Bálsamo e ébano

Carlos Gurgel
Destaque

a melodia penetra a noite. como uma luneta. uma chuva de recados e deleites. a melodia, amacia a vida. tão bruta e cruel. a música da melodia é uma noite que não tem mais fim. como um bálsamo, que nos traz um escuro raro couro de um repique do morro. tudo tão noturno e precioso. como seus olhos de gato. abancado no meio da favela rei do seu farelo indigesto e lancinante. afinando seu refinado som. como uma espécie peripécia de malandro sonhador. como uma alfazema onde seu perfume embriaga loucos de hospício e da dor de se perder um amor a cada instante. como a paisagem de uma passagem de uma passista mulata que entorta o trânsito do coração que não para de bater, paixão nacional. breque moleque. tantos e tantos mais instrumentos de uma cozinha tropicalista que se vai. como um ataque de sambas, refinados remelexos da sua criação tão única e classisticamente temperada, acabada. esse menino do pastoreio de um chão que vibra liberdade e beleza, sempre foi um mestre, um precioso protagonista de uma genuína obra da cultura contemporânea brasileira. como um atabaque que escorre suor e se lambusa pelas escorregadias estreitas velas, vielas, quitandas dos morros por onde ele andou e amou. a carne da sua voz que sempre no íntimo de cada ser que ama, se prolongará como um pássaro liberto dos nossos caos e cios, por cima de tapumes, biroscas, que tais. malandro do morro ressuscita.

levanta a mão e colhe com o coração mais uma canção. sabe a sábia fonte por onde começa os caprichos da melodia. sabe o sábio recado a ser dado, costurado, maturado. dádiva que se espalha sem lenço e sem consentimento. nas suas nuas ruas ladeiras e suingues a alma que adormecida estava se redimensiona, expulsa como um ser com a dor de cada suburbano hóspede, sua canção preferida. sua imensa avenida recheada de buquês que aos poucos embriaga os semáforos de uma vida vã. avenida vazia agora. pontos dos encontros, vazios, agora. mesas de bares que lacrimejam o irrepreensível e contundente manual de sobrevivência de uma poesia mulata, bela pela natureza de um terreiro em transe. que bela de uma obra esse moleque nos deixa. diz o tempo para nós. refinamento de um compasso transversal. de uma composição que beira o mar de se estar vivo com uma dose de pileque na esquina do subúrbio, e do eterno namoro tão ouro de tudo que reluz o canto de um novo tesouro. alambique de cor, acordando a pele de toda e qualquer circunstância preciosa. recado de quem nunca deixou de sambar na avenida do seu repertório tatuado de impressões geniais do nosso tempo temporão. ele leva violão, cerveja, suas mulheres mais que apaixonantes e quase tudo de nós. preferível que nós fôssemos também. ( nós já fomos faz bom tempo ) e assim entre pálpebras de um palanque vazio, a vida está tão nua. dilacerada. como uma melodia assassinada e inocente. como uma cortesia dos seus pares de tímpanos raros e tão inesquecíveis cantos. lamento do peito, cimento da raça. praça abandonada sem nenhum boêmio e cidadão. luis melodia se foi ? estácio, holly estácio…

Share:
Carlos Gurgel

Comentários

1 comment

Leave a reply