A carreira do adjetivo “kafkiano” na literatura contemporânea parece não ter limites. Sua presença se faz sentir nas mais diversas latitudes.
E a literatura japonesa não se constitui uma exceção a essa tendência. Nas 570 páginas de “Kafka à beira-mar” (Alfaguara, 2008, Prêmio Kafka 2006), de Haruki Murakami, em tradução de Keiko Gotoda direto do japonês, o tema tipicamente kafkiano do estranhamento do mundo é de uma constância ininterrupta.
Nelson Patriota entrevista o poeta Jarbas Martins
2 de fevereiro de 2011 às 16:57 | 7 Comentários“Acho que para mim ela [a poesia] tem uma finalidade que os antigos provençais nela vislumbravam: afastar o tédio. Nada mais eficaz”.
Na confortável condição de poeta e crítico de poesia de crescente visibilidade na seara das letras potiguares, Jarbas Martins é um interlocutor indispensável para a compreensão de tudo o que acontece no seu campo de pesquisa. Não é de todo ocioso lembrar que, embora tenha se limitado bibliograficamente a dizer-se autor de tão somente duas obras – “Contracanto” (1979), “14 versus 14 – itinerário do soneto norte-rio-grandense” (1994), em 2008, lançou um pequeno poema ilustrado sob o título de “Antielegia para Emmanuel Bezerra” (2008) e anunciou o lançamento para breve de uma coleta de inéditos e dispersos enfeixada no título “re-Visões e outros poemas contra-acabados”. Enfim, destaca-se também como profícuo tradutor de poesia, como atesta a “Antologia poética de tradutores potiguares”, organizada pelo escritor Nelson Patriota e publicada pela Editora da UFRN.
Nicolelis cria o futuro que a ficção científica sonhou
30 de janeiro de 2011 às 21:59 | Comentar
O neurocientista Miguel Nicolelis goza hoje de uma quase unânime notoriedade no meio científico brasileiro, graças a um conjunto de ideias em parte novas, em parte não, que manuseia com rara habilidade. A possibilidade de que homens e máquinas interajam no médio prazo sem intermediação de terceiros está entre as mais interessantes, e reeditam um quê de déjà-vu para os leitores dos clássicos da ficção-científica, notadamente para aqueles que trazem a assinatura de Isaac Asimov, Ray Bradbury (foto), Arthur C. Clarke.
Poesia de Iracema desafia a penúria dos dias
27 de janeiro de 2011 às 7:29 | 1 ComentárioHouve um tempo em que os poetas eram tidos como seres nefelibatas (“habitantes das nuvens”, ou cegos, como Homero. Hoje, preferem se ver como habitando as palavras. “Morar entre nuvens” foi a forma que encontraram para expressar o mal-estar que lhes causava habitar um mundo árido e hostil; morar em meio às palavras é o socorro que resta quando alguém se vê na condição de um apátrida, despojado de qualquer lugar que reconheça como seu.
Exercitando a leitura na biblioteca de Babel
19 de janeiro de 2011 às 22:26 | 1 ComentárioUma parte significativa da literatura contemporânea é constituída de reflexões sobre o fazer literário, como se não bastasse ao escritor produzir sua escritura; feito isso, ele teria de ainda debruçar-se criticamente sobre o texto, explicando-o e interpretando-o à sua maneira. É o que faz, por exemplo, o romancista e crítico Silviano Santiago (foto), na entrevista que concedeu ao jornal Rascunho de dezembro passado.
Crônicas pontuais de uma Ribeira submersa
15 de janeiro de 2011 às 14:50 | 1 ComentárioUm novo selo editorial acaba de ser lançado no mercado natalense. Trata-se do “Arquitetura das Letras”, cujo primeiro título foi conhecido em fins do ano passado, quando o escritor Elísio Augusto de Medeiros e Silva lançou seu “Notícias de Hontem – crônicas”. A grafia propositadamente antiquada desse “hontem” que parece mergulhar nos desvãos do passado, dá o tom geral do livro, cujo objetivo é mesmo se demorar em momentos singulares da história natalense, com especial ênfase nas páginas reportadas ao velho bairro da Ribeira, descobrindo-lhe traços de uma singularidade marcante em cada rua, esquina, logradouro que anima sua geografia.
Cascudo e sua possível “biografia intelectual”
16 de dezembro de 2010 às 9:25 | Comentar
A notícia da publicação de uma possível “biografia” do escritor Luís da Câmara Cascudo, mesmo que seja para daqui a dois anos, é capaz de merecer ampla cobertura dos cadernos de cultura dos nossos principais jornais, com repercussões candentes em todos os meios culturais da cidade.
Foi o que aconteceu com a matéria “Pensando como o mestre” – assinada por Maria Betânia Monteiro e editada na capa do caderno “Viver” desta TN no dia 4 passado. No subtítulo informava a repórter: “Historiador Durval Muniz prepara a biografia intelectual de Luiz (sic) da Câmara Cascudo, obra que vai revelar o homem múltiplo que ele foi”.
Desafios e dádivas na poesia de Dorian Gray
6 de dezembro de 2010 às 22:23 | ComentarNo introito ao edifício poético que erigiu num trabalho de quarenta anos, Dorian Gray abre “Os Dias Lentos”, seu título poético mais recente, com um apelo: “Senhor, dá-me mais um verão / e eu continuarei a parte / que me cabe neste ofício. // Sei que um verão é pouco, / mas se assim peço/ é para que possa erguer-me / das minhas fragilidades / e sob a sua luz / escrever teu nome” (“Da verdade”).
A alguém lembrarão esses versos outros escritos pelo torturado Hölderlin: “Mais um verão, mais um outono, ó Parcas,/ Para o amadurecimento do meu canto peço / me concedeis. Então saciado do doce jogo/ que o coração me morra” (“As Parcas”, trad. de Manuel Bandeira). De fato, Um fervor monástico perpassa ambos os poemas. No caso de Dorian Gray, retinto de forte sentimento cristão; quanto ao poeta germânico, sabe-se de seu helenismo pagão, embora, na essência, tais diferenças se confundam.
Livro de Valério foca o lado risível da política
5 de dezembro de 2010 às 11:47 | ComentarA máxima latina que recomenda que se castiguem os (maus) costumes com o riso: “Castigat ridendo mores” encarna o próprio espírito da comédia, ou seja, guarda sua atualidade na medida em que rir também equivale, nesse caso, a ensinar. Não se esqueça o caráter didático das terapias do riso e afins.
Elogio e enigmas em torno de Nísia Floresta
14 de novembro de 2010 às 10:39 | 1 Comentário
“Prestará inestimável serviço às letras pátrias quem estudar criteriosa e demoradamente essa por tantos títulos excepcional figura feminina, uma das primeiras da fase romântica entre nós”. A frase é de Henrique Castriciano deplorando a falta de uma biografia de Nísia Floresta, cujo bicentenário transcorre este ano e vem dando margem a homenagens e colóquios sobre a obra multifacetada dessa escritora, o mais recente dos quais aconteceu na semana passada na Aliança Francesa, tendo na agenda as raízes gaulesas de Nísia.
O que jaz oculto na poesia de Jaumir Andrade (II)
7 de novembro de 2010 às 9:11 | 1 ComentárioFaz falta à bibliografia do escritor Luís da Câmara Cascudo uma coletânea de apresentações e prefácios, dos tantos que escreveu, nos moldes do livro “Prólogos”, do argentino Jorge Luis Borges. Tal obra serviria ao menos para desmistificar a aura de apologista acrítico que cerca a glória póstuma do mestre potiguar.
O que jaz oculto na poesia de Jaumir Andrade – (I)
16 de outubro de 2010 às 14:45 | 1 ComentárioQuando, a exemplo do que aconteceu com as obras singulares de Miguel Cirilo e de Bosco Lopes, a crítica voltar suas atenções para os dois livros do poeta Jaumir Andrade (1945-1984) – Demopoesia (1970) e Em meu peito de urso, meu grito de mulher (1984) – haverá de se surpreender não só com a qualidade excepcional que marca sua construção poética, mas poderá rastrear influências, angustiantes ou não, como, por exemplo, dos poetas Thiago de Mello e Ferreira Gullar, cujas primeiras obras coincidiram com a época mais criativa de Jaumir. Sem esquecer que esse poeta tinha um talento excepcional para a letra da canção popular, como atestam suas parcerias com Mirabô Dantas e Babau.
A propósito do encontro de um maestro com uma estrela
10 de outubro de 2010 às 11:32 | 1 Comentário
A cantora Glorinha Oliveira poderia ter evitado a síndrome Romário e resistido à tentação de anunciar o fim de sua carreira nos palcos, na histórica noite em que se reencontrou, no tablado do Teatro Alberto Maranhão, com o maestro Waldemar Ernesto, o mais contemporâneo dos seus contemporâneos musicais. O evento denominado com exatidão de “Encontro do Maestro com a Estrela” aconteceu sob os auspícios da nostalgia dos mais antigos, que recuperaram, naquela improvável ocasião, um turbilhão de amenas lembranças juvenis; aos jovens, restou desfrutar um espetáculo ainda mais raro: o encontro de dois nomes emblemáticos da nossa música, mas que pareciam imersos nas singularidades de suas vidas e acomodados ao anonimato da solidão e do recolhimento e que, numa reversão horária executada com a perícia de um mestre artesão, voltavam ao palco de onde haviam recolhido, há décadas, aplausos e gratas manifestações de júbilo, para ter tudo isso de uma só penada, e pela primeira vez.
Complexidade prova que também pode ser “pop”
26 de setembro de 2010 às 12:07 | 3 Comentários
A filosofia não é um assunto palatável às massas, mas alguns filósofos podem assumir ares de astros pop, capazes de atrair a reverente atenção de milhares de jovens, de natural inquietos, ruidosos e críticos, sob o apelo de uma senha: “o destino da humanidade”. Sobretudo quando por trás dessa senha se oculta um nome de indiscutível apelo autoral.
Foi de fato com esse álibi que o filosofo francês Edgar Morin atraiu à Praça Cívica do Campus da UFRN, em Natal, uma plateia só imaginável em shows de artistas caídos no gosto popular. Leve-se em conta, porém, que aquela não era uma plateia qualquer; estudantes das diversas ciências universitárias davam colorido e diversidade ao seu conjunto e a cada um deles não faltou curiosidade para ouvir algo significativo sobre a humanidade. Como seu destino, por que não? Especialmente se quem discorre sobre o tema vem precedido de rumorosa fama.
Exercício textual exemplar de uma publicitária
25 de setembro de 2010 às 17:37 | 6 ComentáriosA Um Passo da Eternidade, cena entre Deborah Kerr e Burt Lancaster
A seção “gente que pensa” (admitida a hipótese de que as há não pensantes) da revista Palumbo tem trazido a público interessantes reflexões, haja vista que é uma coluna sem assinante fixo. Isso tem pelo menos uma vantagem muito evidente: garante uma variedade de estilos e de assuntos não encontráveis numa coluna fixa. Pode, todavia, apresentar alguns inconvenientes, caso o desempenho do eventual assinante não corresponda ao fim colimado.
Balanço sentimental do amor de um poeta
5 de setembro de 2010 às 9:43 | ComentarHá pouco mais de um ano, o poeta Paulo de Tarso Correia de Melo lançou uma edição omnibus de sua obra poética através da editora da UFRN-Edufrn, sob o título de “Talhe rupestre – poesia reunida e inéditos”, organizada e anotada pelo escritor Carlos Newton Júnior. Suas mais de 440 páginas constituem uma espécie de mosaico minucioso e discreto dos muitos motivos que explodem na poesia intempestiva desse poeta tardio. Obra densa, tocada por uma linguagem contida, às vezes se confundindo com um “coloquial culto e escorreito”, está ainda a merecer uma abordagem ampla de suas múltiplas tendências e do acerto poético dessas tantas vias, trabalho que certamente revelará inúmeras pérolas, de variados valores e matizes.
A partir deste 9 de setembro, a poesia de Paulo de Tarso ganha um novo rebento. Trata-se de “Sabor de amar”, obra que sai sob a custódia da editora Sarau das Letras, de Mossoró. Não por acaso seu prefaciador é o operoso Clauder Arcanjo, enquanto a contracapa ficou a cargo do poeta Davi Leite.
“Sabor de amar” poderia ter outro nome. Por exemplo, “O livro de Ana”, porque é em torno da longa e bem-sucedida relação amorosa de Paulo de Tarso com sua Ana Maria que nascem e findam os motivos poéticos derramados na obra. Não é raro, portanto, que alguns poemas se reportem a acontecimentos passados, vividos, firme ou vagamente lembrados. Nessa espécie de contabilidade sentimental é frequente tais retrospectos. Um dos mais representativos é, certamente, o poema “Cantiga de amigo II”, elogio do amor sereno, pródigo em verdades de afeto e que dispensam, assim, retórica e metro. Ei-lo: “Um dia / eternamente / deixaremos a terra / ¬– nossa casa – / e o amor – / nossa veste – // Por enquanto / agradeço / o / que / de suave / e terno / me deste”.
Não é difícil ao leitor perceber por trás de cada poema, como uma sombra solar, a imagem da musa do poeta, uma musa real, histórica, fator determinante para como que costurar um poema ao seguinte, garantindo-lhe uma veraz poeticidade, não obstante os desdobramentos de tons, cores, tempos, lembranças. À paleta de afetos recenseados corresponde uma forma adequada, porque sabe o poeta que “Não passa o canto / passa o cantor” – / ars fugidia – / não passa. Permanência”. É por essa razão que o livro abre como o conhecido verso de Virgílio: “Arma virumque cano”.
Todavia, o momento mais ambicioso de “Sabor de amar” é seguramente o quase-soneto “Cantiga de velha lembrança”, cujo primeiro quarteto diz: “Lembrar-te é endereçar-me à pulsão das estrelas / e às fibras que maduram no âmago do tempo / para fazerem fenecer as flores / e aparecerem rugas num momento.
Por que Deífilo é o nome do folclore potiguar
18 de agosto de 2010 às 15:39 | ComentarCrer no próprio destino é privilégio de poetas e visionários, condições que podem conviver num mesmo ser humano sem conflitos maiores. A história de vida do poeta Deífilo Gurgel é exemplar, a esse respeito. Nascido em Areia Branca, experimentou, na infância, certo deslumbramento com as cores, brilhos, cânticos e movimentos rítmicos de folguedos populares, com suas variantes em conformidade com a época: laicos ou religiosos, tumultuosos ou solenes e, às vezes, um pouco de cada, indistintamente.
O poeta, porém, veio antes. Foi uma escolha pessoal, ou uma descoberta, se formos daqueles que acreditam que ser é questão de berço. O folclore, porém, foi destino: Deífilo teria que buscá-lo, de merecê-lo. E quando é assim, os acasos, as pequenas coincidências, as circunstâncias favoráveis não tardam a agir, numa espécie de determinismo sutil que só se deixa perceber retrospectivamente.
Foi dessa forma que o poeta Deífilo Gurgel se tornou folclorista. Os encontros com o coquista Chico Antônio e com Dona Militana, dois emblemas atemporais da alma popular potiguar, foram plantados em seu caminho como duplas assertivas: que ele prosseguisse, porque seguia na direção certa. A aproximação com o mestre Câmara Cascudo, a discussão de seus livros, as visitas com seus alunos ao casarão da Junqueira Aires, a descoberta de Mário de Andrade, tudo decorreria em sequência.
A pretexto do Dia do Folclore, que transcorre dia 22 deste mês, Deífilo concedeu uma entrevista à jornalista Carla Sousa, da revista Saga Cultural, da rede Siciliano local, na qual fornece outros detalhes sobre sua formação intelectual e chega a fazer afirmações “temerárias”, como quando parece relativizar a importância do legado que Cascudo deixou para o folclore: “[...] Aliás, eu diria que Mário de Andrade ainda é mais importante que Cascudo, porque ele documentou os quatro autos populares brasileiros – Boi, Fandango, Chegança e Coco – em letra e música, coisa que ninguém jamais fez tão bem feito”.
Mas logo refaz a opinião, ressaltando a conversa “erudita e, ao mesmo tempo, gostosa de ouvir” de Cascudo; o fato de Cascudo ter escrito, do rincão modesto da província, uma centena e meia de obras tratando dos mais diversos temas, é um constante motivo de perplexidade para o octogenário Deífilo.
Trabalhando atualmente em pelo menos três livros, todos abordando temas potiguares, Deífilo vê um momento desfavorável aos folguedos folclores nos dias que correm. Em parte, porque os estudos teóricos estão esquecendo o lado prático dessa tradição, que são os próprios brincantes, para quem pede uma política pública específica. De outro lado, detecta certo desinteresse e desconhecimento dos assuntos relativos ao folclore por parte das novas gerações.
É um cenário desanimador, reconhece Deífilo, mas não passa de uma fase. Caso seu prognóstico se confirme, o folclore vivo, “prático”, como ele acentuou acima (não o folclore estratificado, congelado e transformado em tese ou dissertação acadêmica) dará a volta por cima e reacenderá as cores e brilhos da tradição, reatando laços entre as tradições e as gerações vindouras.
É esse folclore que renasce das suas próprias cinzas que o expert Deífilo Gurgel busca trazer para dentro das páginas do seu Romanceiro Potiguar, abrangente, totalizante do universo do folclore norte-rio-grandense. Seu opus magno na área do folclore? Queremos crer que sim, na medida em que poderá conter uma síntese de informações submetidas ao filtro da experiência que o experiente folclorista vem reunindo ao longo de pelo menos quatro décadas de estudos, pesquisas, buscas e criações.
Com o livro Os bens aventurados, lançado em 2005, Deífilo alcançou sua plenitude poética, iniciada sob a inspiração de sua Areia Branca e expandida progressivamente a outras margens reais ou imaginárias do seu mundo existencial. Sucessor sem rival de mestre Cascudo, Deífilo Gurgel faz por merecer agora, em que arremata um grande projeto folclórico, o título que lhe deu a revista Saga Cultural: “O nome do folclore potiguar”.
Da mentira como gênero literário e jornalístico
11 de agosto de 2010 às 14:03 | ComentarO personagem Umbelino, do livro homônimo de Umberto Eco, se assume como um mentiroso contumaz e faz disso um estilo de vida. Sua preocupação em dizer-se mentiroso cria embaraços para as pessoas que, a partir desse traço de sua personalidade, não sabem mais como interpretar suas afirmações: será que tudo que ele afirma deve ser entendido de modo contrário, isto é, como mentiras?
O fato é que a mentira exerce um forte fascínio junto aos escritores, os quais, de algum modo fazem dela sua ferramenta de trabalho. Mais raro é que um jornalista se revele um impostor, palavra tomada aqui na sua acepção de não veraz. Sobretudo quando simula entrevistas com pessoais reais, o que transforma seu trabalho numa desnorteante contraentrevista, ou seja, o oposto do que se concebe normalmente como uma conversa entre um jornalista e sua presumida fonte. Não obstante, se se fizesse um dossiê das queixas que os entrevistados costumam fazer contra as inverdades que aparecem nas suas entrevistas, o resultado possivelmente surpreendesse pelas coincidências com o método Debenedetti…
Em recente entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o jornalista italiano Tommaso Debenedetti confessou uma frustração: gostaria de fazer jornalismo cultural, mas, acentuou, “isso é impossível na Itália”. Em vista disso, mudou seus planos e concebeu um projeto profissional inusitado: tornar-se conhecido como “o campeão italiano da mentira”.
Para levantar esse troféu, Debenedetti argumenta com os dez anos em que passou na imprensa do seu país publicando entrevistas, que, depois, se revelaram inventadas, com escritores como Gore Vidal, Philip Roth e personalidades como o papa , o Dalai Lama, Obama etc.
A conclusão a que chegou o jornalista italiano é que, se ao longo de dez anos ele pôde publicar suas entrevistas inventadas, é porque contava com a anuência dos editores com que trabalhava. A farsa só veio a público pouco a pouco, inviabilizando sua presença nos referidos jornais. Um comentário de Philip Roth desmascarando a entrevista supostamente dada a Debenedetti também apressou sua saída da imprensa escrita. De acordo com o jornalista, o escritor americano teria se melindrado pela declaração de apoio ao presidente Obama, que fora veiculada na entrevista, o que, segundo o jornalista, seria confirmado semanas depois pelo próprio Roth. Este teria declarado ainda que a carreira de impostor de Debenedetti teria chegado ao fim.
Não é o que pensa, entretanto, Debenedetti. Tudo somado, ele acha que tem o que comemorar pelos dez anos em que forjou entrevistas publicadas avidamente consumidas pelos leitores dos jornais que as veicularam. De saldo, ele diz que já detém o título de “campeão italiano da mentira”, como ele gosta de se jactar, até com certa desfaçatez. Todavia, seu principal motivo de júbilo intelectual tem a ver com seu projeto frustrado de jornalista cultural: trata-se da criação de um suposto gênero literário, exatamente o da entrevista falsa.
De acordo com Debenedetti, esse projeto será ancorado numa página que ele criará na internet. A etapa seguinte será a publicação de um livro reunindo uma seleção das entrevistas falsas, o que concorrerá para consolidar o novo modelo de entrevista, ainda não incluído nos manuais correntes de jornalismo.
Espécie de Baudolino do jornalismo moderno, Debenedetti se ampara numa visão pragmática do seu trabalho: uma boa entrevista falsa precisa ter método. Se a entrevista for, por exemplo, com um escritor, o entrevistador precisa ler seus livros, observar seu estilo de falar em outras entrevistas (mesmo que verazes), e só então passar à impostura.
É munido desse know-how que Debenedetti rebate a afirmação de Philip Roth de que sua carreira acabou. Para o jornalista, Roth cometeu um equívoco. E explica: “Minha carreira nos jornais talvez tenha acabado, mas não meu trabalho”. Pelo contrário, considerando as possibilidades que ele vislumbra adiante.
Breve notícia de Joca Reiners Terron
29 de julho de 2010 às 15:48 | Comentar
“A literatura é uma imensa teia de aranha. Você pode ser pego por ela ou não. Se for enredado, poderá seguir infinitamente pelas ramificações da teia, indo de um autor a outro, entrando em Charles Bukowski e descobrindo John Fante e divertindo-se e amenizando um pouco a solidão da existência, enquanto foge da aranha. Com a web não é diferente, suponho. Sem direito a uma educação formal, porém, só nos resta a aranha”. É com esse engenhoso apólogo que o escritor Joca Reiners Terron expressa sua relação com os livros e a literatura.
Quem é Joca Reiners Terron? Confessamos que não o conhecíamos até a semana passada, quando abrimos a edição do jornal literário Rascunho, (julho, 2010), deparando com a entrevista feita pelo seu editor, Rogério Pereira, com esse escritor.
Não é difícil desconhecer autores num país das dimensões continentais como o nosso, compartimentado por tantos muros internos, reais ou virtuais, mas eficazes na produção do isolamento. Daí a importância de uma publicação como o Rascunho, feito lá em Curitiba, no Paraná, mas propondo um diálogo com um número cada vez maior de autores de todo o país.
Cuiabense, nascido em 1968, fixado em São Paulo, capital, Joca Reiners Terron é autor de dois romances: “Não há nada lá”, e “Do fundo do poço se vê a lua”, do livro de poemas “Animal anônimo”, e dos livros de contos “Hotel Hell, curva de rio sujo” e “Sonho interrompido por guilhotina”. Regalado recentemente com uma bolsa do projeto “Amores Expressos”, passou um mês no Egito para escrever as impressões que a viagem lhe causaria, no que resultou o romance “Do fundo do poço se vê a lua”.
Reiners Terron revela, ao longo da entrevista, uma reserva de argumentos e informações literárias que contrastam visivelmente com a casmurrice de certos escritores, avessos a falar de si ou de sua obra. Comunga com o americano Paul Auster da filosofia de que só existe vida quando narrada, o que remete diretamente às modernas histórias de vida, cujo precursor é o filósofo Wilhelm Schapp, autor que ousou dizer num livro revolucionário, infelizmente ainda não traduzido em português, que “só há vida na narrativa”. Antes deles, porém, Mallarmé já havia dito que “tudo existe para terminar num livro”…
A ausência de crítica literária especializada é um tópico que Reiners Terron não deixa passar em brancas nuvens. Mas faz questão de precisar a que se refere: “Faltam críticos com visão panorâmica do que está sendo produzido atualmente na literatura brasileira”. Mais adiante, especificará que “fazem falta escritores que não queiram ser somente narradores, poetas, cronistas, dramaturgos [...] e que compreendam que existe uma imensa necessidade de reflexão e que isto também é produção criativa”. É uma preocupação pertinente, na medida em que a falta de boa crítica dificulta e retarda, com certeza, o processo de divulgação e reconhecimento da obra de ficção, justo num momento em que a literatura brasileira passa por uma enorme efervescência criativa de Norte a Sul.
Ao leitor atento e perspicaz, não passa despercebido o tratamento diferenciado que o editor Rogério Pereira brinda ao escritor cuiabense, prestando-lhe um tratamento próprio aos autores canônicos. Certamente, repercutindo ecos de um processo em desenvolvimento nesse sentido, pois, numa das perguntas, acrescenta, a título de exercício de reverência, o revelador aposto: “O senhor é considerado um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea”, frase que o entrevistado não se dá ao trabalho de contestar.
Com diversos projetos em andamento, Rainers Terron é um genuíno escritor dos tempos de hoje: sempre em débito com o cronômetro, administrando vários trabalhos simultaneamente, tentando dar conta de contratos com editores, frequentando encontros literários para audições de leitura e debate de seus contos e poemas, integrando fóruns de discussão na internet. Se alguém achar que esse é um ritmo de vida inconveniente para um escritor, bem, então é melhor repensar a opção que porventura fizer por esse ofício.
Livro discute revisão a partir da prática
26 de julho de 2010 às 8:19 | ComentarDe um tempo para cá, a produção saída dos prelos universitários vem se despojando do ranço acadêmico, que funcionava como um estigma, uma espécie de “defeito de origem” aos olhos do leitor não especializado. Ouvindo a linguagem da rua, atentando para os textos midiáticos, buscando entender o que a linguagem oral tem de permanente e de transitório, muitos autores situados entre os muros da academia começam a romper com o tabu vigente em torno do acadêmico e não acadêmico.
O livro “Revisão de textos: da prática à teoria” (Edufrn, 2010), da revisora e professora Risoleide Rosa Freire de Oliveira, além de preencher uma grande lacuna bibliográfica na sua área de especialização, consegue a proeza de traduzir em linguagem objetiva e, portanto, clara, os meandros e as filigranas que cercam o repertório de teorias produzidas em torno do assunto. O livro integra um conjunto de quinze obras da UFRN que serão lançadas pela editora da UFRN no dia 29 próximo, dentro da 62ª reunião anual da SBPC, cuja edição acontece no Campus da UFRN, em Natal, entre os dias 25 e 30 deste mês.
Revisora de centenas de títulos editados pela UFRN em mais de duas décadas de atividades, e professora em outras instituições de ensino superior, Risoleide Rosa é hoje uma referência em sua área, o que vem gerando uma grande expectativa em torno do seu livro, resultante de um minucioso trabalho de reescritura de sua dissertação de doutorado.
Apesar de ancorar-se num acervo teórico complexo que remonta às ideias do linguista russo Bakhtin, o livro se abre para uma vasta gama de questões práticas, onde não falta o revisor rebelde Raimundo Silva, criado por José Saramago na “História do cerco de Lisboa”, alternativa restante, quando tudo o mais esbarra em impossibilidades nesse campo. Outro destaque do livro é o diálogo que a autora trava com revisores e escritores, flexibilizando e refocando alguns conceitos pétreos que obstruem o processo revisório.
Partindo da prática em busca da teoria que a fundamente, Risoleide Rosa opta por um caminho pouco trilhado por revisores. É que ela crê firmemente que o discurso gerado na multiplicidade de vozes do dia a dia é um caminho imprescindível para se avançar na compreensão do ofício de revisar.
Tema de escassa exploração teórica, o livro de Risoleide Rosa vem atender a uma vasta demanda por obras sobre revisão. Agora, não mais de ponto de vista amadorístico, mas profissional, na medida em que o mercado editorial se profissionaliza cada vez mais. E se isso começa a acontecer, é porque existe, na retaguarda, bons profissionais de revisão.
De fato, um bom revisor pode fazer toda a diferença em determinados casos. Pensemos no problema ocasionado pela reedição do “Dicionário brasileiro de folclore”, pela Global editora. Leitores, escritores, jornalistas culturais, pesquisadores vêm denunciando omissões, interpolações, reescrituras de verbetes, num flagrante desrespeito à propriedade intelectual da obra. A denúncia mais recente (mas não certamente a última) veio por intermédio do livro escrito pelo poeta e professor Moacy Cirne “Dicionário do folclore brasileiro – uma edição desfigurada”, que traz o selo do Sebo Vermelho. Entre outras coisas, Moacy Cirne revela que a editora carioca conseguiu transformar Cascudo em plagiário de Édison Carneiro, além de desfigurar inúmeros verbetes do “Dicionário”, suprimindo linhas, retorcendo frases, acrescentando palavras.
Faltou, certamente, um trabalho consciencioso de revisão na edição do referido livro, porque revisar significa, entre outras coisas, respeitar o texto autoral, e se isso não se deu na edição do “Dicionário”, então é porque ele não foi propriamente revisado, o que parece difícil de entender, considerando se tratar de uma das grandes editoras em atividade no país. Nesse caso, porém, os fatos falam por si. Insistentemente.






