Para Jarbas Martins
Desde muito tempo mantenho o hábito intuitivo de recorrer a histórias, mitos, fábulas, poesias e contos dentre outras coisas lidas para auxiliar numa conversa no intuito de provocar uma reflexão, tornar mais clara uma situação, considerar uma questão sob outra ótica, outra lógica.
Por vezes a história relatada suscita uma segunda que evoca uma terceira e assim, sucessivamente, tal qual bonecas Matrióchka (bonecas russas) que, carregam uma(s) dentro da(s) outras.
A paixão de dizer
27 de junho de 2010 às 23:18 | ComentarEduardo Galeano
“Marcela esteve nas neves do Norte. Em Oslo, uma noite, conheceu uma mulher que canta e conta. Entre canção e canção, essa mulher conta boas histórias, e as conta espiando papeizinhos, como quem lê a sorte de soslaio.
Essa mulher de Oslo veste uma saia imensa, toda cheia de bolsinhos. Dos bolsos vai tirando papeizinhos, um por um, e em cada papelzinho há uma boa história para ser contada, uma história de fundação e fundamento, e em cada história há gente que quer tornar a viver por arte de bruxaria. E assim ela vai ressuscitando os esquecidos e os mortos; e das profundidades desta saia vão brotando as andanças e os amores do bicho humano, que vai vivendo, que dizendo vai”.
Neruda, o feiticeiro!
6 de junho de 2010 às 22:15 | 2 ComentáriosNesses dias em que viver está cada vez mais dificultoso é sempre bom rever O Carteiro e o Poeta, do diretor inglês Michael Radford, filme delicado, sutil e poético.
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Os vieses do amor
30 de maio de 2010 às 23:09 | 8 ComentáriosPara meu amigo Eduardo
Na vingança e no amor a mulher é mais bárbara do que o homem. Friedrich Nietzsche
Havia quase uma década que eu estava com o Victor, por quem nutria verdadeira paixão.
Chegava a ser vício o desejo que sentia por ele. Seu cheiro, sua pele, o odor que exalava das suas axilas, cheiro bom de homem! Tudo nele me excitava e rescindia a sexo …
Os versos que te fiz
30 de maio de 2010 às 18:55 | 1 ComentárioDeixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder…
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda…
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
Amo-te tanto! E nunca te beijei…
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!
(Florbela Espanca)
Para Jarbas Martins
29 de maio de 2010 às 19:49 | 3 ComentáriosEstou aqui em Parnamirim ouvindo jazz, MPB, resgatando poetas e poesias. Seu nome veio à tona quando se falou em literatura universal e, particularmente, literatura hispano-americana de Julio Cortázar também com sua personagem marcante chamada “a maga”. Foi declamado trechos de algumas poesias suas como “ad perpetuam rei memoriam”, “de cor e salteado”:
então este rio potengy talvez não seja mais que uma memória azulcicratizações de gordas sombras e águas semoventes uma espada de mercúrio do flanco esquerdo da ponte de igapó à pedra do rosário atravessará o coração do rio mas isto se dará entre a vigésima quinta hora e a hora oficial da abolição dos mangues uma garça de petróleo estancará seu vôo sob a mira de um canhão de raio laser deste porto de miasmas zarpará o último cargueiro em busca de um país onde os peixes cegos riem aonde os peixes jamais irão.
Jarbas, raro escrevo: vivo. Escrever é um verbo intransitivo. Embora você se ache “sem gracice” a sua “graça” foi lembrada de forma muito bonita e amorosa. “Viver, não é _ é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender a viver é que é viver mesmo”.
Um beijo, poeta!
Show Dois Cantos
27 de maio de 2010 às 18:08 | 2 ComentáriosNa Tribuna do Norte – Viver – Natal, 26 de Maio de 2010
Cantoria feminina hoje no Teatro de Cultura Popular Dois Cantos é o nome do show que leva para o palco do Teatro de Cultura Popular a paulista Kátya Teixeira e a mineira radicada em Natal, Mazé Pinheiro. As duas apresentarão músicas raiz, semelhantes às cantorias de Elomar e Renato Teixeira. O encontro marca o início de um projeto idealizado pelo músico João Barra, que promoverá uma vez no mês, o encontro entre nomes da música nacional e regional. Dois Cantos será apresentado hoje, às 20h. A afinidade no estilo musical é reforçada pelo laço familiar que une as cantoras. Mazé é tia de Kátya e as duas registram uma vivência musical desde a infância.
Abrindo a velha caixa de brinquedos
23 de maio de 2010 às 18:15 | 3 Comentários
Continuação do post de 16 de maio de 2010 (4º e último post)
Era uma vez… Tempo de, à noite, nas calçadas ou ao redor de um paiol de feijão para debulhar, contar e ouvir histórias de trancoso, de Camonge, de reis e rainhas, histórias de mal-assombrados, de encantamentos. Tudo entrava por uma perna de pinto e saía por uma perna de pato. De ver e fazer assombração. Fazer alma com quenga de côco ou oco de mamão verde com vela acesa dentro e colocar em cima de “monturos” ou dos mourões ao lado das porteiras e correr feito cavalo desembestado com medo da própria assombração.
Bola
23 de maio de 2010 às 11:27 | 1 ComentárioPara Jarbas Martins (Angicos, Futebol e Bexiga)
Bater bola nos terrenos baldios, ou mesmo nas ruas, sempre foi uma das brincadeiras infantis mais realizadas. Jogava-se com bola de cabelo e palha de milho, talo de bananeira, capim seco, meia, borracha, plástico, e até de bexiga de boi. Não importava de que material a bola era feita, o importante era jogar.
As Águas do Mar
17 de maio de 2010 às 11:19 | 1 ComentárioClarice Lispector
“O mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.
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Abraços, “desde Natal”
11 de maio de 2010 às 8:07 | ComentarEstou muito feliz com a presença aqui no SP de João Amado, professor da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (ver comente no post: “Abrindo a velha caixa de brinquedos”).
Conhecemos João Amado na UFRN quando veio aqui ministrar um curso no Programa de Pós-Graduação em Educação.
Por nosso intermédio veio no IFRN (antiga ETFRN) conhecer nosso acervo de brinquedos quando foi convidado para fazer o prefácio do nosso livro. O mesmo tem uma incursão sobre o universo dos brinquedos com livros publicados, artigos e orientações de trabalhos, dentre outros temas.
Foi um sonho que eu tive;
Era um menino de bibe
E uma estrela de papel.
O menino ia lançando a estrela,
Como quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão,
E tão alto subiu,
Que deixou de ser estrela de papel,
E o menino ao vê-la assim sorriu,
E cortou o cordel
Miguel Torga (escritor português)
Galamarte
10 de maio de 2010 às 9:15 | 8 ComentáriosPara Danny (a pedidos!)
GALAMARTE
Brinquedo que estava presente em quase todas as regiões do estado e muito lembrado com uma boa dose de nostalgia por todos aqueles que com ele brincaram. O galamarte, ou galamacho (Tibau do Sul), ou ainda, João Galamarte (Florânia), consistia numa tora de pau, com mais ou menos três metros de extensão, e com um furo no meio, justamente no seu centro de gravidade. Próximo às suas extremidades, enfiava-se um pedaço de pau, que era o torno, uma espécie de suporte para as crianças se segurarem. Fazia-se uma base para recebê-lo, fincando-se no chão um pau bem resistente, geralmente pau-d’arco ou jucá, com a ponta afiada para encaixar no buraco feito na tora de pau. Essa base servia de eixo para a tora girar em círculo ou em movimento de cima para baixo, como uma gangorra.
Abrindo a velha caixa de brinquedos
9 de maio de 2010 às 22:20 | 4 ComentáriosContinuação do post de 2 de maio de 2010
Quem, menino ou menina, no sertão não se arriscou em busca das frutinhas (vermelhas sem igual!) do pé de cardeiro ou da coroa de frade, tão apreciadas por nós e que dão em meio a pedras e lajeiros? Quem, menino, não furtou frutas nos quintais ou sítios vizinhos correndo dos tiros de sal ou de pedradas na cabeça atiradas por fundas?
Abrindo a velha caixa de brinquedos
2 de maio de 2010 às 18:37 | 6 ComentáriosO Capítulo abaixo por ser longo, dividirei em quatro momentos. Assim, a cada semana (domingo) postarei uma parte do mesmo.
Para Carlos de Souza, infância vivida em Areia Branca! (?)
“Um poeta contemporâneo disse que para cada homem existe uma imagem que faz o mundo inteiro desaparecer; para quantas pessoas essa imagem não surge de uma velha caixa de brinquedos?” Walter Benjamim
Crianças, éramos todas mágicas. Nossa imaginação? Ah! Essa não conhecia limites nem fronteiras, a tudo abarcava. Um simples carretel de linha, uma lata de sardinha, de óleo ou de doce transformava-se num carrinho, caminhão, trator. Pedaços de ossos (juntas do boi, mocotó), tanto viravam o rebanho da fazenda quanto carrinhos e até mesmo bebês. Cabeça de lagosta depois de seca virava cavalo ou boi que puxava as carroças. Talo de bananeira virava espingarda, seixos de pedras, bebês, cuidadosamente encoeirados (enrolados) em pedaços de panos. Papel de embrulho, papel colorido e molambos (pedaços de pano) para fazer o rabo viravam corujas a rodopiar em pleno ar, guiadas pela mão ágil dos meninos. Sabugos de milho, vestidos, transformavam-se em reis, rainhas, moças e rapazes.
O Nono Mandamento
2 de maio de 2010 às 18:32 | ComentarAssionara Souza
Escritoras Suicidas
_ Olha, eu vou logo dizer… É melhor eu ir logo dizendo. Pode ficar tranquila, não vou tentar comer você. De forma alguma. É sério. Tudo o que eu fizer. Tudo o que eu disser… Isso! Principalmente o que eu disser. O que eu pensar, não — porque, pode ser que uma hora ou outra eu acabe pensando.
Adriana Oliveira – Escritoras Suicidas
“Coloco de volta a calcinha e saio dali, sem olhar para a cara dele. A festa acabou e preciso encontrar o meu marido. Na maioria das vezes, vou direto para o bar. Mas, pelo adiantado da hora, é mais fácil encontrá-lo caído em um canto qualquer.
Recolho os cacos e voltamos para casa.
No início, eu gritava e fazia as malas.
A seguir, veio a tristeza profunda.
Depois, a fase da vingança, em que descontava a minha raiva por suas bebedeiras, trepando com desconhecidos.
Hoje, evoluí na minha catarse, escolhendo como objeto o pau do seu melhor amigo.
Olho para o meu marido deitado sobre a cama, ainda vestido, babando sobre o lençol e não sinto nada.
Vou dormir, pois amanhã é sábado: dia de praia, churrasco e muita cerveja.”
Béu-Béu! Se desta eu escapar…
2 de abril de 2010 às 10:19 | 2 ComentáriosBéu-Béu! Se desta eu escapar, nunca mais bodas no céu!…
Tudo isso aconteceu quando eu era bem jovem e fui participar de uma atividade de extensão universitária.
Viajei com um grupo de outros estudantes de diversos cursos para uma pequena cidade do interior.
Ficamos todos alojados num mesmo lugar. Em pouco tempo, o grupo deu o que falar na cidade, mas não exatamente pela atividade de extensão desenvolvida e sim pelos excessos cometidos, especialmente sexuais, em honra ao deus Baco.
“A cor do amor é branca,
e o amor tem uma covinha do lado direito do rosto
e o amor me olha como alguém
que jamais vai tirar a minha calcinha
e gozar o céu dentro de mim.
O amor sempre vai me olhar
como se eu estivesse num altar de papel.
Para o amor, eu sou uma rima
e rima não tem vagina.
Para o amor, eu sou uma ode
com uma ode ninguém fode.
Eu sou um verso alexandrino
jamais tocado pelo herdeiro deste nome.
Eu sou a palavra, e a palavra, a palavra é Deus
Deus ninguém come, mas
será que beber
pode?”
Poema de Bárbara Lia – Professora de História e escritora. Vive em Curitiba-PR. Publicou os livros de poesia O sorriso de Leonardo (Curitiba: Kafka Edições Baratas, 2004); Noir (Curitiba: Ed. independente, 2006) e O sal das rosas (São Paulo, Lumme Editor, 2007).
Fonte Germina.
A alma “pegadora”
28 de março de 2010 às 9:59 | Comentar
À noite nas calçadas da cidade onde eu morava quando criança era costume ouvir e contar histórias de mal-assombrados, de “almas penadas”, de “coisas do outro mundo”. Eu voltava para casa “me pelando de medo”, temendo deparar-me com alguma aparição pelo caminho.
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A Epifania
28 de março de 2010 às 9:54 | ComentarThelma Guedes (*)
“……..Mãozinhas postas. Amareladas como cera. Estavam lá, entre as velas acesas do quarto de reza. Pretas e ondulantes, as sombras vesgas de minhas mãos pequenas vertiam feito lama. Lavas inquietas, foscas. Tremiam na tinta verde dos caroços das paredes. No quarto de reza da casa de minha madrinha.
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