Beijos de Emergência – um filme de Philippe Garrel

Marcos Aurélio Felipe
AudiovisualDestaque

“Entre o documentário e a ficção, o bruto e o codificado, os riscos e os dispositivos… há sempre um curto-circuito, atalho surpreendente, impureza […] Os grandes filmes franceses são sempre mais ou menos documentários sobre o estado do material a ser filmado, sempre uma operação em dois tempos, dialética”
(Serge Daney)

Desta vez, Philippe Garrel foi longe demais!

Antes de tudo, abro e fecho um parênteses: o ator Louis Garrel, mais conhecido do público do que o próprio pai-diretor, não estreou diante das lentes de Philippe Garrel em Amantes Constantes (2005), quando finalmente o diretor francês pós-Nouvelle Vague chegou aos olhos dos cinéfilos brasileiros. Beijos de Emergência (Les Baisers de Secours, 1989) foi o seu debut, quando tinha por volta dos 6 anos e incorporou o menino Lo. Estreou, assim, no cinema, especialmente sob a direção de Philippe Garrel (o seu pai), interpretando a criança, singela e inocente, Lo – de Louis (afinal, ele mesmo), pois Lo, enquanto contração de Louis, interpretava a si mesmo. Para ele, certamente, a separação entre vida e arte (o que é isso?) não havia. Era filho de um pai cineasta e de uma mãe atriz, além do avô ator, que no filme fazem – todos – os seus papéis da “vida real” (o que é isso?). Isso, o real, a verdade da vida, da realidade, é questionado pelo próprio Philippe Garrel (ou melhor, pelo personagem que o cineasta, agora ator no filme, mas cineasta enquanto personagem, interpreta com o nome de Mathieu), quando interpela a atriz Anémone (que assume a roupagem de uma atriz chamada Minouchette – como ela Anémone na “vida real”, igualmente, atriz) quanto a sua pretensão de querer, enfim, alcançar a verdade de uma personagem que, de fato, existe na “vida real”, apenas por existir enquanto personagem real (ou mais precisamente, na ficção em tela). Mas o que é a verdade, questiona Mathieu? O que existe é apenas a verdade do filme.

De fato, Philippe Garrel foi longe demais!

Não porque faz aqui um filme autobiográfico, como são quase todos os seus filmes. Dizer isso é, praticamente, ulular o óbvio …. para quem viu, e é o que basta para concluir que, apenas as obras dos anos 2000 para cá que são o bastante para perceber essa conotação biográfica, autoficcional, um cinema de si (como está moda se referir aos filmes nessa vertente) feito por Garrel. É notória a série de referencias ao mundo em que vive Philippe Garrel em cada um dos seus últimos filmes – de personagens fotógrafos à cineastas em atividade, atores e atrizes em busca de trabalho, atuando e em perdição. Sem contar que, em Inocência Selvagem (2001), essa intersecção, pensava eu, tinha chegado ao seu ápice. Lá, no entanto, mas menos do que aqui nestes Beijos de Emergência, vida real e ficcional se misturam de uma forma que confundimos o filme que víamos com o filme que estava a ser rodado no coração da diegese, com os personagens imaginários(?) e reais(?), verdadeiros e fictícios – como “seres da ficção e seres da semelhança, escreveria Jacques Rancière. Mas, ao juntar em um só corpo narrativo a esposa, o pai, o filho e a si (reais e fictícios, isso depois decidiremos), mesmo que, exceto o menino Lo, tenham ganhado outros nomes, Philippe Garrel nos deixa desnorteado.

É o que acontece e se confirma a cada sequência, quando, por exemplo, vemos a personagem Jeanne chamar pelo nome o menino Louis Garrel (Lo, Louis), que, correndo, desaparece entre a relva sob aquela atmosfera da campangne francesa, depois de, juntamente com os seus pais, viajar para a casa da sua avó no interior. O plano é bem aberto, ao fundo a paisagem montanhosa e gelada, percorrendo um caminho: Mathieu, Jeanne, Lo e a sua avó. De repente, o menino corre e é quando a personagem de Brigitte Sy grita e ouvimos: Louis – é, na verdade, o menino Louis Garrel a quem o grito materno tenta alcançar. Mas, nos meandros dessa intersecção entre realidade e ficção, na qual o metafilme ganha mais densidade e complexidade, já ocorre na sequência de abertura – naquele sofisticado plano-sequência em que inicia com Mathieu em um quadro fechado e sobe para capturar Jeanne que adentra no recinto. Depois, praticamente, a câmera fica apenas em Jeanne e no seu inconformismo em não ter sido escolhida para interpretar a si (?) no filme que o seu marido cineasta (Philipe Garrel que no filme faz ele mesmo) irá realizar sobre suas vidas e histórias.

Dessa vez, o cineasta pós-Nouvelle Vague foi longe demais – ou quase!

Beijos de Emergência tem um início bem similar ao Mulheres, Mulheres (1974, de Paul Vecchiali): abre com os créditos sobre fotografias de atores e atrizes. Mas enquanto em Vecchiali as fotografias de cena, retratos e outras são de estrelas do teatro e do cinema, aqui em Garrel a abertura são com fotos de cena e dos personagens do próprio filme que encontraremos em instantes. No entanto, não deixa de ser uma abertura igual – para não dizer idêntica, já que os atores e as atrizes que aparecem são, igualmente, do meio e do universo do cinema. Já na sequencia de abertura, assim como nas sequências de Mathieu com o seu próprio pai, instala-se de forma aguda a confusão entre o filme que assistimos e o filme que farão os personagens, enquanto diretor e atrizes que são, pois, em Beijos de Emergência, estes personagens tem como profissão a direção e atuação no cinema e no teatro, como ator e atrizes.

Recapitulando. Em Beijos de Emergência, o diretor Philippe Garrel faz Mathieu, um diretor de cinema que está prestes a realizar um filme sobre si e a sua esposa. Brigitte Sy interpreta Jeanne, esposa de Mathieu e que, no filme, faz o papel de uma triz de teatro que tenta o papel principal que, em síntese, é ela enquanto personagem de um filme que o seu marido irá realizar. O menino Lo, enfim, é Louis Garrel, aos seis anos, que, venhamos e convenhamos, não interpreta um ser fictício, exterior à sua vida e história, mas ele mesmo em uma simbiose entre realidade e ficção que acomete todos os personagens, que fissura a diegese, paradoxalmente, quase documental. O velho Maurice Garrel, que, na “vida real” e na ficção em curso, é ator, faz o pai de Mathieu, ou seja, interpreta a si como interprete de si fazendo o papel de ator e pai do seu próprio filho na vida real. Na sequência em que, em uma mesa de café, diz a Mathieu que não interpretará o personagem por ser um personagem secundário – “Um tipo interessante, mas não desenvolvido, que logo são sacrificados pelas estrelas por serem personagens pequenos”, logo rebatido pelo personagem de Garrel que sugere-lhe que então interpretasse Don Ruan, foi na verdade quando caiu a ficha da natureza perturbadora e instável do corpo narrativo, híbrido e movediço, de Beijos de Emergência.

FOTO3

Sejamos claros: Philippe Garrel foi mais longe do que pensávamos.

Claramente, em Inocência Selvagem e À Sombra de uma Mulher (2015), o metafilme é concreto, visível e material – vemos, em ambos, filmes serem rodados dentro do filme que assistimos. No primeiro caso, uma ficção biográfica (para o personagem diretor – mas resta saber se também para o diretor que está no antecampo, como diria Jacques Aumont, da imagem); e, no segundo, um documentário sobre a Resistência Francesa na Segunda Guerra Mundial. Em Beijos de Emergência, o que há é a anunciação de um filme que será realizado e, em confluências, os desgastes profissionais e amorosos que envolvem, sobretudo, Mathieu e Jeanne. Quando Jeanne, na sequência de abertura, questiona porque o papel da sua vida não será interpretada por ela própria; quando se desloca à residência da personagem de Anémone e tenta obrigá-la a desistir do papel para o qual foi convidada a assumir; e, no momento que, no tablado e nos bastidores do teatro, respectivamente, ensaia e conversa com uma colega sobre a questão pessoal; o filme que o tempo todo está sendo tematizado em Beijos de Emergência é, na verdade, a obra que assistimos – dirigida e interpretada por Philippe Garrel, por Brigitte Sy, Anémone, Maurice e Louis Garrel.

Sejamos claros: Philippe Garrel nos entregou um embuste momentâneo e aparente.

A partir de um quadro mais primitivo e do uso mais aberrante da fotografia – especialmente, na explosão dos brancos a invadir a imagem, diferentemente da janela em scope, naturalmente, mais expansiva e do preto e branco mais equilibrado de O Ciúme (2013) e de A Fronteira da Alvorada (2008), Beijos de Emergência se assenta as suas imagens. O que, a cada cena e plano, aparece e figura na imagem, por exemplo, em todas as passagens de Jeanne no âmbito familiar e profissional, afinal de contas, como lhe diz Mathieu, o filme será sobre ela, o que vemos é o que a poética de Philippe Garrel diz que não veremos. Portanto, o que se apresenta como imagem, plano, cena, personagem e história é a imagem, plano, cena, personagem e história que anunciam que não se transformarão em filme. Nessa empreitada já familiar (exceto a sua mãe que, aqui, é interpretada por Yvette Etiévant), Garrel nos coloca em meio a um jogo fascinante que, ao confundir ficção e realidade, ao mesmo tempo, deixa-nos confusos em relação a imagem para a qual olhamos – como se o processo narrativo fosse, de fato, o que estivesse sendo construído e narrado – enquanto objeto e sujeito a um só tempo. É nesse contexto que a sequência final, quando Jeanne e Minouchette se encontram na estação do metrô (sem que esta última veja a primeira), torna-se um enigma, pois, da mesma forma que Jeanne chega a estação, segurando um jornal (ou revista) e se senta, vemos junto com a personagem de Brigitte Sy a personagem de Anémone chegar à mesma estação, segurando um jornal, sentar-se e depois partir.

O filme dentro do filme, enfim, tinha começado a ser rodado!

Fim

Share:
Marcos Aurélio Felipe

Comentários

Leave a reply