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Bate coração!

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Réparer les vivants é o título do 8º romance da autora francesa Maylis de Kerangal.

Publicado em 2014, colecionou diversos prêmios pela reflexão levantada entre a vida e a morte, focando no transplante de órgãos. A pesquisa aguçada feita por De Kerangal o levou a arrematar o Wellcome Book Prize de 2017, prêmio britânico concedido a romances que empregam assuntos relacionados à saúde e à medicina, quer sejam tramas de ficção ou não-ficção.

Em 2016, a cineasta Katell Quillévéré adaptou o livro para o cinema, mantendo o título original. Por fazer entender que se o cérebro morre para alguém, seu coração pode vingar outro cérebro cujo coração está adormecido, ganhou uma indicação a Melhor Roteiro Adaptado, no César 2017, e a Melhor Filme, nos Festivais de Veneza, Valladolid e Gante de 2016.

No Brasil, o filme foi traduzido como Coração e Alma, com estreia no 8º Festival Varilux. asaude2

A trama mostra o adolescente Simon Limbres que, após surfar com dois amigos, sofre um acidente de carro na volta para casa e chega ao hospital em estado de coma. O quadro clínico evolui rapidamente para morte cerebral e seus pais, em meio ao luto, precisam decidir se farão uma doação de órgãos. Então, Claire entra em cena.

Claire é uma mulher de meia-idade, divorciada, com dois filhos um pouco mais velhos do que Simon, e lésbica. Seu coração não funciona direito há três anos e o marca-passo já não é mais confiável. Ela tem a mesma sede de viver de Simon (perfeito o paralelo traçado entre a gana de Simon para conquistar Juliette, num flashback, e depois o esforço feito por Claire apenas para rever Anne, sua antiga parceira, de quem escondeu o problema cardíaco), e receber o coração dele é sua chance de recomeçar, embora a cirurgia seja de risco.

Quillévéré acerta em constantemente linkar vida e morte/morte e vida, desde a sequência do surf (onde se percebe a excitação e o medo dos rapazes com a água) até nas atitudes racionais dos médicos (mantendo-se serenos perante a morte cotidiana para fazer entendê-la aos neófitos, enfatizando a importância da doação de órgãos), no luto que reaproxima os pais de Simon, e na esperança temerosa dos filhos de Claire.

Conduzir cenas emotivas com sobriedade também é outro ponto a favor de Quillévéré. Por isso, a opção por detalhar as cenas de cirurgia, beirando o documentário, ajudou a torná-las verossímeis.

Se a alma parte e o coração fica, deixa o coração bater porque, como diz a música, “o que se leva dessa vida, coração, é o amor que a gente tem pra dar”.

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Milena Azevedo

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