Escreva, clique aqui. Usuário cadastrado clique aqui.

28 de agosto de 2010

“Peanuts”

Por Rodrigo Levino

‘Peanuts’, a tirinha de Snoopy, Charlie Brown e companhia, completa 60 anos e ganha homenagens. Há dez anos, Charles Schulz, o seu autor, morreu nos EUA.

aqui e aqui

29 de julho de 2010

Fratura Exposta

Por Rodrigo Levino

Ser o mais alto da classe aos oito anos de idade significa que você é desengonçado. Bruna era desengonçada e meio boba, ria alto e por qualquer coisa, embora à época eu achasse isso muito próximo do que fui saber anos depois tratar-se de imponência. O seu andar molengo e a voz estridente ornavam com o perfeito caimento dos cabelos loiros.

aqui

22 de julho de 2010

Vergonha que dá

Por Rodrigo Levino

Publicado no Novo Jornal

Se eu pudesse teria cavado um buraco para me enterrar, de tanta vergonha. Quer dizer, ainda estaria lá, no buraco, uma semana depois de ler a ótima entrevista feita pelo repórter Wagner Lopes, da Tribuna do Norte, com o neurocientista Miguel Nicolelis. As reclamações e os diagnósticos feitos pelo cientista mundialmente respeitado sobre o descaso em que tem padecido, à mercê dos vergonhosos políticos potiguares, é um troço desconcertante. A gente pode listar de várias maneiras as qualificações do que ele cita, a saber, o descumprimento reiterado de promessas que ajudariam a desenvolver um importante centro de estudos científicos no Rio Grande do Norte: falta de visão, falta de espírito público, falta de interesse. Mas, bem, eu fico com a opção que, penso, melhor resume tudo: falta de vergonha na cara. Geral, ampla e irrestrita, sem distinguir cor partidária ou mise en scène ideológico. Leia o resto desse post »

8 de junho de 2010

A bruxa está solta

Por Rodrigo Levino

Conhecido como “Bruxa Loura”, o craque Marinho Chagas promete ressuscitar na Copa de 2014.

aqui

29 de março de 2010

Bibliotecas mais atraentes

Por Rodrigo Levino

Em meio a discussões sobre o futuro do livro frente ao leitores eletrônicos, as bibliotecas se moldam às grandes livrarias e ler já não é a atividade principal dos seus freqüentadores

“É como um Game Boy [videogame portátil], só que para livros?”, indaga Antonio Claudio tentando entender o que é um e-reader. O estudante de 12 anos freqüenta cinco dias por semana a Biblioteca Pública Érico Veríssimo, em Parada de Taipas, na periferia de São Paulo, e desde 2007 anota num caderno escolar os livros que lê, seguidos de pequenos resumos. A lista de títulos é variada, entre eles cinco volumes da série Harry Potter, de J.K. Howling, seis romances de Sidney Sheldon e algumas peças de William Shakespeare. Claudio nunca viu ou ouviu falar de leitores eletrônicos e ao ser apresentado a um demonstrou desinteresse: “Nada se compara a um livro”.

Leia o resto desse post »

28 de janeiro de 2010

Salinger

Por Rodrigo Levino

Tácito, eu gosto demais quando você volta e meia traz a tona o fato de não gostar desse ou daquele livro, de não ter compreendido, se emocionado. Nada mais normal. Não é por ser cânone que devemos gostar e se não gostarmos, nada mais justo do que assumir. Quanto a Salinger, foi um dos livros que me marcaram profundamente na adolescência. Roubei o exemplar da biblioteca do Santa Teresinha, colégio onde estudava em Caicó. Tenho até hoje. Nenhum arrependimento, só orgulho. Tem um fator de suma importância nisso tudo que é a questão afetiva. Li Salinger na mesma época em que saía das coleções Para Gostar de Ler e Vagalume e conhecia a Cantadas Literárias, da Brasiliense, com Marcelo Rubens Paiva, Caio Fernando Abreu e Reinaldo Moraes, também vi Kids e Diários de Um Adolescente (?). Talvez se lesse hoje não me emocionasse tanto. Mas é isso, ficou a impressão, a marca, o carimbo que certamente nunca vai me deixar, nem a Mario Ivo nem a Pedro Lucas e não necessariamente você – nem ninguém – precisa tê-lo. Basta respeitar, nesse caso, e acho que tá de bom tamanho.

Abraços

23 de janeiro de 2010

De urubus, corvos e similares

Por Rodrigo Levino

Nuns poucos dias de descanso nos arredores de Búzios e Barra de Tabatinga, entre o fim de 2009 e começo deste ano, me aprazia o vôo dos urubus, perenes por aquelas bandas, por causa dos restos de peixes deixados pelas redes dos pescadores ou trazidos pelo mar, mortos de variadas formas.

O bicho tem um vôo bonito que é danado. Quer dizer, vôo não, que aquilo é uma ode à preguiça. Arqueiam-se asas e plana-se adoidado a fáceis cem metros de altura. Deve ser gostosa a sensação.

De tanto assistir o espetáculo diário de às vezes dez, doze bichos desses, fui revirar literatura sobre o tema.

Diz o Houaiss que urubu é urubu (espécies Coragyps ou Cathartes) e corvo é corvo (Corvus), e que o parentesco do primeiro dá-se mais aproximadamente com a gralha (Pyrrhocorax graculus). Aceitando todos como bichos de pena e por causa disso apenas variadas formas de urubus, me vem logo à cabeça Edgar, o corvo de Poe, assim como algumas anotações de Roth e Murakami, sobre os bichos que crocitam, grasnam e voam bonito que é uma beleza.

Escreve o americano: Quem diz que o corvo é um bicho feio que come porcaria – e quase todo mundo diz isso – é maluco. Eu acho o corvo lindo. Acho, sim. (…) Como será que é voar? A gralha sobe lá no alto, mas o corvo parece que só vai aonde ele quer ir. Não fica voando por aí, de bobeira, pelo menos é o que me parece. (…) Deixa a gralha se encarregar de planar. Deixa a gralha subir até não poder mais, quebrar todos os recordes e ganhar todos os prêmios. Os corvos têm que ir de um lugar para outro.

Sobre corvos, conta Murakami: Com o nascer do sol, corvos vêm para a cidade em bandos para buscar alimentos. Suas asas negras e oleosas brilham sob a luz do sol. Para os corvos, essa questão de dualidade não tem importância. O que realmente importa para essas aves é garantir o alimento necessário para sua própria subsistência. (…) Os corvos emitem grasnidos ásperos e vão aterrissando em todos os cantos da cidade, num mesmo mergulho de aviões em bombardeios.

A respeito de urubus propriamente ditos, não tem lugar melhor para observá-los – tirar conclusões e tecer considerações – do que as falésias de Tabatinga.

21 de janeiro de 2010

Do silêncio

Por Rodrigo Levino

Não é o trânsito que mais me incomoda em São Paulo. Aos poucos a gente descobre um atalho aqui, uma ruazinha ali, uma manha acolá que facilita o caminho; como matar o tempo ouvindo rádio ou simplesmente aceita o tempo que se perde – segundo pesquisa, em média três horas diárias – cercado de carros sem conseguir ir a lugar algum.

Leia o resto desse post »

14 de janeiro de 2010

De como se alcança o triunfo

Por Rodrigo Levino

Eu fui uma criança socialmente prejudicada. O fundo de garrafa que a miopia me presenteou já aos quatro anos de idade permitiu poucas molecagens. Obvio que por mim quebraria quantos óculos fossem preciso, de bolada e iô-iô na cara, como foi o caso num par de vezes. No entanto, cercado pelos cuidados maternos, restou dentre todas as opções de se estabacar na vida e voltar chorando para casa com o sangue dando no meio da canela, o de andar de bicicleta. Coisa que rendeu uns fracassos, mas não considerados tão nobres do que metade da cabeça de um dedo voando pelos ares num chute mal colocado, no campinho de terra da rua.

Leia o resto desse post »

12 de janeiro de 2010

Villasanti mãos de tesoura

Por Rodrigo Levino

O universo canino já tem o seu Jean Louis David

Em uma hora, vinte minutos e cerca de 15 mil tesouradas, Sergio Villasanti torna apto a concursos de estética qualquer bichon frisé. É a sua raça de cão preferida para a tosa.

Aos 45 anos, Villasanti é dono da República dos Cães, escola e pet-shop que fundou há quinze anos em Campinas, onde, segundo seus cálculos, já formou mais de 4 mil tosadores, incluindo pupilos ingleses e australianos. Este ano, ele viajou para os Estados Unidos, Colômbia e Peru, convidado para ser palestrante ou jurado em concursos de beleza canina. As hospedagens, “em hotéis caríssimos, com jantares tão finos que dão saudade do meu arroz com feijão, em casa”, contrastam com a penúria do início da carreira, em 1979.

Leia o resto desse post »

11 de janeiro de 2010

Da calmaria

Por Rodrigo Levino

Agora que a turba tomou o rumo da praia, o bairro parece um gato gordo e preguiçoso se enroscando nas pernas do dono. Perdizes, onde cheguei não faz duas semanas, está uma delícia.

A escolha, em parte, deveu-se justo a isso, a cara de vila e cidade pequena que o bairro conserva; seus velhotes jogando dominó e coçando – mesmo – o saco na porta do parque, as mães banhando de sol os pequenos até por volta das dez da manhã, dois ou três amigos morando a quatro quadras, os pequenos mercados e padarias.

Leia o resto desse post »

9 de janeiro de 2010

Sobre o filme de Lula

Por Rodrigo Levino

O tanto que se escreveu sobre ‘Lula, o Filho do Brasil’, de Fabio Barreto, muito antes da estréia do filme (inclusive por quem não o viu), renderia um roteiro. Desta feita, de algum filme que tratasse de briga de torcidas organizadas. Que no final das contas é no que parece ter se transformado a discussão política no país.

O clima de disputa e guerra de adjetivos foi bem resumido pelo jornalista Elio Gaspari, em artigo na Folha de S. Paulo, confabulando que ‘as platéias chorarão de emoção e a oposição, de raiva’.

Leia o resto desse post »

6 de janeiro de 2010

Cortes, facas e bainhas

Por Rodrigo Levino

Meu pai foi churrasqueiro durante quinze anos. Da infância ao começo da minha vida adulta, assisti-o ‘limpar’ centenas de quilos de carne, salgá-las e estendê-las no sol. Vísceras nunca me enojaram.

O trabalho dele, todavia, não me despertava o orgulho exibido pelos colegas da escola e da rua, com seus pais médicos, advogados, bancários, professores universitários e fazendeiros. “Meu pai corta carne”, eu explicava meio encabulado.

Hoje, tendo ele largado os espetos, as facas e as bainhas, e quando nada do que se refere ao que descreviam meus colegas sobre as respectivas atividades dos seus pais me interessa, ocorreu-me por meio de livros que meu pai não leu – e muito provavelmente não o fará – que dentre todos ele era o que desempenhava ofício mais nobre.

O corte era uma habilidade que meu pai nos ensinou mal ou quase nada, a mim e ao meu irmão.

Leia o resto desse post »

19 de outubro de 2009

Justus, milionário e narcisista

Por Rodrigo Levino

Caros, abaixo segue link com perfil de Roberto Justus, do sobrescrito. Capa da nova edição da Poder Joyce Pascowitch.

http://migre.me/9r8m

Abraços

17 de outubro de 2009

Depressão

Por Rodrigo Levino

Caros, segue abaixo o link com a reportagem capa da edição de outubro da revista Vida Simples, sobre depressão, do sobrescrito. Uma abordagem ínfima, é verdade, diante da imensidão do tema.

http://migre.me/9ghG

Abraços.

30 de setembro de 2009

Figas

Por Rodrigo Levino

Tácito, bacana ter reverberado a dica da Figas. A revista online é tocada por uma turma muito nova, vivaz e interessada em reportagem. Fôlego e iniciativas que lembram a Catorze, de Fabio Farias e colegas. É sempre bom esse respiro. Nem tudo está perdido, acho.

********
Amigo, dei uma olhada na revista e gostei muito da proposta. Incluí na hora entre os links favoritos do SP ali à direita.

10 de setembro de 2009

Fasano: os bastidores da melhor cozinha do país

Por Rodrigo Levino

fasano

Um ex-recruta, uma ex-faxineira, um ex-garimpeiro. Essas são apenas algumas das espécimes que labutam na cozinha mais famosa do Brasil, a do restaurante Fasano, em São Paulo – onde nosso repórter esteve por dois dias e voltou prestes a se tornar um ex-jornalista

Em janeiro de 2002, o americano Bill Buford ostentava em seu currículo disputados postos de uma carreira jornalística. Editor-fundador da revista Granta, onde trabalhou de 1979 até 1995, autor de um elogiado livro-reportagem sobre os hooligans (“Entre os vândalos”, Companhia das Letras) e, desde 1996, editor de ficção da New Yorker, Buford tinha poder e era invejado.

Prestes a completar 50 anos, largar o prestígio de que gozava entre seus pares e virar cozinheiro parecia mais uma crise de idade. Mas ele não hesitou. O perfil do chef Mario Batali que escreveria para a New Yorker transformou-se em ano sabático. Guiado por Batali, que o aceitou como assistente na cozinha do restaurante nova-iorquino Babbo, o jornalista abandonou a redação, trocou contos, ensaios e reportagens por massas, molhos e risotos. A curiosidade incessante o levou ainda à Toscana, Itália. Lá, pelas mãos do açougueiro Dario Cecchini, Buford desvendou o segredo dos melhores cortes, das melhores carnes. Virou chef.

Às 22h18 do último dia 21 de agosto, me ocorreu um perfeito entendimento da mudança que Buford empreendeu na vida. Na cozinha do Fasano, o melhor restaurante italiano do Brasil, e abaixo do salão lotado por 90 comensais, o masseiro Antonio Jenuíno recheava um gnocchi com carne de ossobuco.

Em 12 minutos, o prato subiu os 24 degraus que separam os dois cômodos e foi servido à mesa oito. Ao fim do jantar, o garçom trouxe as congratulações do cliente: “Ele disse que nunca comeu nada parecido na vida”. Antonio riu.

Há dois dias participando da compra dos produtos à finalização dos pratos, o trabalho de Antonio me pareceu mais nobre, dedicado e de qualidade imensamente superior ao que em geral se alcança numa reportagem como esta. Foi inevitável invejar a criação do gnocchi.

A iguaria, criada pelo chef Salvatore Loi, ganhou em 2008 o prêmio de melhor prato de massa do país. Parte do mérito ele divide com Antonio, maranhense, pai de dois filhos e ex-garimpeiro. “Se não fosse ele eu jamais teria conseguido criar esse prato. Não conheço ninguém com tanta sensibilidade nas mãos”, conta Loi apontando para a redoma de vidro rodeada por balcões de mármore. Dali saem todas as massas servidas no Fasano. Lá também me pareceu o melhor lugar da cozinha para estar agora que penso em mudar de vida, como Buford. Guiado ao invés de Batali, pelo chef Loi.

Há dez anos trabalhando no Brasil, casado com uma brasileira que conheceu na Europa e pai de uma menina de dois anos, Loi comanda 16 cozinheiros na principal das sete cozinhas que o grupo Fasano mantém entre São Paulo e Rio de Janeiro. Ao todo, são 170 homens e mulheres.

A gastronomia ele escolheu ao completar 16 anos. Italiano da Sardenha e caçula de uma família de sete irmãos, Loi seguiu os conselhos da irmã mais velha, Lina. Para ela, a gastronomia era “a melhor maneira de conhecer o mundo, pessoas e novas culturas”. Ele, que antes de chegar ao Brasil trabalhou em Milão, Madrid, Paris e Londres, não discorda. O início da carreira, no entanto, aconteceu no quartel, como recruta em Roma. “Ali, mesmo sem muito refino, percebi que nunca mais largaria a doma, o chapéu e o avental”, diz com forte sotaque italiano, enquanto prova o molho de trufas que adornará o filet mignon preparado por Expedito.

Paraibano de Sumé, Expedito Baraúna, há 11 anos no Fasano, cuida dos pratos com filet mignon, perdiz, coelho e cordeiro. À sua frente, Romualdo Félix dedica-se aos risotos, massas e frutos do mar. Mas não só disso, nem apenas eles.

Graças à política de rodízio implantada por Loi, todos os cozinheiros estão aptos a preparar qualquer prato. Ou realizar qualquer atividade necessária, a depender do ritmo do dia, como lavar pratos. Coisa que Washington Vieira faz há quatro meses. “Eu trabalhava num restaurante aonde o Loi ia de vez em quando. Esperei dois anos para conseguir falar com ele. Um dia criei coragem, agarrei o seu braço e disse que faria qualquer coisa para trabalhar aqui”, conta ele, que sob o olhar paterno do chef aos poucos deixa a pia e manuseia caldos, molhos e massas. “Ele vai longe”, diz Loi.

Longe era um lugar que Rose Almeida não esperava chegar durante os cinco anos em que trabalhou limpando a cozinha do Gero, um dos restaurantes do grupo. Nos intervalos, a convite das colegas, ajudava a preparar saladas e sobremesas. Com a lacuna aberta no posto correlato do Fasano, Rose foi surpreendida pelo convite de Loi. “Eu não sabia o que dizer, nem acreditei. Ele disse que fazia três anos que estava me observando e achou que era hora de eu assumir um lugar na cozinha”, revela com os olhos marejados.

Quando indagada sobre onde quer chegar na gastronomia, Rose diz que isso fica por conta do chef, “para onde ele for, eu vou”. Loi, que não faz planos de deixar o Brasil, garante que haverá tempo no mínimo para que ela conclua a faculdade de pedagogia, que cursa no turno anterior ao trabalho no restaurante. “Além de crescer dentro da cozinha, claro”, emenda.

A academia é um ponto comum às três mulheres do grupo. Além de Rose, Michele Acquesta e Paula Belleza dividem o tempo entre a bancada do Fasano e a universidade. Estagiária de apenas 19 anos, Michele, estudante de gastronomia, dá assistência a Rose. “Ela tem o que falta a 90% dos que querem cozinhar: humildade e dedicação. Não são poucos os que chegam aqui achando que já são chefs. Ela não sofre desse mal”, derrete-se Loi diante da pupila.

O elogio ele estende a Paula, há dois anos responsável pelas saladas e a um ano de concluir o MBA em gastronomia. Em comum, as três usam coloridas bandanas, que as diferenciam dos demais companheiros, todos de chapéu branco. Inclusive Loi e Sandro, sub-chefe há três anos.

Discreto, Sandro Aires mantém na cozinha o ritmo imprimido por Loi. Não há destempero. O tratamento é firme, porém respeitoso. “É ilusão achar que toda cozinha é igual a de Gordon Ramsay (chef inglês, estrela de um reality show em que normalmente destrata os aprendizes). Eu acho ultrapassado e desnecessário gritar com os ajudantes”, diz enquanto observa Assis decorar uma lagosta, guarnecida com risoto de cogumelos frescos.

Não há um pedido que chegue ao salão sem passar pelos cuidados de José de Assis, paraibano de Monteiro, há 18 anos no ofício de limpar e decorar os pratos. A priori um trabalho simples. Mas é ele quem dita o compasso que se abre entre a chegada dos pedidos, a feitura dos pratos e a hora de servi-los. Sem anotar nada, memorizando tudo a partir do que é “cantado” no microfone posto na entrada da boqueta, Assis sabe quem pediu o quê, quando e onde. Graças a ele, um couvert jamais será servido depois da sobremesa e sempre antes do prato principal.

Mesmo não trabalhando diretamente com os clientes, como os garçons, Assis diz poder reconhecê-los pelo pedido. “Tem aqueles que são clientes há cinco, dez anos, variam pouco os pratos, a gente acaba sabendo quem é, inclusive pelo horário em que chegam. Às vezes pergunto só para confirmar, nunca erro”, conta, para acrescentar em seguida um pedido a Sandro. “Põe mais um pouco de caldo nesse cordeiro, esse cliente prefere assim.”

A extensa clientela só se equipara em número à quantidade de fornecedores e produtos utilizados na cozinha. É Loi que escolhe cada ingrediente, auxiliado por quatro funcionários responsáveis pelas compras. Produtos do mundo inteiro são provados e, se aprovados, negociados como num pregão. A quantidade justifica a barganha. Há sempre gente disposta a ter entre os fregueses quem compre mensalmente uma tonelada de farinha de trigo, três mil ovos, meia tonelada de filet mignon, uma tonelada e meia de peixes e frutos do mar e três mil garrafas de vinho. São os produtos mais consumidos no Fasano.

Tanto critério exige de Loi uma jornada dupla. Ao contrário dos seus cozinheiros que trabalham a partir das 18h até por volta de uma e meia da madrugada, o chef também dá expediente numa sala do Hotel Fasano, onde degusta desde queijos e manteigas a carnes e azeites. Os produtos escolhidos findam nos pratos mais refinados da casa, pagos por contas que podem chegar ao valor de um carro popular.

Popular como o gosto dos dezesseis cozinheiros, que, se tivessem de comer no Fasano, não fariam para si mesmos o gnocchi recheado com carne de ossobuco, nem a lagosta adornada com tomates frescos, muito menos o cordeiro envolto em crosta de pão italiano ou o risoto de cogumelos recém-chegados de Roma. Pela voz de Assis, o decorador, e faltando pouco para o encerramento do expediente que se estendeu para mais de duas da manhã e rendeu 130 jantares, eles anunciam o prato de consenso: cuscuz com leite.

8 de setembro de 2009

Quebra de quilo

Por Rodrigo Levino

Pelo que se lê em blogs e colunas políticas de Natal, a prefeita Micarla de Sousa (PV) está de melé solto. Pode indicar vice de qualquer chapa majoritária, lançar o marido Miguel Weber à câmara dos deputados e até o acólito Paulo Wagner ao senado. Responde aos gracejos de Dilma Roussef ao mesmo tempo em que assegura a posição partidária de apoio à provável candidatura de Marina Silva à presidência da república.

Não pisa no palanque onde estiver Carlos Eduardo, mas sinaliza o verde da esperança de Wilma, Garibaldi e Agripino terem-na no palanque.

Quer dizer, deve ter um alforje de voto que não passa embaixo da ponte Forte-Redinha numa baixa da maré. Mas eu, cá em conversas com os botões, pergunto: Será?

Nadando de braçada no primeiro ano de uma administração (?) outorgada pela vitória consagradora em 2008, Micarla, se não desceu do palanque, pode ainda ouvir o grito da carreata da vitória. Ou pelo menos dos xeleléus. Coisa de muito agrado ao ego, é verdade.

Prefeitar – salve, Serejo! – que é bom mesmo, parece que ainda não chegou a hora. Daí a questão que julgo pertinente: estará, no caso de uma administração que não dá sinais de vencer os desafios que elencou em campanha (vide saúde e educação), com essa bola tão cheia dentro de um ano?

E quando bater na canela o acúmulo de horas na fila dos postos, a falta de remédios, os engarrafamentos cada vez maiores nas principais vias e o covarde – numa sexta-feira véspera de feriado foi dose, hein – aumento das passagens de transporte público?

Imagem de político que promete mais do que faz é negócio muito assemelhado a frango congelado. Depois que vem ao sol, o quilo quebra que é uma beleza. Pode ser que o voto de Micarla, hoje disputado para o senado e para o governo, chegue em 2010 valendo uns dois reais, o preço que o trabalhador desembolsa por uma viagem de coletivo, para perder uma hora preso no trânsito ali pelo Midway Mall, tentando chegar a um posto de saúde sem médico ou remédio. Atentai.

Censura
Parece piada – deve ser – ouvir o senador Agripino Maia dizer que é a favor da Lei Eduardo Azeredo de censura à internet em período de campanha eleitoral, alegando existirem blogs e sites patrocinados por governadores e demais interessados na campanha de 2010. Só se for o caso de sua excelência ter doado as ações da Rede Tropical a uma instituição de caridade, vá lá, com fins lucrativos e nunca políticos. Ou seria o caso de “blog pouco, minha TV primeiro”?

Censura II
Ainda pergunto: já se sabe a opinião dos senadores Rosalba Ciarlini e Garibaldi Alves, a respeito da lei acima citada?

Procon
Ocorreu-me sobre o texto que abre a coluna: a fatura pela deficiência em tudo que foi prometido durante a campanha, o povo deve enviar para a prefeita com cópia para jornais, TVs, blogueiros e colunistas da terrinha? Afinal de contas, se participou do bônus, é bom estar apto ao ônus.

The End
Tem pouca coisa no mundo mais melancólica e distribuidora de vergonha alheia do que a política quando deixa um político e ele não se toca. Derrotados, sem votos, mandatos ou poder, se agarrando ao pouco de dignidade que restou ou querendo voltar ao que pensou um dia ter, certos personagens rastejam imaginando dar passadas.

Do mundo
Vi um dia desses o programa do deputado estadual Wober Junior (negócio bom é ter amigo desocupado que grava essas coisas), talentoso progressista e socialista. Um pouco mais de rouquidão na voz e pode-se jurar estar ouvindo o “findicalifta” de língua presa que governa a nação. Um primor.

Rebu
Tucano eu não sei, mas observando a movimentação por cima de pau e pedra do deputado Rogério Marinho no PSDB, a imagem que me chega à mente é de um cancão de fogo se mexendo num alçapão. Não resta nada inteiro por perto.

Boquinha
Chegou a hora dessa gente paga mostrar seu valor. E bom ir se acostumando com a falta de elogio na blogosfera, de quem até pouco tempo era casa e botão. Quando chega a hora dos profissionais porem as cartas na mesa, fica difícil cobrir o teto pecuniário, o pedágio do apoio disfarçado de notinhas.

19 de julho de 2009

Antonio Cicero

Por Rodrigo Levino

Tacito e demais

Segue abaixo o link de uma conversa minha com o poeta e filósofo Antonio Cícero.

http://corpodeberenice.wordpress.com/2009/07/18/antonio-cicero/

Abs

17 de julho de 2009

Will Self

Por Rodrigo Levino

Tácito e demais,

Segue o link com uma conversa que tive com o escritor inglês Will Self sobre o “O livro de Dave”, lançado há pouco tempo no Brasil.

http://corpodeberenice.wordpress.com/2009/07/17/self-talk/

Abraços

DO EDITOR
Beleza Levino. Pelo menos eu, estou adorando essas suas colaborações.  Continue mandando. Muito grato mesmo. Abs.

16 de julho de 2009

Para que serve o Congresso Nacional?

Por Rodrigo Levino

Tácito, entrevistei o senador Cristovam Buarque sobre a atual crise do Senado.

Segue o link:

http://revistapoder.uol.com.br/p17/materia2.html

24 de junho de 2009

Carne Canina

Por Rodrigo Levino

Caro Gustavo e demais SPs,

A noticia de que o Brasil exportará carne canina, reproduzida pelo Portal Meio Ambiente, é falsa. Foi publicada em 2004 pelo site de humor Cocadaboa, mestre em roax e coisas do tipo.

Eis o link original: http://www.cocadaboa.com/archives/003881.php

Abs

19 de junho de 2009

Mario Bellatin

Por Rodrigo Levino

A Cosac Naify lança essa semana o livro Flores, do romancista mexicano Mario Bellatin. Um grande livro. E, enfim, uma edição decente para um bom autor que precisa ser descoberto no Brasil. Antes disso, houve um lançamento acanhado do livro Salão de Beleza, pela Dulcinéia Catadora. Fica a dica dos dois. Independente da ordem de leitura.

18 de junho de 2009

Diploma, por André Forastieri

Por Rodrigo Levino

“Agora que a profissão de jornalista está acabando, derrubaram a obrigatoriedade do diploma. Seria de rir se não fosse de chorar.

Mas, enfim, antes tarde. Como já repeti inúmeras outras vezes, abandonei a faculdade, porque era uma porcaria e chata (ECA-USP, entrei em 83 e larguei de vez em 88). Trabalho com muita gente formada faz pouco tempo ou ainda estudando. Percebo que continuam uma porcaria e chatas, todas, sem exceção.

Tento convencer todo mundo a largar, sempre sem sucesso. Agora finalmente não há mais justificativa para ninguém estudar jornalismo. Vão fechar todos os cursos ou quase, espero, o que é bom para o futuro jornalismo brasileiro. Nem tão bom para os meus colegas que viraram professores, mas a vida é assim.

Se você tem um blog, é escritor. Ponto final e acabou o assunto. Eu defendo que é jornalista, ou tão jornalista quanto eu. Reportagem é outra coisa. Exige técnica de redação, simples, capacidade de investigação e rigor na apuração, complicadíssimo e caro.

Um amigo que trabalha em TV garante que quase todos os repórteres só lêem o texto que os outros escrevem, inclusive vários bem famosos. Aí entram os jornalistas. Mesmo que você seja repórter de televisão e tenha sido contratada pelo belo sorriso e voz sedutora, o trabalho sujo tem que ser feito, se não por ti, por alguém mais feio e pior remunerado que você.

Supostamente jornalismo exige “independência financeira”, o que empresas de comunicação alegam que só pode ser conseguido através da venda de publicidade. Balela. O que grandes empresas de mídia querem é drenar o máximo da grana de publicidade, o que conseguem remunerando as agências de publicidade exatamente por concentrar o dinheiro dos anunciantes em cada empresa.

É a chamada bonificação de volume, BV, prática de mercado corriqueira no Brasil (e nem um pouco em outros países). É tão certa ou tão errada quanto adicionar 10% na conta para o garçom, independente do valor do jantar. É o dia a dia de veículos e agências e anunciantes (estes estão cada vez menos felizes com isso; os gringos, especialmente).

O BV está na bica de ser regulamentado. Eu acho que é tarde, tanto quanto acabar com a obrigatoriedade para o diploma de jornalismo. Desconfio que o modelo de BV está com os dias contados. E quem vai pagar os publicitários? Assunto para daqui a alguns dias.

Existem outros modelos, velhos – BBC, alguém? E precisamos criar novos. Que viabilizem financeiramente tantas vozes novas e independentes que nascem na internet, fazendo jornalismo em texto, foto, áudio e vídeo. E que viabilizem também, sim, a sobrevivência do velho e bom repórter.

Porque não basta ter uma opinião sobre o quebra-pau no Irã. Alguém tem que ir lá ao vivo e a cores e reportar os acontecimentos, para que os outros possam opinar sobre os fatos. Não basta repetir o que o banco disse no release. É preciso entender de verdade o que é um derivativo de crédito, saber fazer as perguntas certas para os banqueiros, cut through the bullshit. E ainda explicar depois em português claro o que está acontecendo de verdade na economia.

Esse tipo de trabalho de reportagem investigativa / analítica custa uma grana preta. E vai continuar custando. Quem vai pagar?

Bem, eu pagaria minha parte para mandar Ivan Lessa para o São Paulo Fashion Week, Chris Hitchens para o Capão Redondo ou mesmo Sabrina, Vesgo e Ceará para o Oscar. Quanto custa? Cem mil reais? Eu entro com R$ 10.00. Mais 9.999 amigos e está feito.”

18 de junho de 2009

Para Daniel

Por Rodrigo Levino

Você escreveu:

“…Levino fez: assistirem poucas aulas, considerarem-se melhores que o curso, acharem que já sabem tudo e se chamarem de jornalistas.”

Tenha isso como uma conclusão sua. E digo: errada. Eu não assisti poucas aulas. Melhor dizer nenhuma, foram só dois dias. Não me considero melhor que o curso, até porque nem o conheci. Fiquei sem o referencial para comparar. Não acho que sei de tudo e nunca quero achar, dessa forma deixarei de aprender. Eu me chamo de jornalista, meu editor também, o diretor de redação e o expediente de onde trabalho. Cartas para a redação, aceitam reclamações. Da próxima seja menos belicoso, mais educado, calmo e tente controlar suas deduções a algo que você conheça. Você não me conhece o suficiente.