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AUTISMO: A história de liberdade de Ângelo e Augusto e de uma mãe coragem

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Nas ideias meio desconexas, o desejo de dominar o céu como pilotos de avião. Nem é sonho buscado ou meta planejada de vida. Ângelo e Augusto têm compulsão mesmo é pela amizade, pelo contato com pessoas desconhecidas e potencialmente amigas.

Ângelo e Augusto: sorriso constante Foto: facebook

Ângelo e Augusto: sorriso constante
Foto: facebook

Sim, eles parecem de outro mundo. Um mundo mais inocente, mais afetuoso, sem violências ou casais falidos presos às tentações efêmeras dos papos do zap. No universo gigantesco desses irmãos gêmeos, cabem dois quarteirões perto de casa e possibilidades infinitas.

Alguns se assustam com eles. Outros se incomodam. E eles nem ligam. Estão noutra vibe, mais útil ao mundo deles ou do nosso. É energia positiva ligada no automático. E tentam esse contágio junto aos “amigos” que nunca viram, que encontram em mesas de bares e de shoppings do seu mundo único.

Essa semana, último dia 2, foi o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Obra do acaso e foi também aniversário de 35 anos de Ângelo e Augusto. O tema ainda é delicado e muito estudado. Hoje e amanhã, por exemplo, acontece no hotel Holiday Inn, aqui em Natal, o Simpósio Dialogando com o Autismo.

Delicado porque ainda resta preconceito e dificuldade de inserção social. “Estudado” porque muitas descobertas para essa deficiência ainda são esperadas. Os casos de Ângelo e Augusto servem de exemplo. Basta lerem essa postagem para conhecer a história, eu diria heroica, de Luci Maia, a mãe deles.

A MÃE QUE FABRICOU UM MUNDO REAL
Dona Luci já era mãe de três filhos quando os caçulas Ângelo e Augusto nasceram. A experiência materna logo diagnosticou diferenças no desenvolvimento dos bebês. Faltava interação, olhos nos olhos, as primeiras palavras. E desde cedo procurou especialistas, mas na distante década de 80 o autismo ainda era mistério.

Dona Luci os leva para todos os lugares

Dona Luci os leva para todos os lugares

Dona Luci lidou com a situação sem mais amparos. Tentou outros médicos em outros estados: Recife, São Paulo, doutores renomados vindos da Holanda, Cuba, Espanha… E nenhuma resposta satisfatória. O autismo parecia vir da própria medicina, ainda isolada do tema.

Os meninos cresciam dentro das suas redomas psíquicas. E antes fosse esse o problema. Dona Luci sentia também da própria sociedade esse isolamento. Sem abertura nas escolas para receber seus filhos, criou ela própria o Jardim Escola Dois Amores – o nome não foi à toa. Seria apenas o primeiro passo para inserir os gêmeos no mundo “real”.

O Jardim foi adaptado até virar a Escola Educar e passou a atender crianças do 1º ao 4º ano. Depois, evoluiu até o 9º ano para que Ângelo e Augusto desfrutassem de ambiente escolar saudável. A Escola Educar, situada à Miguel Castro, fechou há apenas dois anos após 24 anos de educação inclusiva, sem preconceitos. Cumpriu seu papel. O espaço hoje é alugado e ainda mantém a sina sendo creche e escola.

A DESCOBERTA DO AUTISMO E DE WILLIAMS
O estereótipo da pessoa autista é a introspecção. O oposto do comportamento de Ângelo e Augusto, viciados no contato social. Por volta dos quatro anos, o olhar focado em sua própria consciência aflorou para uma vontade de ganhar e ver o mundo. E a causa desse descompasso seria um mistério ainda mais nebuloso que o autismo naquela época.

A Síndrome de Williams, ou síndrome Williams-Beuren, era um buraco negro para a medicina. Uma desordem genética rara cujo efeito incide no atraso psicomotor e em algumas características físicas, como lábios cheios, dentes pequenos e sorriso frequente. E influencia também no comportamento sociável e comunicativo. Estava explicado. Mas um diagnóstico descoberto quase duas décadas depois, quando os dois já tinham 20 anos de idade.

Ângelo e Augusto têm sintomas de autismo e da síndrome de williams. Mas seus comportamentos não advêm apenas do diagnóstico frio da ciência. Muito é motivado pela educação materna. Dona Luci já tinha formação em pedagogia e buscou especialização em psicopedagogia para auxiliar nos cuidados com os filhos caçulas: “Busquei auxílio porque não recebia respostas da medicina para o problema”.

E desse conhecimento adquirido aliado à vontade de ver a felicidade dos filhos brotou a independência dos gêmeos, até então limitados pelas agruras das doenças. Ambos são vistos sozinhos em bares de um quadrilátero do bairro de Lagoa Nova. Impossível eles passarem despercebidos. Frequentam cada mesa, buscam assunto, opinam, elogiam e, sobretudo, sorriem. São amigáveis porque buscam amigos.

“Sou criticada por alguns por deixarem eles sozinhos. Mas eles foram treinados desde pequeno para isso. São obedientes, educados, só frequentam lugares dentro do limite de dois quarteirões de casa e voltam sozinhos na hora estipulada”, se orgulha a mãe de 68 anos.

HUMANOS, TRISTE E DEMASIADAMENTE HUMANOS
Nem a alma amiga e inocente de dois jovens inibe a sanha bárbara de alguns. Alguns incidentes ainda remontam tristes lembranças para dona Luci. O pior deles aconteceu na praia de Pirangi. Veranistas antigos, Ângelo e Augusto são muito conhecidos e queridos na comunidade praiana. Circulam pela orla, pelos bares e avenidas carnavalescas; têm muitos amigos em Pirangi.

Em Pirangi os dois são também aceitos e queridos na comunidade

Em Pirangi os dois são também aceitos e queridos na comunidade

“Mas certa vez um acontecimento mexeu muito com nossa família. Foi muito duro, sabe? Na beira da praia tinha uma mulher com criança no braço, provavelmente passando o dia. Augusto quis dar um abraço afetuoso ou tocou ela no braço, o namorado ou marido viu de longe, correu e bateu muito nele. Por sorte, como são muito conhecidos, uma senhora veranista correu para explicar a situação dele. Por outro lado, esse acidente nos mostrou o quanto eles são queridos. Pirangi inteira mostrou solidariedade, e também recebemos mensagens de gente de Natal, que soube do ocorrido”.

Dona Luci explica que os dois, embora “treinados” para serem educados, comedidos, não possuem noção da consequência dos seus atos, dos perigos e infortúnios da vida. Não sabem analisar comportamentos ou prever consequências. Em resumo: eles são treinados a lidar com pessoas e não com a insensatez.

Em outro episódio, o pior foi abafado pelo bom senso. No Bar do Pedrão, em Lagoa Nova, os gêmeos passavam constantemente em frente à transmissão do jogo de futebol na TV. Um dos clientes, impaciente, quis também bater nos meninos, mas foi contido pelos próprios frequentadores do bar e até o dono pôs este humano, demasiado humano, para fora do estabelecimento.

LIBERDADE E RECONHECIMENTO
A liberdade é íntima da felicidade. Para Ângelo e Augusto é sinônimo. E a independência dos caçulas foi busca insistente de dona Luci até a alegria aflorar e ela própria, encontrar uma sabedoria que a fez também uma pessoa melhor, alegre junto aos filhos.

Se o inferno são os outros ou os aforismos insistem também que de perto ninguém é normal, Ângelo e Augusto parecem mesmo anormais. São bem diferentes com suas alegrias, suas querências de contato amigo, suas liberdades dentro de seu universo de dois quarteirões de um mundo irreal e mais ameno.

Dona Luci se aposentou da escola e continua a serviço dos filhos, sobretudo dos caçulas. A preocupação persiste. Mas qual mãe descansa? Mais importante é que há uma sensação de dever cumprido a cada sorriso dos gêmeos. E os sorrisos são constantes – doses homeopáticas de gratidão estampadas nos rostos dos dois, a toda hora.

E após 35 anos de dedicação, a mãe coruja conseguiu algo tão raro quanto a síndrome diagnosticada tardiamente em Ângelo e Augusto. Dona Luci conseguiu dois filhos felizes num mundo em crescente depressão. Filhos alegres em meio ao estresse do cotidiano. Filhos livres na eterna prisão das ruas.

Esse post será publicado hoje, na semana dedicada ao autismo. Mas bem poderia demorar um pouquinho e ser postado no dia das mães.

Parabéns, dona Luci!

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Comentários

34 comments

  1. Rani Faustino 8 abril, 2016 at 21:56

    Preciso te parabenizar por sua matéria linda e muio bem escrita. Conheço os meninos e posso afirmar que todas estas linhas descritas acima são a mais pura e límpida verdade. Você conseguiu retratar bem o ser deles. Parabéns.

  2. Sergio Vilar 8 abril, 2016 at 22:03

    Agradecido mesmo pelas palavras, Rani. Dona Luci soube passar muito bem as informações dos dois. E eu tinha a noção por alguma conversa com eles pelos bares. Vige, lembrei agora que esqueci de citar o grande conhecimento do Ângelo para aeronaves militares! É impressionante, ele sabe de tudo! rs
    Abraço!

  3. Denise 8 abril, 2016 at 22:47

    Realmente, os dois sabem tudo da aeronáutica, AFA, ENCARREGADO, Catre e hj a boa aerea de Natal, é impressionante e todo esse conhecimento deles se deve a mãezona Lucia que desde pequeninos ela lia muito para eles. Além de outros conhecimentos que eles possuem. Parabéns Luci….. Atualmente eles estão fazendo parte do coral da Apae Natal.

  4. Denise 8 abril, 2016 at 22:52

    Corrigindo algumas palavras pois este corretor me prega muitas peças. Encarregado eu quis dizer Epcar_ escola preparatória para cadetes da aeronautica e Base aérea de Natal, onde conhecem muitos militares.

  5. Rosalba Carvalho 9 abril, 2016 at 08:26

    Belo post!!! Parabéns Luci,
    pela sua dedicação e carinho c esses seres tão iluminados.

  6. Luci Maia 9 abril, 2016 at 12:25

    Quero deixar aqui registrado meus parabéns, Sergio Vilar, pelo magnífico texto onde retratas fielmente o que conversamos, por telefone, sobre meus filhos… Quero agradecer o interesse em escrever um pouco da história dos meus dois amores, com tanta beleza e leveza, enaltecendo as características especiais de Ângelo e Augusto, com tanto carinho!
    Não nos conhecemos, mas espero poder agradecer-lhe pessoalmente, um dia…

  7. Sergio Vilar 9 abril, 2016 at 13:52

    Será uma grande satisfação, dona Luci! Quando eu vir os meninos vou perguntar pela senhora! rs
    Abração!

  8. ana claudia 9 abril, 2016 at 16:57

    Desde pequena vejo eles em lugares por Natal, desde sempre alegres e solícitos. Hoje, eu tenho 25 anos e é muito gratificante esbarrar com eles e ver que com o passar do tempo só evoluíram e que a alegria de viver continua presente. Excelente texto retratando a história de vida dessa mãe batalhadora e desses meninos cheios de alegria de viver. Parabéns!

  9. Emerson Noronha 9 abril, 2016 at 20:25

    Parabéns prima Luci, você é um exemplo de mulher, mãe e esposa. Ao cuidar dos Gugus, e faze-los homens capazes de viver é seren felizes. Abraco.

  10. Adenor 9 abril, 2016 at 20:47

    Muito boa a notícia, realmente quem foi ao Midway conhece esses dois sorrisos, eu também tinha preconceito e achava estranho não ter um parente próximo, agora sei que tem três grandes corações, o da mãe e dos dois amigos

  11. magaly 9 abril, 2016 at 20:51

    belíssima descrição dessa mãe incrível e mulher incansável e de um conhecimento grandioso.
    Parabéns

  12. Elizângela Lima 10 abril, 2016 at 00:48

    Desde de criança vejo Ângelo e Augusto no bairro… Realmente muito alegres. Amei o texto, adorei ter conhecido um pouco da história dos gêmeos… Dona Luci, virei sua fã, parabéns pela bela mãe q es. Um dia desses eu estava nos potiguares e um deles foi a nossa mesa, conversou um pouco e olhou p meu esposo e disse: -Gostei muito dela! É saiu rindo… Achei muito engraçado… Q Deus os protejam sempre para q nunca mais apareça pessoas preconceituosa e queiram machucá-los. Amém.

  13. viviane inacio 10 abril, 2016 at 02:58

    Lindo texto! Linda história de vida dessa familia…dessa mãe guerreira. Parabéns!!

  14. Marlene Dutra 10 abril, 2016 at 07:01

    Parabéns pela matéria! Parabéns à mãe, pela grandeza com que exerceu seu papel! Deus os abençoe!

  15. Jhean 10 abril, 2016 at 07:48

    Parabéns , conheço essas duas figuras maravilhosas , quero um bem enorme a eles , sempre quando encontro pergunto sobre aeronaves , pois são especialistas . A senhora é uma inspiração para o mundo não só para mães , Deus a abençoe e a esses maravilhosos seres especiais.

  16. Luciana 10 abril, 2016 at 09:01

    Bonita história, exemplo de força e insistência da dona Luci.
    Sou professora, trabalho com alunos com deficiência, em meu dia a dia, vejo a dificuldade de muitos pais na interação dos filhos na sociedade, muito preconceito e isso machuca.
    Parabéns Sérgio, a sociedade carece de informações com esta, é salutar para o preconceito.

  17. Aline 10 abril, 2016 at 10:30

    Matéria maravilhosa. Uma publicação que nos entusiasma e nos acrescenta. Parabéns aos que desenvolveram esse texto. E a essa mãe, a maior sorte, amor e recompensas!!! Parabéns!!!

  18. analice 10 abril, 2016 at 10:53

    Exelente historia de vida e muito bem contada ,parabens a esta mae tao dedicada ,amorosa y perseverante.

  19. Marcia Cohen 10 abril, 2016 at 11:22

    Linda história, me emocionou pois também tenho filhos gêmeos autistas e sei da luta diária que temos. Hoje meus filhos tem 15 anos e estão terminando o ensino de fundamental.

  20. Victor Galdino 10 abril, 2016 at 12:26

    A história está redigida de um modo tão sutil que chega a ser poética. Parabéns ao escritor, a mãe dos meninos, e aos meninos por insistirem na busca do seu espaço social. Que esse exemplo possa ser seguido por todos aqueles que sofrem de exclusão. Sempre quis saber quem eles eram, e descobri que a beleza que existia neles era bem maior do que a que eu suspeitava.

  21. Vânia Moreira Klen 10 abril, 2016 at 12:39

    Linda história de vida, tanto dos rapazes quanto da mãe. Num mundo em que pessoas são descartáveis e que tentam condicionar tudo através da química, temos ai um exemplo que a química do amor pode curar o mundo, seja ele num quarteirão ou lá onde for. E obrigada a você Sérgio, que num mundo sedento por notícias de violência, nos presenteoou com uma história de quotidiano, de maternidade e de amor ao próximo.

  22. janaina dantas amaro de sa 11 abril, 2016 at 04:31

    Parabéns pelo texto, lindo, emocionante. Parabéns para a mãe que soube, ser a mãe.

  23. Júnior 11 abril, 2016 at 23:51

    Parabéns dona Luci pela linda história dos seus filhos,Ângelo e Augusto. Sempre que vou em Pirangi no mês de janeiro, vejo eles na Praia, pois acho eles muito carismáticos.

  24. Diana Leal 12 abril, 2016 at 15:57

    Ângelo e Augusto fizeram parte da minha infância, na praia de pirangy…. Tenho um carinho enorme por eles! Fico muito feliz em ter notícias deles! Parabéns ao texto, que retrata muito bem a história deles e dessa mãe, guerreira e corajosa! Que Deus os abençoe!!!!

  25. Bruno 12 abril, 2016 at 20:48

    Coloquei seu site/blog nos meus favoritos, para sempre te acompanhar! Matéria perfeita! Muita luz na tua vida!

  26. Erica 30 julho, 2016 at 00:37

    Excelente abordagem! Sensível, inusitada e motivadora… Por uma sociedade mais humanitária, respeitosa em meio à diversidade. Parabéns!

  27. Carla Abend 30 julho, 2016 at 08:28

    A história de vida dessa mãe e seus filhos é imensamente linda e emocionante, mas o jeito que vi escreveu é realmente espetacular. Parabéns!

  28. Sergio Vilar 30 julho, 2016 at 08:52

    Obrigado Carla e Erica! Inspiração não faltou. A história dessa mãe já é espetacular. Abraço!

  29. Fausto 30 julho, 2016 at 19:07

    Essa história é realmente linda, fantástica. Moro em João Pessoa e quase todas as vezes que vou à Natal, encontro-os no shoping e como é bom ouvi-los dizer, por exemplo,: “Que casal lindo!” Lindo são vocês queridos! Deus continue vos abençoando para que continuem sendo eternos motivadores com palavras tão dóceis que nos faz pensar de como o mundo seria tão melhor se todos tivessem essa pureza de alma!

  30. Livia 2 agosto, 2016 at 11:05

    Nossa que texto lindo Sergio Vilar! Me emocionei bastante. Chorei ao ler seu texto…quanto amor nas palavras. Simplimeste lindo!.

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