxtase com a estátua de Santa Francisca (cuja controversa santidade inclui episódios de visitas de Jesus Cristo a sua cela&#8230;), ele acaba subjugado por uma força que parece emanar da estátua. E, improvável que pareça, há um final feliz nessa comunhão entre homem e estátua&#8230;</p>
<p>Mas como se exigiria de Sérgio Sant’Anna que ele evitasse um episódio kafkiano, estando em Praga para escrever seu livro praguense? Esse conto se intitula “O texto tatuado”, talvez o mais burilado, o mais “literário” dos episódios, que lembra um artifício usado por Chico Buarque em “Budapeste”: a escritura do corpo. Dessa vez, trata-se de um suposto original de Kafka tatuado no corpo de uma jovem que se desnuda privadamente para Fernandes.</p>
<p>O sexto e último episódio envolve uma tenente com quem Fernandes já havia se relacionado durante o episódio “profano” no qual conspurcou a castidade de Santa Francisca. Agora, porém, a título de despedida, a tenente lhe mostrará, naturalmente de modo privado, suas qualidades feminis, onde sobressai uma fantasia masoquista.</p>
<p>A corrente de acasos cumulados de amores felizes, amores fáceis e gratuitos, confere ao livro de Sérgio Sant’Anna uma espontaneidade que é replicada na escrita ágil e direta, sobretudo nas cenas eróticas. Enfim, mesmo debaixo de vestes literárias, “la chaire est faible”&#8230;</p>
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		<title>Livro alinha Renard Perez ao romance de formação</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Aug 2011 18:14:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Renard Perez]]></category>

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Vinte e oito anos depois da sua segunda edição, que portava a chancela da Editora Civilização Brasileira em parceria com o Instituto Nacional do Livro, sai agora, em terceira edição, o livro “Começo de caminho: o áspero amor”, de Renard Perez, agora chancelado pelo Instituto Pró-Memória de Macaíba e a editora mossoroense Sarau das Letras, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/08/renard-perez.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-33948" title="renard perez" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/08/renard-perez.jpg" alt="" width="288" height="266" /></a></p>
<p>Vinte e oito anos depois da sua segunda edição, que portava a chancela da Editora Civilização Brasileira em parceria com o Instituto Nacional do Livro, sai agora, em terceira edição, o livro “Começo de caminho: o áspero amor”, de Renard Perez, agora chancelado pelo Instituto Pró-Memória de Macaíba e a editora mossoroense Sarau das Letras, e tendo na capa um belo trabalho gráfico do artista plástico Dorian Gray. O prefácio é assinado por Clauder Arcanjo, enquanto as orelhas têm a marca de Valério Mesquita. A nós coube a revisão e a atualização ortográfica da obra.</p>
<p><span id="more-33947"></span>Único romance do macaibense Renard Perez, “Começo de caminho: o áspero amor” se enquadra à perfeição na tradição europeia de origem alemã do Bildungsroman, ou seja, o romance de formação, no sentido em que retrata o processo de aprendizagem de vida de um jovem nordestino tentado fazer a vida na cidade grande, onde chega não só com a coragem e a cara, mas com uma bagagem de leituras e esboços de escritos literários.</p>
<p>O jovem, como somos tentados a supor, é mesmo um duplo do autor, se levarmos em conta que compartilha com o autor o projeto de escrever um romance, mesmo que para isso tenha de viver dias de penúria material na falta de um emprego fixo, e de desespero existencial em consequência de uma relação amorosa mal-sucedida. Trata-se, portanto, de alguém que se debate entre buscar um meio de vida, desenvolver um trabalho literário e administrar trabalhos de amor, no sentido que lhe dá a peça homônima de Shakespeare. No campo literário, porém, sua paixão é pacífica: a obra machadiana, e, dentre os contemporâneos, Jorge Amado.</p>
<p>Mas, o que sabe um jovem motivado por uma paixão literária do que se passa na cidade do Rio de Janeiro nos anos 1950? Como encontrar seu próprio caminho entre inúmeras possibilidades abertas ao sucesso e ao fracasso que se lhe figuram à frente? E como lidar com os ardis da experiência amorosa, aliás matéria-prima clássica dos romances da vida e dos livros?</p>
<p>“Começo de caminho: o áspero amor” trata, assim, de questões que assumem caráter universal, na medida em que lida com esse problema crucial que é a transição da juventude para a idade adulta, ou seja, para a assunção de responsabilidades e afirmação individual, tema, aliás, do livro “Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister”, de Wolfang von Goethe, e que deu origem ao gênero do romance de formação.</p>
<p>O personagem Carlos Vasconcelos chega à juventude como qualquer outro rapaz: ignorante do que possa significar essa idade, confirmando aquele epigrama de La Rochefoucauld de que “chegamos inteiramente inexperientes a cada nova idade da vida”. Isso explica por que comete um erro após outro na sua relação com Clotilde ― ou Clô, como prefere Carlos ―, uma jovem comerciária que ele conhece numa sessão de cinema em Copacabana.</p>
<p>Paralelamente a essa experiência de fracassos, ou apesar disso, Carlos Vasconcelos desenvolve sua própria literatura. E é nessa seara onde colherá uma sucessão de pequenos êxitos que o ajudarão a contrabalançar os fracassos da área sentimental. Sua educação sentimental trilhará, portanto, por ásperos caminhos, como anuncia o título da obra.</p>
<p>Desde longe se sabe que erros e acertos não se equivalem, sobretudo quando envolvem áreas tão dispares como afetividade e criação literária. Há, de fato, um erro emocional ― para aproveitarmos uma imagem sugestiva de Cristovam Tezza ― na trajetória de Carlos Vasconcelos. O que não impede que o romance se espraie por outras plagas. E caso não o fizesse, como mereceria o título de romance? Certas posições assumidas por ele estão hoje datadas. Responderíamos que elas têm papel subsidiário no desenrolar da trama ou, no mínimo, seriam tributadas ao amadurecimento do personagem. De fato, que importa isso se aí as histórias de vida e a trama literária se dão as mãos para que finalmente surja o romance?</p>
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		<title>Sobre um capítulo faltante na nossa história literária</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Aug 2011 18:00:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Que fim levou o romance “Os Mortos”, de Henrique Castriciano, cujos dois primeiros capítulos foram publicados na Revista do Centro Polimático, entre 1920 e 1921, conforme registra Otacílio Alecrim em seus “Ensaios de Literatura e Filosofia” (1955)? Fato curioso é narrado por Otacílio, reportando-se à conversa que teve com o poeta de “Mãe”, então enfermo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Que fim levou o romance “Os Mortos”, de Henrique Castriciano, cujos dois primeiros capítulos foram publicados na Revista do Centro Polimático, entre 1920 e 1921, conforme registra Otacílio Alecrim em seus “Ensaios de Literatura e Filosofia” (1955)? Fato curioso é narrado por Otacílio, reportando-se à conversa que teve com o poeta de “Mãe”, então enfermo. Diz ele que, ao comentar seu livro, Castriciano observou: “No romance, se puder concluí-lo, terminará o espírito vencendo a matéria; mas, na vida do autor, persiste a matéria em vencer o espírito”. Remata Otacílio: “Infelizmente, daí em diante, o Dr. Henrique não fez senão ‘morrer’ com o seu próprio romance”.</p>
<p><span id="more-33760"></span>Quase um século depois, é lastimável ter-se de reconhecer que falta às nossas letras um romance assinado por Henrique Castriciano. Não se trata, porém, de um fato isolado. Pensemos, por exemplo, na suposta “História da Literatura Norte-rio-grandense”, obra quase lendária na bibliografia de Câmara Cascudo, que, embora de paradeiro incerto e não sabido, encontra, entre muitos dos seus admiradores, defensores inquestionáveis. A propósito, Cascudo foi responsável por retirar a poesia de Lourival Açucena do anonimato, ao reuni-la no livro “Versos”, em 1927, em comemoração ao centenário de nascimento do fidalgo poeta.</p>
<p>Val e a pena citar ainda o caso de Gothardo Neto que, embora festejado como grande poeta por seus contemporâneos, teve vida curta (1881-1911) e não chegou a ver impressa em livro sua poesia, fato que só sucedeu em 1931, graças ao mecenato do também escritor e homem público Antônio de Souza. Nem é menos significativo o caso do poeta João Lins Caldas, que deixou dezenas de cadernos repletos de poemas que só recentemente estão sendo reunidos em livro&#8230;</p>
<p>Enfim, são vários os autores, daqui e, certamente, um pouco em toda a parte, que deixaram livros em processo de escritura ou até concluídos, mas que ficaram relegados a gavetas esquecidas ou dentro de envelopes mal identificados e que foram relegados ao esquecimento, em seguida, quando não encontraram terceiros que se interessassem seriamente em resgatá-las.</p>
<p>Falta, portanto, um capítulo na história da nossa literatura que dê conta dos livros falhados, em sua frágil condição póstuma, aqueles por tortuosos caminhos ganharam notoriedade graças a um eco que deixaram, fosse porque realmente existiram ― até aonde podemos afirmar que um livro “existe” ―, fosse porque foram insistemente anunciados por seus autores em vida, criando expectativas que ficaram em aberto.</p>
<p>O tema foi suscitado por nós durante uma mesa-redonda promovida pela UBE/RN, na Aliança Francesa, segunda-feira passada, por ocasião do lançamento do Prêmio Literário Eulício Farias de Lacerda, quando se discutiu o legado literário euliciano que, de acordo com a opinião unânime da mesa (Jarbas Martins, Francisco Alves, Eduardo Gosson e Nelson Patriota), é uma das criações mais originais no campo da ficção nas letras potiguares.</p>
<p>A propósito, sabe-se que o autor de “O rio da noite verde” também deixou um livro póstumo, segundo uma versão corrente nos nossos meios literários, mas que continua, a exemplo de “Ouro Branco”, do romancista José Bezerra Gomes, de paradeiro desconhecido. Trata-se de “A terceira manhã”, título que por si traz ecos que remetem diretamente a Guimarães Rosa, uma das influências marcantes de Eulício. E coincidências assim nunca são fortuitas.</p>
<p>É verdade que cada caso relacionado ao sumiço de um livro está cercado de particularidades que o distinguem dos demais. Por isso, compõem um capítulo tão singular na história literária. Esperemos, porém, que pelo menos dessa vez a Cassandra dos maus presságios fracasse em seus vaticínios e que esse capítulo tome um curso diverso, terminando com a descoberta do livro extraviado de Eulício. Ou, parodiando Henrique Castriciano, com “a esperança triunfando sobre o pessimismo”, que é sempre o melhor modo de encerrar um artigo.</p>
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		<title>A propósito de mais um Dia do Escritor</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Jul 2011 19:23:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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Por Nelson Patriota
Com a irreverência que lhe deu quase tanta notoriedade quanto suas caçadas africanas, o escritor Ernest Hemingway não resistiu a criticar seu próprio ofício quando perguntado, certa vez, sobre o que deveria fazer alguém que planejasse ser escritor: “Digamos que ele deva enforcar-se, por descobrir que escrever bem é difícil a ponto de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/07/hemingway-1.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-33420" title="hemingway 1" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/07/hemingway-1-340x221.jpg" alt="" width="340" height="221" /></a></p>
<p><strong>Por Nelson Patriota</strong></p>
<p>Com a irreverência que lhe deu quase tanta notoriedade quanto suas caçadas africanas, o escritor Ernest Hemingway não resistiu a criticar seu próprio ofício quando perguntado, certa vez, sobre o que deveria fazer alguém que planejasse ser escritor: “Digamos que ele deva enforcar-se, por descobrir que escrever bem é difícil a ponto de ser impossível. Então, ele deveria ser retirado da forca impiedosamente e forçado por si próprio a escrever o melhor que possa para o resto de sua vida. Pelo menos terá, como ponto de partida, a história do enforcamento”.</p>
<p><span id="more-33419"></span>Apesar de hoje em dia não ser comum se ameaçar escritores com a forca (há quem prefira métodos mais sutis ou, pelo contrário, mais práticos), nem haja muitos escritores preocupados em dar o melhor de si  no que escrevem, quando basta um terço desse investimento em certos gêneros, a sugestão feita por Hemingway, tirante seu chiste, pode ser perfeitamente adaptada a outros começos, o que coloca os jovens escritores diante de um problema comum: qual o melhor ponto de partida para começar a escrever? Sobre essa questão, porém, só se sabe que, quanto mais demorada a busca, mais riscos impõe à obra em projeto.</p>
<p>Neste 25 de julho se comemora o Dia do Escritor, efeméride relativamente nova e que, provavelmente, passará mais uma vez incógnita à grande maioria das pessoas. Talvez porque, ao contrário do resultado do trabalho do escritor, a comemoração desse dia não vise diretamente ao público que lê, mas ao questionamento do ofício de quem escreve. E isso compete mais de perto aos próprios escritores, pois, como declara o mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, em entrevista ao jornal “Rascunho” deste mês, “literatura é uma conversa sobre as dúvidas”. E quem não sabe que os melhores escritores são os mais obcecados por dúvidas, se voltando para a criação literária justamente em busca de um porto seguro?</p>
<p>Mas a data pode se prestar a comemorações pontuais e, mesmo, exemplares. Por suposto, a reviravolta que o escritor Bartolomeu Correia de Melo impôs à sua vida, redirecionando-a para a literatura, logo depois de concluir uma carreira acadêmica bem-sucedida na docência de química. Com essa guinada, revirou de ponta-cabeça a arte do conto potiguar, conferindo-lhe novos motivos e uma linguagem personalíssima. A publicação em breve, pela editora pernambucana Bagaço, de sua obra completa, contendo, inclusive, uma obra poética em separado, é algo digno da mais efusiva comemoração.</p>
<p>Do mesmo modo, a informação que circulou esta semana na imprensa potiguar, com ampla cobertura desta Tribuna, de que o escritor Deífilo Gurgel pôs um ponto final em seu Romanceiro Potiguar, pesquisa na qual vinha trabalhando há quinze anos, é outro bom motivo de comemoração no Dia do Escritor. A obra vai reunir um total de 300 romances, perfazendo dezenas de horas de gravação com romanceiros dos mais improváveis lugares que, depois, precisaram ser transcritas, ordenadas num texto coeso. Enfim, não foi uma tarefa simples.</p>
<p>Um terceiro motivo de comemoração do Dia do Escritor vem da seção local da União Brasileira de Escritores. Trata-se do anúncio do Prêmio literário Eulício Farias de Lacerda, cujos detalhes serão conhecidos nesta segunda-feira, 25,, num encontro que acontecerá às 19h, na Aliança Francesa, em torno de uma discussão sobre a obra desse paraibano de alma potiguar. Participarão do debate o poeta Jarbas Martins, o livreiro Francisco Alves Sobrinho e este articulista, tendo como mediador o escritor Eduardo Gosson, presidente da UBE/RN.</p>
<p>A ideia é demarcar com o evento o compromisso da entidade dos escritores potiguares de apoiar e incentivar a criação literária em nível estadual. Para isso, lança mão de um nome emblemático de nossas letras, autor de obras inovadoras como “O rio da noite verde”, “Os deserdados da chuva”, “O dia em que a coluna passou”, entre outros. Evocar o nome de Eulício é como dizer que a literatura é sonho. Pode dar certo, sim. Mas não se garante.</p>
<p>DESTAQUE:</p>
<p>“Neste 25 de julho se comemora o Dia do Escritor, efeméride relativamente nova e que, provavelmente, passará mais uma vez incógnita à grande maioria das pessoas. Talvez porque, ao contrário do resultado do trabalho do escritor, a comemoração desse dia não visa diretamente ao público que lê”.</p>
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		<title>valter hugo mãe e a polêmica sobre o ato de criar</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jul 2011 14:09:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Uma das estrelas da 9ª Festa literária Internacional de Paraty, RJ, que terminou domingo passado, o angolano valter hugo mãe é mais uma dessas revelações que Portugal se encarrega de irradiar para a literatura lusófona de nossos dias e que começa a se fazer conhecido entre os leitores brasileiros, graças ao lançamento de seus romances [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/07/valter1.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-33292" title="valter[1]" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/07/valter1-340x255.jpg" alt="" width="340" height="255" /></a></p>
<p>Uma das estrelas da 9ª Festa literária Internacional de Paraty, RJ, que terminou domingo passado, o angolano valter hugo mãe é mais uma dessas revelações que Portugal se encarrega de irradiar para a literatura lusófona de nossos dias e que começa a se fazer conhecido entre os leitores brasileiros, graças ao lançamento de seus romances “A máquina de fazer espanhóis” (Cosac Naify) e “O remorso de baltazar serapião” (34).</p>
<p><span id="more-33291"></span>Quanto a mais esse nome próprio em letra minúscula, é porque o romancista crê que assim obtém uma ligação mais direta dos seus livros com a oralidade e com uma espécie de “humildade gráfica”. Esse método não deixa de fazer de valter hugo mãe um epígono de seu conterrâneo José Saramago, autor também obcecado pela ideia de oralidade, tanto que promoveu uma simplificação em sua expressão textual, a fim de realçá-la. A abolição do ponto separando parágrafos obedeceu a esse princípio, provando que isso em nada influencia na narração de uma história, desde que acompanhada de uma a estrutura narrativa coesa e bem urdida.</p>
<p>Se a intenção de valter hugo mãe ao lançar mão da “humildade gráfica” como reforço da oralidade se presta a promover maior visibilidade dos seus romances,não se resume todavia  a esse propósito, se dermos crédito à cobertura da FLIP feita pela reportagem da Folha de S. Paulo do dia 9 último, dando contato da sinergia que o escritor obteve no evento, magnetizando o público com sua “humildade verbal” (irmã gêmea da outra humildade já referida). A acolhida altamente receptiva obtida por valter hugo mãe junto ao público da FLIP se traduziu ainda no recorde de venda de livros entre os autores convidados à livraria oficial do encontro.</p>
<p>A palavra franca e fácil do escritor português lhe permitiu ainda falar da hipocondria do pai, da boa relação que manteve, durante a infância em Portugal, com uma família brasileira e, mesmo, da música de Renato Russo em tom superlativa: “Achava que Renato Russo ia salvar a minha vida com aquela canção ‘Tempo perdido’ ”.</p>
<p>A humildade verbal de valter hugo mãe não resistiu, contudo, a uma significativa discussão sobre o romance, e que tem, entre alguns escritores, um sentido de rito sacrificial. Queremos nos referir àqueles autores que encaram o ato de escrever como um esforço sobre-humano ou renúncia ascética da vida a que se veem obrigados, como se a musa hodierna, agora travestida de déspota, os obrigasse imperiosamente a escrever, sob pena de inimagináveis castigos.</p>
<p>Para valter hugo mãe a escrita nada tem a ver com coisas como autoimolação, renúncia ou qualquer outra forma de sacrifício. Sem entrar em pormenores sobre se isso tem algo a ver com maior facilidade ou não para compor a urdidura textual, vhm expôs sua visão franca sobre a questão: “Alguns autores falam de sofrimento atroz da escrita. Eu acho que terríveis podem ser as coisas da vida, mas acho que escrever é o momento da salvação”.</p>
<p>A criação literária como metáfora oposta à desordem do mundo, e, consequentemente, como um ato de salvação (uma salvação também tendente às formas modestas) segue numa linha que explica melhor, a nosso ver, que o seu oposto, a criação literária. Digamos que para o escritor que extrai sua obra com grande sacrifício, é de se esperar que, na medida do possível, a descarte, a fim de se livrar do sofrimento que ela lhe inflige (salvo os casos omissos de masoquismo literário).</p>
<p>“Escrevo para poder respirar”, confessou o poeta Michael Palmer em entrevista ao escritor Régis Bonvicino (“Cadenciando-um-Ning”, Ateliê, 2001) quando indagado sobre o que é ser poeta de vanguarda. O esforço por respirar que transparece na declaração de Palmer traduz à perfeição a ideia de busca de um “momento de salvação”, aludida por valter hugo mãe.</p>
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		<title>Um Bloomsday para não se perder de vista</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Jun 2011 21:43:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Para espanto geral da tribo, Natal e Dublin têm um encontro marcado nesse 16 próximo, quando se comemorará (é quase ocioso repetir) mais um Bloomsday, o famigerado Dia de Bloom em sua peregrinação sacroprofana pelas ruas, bares, bordéis, mas também igrejas, praças e colégios de uma Dublin que o irlandês James Joyce estratificou em seu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/chicoivan0031.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-32088" title="chicoivan003" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/chicoivan0031-199x300.jpg" alt="" width="134" height="203" /></a>Para espanto geral da tribo, Natal e Dublin têm um encontro marcado nesse 16 próximo, quando se comemorará (é quase ocioso repetir) mais um Bloomsday, o famigerado Dia de Bloom em sua peregrinação sacroprofana pelas ruas, bares, bordéis, mas também igrejas, praças e colégios de uma Dublin que o irlandês James Joyce estratificou em seu romance “Ulisses”.</p>
<p>Como das vezes anteriores, as comemorações ficarão por conta do professor e poeta Chico Ivan (foto), esse incansável intérprete do mestre irlandês, e que autografará seu novo livro, que vem a ser uma tradução do “Anfion”, poema dramático do francês Paul Valéry.</p>
<p><span id="more-32086"></span>A propósito, Chico Ivan contará, nessa nova edição do Bloomsday, com os préstimos da professora Ana Graça Canan que, entre outras participações, fará uma leitura dramática do “Ulisses”. Assim a quatro mãos, o Bloomsday ressurge renovado e livre da poeira de mais de duas décadas de comemorações mais ou menos “modestas”, e decidido a empreender voos mais audaciosos do que os praticados até a edição 2010.</p>
<p>Dessa vez, por exemplo, um scholar irlandês se somará a uma equipe de professores doutores da UFRN, no auditório da Biblioteca Zila Mamede, no Campus Universitário da UFRN em Natal, num evento adequadamente intitulado de “James Joyce e a cultura irlandesa”. Mesas-redondas, debates, mostras de filmes, recitais, leituras dramáticas, apresentações musicais em torno de temas joycianos vão movimentar, como um dínamo bem azeitado, a modorra provinciana desses dias invernosos, às vezes intercalados por dias estivais, em geral de curta duração. A ideia inspiradora dessa movimentada agenda cultural é mostrar a genealogia das fontes do “Ulisses” e de outros trabalhos joycianos, bem como a diversa e complexa variedade de uma literatura que comporta autores como William Butler Yeats e Samuel Beckett, por exemplo.</p>
<p>A abertura do evento, que aconteceu nesta segunda-feira, coube, a justo título, ao poeta Chico Ivan, que abordou, às 9h, na Zila Mamede, o tema: “A obra de James Joyce”. O caráter vago do tema sugere que o conferencista não se limitaria apenas a discutir o “Ulisses”, não importa quão complexa seja essa obra; sua intenção era a de se insinuar pelas veredas da poesia e dos contos de Joyce, senão pela sua biografia, fartamente documentada por Richard Ellmann e outros. Considerando as tantas vezes em que esse exegeta potiguar interpretou o livro protagonizado por Leopoldo Bloom, é compreensível que tentasse ampliar suas leituras com a incorporação de outros textos.</p>
<p>Só ao cair da noite dessa quinta-feira, marco original dos Bloomsdays, se dará por encerrada, ao toque de música de clarim e fanfarras, mais essa edição desse evento que deitou raízes profundas em solo potiguar graças ao um lampejo despretensioso de Chico Ivan, há duas ou três décadas, talvez por demais incomodado com a monotonia da paisagem natalense em seus junhos invariavelmente pluviosos. Não resta dúvida, olhando em retrospecto, que esse lampejo vem encontrando acolhida crescente entre um sem-número de leitores norte-rio-grandenses que buscam, através dessa iniciativa aliciadora, fazer atalhos e cortar caminhos que levem a uma entrada segura aos meandros e labirintos desse difícil e polêmico “Ulisses”, livro que, indiferente ao tempo, se mantém firme em seu papel de desafiar com mil enigmas quem quer que ouse se aventurar em suas páginas. Por conseguir manter tão bem escondidas suas chaves, esse livro continua a fazer jus ao título de “Odisseia” dos nossos tempos.</p>
<p>O resultado é esse: não há mais como escapar ao apelo do Homem de Dublin quando se aproxima o 16 de junho, ao menos enquanto Chico Ivan estiver por perto, porque será inevitável que outro Bloomsday esteja senão em formação, certamente em ideia. E quem pode resistir a uma ideia que teima em não passar?</p>
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		<title>Razões e desrazões da norma que se quer culta</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Jun 2011 19:57:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
O português falado no Brasil é, conforme se sabe, língua em que a fala e a escrita apresentam grandes discrepâncias. Basta que se atente para as intermináveis discussões havidas entre brasileiros e portugueses em busca de um ponto de vista comum que anulasse as diferenças de timbre e de grafia que separam cada vez mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/museu_da_lingua_portuguesa5.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-31850" title="museu_da_lingua_portuguesa5" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/museu_da_lingua_portuguesa5.jpg" alt="" width="432" height="324" /></a></p>
<p>O português falado no Brasil é, conforme se sabe, língua em que a fala e a escrita apresentam grandes discrepâncias. Basta que se atente para as intermináveis discussões havidas entre brasileiros e portugueses em busca de um ponto de vista comum que anulasse as diferenças de timbre e de grafia que separam cada vez mais os falares deste e daquele lado do Atlântico. O acordo ortográfico firmado em 1990 e já em prática no Brasil continua a esperar que os portugueses decidam adotá-lo. Mas as perspectivas parecem cada vez mais adversas a essa unanimidade.</p>
<p><span id="more-31849"></span>Independentemente disso, a fala brasileira continua a se distanciar da escrita, principalmente da norma culta, tal como é praticada entre escritores, jornalistas, advogados, enfim entre pessoas que receberam uma educação regular e contínua. Há, porém, um grande contingente de brasileiros que não conseguiu seguir uma educação nos moldes referidos acima. Devido a essa lacuna, adotam práticas linguísticas distanciadas dos padrões normatizados. Como não poderia, num passe de mágica, trazer esses falantes para o padrão culto, o Ministério da Educação decidiu por abolir as diferenças que os separam da norma culta da língua decretando que todas as formas em uso estão corretas.</p>
<p>No centro da polêmica está a cartilha “Por uma vida melhor”, aprovada por uma comissão formada por professores da UFRN, os quais, à guisa de seguidores de Marcos Bagno, autor de um livro intitulado “Preconceito linguístico” considerou correta a forma: “os livro” e análogas, sob a alegação de que, em contrário praticaria preconceito linguístico, pouco importando que estivessem ideologizando um debate que cabe, sim, nas discussões acadêmicas e que tais, mas dificilmente se acomoda à moldura escolar.</p>
<p>Quem colocou essa questão em seus devidos termos foi o professor Evanildo Bechara, em entrevista que concedeu à Veja da semana que passou, e o articulista Gaudêncio Torquato, em seu artigo “A ‘espertocracia’ educacional”, nesta TN no domingo passado. Conforme disse o autor da “Moderna gramática portuguesa”, “ninguém de bom-senso discorda de que a expressão popular tem validade como forma de comunicação” [...] mas “não apresenta vocabulário nem tampouco estrutura gramatical que permitam desenvolver ideias de maior complexidade ―tão caras a uma sociedade que almeja evoluir. Por isso, é óbvio que não cabe às escolas ensiná-la”.</p>
<p>Já o jornalista Gaudêncio Torquato desancou o que classificou de “espertocracia educacional” ao denunciar o equívoco de que, para melhorar a autoestima e ter uma vida melhor a população menos alfabetizada pode escrever como fala. Esse argumento, aliás, casa à perfeição com a análise do professor Bechara: fazer apologia da expressão popular é contribuir para perpetuar a segregação de classes pela língua, “pois é justamente o ensino da norma culta [...] que ajuda na libertação dos menos favorecidos”.</p>
<p>Quando o professor Bechara soma à sua argumentação gramatical um segundo de natureza econômica, quer deixar claro que a questão da norma culta transcende os círculos linguísticos e toca as fronteiras do mundo do trabalho. Não é demais lembrar que, de uns tempos para cá se tornou impossível a alguém ascender a um emprego público ou fazer carreira no setor privado sem apresentar um bom conhecimento de língua portuguesa. Da mesma forma, carreiras que exijam diálogo e argumentação. Como advogados, jornalistas e&#8230; professores.</p>
<p>Por outro lado, é fácil ver que a questão da língua culta está ligada umbilicalmente à disponibilidade de boas escolas que a transmitam, ao lado de outros saberes fundamentais, renovando o código comum que identifica os diversos grupamentos linguísticos. Por que, ao invés de canonizar as formas populares, o MEC não desenvolve políticas visando à democratização ampla e irrestrita da educação o que, aliás, é tarefa sua? As expressões do tipo: “os livro, as cadeira” etc., nascem e crescem justamente onde a escola está ausente ou se revela despreparada para cumprir seu papel de educadora. O mais que houver, serão ideias tortas ou fora de lugar.</p>
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		<title>Um museu de Praga que os guias evitam</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Jun 2011 00:35:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Os programas e os guias de turismo o ignoram a favor de atrações mais ao gosto da modernidade de um setor que se pretende realista. A esse propósito, não faltam atrações à Cidade Velha, como o Castelo de Praga, o Relógio Astronômico da Praça da Cidade Velha, o Quarteirão Judaico, a Catedral de São Vito, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/museu-kafka.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-31716" title="museu kafka" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/museu-kafka.jpg" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p>Os programas e os guias de turismo o ignoram a favor de atrações mais ao gosto da modernidade de um setor que se pretende realista. A esse propósito, não faltam atrações à Cidade Velha, como o Castelo de Praga, o Relógio Astronômico da Praça da Cidade Velha, o Quarteirão Judaico, a Catedral de São Vito, os Jardins Reais, a Ponte São Carlos sobre o Rio Moldau, rio, aliás, navegável por esta época do ano.</p>
<p><span id="more-31715"></span>Com tantas atrações, compreende-se que o Kafka Museum não conste dos programas essenciais do turismo oferecido pela capital tcheca. Essa realidade não sofre qualquer alteração se considerarmos que o nome do museu pode ser lido a uma razoável distância. De um passeio de barco pelo Moldau, por exemplo, ou por quem transite pela Ponte São Carlos à luz do dia.</p>
<p>Da mesma forma, a controversa estátua de Kafka sentado sobre os ombros de um personagem sem cabeça, do artista tcheco Jaroslav Róna, sequer é mencionada pelos guias que animam com seus grupos o turismo da alta estação praguense. A obra, instalada na entrada da Cidade Velha ladeando duas igrejas históricas, além de ter forte apelo turístico, tem outra curiosidade: foi inspirada no conto “Descrição de uma luta”, do homenageado, e retira daí seu caráter inverossímil.</p>
<p>Por isso, tanto a estátua como o museu têm seu público, minoritário que seja. A estátua, pela ousadia e originalidade do seu artista, vale pelo impacto duradouro que é capaz de produzir, na medida em que deixa interrogações nas mentes das pessoas que a veem pela primeira vez. Experiência mais ou menos idêntica à vivida por quem adentra pela primeira vez o colosso multiforme que é o Castelo de Praga.</p>
<p>O Museu Kafka, porém, merece uma visita programada. Qualquer pressa, qualquer negligência por parte do visitante, e aspectos preciosos da visitação podem se perder, e só um estudioso ou especialista na obra do escritor praguense se imaginaria voltando àquele lugar para uma possível segunda visita. Ou terceira.</p>
<p>Não é que faltem atrativos ao museu. Pelo contrário. As atrações começam já no seu pátio, no qual se veem duas esculturas masculinas em tamanho natural, que giram sob compasso regular e eventualmente se encaram. A curiosidade (ou o chiste kafkiano) é que ambos estão “urinando” concomitantemente, num ardiloso trabalho decorativo do pequeno lago que os abriga.</p>
<p>Mas é ao conjunto de peças do museu – áudios, vídeos, documentos, livros, fotos etc., que o visitante deve atentar, visto que forma um todo tão compacto que pode ser apreciado satisfatoriamente de uma única vez. A aquisição de alguns suvenires preservará, no futuro, algumas lembranças mais cruciais, poupando-as dos lapsos de memória em que a memória incorre com o passar dos dias.</p>
<p>Um habilidoso jogo de luzes concorre para o clima surreal que cerca o interior do Museu Kafka, reforçado por um tipo de música criteriosamente selecionada para realçar e uniformizar o ambiente. Cada uma das musas kafkianas ― Felicia Bauer, Dora Dymant e Milena Jesenskà ― tem o seu próprio panteão eletrônico, onde suas fotos e biografias brilham por trás do vidro fosco sob luz baça, adequada apenas à leitura íntima. Fotos evolutivas de Kafka e de seus familiares se multiplicam ao longo dos dois corredores superiores do edifício. Aqui e ali, edições originais dos livros e jornais contendo seus escritos, desenhos, manuscritos, sob escrínios invioláveis. Objetos pessoais do escritor também podem ser visualizados ao longo do percurso de cada corredor.</p>
<p>Talvez, ao deixar o Museu Kafka, o leitor kafkiano, agora travestido de turista efêmero, deixe-o com mais indagações do que ao entrar. Mas em se tratando de um personagem tão ou mais singular do que o seu Odradek e suas outras criações imaginosas, adquirir mais indagações a seu respeito é, de algum modo, uma forma de saber mais sobre esse autor.</p>
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		<title>Visita a Berlim sob luz de primavera</title>
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		<pubDate>Fri, 20 May 2011 21:36:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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Se o turismo costuma ser uma experiência de surpresas e admirações, pelo inusitado da paisagem e das particularidades culturais e físicas de uma determinada cidade ou região, essa experiência resulta em dobro quando alimentamos expectativas bem fundamentadas sobre o que ela nos reserva. Deu-se algo assim comigo, numa viagem recente de dez dias pelo Leste [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/05/berlim.jpeg"><img class="aligncenter size-full wp-image-31307" title="berlim" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/05/berlim.jpeg" alt="" width="458" height="343" /></a></p>
<p>Se o turismo costuma ser uma experiência de surpresas e admirações, pelo inusitado da paisagem e das particularidades culturais e físicas de uma determinada cidade ou região, essa experiência resulta em dobro quando alimentamos expectativas bem fundamentadas sobre o que ela nos reserva. Deu-se algo assim comigo, numa viagem recente de dez dias pelo Leste europeu, começando por Berlim.</p>
<p><span id="more-31306"></span>Essa cidade era para mim, até então, uma página retirada de um conto de Nabokov do seu exílio alemão. Meados dos anos 1920. Refiro-me a “A Guide to Berlin”, onde se lê, em forma elíptica, uma declaração de amor à capital alemã: “Every large city has its own, man-made Eden on earth” (“toda cidade grande tem seu Éden terreno construído pelo homem”). Mas não era às igrejas nem aos museus nem aos teatros que ele aludia, e sim aos zoológicos, “que nos recordam do solene e terno começo do Velho Testamento”.</p>
<p>O eco da prosa sedutora do autor de “Lolita” ainda repercutia nos desvãos das minhas lembranças de leituras de outrora, com seu encanto tão particular, capaz de tornar uma viagem noturna de bonde pela cosmopolita Avenida Unter den Linden, culminando no Portão de Brandemburgo, uma experiência épica e de rasgos shakespearianos.</p>
<p>Pouco restou dessa Berlim nabokoviana na cidade que me surpreendeu numa madrugada fria de maio, de chuva fina, quase imperceptível, desmentindo vaticínios meteorológicos em contrário, e espargindo pelo verde abundante, ordenado, do passeio público, rastilhos de um inverno que começava a bater em retirada.</p>
<p>Ao invés de uma cidade antiga, a Berlim que conheci de passagem se revelou aos meus olhos uma cidade jovem, efeito resultante, em parte, do intercurso urbano que molda seus transeuntes aos hábitos e conceitos de uma urbanidade que se deseja contemporânea. Não se pode esquecer um fato histórico fundamental: a reunificação alemã e a volta do poder federal para Berlim, em 1990.</p>
<p>Nesse contexto relativamente novo, a Unter den Linden pode ser vista como o símbolo de uma cidade decidida a ser outra vez uma grande capital europeia. Por isso, realça suas propriedades e características, investindo nos espaços reservados aos pedestres e ciclistas, sem prejuízo para o tráfego ostensivamente civilizado em horários que, em outros contextos, aceitam tensões e estresses passageiros como naturais. Outros signos dessa moderníssima tribo urbana podem ser vistos nos seus múltiplos ativos culturais, como a biblioteca Estadual, a Potsdamer Platz, o Memorial Judaico, a Staatsoper (a ópera nacional), a Ilha dos Museus ladeada por uma suntuosa igreja barroca mandada construir pelo Kaiser Frederico o Grande&#8230;</p>
<p>Em toda a parte parece sobrar espaço em Berlim, talvez o traço que mais a distinga entre as capitais europeias. A melhor prova pode ser comprovada no Neue Wache, templo neoclássico de dimensões grandiosas e que abriga uma única escultura, em pedra, em tamanho natural, de uma mãe segurando seu filho morto. Seu peso simbólico, porém, é significativo. Trata-se do “Memorial para as vítimas do fascismo e do militarismo”. Dá para perceber que não faltam memoriais à capital germânica, como que purgando-a de erros próprios ou de terceiros cometidos no passado.</p>
<p>Não é preciso lembrar que Berlim foi uma das cidades mais fortemente atingidas pelos bombardeios aliados, às vésperas do término da Segunda Guerra. Daí causar tanta admiração o esforço gigantesco que está por trás da reconstituição meticulosa de cada prédio ou monumento histórico dessa cidade.</p>
<p>Início de primavera, já é possível perceber que algo diferente está em curso na cidade: os grandes e médios parques que pontilham Berlim se deixam ocupar por seus cidadãos em alegres e ruidosos bandos que ali vão acampar, com suas cadeiras coloridas e cestas de comida e bebida, renovando cultos antigos ao sol e à natureza.</p>
<p>Se pensarmos no rigor dos invernos berlinenses, fica fácil entender a razão de tanto entusiasmo estival.</p>
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		<title>Um romance kafkiano de Haruki Murakami</title>
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		<pubDate>Mon, 16 May 2011 00:33:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
A carreira do adjetivo “kafkiano” na literatura contemporânea parece não ter limites. Sua presença se faz sentir nas mais diversas latitudes.
E a literatura japonesa não se constitui uma exceção a essa tendência. Nas 570 páginas de “Kafka à beira-mar” (Alfaguara, 2008, Prêmio Kafka 2006), de Haruki Murakami, em tradução de Keiko Gotoda direto do japonês, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/05/Haruki-Murakami.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-31138" title="Haruki Murakami" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/05/Haruki-Murakami.jpg" alt="" width="340" height="250" /></a></p>
<blockquote><p>A carreira do adjetivo “kafkiano” na literatura contemporânea parece não ter limites. Sua presença se faz sentir nas mais diversas latitudes.</p></blockquote>
<p>E a literatura japonesa não se constitui uma exceção a essa tendência. Nas 570 páginas de “Kafka à beira-mar” (Alfaguara, 2008, Prêmio Kafka 2006), de Haruki Murakami, em tradução de Keiko Gotoda direto do japonês, o tema tipicamente kafkiano do estranhamento do mundo é de uma constância ininterrupta.</p>
<p><span id="more-31137"></span>A presença kafkiana nesse longo romance se impõe mediante algumas escolhas que o romancista fez no decorrer da história. Lembremos que ele confessou, em recente entrevista ao diário francês Le Monde, que quando escreve um romance, nunca consegue antecipar seus próximos desdobramentos. Acontece que entre o factual e o fantástico Murakami se vê obrigado às vezes a descurar deste em benefício da continuidade. Coisas ficam por explicar ao longo do caminho. O problema que frequentemente ocorre com esse tipo de narrativa é que o leitor é instado a dar um crédito de confiança ao autor a que este, a rigor, não corresponde.</p>
<p>Lembremos, porém, de certas narrativas médias de Kafka catalogadas sob a rubrica “Narrativas do espólio” (Companhia das Letras, 2008) pelo tradutor Modesto Carone. Referimo-nos a “Blumfeld”, “Uma mulher pequena” (‘Eine kleine Weib’) e “Josefina”, entre outras, contos que deixam perguntas não respondidas para trás, como se a mera colocação do excepcional na vida de um personagem solitário (o herói kafkiano é quase sempre um ser desamparado no mundo à espera de uma catástrofe que ele sabe iminente) se explicasse por si mesma. “Blumfeld”, por exemplo, conta de um empregado de fábrica solteirão que depara, ao chegar a casa, com duas bolas que saltitam alternadamente, como dotadas de vontade própria. A surpresa do protagonista não o impede de tentar contê-las, o que só consegue após usar de vários ardis. Em seguida, deixa o apartamento para se dirigir ao trabalho, pois é um trabalhador pontual e nada o faz alterar seus hábitos. Mas antes de tomar o caminho do trabalho tenta se livrar definitivamente das bolas indesejadas oferecendo-as a duas meninas, filhas de uma vizinha. As meninas aceitam subir ao seu apartamento, após receberem as chaves da mão de Blumfeld, mas este não as acompanha, o que impede que saiba que desfecho terá o encontro das garotas com as bolas que saltam. A continuação da narrativa congela esse episódio e prossegue nas relações de trabalho do protagonista, não menos problemáticas do que as vividas em seu apartamento.</p>
<p>Por que razão Kafka realiza esse tipo de recorte em suas narrativas, como que extraindo-o do tecido da trama como partes indesejáveis? Uma razão plausível é que o excepcional nunca se repete da mesma forma, sob pena de perder sua condição de excepcional. Por isso, por não admitir que as bolas continuassem “excepcionais” para duas crianças ainda não conscientes da sentença fatídica que diz que “toda culpa é indiscutível”, Kafka preferiu imprimir à sua história uma inflexão desviante, retirando-as do foco da narrativa.</p>
<p>Sob esse aspecto, Murakami é genuinamente kafkiano em seu romance “Kafka à beira-mar”. Perguntas cruciais têm de ser ignoradas para que a narrativa flua, como que compensando-se daquilo que não foi capaz de explicar. A figura do ykiriou, espécie de alma errante de um ser vivo, emprestada do clássico “Contos do sol e da lua” (‘Ugetsu Moragatari’), de Ikinari Ueda, é tão somente um recurso a mais na busca de manter cativo o leitor.</p>
<p>O problema maior de “Kafka à beira-mar” talvez seja o excesso de personagens que se alternam na ribalta do drama. O menino chamado Corvo é apenas mais um, espécie de consciência crítica do jovem Kafka Tamura, e que é forçado a protagonizar um episódio que poderia ser retirado do livro com vantagem. O “bom leitor” desse romance, em última instância, torna-se “cúmplice” de seu autor.</p>
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		<title>Nelson Patriota entrevista o poeta Jarbas Martins</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Feb 2011 19:57:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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“Acho que para mim ela [a poesia] tem uma finalidade que os antigos provençais nela vislumbravam: afastar o tédio. Nada mais eficaz”.
Na confortável condição de poeta e crítico de poesia de crescente visibilidade na seara das letras potiguares, Jarbas Martins é um interlocutor indispensável para a compreensão de tudo o que acontece no seu campo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/02/jarbas-martins.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-26707" title="jarbas-martins" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/02/jarbas-martins.jpg" alt="" width="273" height="245" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #3366ff;"><strong>“Acho que para mim ela [a poesia] tem uma finalidade que os antigos provençais nela vislumbravam: afastar o tédio. Nada mais eficaz”.</strong></span></p>
<p>Na confortável condição de poeta e crítico de poesia de crescente visibilidade na seara das letras potiguares, Jarbas Martins é um interlocutor indispensável para a compreensão de tudo o que acontece no seu campo de pesquisa. Não é de todo ocioso lembrar que, embora tenha se limitado bibliograficamente a dizer-se autor de tão somente duas obras – “Contracanto” (1979), “14 versus 14 – itinerário do soneto norte-rio-grandense” (1994), em 2008, lançou um pequeno poema ilustrado sob o título de “Antielegia para Emmanuel Bezerra” (2008) e anunciou o lançamento para breve de uma coleta de inéditos e dispersos enfeixada no título “re-Visões e outros poemas contra-acabados”. Enfim, destaca-se também como profícuo tradutor de poesia, como atesta a “Antologia poética de tradutores potiguares”, organizada pelo escritor Nelson Patriota e publicada pela Editora da UFRN.</p>
<p><span id="more-26706"></span>Crítico das vanguardas, Jarbas Martins não desmerece os contributos dos seus múltiplos avatares, especialmente o poema/processo. Leitor e buscador de novidades poéticas onde quer que se encontrem – a rede mundial é seu novo fetiche – Jarbas Martins responde aqui, em doze etapas, algumas indagações sobre as relações que mantém com a poesia – a sua e a alheia – e a crítica poética.</p>
<p><strong>01 –   Na dupla condição de poeta e de estudioso de poesia, que contribuição você acha que já deu à poesia potiguar e o que você que ainda poderá dar a essa poesia?</strong></p>
<p>JARBAS MARTINS: Meu interesse pela poesia potiguar surgiu desde cedo, aí pelos dez anos. Meu pai, autodidata e bom leitor, falava-me, às vezes, da poesia de Auta de Souza. Ele era muito religioso e a poesia de Auta parecia lhe tocar muito. Ouvia também do meu avô paterno, que sempre viveu em Angicos, muitas referências a Auta e seu irmão, também poeta, Henrique Castriciano. Eles, em épocas diferentes, passaram algum tempo no sertão angicano, em busca da cura da tuberculose. Corre a lenda que o soneto &#8220;Pelo Sertão&#8221; foi escrito por Auta  de Souza, em sua passagem por Angicos. Quanto à poesia de Henrique Castriciano. Só muito tempo depois é que tive dela conhecimento. Próximo a terminar o curso secundário no Atheneu conheci  (e que deslumbramento) a  poesia de Zila Mamede.Quando comecei a ensinar Português, ou melhor, Literatura Portuguesa e Brasileira, nos colégios públicos (Atheneu, Winston Churchill) vez ou outra falava nesses autores, tão esquecidos dos compêndios escolares.Decidi pesquisá-los. Até hoje. Meu deslumbramento de agora é com a poesia multimidiática de Carito, conhecimento via internet. A poesia diante das novas tecnologias tem sido o foco dos meus estudos ultimamente. E tento passar essa motivação para os meus alunos de Comunicação e Artes Visuais, no Departamento de Comunicação Social, da UFRN, onde leciono.</p>
<p><strong>02.   Você está preparando uma segunda edição de seu livro 14 versus 14, seleta do soneto norte-rio-grandense. Quando ocorrerá o lançamento dessa obra?</strong></p>
<p>JM. Considero-me, antes de tudo, um antologista. Daí meu interesse pela poesia alheia, muitas vezes em detrimento da poesia que escrevo. Organizei em 1994 uma breve antologia do soneto norte-rio-grandense, que teve, para minha surpresa, uma certa receptividade por parte da crítica local. Em 1995, ou seja, há quinze anos comecei a organizar uma segunda edição ampliada. As notas, que são muitas, estão sempre sendo atualizadas. Tenho que parar. O ano que entra fará 16  (número que lembra um soneto estrambótico) anos que estou preparando essa antologia. Bom ano para o lançamento.</p>
<p><strong>03.   A propósito do soneto, qual o lugar que ele ocupa na nossa poesia, hoje?</strong></p>
<p>JM. Nenhuma outra forma poética exibe esse traço de permanência, característica da história do soneto. Nos dias atuais essa obscura flor provençal tem dado prova de vitalidade, seja em seu formato clássico e canônico, seja através de seus avatares: o soneto visual pós-vanguardista de Avelino de Araújo, o sonetilho de Luís Carlos Guimarães, o parassoneto de Nei Leandro. Conteudisticamente se enriquece, de que são provas os falsos sonetos de Iracema Macedo (o soneto fake)  ou o soneto pop-midiático de Alex Nascimento, de ampla receptividade. Essa forma poética dialoga também (como nos seus primórdios) com a música, como se vê em composições de Mirabô Dantas,Tico da Costa e Geraldinho Carvalho.</p>
<p><strong>04. Como estudioso da poesia potiguar, você acha que os pontos fortes dessa poesia estão situados no passado, ou, ao contrário, no presente?</strong></p>
<p>JM. Resposta para um futuro que  não alcançaremos. Passados cem anos, talvez os nossos tetranetos ainda se lembrarão da forte sonetística de Zila Mamede ou das graciosas mímicas, em catorze linhas, de Avelino de Araújo ou de Alex Nascimento.Ou provisoriamente poderão se esquecer do lirismo de Ferreira Itajubá e Othoniel Menezes.Adivinhar quem há de ?</p>
<p><strong>05.   E a poesia brasileira de hoje, que julgamento você faz dela?</strong></p>
<p>JM. Em seu ecletismo, em sua diversidade, é impossível fazer o mapeamento da poesia atual. De maneira que dela só teremos uma visão parcial. E muitos questionamentos. Quem se atreve no momento  a fazer um levantamento da chamada infopoesia, ou das chamadas práticas literárias na internet ? Como avaliá-las? É um grande desafio.</p>
<p><strong>06.   O que acontece de mais específico e promissor na poesia brasileira?</strong></p>
<p>JM. A poesia que surgirá com o e-book, a que se mesclará com outras tecnologias ou a poesia oral ou sonora que reaparecerá viva e original como em Homero. Ou como em qualquer outro poeta, cujo nome se perdeu no tempo.</p>
<p><strong>07.   A poesia norte-rio-grandense teve, durante algumas décadas decisivas, um forte pendor para o experimentalismo, que se traduziu em tentativas ousadas de movimentos de vanguarda. Que balanço você faz desses movimentos e o que resultou de positivo nisso para a nossa poesia?</strong></p>
<p>JM. Vanguarda, experimentalismo são coisas datadas e, portanto, historiografadas. Pertence ao nosso patrimônio histórico. O poema/processo de que fui crítico, até pouco tempo, deixou marcas profundas na poesia brasileira e, em particular, na poesia potiguar. Não se pode negar isso. Nomes de ponta como Avelino de Araújo ou performáticos como Carito pagam tributo a esse importante movimento que foi o poema/processo. Entretanto, é bom que se diga, esse movimento não revelou grandes poetas. E sim pouquíssimos poemas geniais, porque ousados. Costumo dizer que o Rio Grande do Norte é o Estado mais silencioso do Brasil. Poemas como O OLHO de Anchieta Fernandes se fez ouvir e ver em tudo que era Brasil por esse mundo afora. Foi copiadíssimo e diluído. Foi pastichado por uma empresa, e podemos ver os traços do poema de Anchieta até nas camisas de jogadores e nos estádios de futebol. Os livros didáticos costumam reproduzir O OLHO sem citar o nosso conterrâneo. Mas a culpa aí deve ser de Anchieta, Moacy e demais teóricos do movimento, que falavam em abolir o direito autoral. Nesse ponto o poema/processo foi profético. Nada mais atual, nesse mundo fake e de piratarias.</p>
<p><strong>08.   Qual movimento de vanguarda deixou contribuições mais importantes?</strong></p>
<p>JM. O poema/processo, sem dúvida. Era realmente o que se podia chamar de uma obra aberta. Além do seu caráter icônico, antecipou a arte da performance, as atuais instalações, reinventou a poesia sonora e a arte povera de origem européia. Dessemantizou e ressemantizou a poesia brasileira. Às vezes parecia que o movimento fazia muito barulho para nada. Mais criatividade do que isso, impossível.</p>
<p><strong>09.   Nossa poesia precisa de uma nova vanguarda nos dias atuais?</strong></p>
<p>JM. O termo vanguarda é datado, como já falei. Qualquer tentativa de revisitar o termo soa-me falso. Mas o falseamento é próprio das artes nestes tempos pós-modernos. Moacy Cirne veicula belíssimos poemas em um blog chamado Poema Processo. Claro que Moacy Cirne sabe que a vanguarda não está ali e nem em canto nenhum mais. São outros tempos, outros suportes, outra utopia, outros tudo. Mas o velho Moa, que anda cada vez mais parecido com esse Jeová Barbudo, o Karl Marx, insiste em sonhar. Nada mais saudável.</p>
<p><strong>10.   Que traços definem a atual poesia potiguar?</strong></p>
<p>JM. Um experimentalismo disfórico. Mas esse é também um traço presente na poesia universal. Estou lendo atualmente, numa tradução portuguesa, Hans Magnus Eiszemberg. Grande poeta que parece estar remendando e emendando o vazio. Sinal dos tempos.</p>
<p><strong>11. Qual a utilidade (filosófica ou prática) da poesia para a sua vida?</strong></p>
<p>JM. Acho que para mim ela tem uma finalidade que os antigos provençais nela vislumbravam: afastar o tédio. Nada mais eficaz. Digo sempre isso aos meus alunos.</p>
<p><strong>12.   Qual o futuro da poesia?</strong></p>
<p>JM. Parafraseando Fernando Pessoa: um futuro outrora agora.</p>
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		<title>Nicolelis cria o futuro que a ficção científica sonhou</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Jan 2011 00:59:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O neurocientista Miguel Nicolelis goza hoje de uma quase unânime notoriedade no meio científico brasileiro, graças a um conjunto de ideias em parte novas, em parte não, que manuseia com rara habilidade. A possibilidade de que homens e máquinas interajam no médio prazo sem intermediação de terceiros está entre as mais interessantes, e reeditam um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/01/rayBradbury.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-26612" title="rayBradbury" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/01/rayBradbury-109x150.jpg" alt="" width="109" height="150" /></a>O neurocientista Miguel Nicolelis goza hoje de uma quase unânime notoriedade no meio científico brasileiro, graças a um conjunto de ideias em parte novas, em parte não, que manuseia com rara habilidade. A possibilidade de que homens e máquinas interajam no médio prazo sem intermediação de terceiros está entre as mais interessantes, e reeditam um quê de déjà-vu para os leitores dos clássicos da ficção-científica, notadamente para aqueles que trazem a assinatura de Isaac Asimov, Ray Bradbury (foto), Arthur C. Clarke.</p>
<p><span id="more-26611"></span>O otimismo que Nicolelis exibe lembra um pouco o estilo dos homens de ciência da América, para os quais tudo ainda é possível, ao contrário do que pensam seus “céticos” colegas europeus, para muitos dos quais a ciência, como tudo mais neste mundo, tem seus limites. E estes já chegaram ou estão chegando, e nada há que se possa fazer sobre disso.</p>
<p>A convicção que o cientista exibe sobretudo nas entrevistas para a imprensa, como a que deu recentemente ao jornalista Alexandre Gonçalves, do jornal O Estado de S. Paulo, lhe permite discorrer acerca de assuntos que, postos à disposição de fontes menos autorizadas, soariam incríveis e mirabolantes. Quando ele afirma, por exemplo, que “nossa mente poderá atuar com máquinas que estão à distância e operar dispositivos de proporções nanométricas ou gigantescas: de uma nave espacial a uma ferramenta que penetra no espaço entre duas células para corrigir um defeito” não está, de algum modo, invadindo a fronteira que separa ciência e ficção científica? A diferença é que ele fala como homem de ciência, autorizado, portanto, até aonde sabemos, a agir desse modo. Mas não podemos deixar de pensar nos super-heróis dos quadrinhos contemporâneos, cujas aventuras os colocam justamente nessa fronteira a que nos referimos, “antecipando” inventos que hoje não passam de miragens.</p>
<p>Além de todo o conhecimento científico que desenvolve, inclusive no Centro de Pesquisas de Neurociências em Macaíba, Nicolelis poderia dizer em apoio às suas ideias que é preciso sonhar, antes de fazer. Dito que se torna ainda mais consistente quando os sonhos têm embasamento na ciência, como os dele. São ideias, aliás, que não param de repercutir mundo afora. Mas, na verdade, não são de simples entendimento. Quem se der ao trabalho de ler a longa entrevista que Nicolelis deu ao Estadão, poderá perceber nas suas entrelinhas as dificuldades que o repórter Alexandre Gonçalves experimentou tentando fazer o cientista esclarecer conceitos como “interface cérebro-máquina”, “exoesqueletos”, “registro de neurônios”&#8230;</p>
<p>Talvez as ideias de Nicolelis sejam avançadas demais para a nossa época. Como a de que no futuro não haverá internet nem haverá linguagem, pelo menos como as concebemos hoje. Ambas serão substituídas por uma espécie de “rede cerebral”. O mais surpreendente, porém, nesse cenário futurista destituído de linguagem e, consequentemente, de internet (temo que na utopia nicoleliana os livros também estejam fadados a desaparecer, agora sem contrapartida no espaço cibernético), é o lugar reservado ao corpo. De acordo com o cientista, esse será um espaço secundário, ou, em suas palavras: “o corpo permanecerá para manter a mente viva, mas não precisará atuar fisicamente”. Diante dessa colocação, é impossível não pensar naqueles seres de cérebros hipertrofiados, saídos diretamente da imaginação dos autores de ficção científica, que vêm, no futuro, do espaço extraterrestre, de algum planeta mais desenvolvido e que, graças à debilidade dos seus corpos fracassam na tentativa dominar os terráqueos&#8230; Felizmente ainda não tão evoluídos mentalmente a ponto de desprezarem os seus próprios corpos.</p>
<p>Miguel Nicolelis é alguém que pensa o futuro com tanta ansiedade que está decidido a antecipá-lo. A firmeza com que anuncia, para daqui a três meses, a publicação de uma obra que acredita revolucionária para a ciência, é uma das interfaces mais características desse cientista que se diz um “pária” no meio científico brasileiro mas que, ainda assim, insiste em trabalhar no Brasil. Curiosamente, por uma razão pouco científica: “uma obsessão”.</p>
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		<title>Poesia de Iracema desafia a penúria dos dias</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Jan 2011 10:29:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Houve um tempo em que os poetas eram tidos como seres nefelibatas (“habitantes das nuvens”, ou cegos, como Homero. Hoje, preferem se ver como habitando as palavras. “Morar entre nuvens” foi a forma que encontraram para expressar o mal-estar que lhes causava habitar um mundo árido e hostil; morar em meio às palavras é o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Houve um tempo em que os poetas eram tidos como seres nefelibatas (“habitantes das nuvens”, ou cegos, como Homero. Hoje, preferem se ver como habitando as palavras. “Morar entre nuvens” foi a forma que encontraram para expressar o mal-estar que lhes causava habitar um mundo árido e hostil; morar em meio às palavras é o socorro que resta quando alguém se vê na condição de um apátrida, despojado de qualquer lugar que reconheça como seu.</p>
<p><span id="more-26493"></span>A sentença foi formulada por Adorno: “Para quem não tem pátria, talvez escrever seja a única morada”. Ao lê-la em suas leituras filosóficas, a poetisa e também filósofa Iracema Macedo encontrou sua estrada real. É o que expressa no poema “Raízes”, cujo quarto verso diz: “Estou morando em minhas palavras”. Prosseguindo, conclui: “Às vezes sede, às vezes navalha/ às vezes também girassóis e asas”. A “lucidez de navalha”, de que fala Diulinda Garcia em livro recente, é um bom exemplo do que pode a poesia quando empunhada como instrumento cortante; a alegoria das asas é autoexplicativa.</p>
<p>“Raízes” integra a parte inédita do livro “Poemas inéditos e outros escolhidos”, que Iracema Macedo lançou em dezembro último com selo do sebo Vermelho e orelhas de Nei Leandro de Castro, leitor, aliás, entusiasta da poetisa, “entre as melhores. Talvez a que mais abre as comportas da paixão, do amor à fatalidade, do amor que fulgura sem aviso”.</p>
<p>Não mais do que dezesseis poemas inéditos compõem esse novo livro de Iracema, sendo os demais retirados de “Lance de Dardos” (2000) e “Invenção de Eurídice” (2004). A rigor, a parte inédita seria quinze, de vez que o poema “Os Passos” (Les Pas), de Paul Valéry, foi publicado na nossa “Antologia Poética de Tradutores Norte-rio-grandenses” (UFRN, 2008), em acerto com a tradutora.</p>
<p>Vive a poetisa uma fase de “baixa” em sua poesia, como às vezes sucede inclusive com romancistas e contistas, haja vista que seu último livro de poesia data de 2004? Quem sabe, outras atividades intelectuais e profissionais não lhe vêm deixando o tempo de ócio que todo criador precisa para produzir? Seria falta de motivação para escrever, dando razão, de certo modo, à indagação formulada por Fernando Monteiro em recente poema longa: “Dá para ser poeta em tempos de penúria?”, repercutindo uma das últimas falas do poeta Roberto Piva.</p>
<p>A resposta de Iracema Macedo a essa questão seguiria possivelmente o método utilizado por Monteiro para abordar a penúria dos tempos que seguem: escrevendo um novo poema, porque ser poeta também é se questionar o próprio ser da poesia, e se há penúria nessa seara, cabe ao poeta usá-la com grande comedimento na moldura da sua poesia. Talvez por isso Iracema Macedo viva uma fase tão — poeticamente — econômica.</p>
<p>Em compensação, nesses poucos poemas inéditos Iracema revela grande zelo pelo estilo que a transformou num exemplo poético: a naturalidade com que desnuda seu próprio eu em versos, seguindo o voo sinuoso das paixões que se acumulam, se desfazem e se renovam.</p>
<p>Trata-se de um método poético positivo porque, conforme leem seus poemas, há um nexo inextricável que os unem, que percorre todo o espectro de possibilidades que relaciona vida, paixão e poesia. Esse nexo se manifesta pela ideia de uma intensa vivência interior. É nele, às vezes mediante um olhar retrospectivo para o vivido, que Iracema busca os motivos dos seus poemas. Que importa que ao leitor sejam dados apenas fragmentos da paixão que os animam? É próprio dos poetas guardarem segredos, mesmo quando parecem despojados das vestimentas mínimas. Assim, ao contrário do rei da fábula de Andersen, às vezes os poetas parecem nus quando, na verdade, se ocultam por trás do excesso de confidências de que falam seus versos; tão cabalmente ricos que ofuscam a penúria do mundo.</p>
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		<title>Exercitando a leitura na biblioteca de Babel</title>
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		<pubDate>Thu, 20 Jan 2011 01:26:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nelson Patriota</dc:creator>
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Uma parte significativa da literatura contemporânea é constituída de reflexões sobre o fazer literário, como se não bastasse ao escritor produzir sua escritura; feito isso, ele teria de ainda debruçar-se criticamente sobre o texto, explicando-o e interpretando-o à sua maneira. É o que faz, por exemplo, o romancista e crítico Silviano Santiago (foto), na entrevista [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/01/silviano-santiago.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-26217" title="silviano santiago" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/01/silviano-santiago-520x288.jpg" alt="" width="403" height="223" /></a></p>
<p>Uma parte significativa da literatura contemporânea é constituída de reflexões sobre o fazer literário, como se não bastasse ao escritor produzir sua escritura; feito isso, ele teria de ainda debruçar-se criticamente sobre o texto, explicando-o e interpretando-o à sua maneira. É o que faz, por exemplo, o romancista e crítico Silviano Santiago (foto), na entrevista que concedeu ao jornal Rascunho de dezembro passado.</p>
<p><span id="more-26216"></span>Entre várias assertivas “provocativas”, o crítico mineiro rearruma os lugares do escritor e do leitor, esse conjunto binário indispensável à existência da literatura. Mas, agora, reservando um lugar mais ativo ao leitor do que aquele imaginado por Barthes e pelos desconstrutores pós-Derrida. Para Silviano Santiago o leitor está longe de ser um mero expectador de textos. Até aí, já o sabíamos, via Barthes e outros estudiosos da linguagem. O dado novo que ele introduz no sistema autor/leitor é, paradoxalmente, antigo: provém dos jesuítas e trata da ideia de que a literatura tem a mesma função para ambos: “Nós, escritores, escrevemos em uma folha de papel ou na máquina ou no computador, enquanto o leitor escreve naquilo que os jesuítas chamam de ‘folha de papel em branco da mente’ ”. Em decorrência disso, no ato da leitura o leitor carrega de significados sua mente, realizando uma ação similar, em essência, ao do autor do texto.</p>
<p>Outro aspecto não menos interessante da leitura, ainda conforme Silviano Santiago, é que ela se distingue também por ser um exercício de alteridade, ou seja, permite ao leitor entrar num mundo que não é o dele, e no qual se entra muitas vezes por um “processo de surpresa”. Quando o leitor dispõe de um repertório de cenas, de situações e de livros, esse exercício evolui para o que Santiago chama de “diálogo via intertextualidade”.</p>
<p>Ao ocupar seu lugar exclusivo na intangível Biblioteca de Babel imaginada por Borges (que, como sabemos, é ilimitada como o universo einsteiniano), o leitor tem acesso a todos os livros necessários à sua emancipação existencial e filosófica, na medida em que pode desenvolver sua visão de mundo de forma independente e autônoma. Isso se dá, conforme o escritor mineiro, devido a uma terceira característica da leitura: a mediação. A leitura ajuda a desenvolver projetos de possibilidades que também valem como utopias. O leitor sensível, inteligente, sempre conseguirá ver as relações estreitas entre aquilo que está lendo e a possibilidade de transformação, seja da realidade imediata, a realidade do mundo, seja ainda e, sobretudo, de si próprio.</p>
<p>Na sua longa entrevista ao jornal Rascunho, Silviano Santiago tem ainda oportunidade de discorrer sobre alguns dos temas polêmicos da atualidade literária brasileira: a situação da crítica (ou de ausência de), a premiação do Jabuti a “Leite derramado”, de Chico Buarque, em detrimento de “Se eu fechar os olhos agora”, de Edney Silvestre, e sobre seu novo livro, “Anônimos”, de contos.</p>
<p>As considerações que faz sobre a crítica literária, no Brasil, de certo modo refletem uma espécie de unanimidade latente: a dificuldade, a quase impossibilidade de se trabalhar com crítica no país, especialmente com a literatura contemporânea, porque não se pode negar que existe uma febril atividade crítica inspirando teses e dissertações acadêmicas, mas invariavelmente tratando de autores canonizados, o que equivale a dizer, defuntos. Fora da academia, prolifera uma crítica intermitente, quase invisível.</p>
<p>As longas entrevistas que o jornalista Rogério Pereira, editar do Rascunho, vem fazendo com escritores de todo o país, especialmente aqueles localizados nas regiões sul e sudeste, constituem hoje um dos mais instigantes retratos da literatura brasileira contemporânea, na medida em que não se atêm apenas à figura e à obra de cada entrevistado, mas relaciona-as com o processo de feitura, publicação e trabalho subsequente que todo livro impõe ao seu autor.</p>
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