quando fui a ser-te
deixei de dançar aos passos do sul
a doença como virtude em si mesma.
sem explicação.
se eu fosse arquiteta, poderia ser arquiteta, mas não
enfurnada numa casa que deram por minha
no salto que me fizeram areia entre os dedos
tenho brincado de muitas coisas, um empreguinho de vilanias
ainda e de novo, convale-sendo, me enganado e ao outro.
quando não podia a palavra dizer, dançava
agora olha, eu minto. eu não sei esse nada
as colagens, a pintura, o concerto, a partitura
digo – te amo, a tudo que é parede, elas me sabem. eu não
tenho saudade de nenhum parente, mas de tudo o que não pude ter sido
o tempo que não passou, os dentes furados da escavação e a geografia afetiva.
eu sei o banho e as baratas. eu sei o acordar, abrir os olhos
eu sei a lembrança persistente de alguma extinta irmandade quando capotava.
TEMOS DEIXADO MUITAS COISAS PRA DEPOIS
o arroz mofado por jogar fora, os cacos do cinzeiro por juntar, fazer amor
encontrar um rio pra ter o filho com fluidez, se afogar e se deixar a-
deus,
desnorteada, que vim a ser-me?
*
Crianças transgêneras
12 de janeiro de 2012 às 14:40 | Comentarcantata pra deleuze e berkeley
6 de janeiro de 2012 às 10:49 | 1 Comentárioquando ontem papai ligou
se abatiam meus pés as estradas velhas
era dia de véspera, a arder o oco do mundo
ainda agora mergulho o nada e a náusea
submundos, paraísos artificiais, o terrivelmente real
chegar entre
*
Kawabata e o jogo da delicadeza
23 de dezembro de 2011 às 9:49 | ComentarChega às livrarias, “O Mestre de Go”, do japonês Yasunari Kawabata, Prêmio Nobel de Literatura
Você já deve ter jogado Go. Em um celular, enquanto esperava por alguém, ou na internet, entre duas ou três outras páginas abertas. O jogo japonês de baixa complexidade consiste em dois conjuntos de peças, brancas e pretas, dispostas em um tabuleiro. Seu objetivo é basicamente dispor as pedras de modo a encurralar o adversário, preenchendo a maior parte do tabuleiro com a sua cor correspondente.
Como o álcool é lindo!
22 de dezembro de 2011 às 9:43 | 2 ComentáriosBebidas alcoólicas são vistas no microscópio.
A empresa americana Bevshots resolveu registrar microscopias de diferentes bebidas alcoólicas. O resultado são imagens incríveis que parecem, até mesmo, obras de arte.
Com o zoom de até mil vezes, usando um microscópio de alta tecnologia, foi possível mostrar que cada líquido tem formato único. Confira: aqui
Bandas que lambo – V
15 de dezembro de 2011 às 10:26 | 2 ComentáriosTRAILS AND WAYS. Garota, era preciso também um poema sobre a Califórnia. Mas, também, nunca estive na Califórnia. O sotaque mais gostoso. A geografia afetiva.
Bossa indie (!), com um meus trifásicos dedos. Um beijo pra quem adivinhar aonde. Claro que a escolha do álbum e canção é mais que um gosto
inundação
8 de dezembro de 2011 às 7:05 | 9 Comentáriosera noite de bafo quente.
a rigor, madrugada.
o calor batido fê-lo carne voar longe.
um estampido.
feito tiro, finalizando tudo:
o semáforo verdevermelho,
a rua de passantes apressados,
o coletivo cheio de curiosos.
uma batida quente e escura
inundou o asfalto de sangue e carne fraca
e fê-lo findar.
era noite de bafo quente
o dia que experimentou ser
livre.
*
primeira narrativa, sexta.
2 de dezembro de 2011 às 17:27 | Comentardepois de ouvir atentamente a divina comédia humana, a palhaça de vinil sentou-se à frente do jurista de seminário e lhe disse:
- você me dá cócegas!
e riu, riu, riu. até revirar o bucho. e ficar o papagaio mudo.
casida para federico
13 de novembro de 2011 às 10:40 | 2 Comentáriosminhas mãos buscam o que a rosa declina
a aurora, a sombra, carne e sonho da rosa
o verdevermelho agônico, absoluto
todo sangre que fere.
eu não quero mais que uma mão com uma rosa
sete palmos de pétalas sob o perpétuo e triste vento.
*
barcarola lusobaiana
17 de outubro de 2011 às 15:44 | Comentarquando antónia foi-se, não chorou
não sorriu, nem eu e nem retratos
devolveu-me as chaves da casa
jogou os cactos murchos pela janela
juntou papéis em duas caixas debaixo do braço
fez questão de levar a cômoda estilizada de warhol
olhou-me uma vez mais como o gigante argos
a passos lentos, deixou a porta aberta
eu fiquei com a sua loucura amassada
a encher-me os bolsos, malamaiada – lograda, dizia
mas eu só queria deixar de ser moema, a fitava
antónia tinha a cara imberbe, atônita quando foi-se
e o silêncio moveu-se sobre as costas das águas.
A Caixa de Pandora turca
14 de outubro de 2011 às 11:21 | 1 ComentárioProcurando uma imagem da Caixa de Pandora de Pabst, acabei encontrando esse essa resenha sobe uma outra Caixa de Pandora, e turca! estou doida pra ver, parece bom, hm? >>
**********
Por Julien Melebeck, aqui: http://www.nisimazine.eu/A-Caixa-de-Pandora.html
“Premiado recentemente como Melhor Filme no Festival de San Sebastian, A Caixa de Pandora é um filme fresco e sutil, verdade obra-prima.
Cartilha mercadológica: a espetacularização em torno da morte de Jobs. Flyers com 10% de descontos em toda linha Apple no youtube e diversos blogues e sítios. E todo mundo – ou quase – quer ter…
cecília, temo ser esse nosso último encontro, ultimatum dessa teia de analogias que te envolvo e não, não pode ser nada bom, dizia. ao mesmo passo que não, não é nada bom que me ligue e desligue antes de eu atender e depois não me atenda, como se eu fosse um engano em sua agenda de contatos. é quarta, e você não vai mais pra universidade às quartas, talvez nunca mais, talvez phd e eu nunca saberei, nossos caminhos sempre foram bifurcados, não me caminha e eu preciso de carinho, lembra: sou uma derramada.
outro candomblé pra nanã
3 de outubro de 2011 às 15:52 | 1 Comentáriorios da minha infância
caudalosa memória
onde me deixei
ficar, partir
videira de raízes grampiformes
cem mil pés ancorados
na lama de nanã
bonecas de milho
afogadas, adeus.
*
IM-PER-DÍ-VEL
2 de outubro de 2011 às 11:45 | 1 ComentárioProfessor Hariovaldo Almeida Prado -
No combate ao comunismo ateu e na defesa da família cristã
Bandas que Lambo – IV
30 de setembro de 2011 às 13:57 | ComentarNIN – Nine Inch Nails, a banda de um homem só: Trent Reznor. O sujeito compõe as letras, arranjos, e toca todos os instrumentos; quando ainda fazia shows, convidava amigos músicos pra se apresentarem com ele, mas nunca em estúdio. Seus videoclipes, muito mais cinema-música, transitam entre sexualidade, guetos, venenos e paraísos artificiais, são de torar os cornos e fizeram a cabeça dos jovens industriais e neopunks do final dos anos 1980 e início dos 90; mais tarde ele descobriu e produziu aquele bizarro, o Marilyn Manson.
Deixo-vos com Closer, já que “I wanna fuck you like an animal”…
terceira cantata pra depois do nunca mais
27 de setembro de 2011 às 9:15 | 6 Comentáriosbrotou-me também um vermelho dos olhos
possível anunciação de que nada passará
do quase início, o nunca ter sido
sinto frio nas extremidades e estômago
tenho um gozo profundo que me faz chorar
debaixo do cobertor amarelo que me cobre de ternura
sou um eros civilizado
não faça sexo comigo
deixa que eu faço
beijo teu sexo como a visão fidedigna de qualquer arte
fica quieta, e me deixa te caminhar, a boca, o ílio
quieta, é um chamamento ao bem-me-quer que guarda
cada pétala de mal-querer
ou não me deixe te beijar o sexo
mas me deixe
secar os lábios, os olhos, voglia
*
Descarreguei
27 de agosto de 2011 às 17:34 | Comentarcomo prometido, “Amor Proibido” e “Amanhecer”, com Cartola e Jacob do Bandolim, do álbum “Mangueira, Sambas terra”, de 1969.
Aqui: http://www.goear.com/listen/9893dd2/amor-proibido-cartola-e-jacob-do-bandolim
E aqui: http://www.goear.com/listen/54cc794/amanhecer-cartola-e-jacob-do-bandolim.
Deleitem-se
Sermão ao cadáver de Amy
26 de agosto de 2011 às 9:11 | 9 ComentáriosPor João Pereira Coutinho
FSP
Morreu Amy Winehouse e os moralistas de serviço já começaram a aparecer. Como abutres que são.
contrapoema ao homem do meu tempo
25 de agosto de 2011 às 8:40 | 1 Comentárioo homem do meu tempo me maltrata
sei que não sei dar carinho a quem arqueja e freme
há nódoas entre meus dedos, ora caio às fórmulas
como seu soubesse o que devia dizer e foi maldito.
o homem do meu tempo agoniza
e não lhe adianta minha barroca catedral
se lhe tenho de fazer repetir o pater nostrum, assim, em latim.
talvez do vinho chileno, apareceram varizes em meus joelhos
cobertas por ásperas elevações, como brotoejas brancas, sem dor ou comichão
talvez ainda das culpas que não carrego, a moral que renego.
o homem do meu tempo chantegeia e sofre
- minha mãe só me dava carinho em convalescência.
eu posso ficar nua e lhe mostrar cada uma das marcas de minhas surras
e se não as guarda meu corpo, carrego na memória.
eu não sou boa, amo o túlio canalha da poeta e sacerdotisa como se fosse redenção.
o homem do meu tempo em se punir, manso, me estrangula e ri
- tem medo de mim.
quisera uma vez mais ser mulher, sagrada prostituta, quisera
e eu não, nada de puta.
o homem do meu tempo saca o rivotril
me mete pânico e encharca o corpo cansado, as mãos de perdidas digitais
as tais marcas de senilidade que me são a mais pura ternura.
foi-se embora o machão, ele é a colombiana que chora por gozar
sofre de ansiedade antecipatória o homem que lhe abandona
não, ele não teve um ataque, um treco, enfarto
o homem do meu tempo se matou quando descobriu a vida.
*









