Balanço do ano literário

25 de dezembro de 2009 às 17:45 - Comentar
Por Nelson Patriota

Uma crônica de fim de ano deve, de regra, debruçar-se sobre os umbrais do novo ano e antecipar suas potencialidades a partir do legado que lhe deixa o ano morrente. Mas por que não admitir, por exemplo, que a norma seja provisoriamente posta de lado e, ao invés do novo ano, o ano velho, que está prestes a se despedir, seja seu protagonista, nela expondo suas razões, como o romancista José de Alencar o fez numa crônica datada de 1854 intitulada justamente “Ano velho”?

Utilizando-se de um velho artifício muito familiar aos romancistas do Oitocentos, Alencar é visitado por um senhor idoso, o qual se identifica como sendo o ano de 1854. Seu objetivo é de fazer uma exposição de motivos a seu favor, em represália às inúmeras queixas e críticas que lhe fez o autor de Iracema em escritos publicados nos “folhetins” diários do jornal Correio Mercantil.

Salta à vista que se trata de um diálogo de viés onírico, que Alencar se apressa a atribuir a uma razão suficiente: a leitura de uns contos de E. T. A. Hoffmann, o cruento autor de “O homem de areia”, que já havia inspirado a Machado uns tantos contos góticos…

À luz de hoje, quando vampiros lividamente vegetarianos viram motivo de idolatria juvenil, personificar um ano exaurido sob uma forma humana seria um artifício por certo fora de moda, mesmo porque Hoffmann já não constitui um padrão de assombro para os nossos tempos. Por isso, sem precisar reatualizar um subterfúgio oitocentista, poderíamos olhar retrospectivamente o ano que está findando considerando-o, por exemplo, sob o ponto de vista literário (vertente que nos interessa mais de perto), e nos propor a seguinte pergunta: 2009 foi um ano fecundo, do ponto de vista das nossas letras?

Não temos dúvida em respondê-la afirmativamente. Quer no campo da ficção, quer no da poesia, da memória, dos estudos críticos, são muitos e bons os exemplos a citar, a começar pelo romance A fortaleza dos vencidos, de Nei Leandro de Castro, que abriu novas e graves questões à nossa ficção, seguido de Parnamirim Field, de Lenílson Antunes, o qual explora com humor e abundante informação histórica o episódio da segunda guerra em Natal, além de Memórias de Bárbara Cabarrús, de Nivaldete Ferreira (foto acima), novela constituída de fragmentos que podem ser lidos independentemente do contexto da obra.

A poesia viveu uma de suas estações mais férteis, como o provam títulos como Resina de Diva Cunha, Lábios-espelhos de Marize Castro, Talhe Rupestrepoesia reunida e inéditos, de Paulo de Tarso Correia de Melo, Dança em seda nua de Lívio Oliveira, Antielegia para Emmanuel Bezerra de Jarbas Martins e, mais recentemente, Almas nuas de Zedelfino. Esse conjunto de obras, apesar de exibir nomes dos mais importantes da nossa poesia contemporânea, apresenta um viés preocupante na medida em que carece de nomes novos, tirante o de Zedelfino, que goza da condição de poeta bissexto.

A literatura de viagens apresentou pelo menos dois títulos dignos de menção: Portão de embarque II – Portugal, de Manoel Onofre Jr., e Pelas ruas de Havana, de Rubens Coelho.

A crônica foi destaque com Na outra margem, o amanhã, de Cláudio Emerenciano, enquanto a história literária ganhou três trabalhos arrojados: Jorge Fernandes, o viajante do tempo modernista, de Maria Lúcia de Amorim Garcia, Belle Époque na esquina, de Tarcísio Gurgel e Geringonça nordestina, a fala proibida do povo (em 2ª edição) de Geraldo Queiroz.

Na área do conto, tivemos a revelação de Públio José, com Contos. Porque conto, e de Lima Neto, com Um conto em cinco vozes; tivemos ainda Lápis nas veias, minicontos de Clauder Arcanjo, Tempo de estórias de Bartolomeu Correia de Melo, e o nosso Colóquio com um leitor kafkiano.

Visto esse breve panorama, parcial e pessoal, poderíamos afirmar que a literatura norte-rio-grandense deixa 2009 com um saldo positivo, observada a ressalva já referida, tanto no gênero de ficção como no de não ficção.

Comentários fechados.

AGENDA

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    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

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  • Rede Cinemark exibe direto de Londres a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House

    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente