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Sobre o Belo Bafo da Boca, organizado por Carlos Gurgel

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Fotos: Eduardo Alexandre

Não deu para ir a todos os eventos de quarta-feira, 14, em comemoração ao Dia da Poesia em Natal. Os que aconteceram durante o dia eu faltei por conta do trabalho.

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Poeta Regina Azevedo

Na quarta à noite estavam programados dois saraus, no Bardallos, do pessoal do Insurgências Poéticas (Felipe Nunes, Rozeane Oliveira, Thereza Nunes e Thiago Medeiros), e na Pinacoteca, o Belo Bafo da Boca, organizado pelo poeta Carlos Gurgel.

O de Gurgel reuniu os poetas locais Regina Azevedo e Marcos Cavalcanti, a pernambucana LuNa Vitrolira, o cearense Mardônio França, o piauiense Lucas Rolim e a cantora e compositora Joana Knobbe. A poeta Fulô du Agreste estava na programação, mas não pôde participar.

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Poeta Mardônio França, editor da revista Corsário

Eu achei que daria para ir aos dois porque o de Gurgel estava programado para começar mais cedo. Só que atrasou e se estendeu até às 23 horas, o que acabou inviabilizando minha ida ao Bardallos.

Eu amei o sarau de Gurgel. Uma lindeza só. Ele tem uma sensibilidade ímpar para fazer esse tipo de evento. Não apenas entende do riscado, mas junta as pessoas certas. É um agitador cultural nato.

Acompanho a trajetória dele há muitos anos, trabalhamos juntos na Fundação José Augusto. Ele tem buscado fazer, enfrentando dificuldades e incompreensões enormes, alguma coisa por nossa poesia. E tem feito, apesar de tudo, e da falta de reconhecimento. Conta com meus respeito e solidariedade.

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Poeta Marcos Cavalcanti

Uma das características desta segunda edição do projeto foi a variedade de dicções poéticas. Isso chamou-me a atenção e enriqueceu o sarau. Sobretudo entre os trabalhos de Regina e de LuNa, distintos, mas de certa forma complementares.

No encerramento, conversei com Gurgel e sugeri algumas mudanças para o próximo. A primeira com relação ao local. Não tem condições de ser realizado naquela sala da Pinacoteca, é uma sauna. O calor incomodou todo mundo. Teria sido melhor fazer no pátio. As outras são diminuir o tempo de apresentação biográfica de cada poeta e começar mais cedo, às 19 horas.

O sarau ainda me proporcionou uma surpresa muito boa. A apresentação de Joana Knobbe. Fiquei pensando, como é que eu ainda não conhecia o trabalho dessa artista? Poxa, que coisa bacana ela faz juntando música e poesia. Fiquei encantado.

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Poeta LuNa Vitrolira

Outra coisa que gostei foi da edição arsenal do livro “Passional”, de LuNa. Ela me falou que a mãe ajuda-a na confecção dos exemplares. Muito simples, com capa em papelão, mostrando que é possível imprimir com poucos recursos.

Selecionei um poema de cada poeta que participou do sarau. Confira abaixo.

CREDO
LuNa Vitrolira

Eu acredito no amor
de porta de banheiro de muro pichado de acento de ônibus
de alto de prédios de orelhão quebrado

No amor que singra as pontes do Recife ao meio dia
que corre pra cruzar a rua
driblando buzina no meio da vida
no amor que xinga e colhe uma flor
corresponde um aceno

acredita em destino e acaso
ama e odeia ao mesmo tempo
Eu acredito no amor de Eurídice e Orfeu
no amor que desce ao inferno e volta de mãos vazias
no amor de Medéia, de julieta e no meu
que não ultrapassa o clichê de um sonho de padaria

Eu acredito no amor de uma criança
por seu cachorro e seu boneco
sem fazer distinção de afeto, porque em ambos lhes cabe vida
no amor pelo feio, pelo disforme, pelo que é ignorado
no amor que zela e machuca com veneno e cuidado
Eu acredito no amor de Nena por sua bodega

no de Deja por seu Jardim no de Seu Castelo por sapos

no de Dona Chocha pelas roupas e no de Angela por seus gatos
acredito no amor que corre as ruas da minha infância
no amor que dá bom dia
que ajuda uma velha a segurar sacolas

ou no amor que empresta seu ombro como guia
pra atravessar o delírios das horas mortas
acredito no amor da minha mãe por mim e
mais ainda pelo vício de cigarro com coca-cola
no amor que acontece nos becos, as escuras, sobretudo
e todo amor que nasce proibido e permanece clandestino
a espreita pra quem sabe se tornar público
no amor de duas vulvas
no amor entre dois falos
no amor que se embaraça
e serena pra findar grisalho
no amor que não tem número
que geme, rosna e grita
vulnerável, enciumada

infiel e homicida
de posse e possessão

amor que supera as distâncias
da convivência
que muda de calçada nas brigas
e se mostra mais amor em complacência
e não sucumbe aos apelos da liberdade ou de uma prisão
amor de banco de praça
que desalinha

mas depois entrelaça
amor que se despede
se desespera
se despedaça

amor que não cabe num ínfimo segundo em que a morte o assalta

***********

NÃO EXISTEM PORTAS NESSA CASA
Regina Azevedo

Um dia estive na estrada esperando o futuro

E descobri que o amor se acaba aos poucos
como o derradeiro farelo da Terra na boca de um jacaré

E isso dói como dói uma cascata
direto nas costas castigadas de um povo

Mas é assim que caminha o mundo: numa corrida

Em uma hora alguém chega e há uma reviravolta de 360 graus
e sua pele 40, 50, mais que o Rio de Janeiro
E nunca se sabe de onde vem aquela pessoa com quem nunca você sonhou
mas estará ao seu lado daqui a 5, 10
ou mil anos num túmulo de pedra

Também não se sabe a porcentagem de tempo
em que caminharão juntos
Nem se você estará ao lado de um assassino, poeta ou vendedor de salgado
desses que ficam horas na cozinha e quando se deitam na rede
têm cheiro de empada de camarão e você cheira e que delícia

Mas o amor se acaba aos poucos
E é preciso sempre esquecer isso
para que haja amor,
para que haja começo

*********

Lucas Rolim

lições sobre o silêncio

para Demetrios Galvão

 

o poeta me disse

 

que o silêncio é uma lição valiosa.

que na pressa do mundo não cabe a poesia

& que a natureza tem múltiplos disfarces,

mas um único gesto para a liberdade das aves.

 

o poeta me disse

 

que este mundo anda viciado nas próprias sombras.

que a língua dos homens é uma lâmina de ódio

& que da areia que cobre os sentidos

brota uma paisagem arcaica de cactos raivosos.

 

o poeta me disse

 

que um dia também cultivou na pressa sua voz,

mas um calendário de vazios o puxou pelos cabelos

& lhe mostrou que nas pedras do caminho

habitavam ensinamentos perdidos.

 

o poeta me disse

 

que o ato da paciência evita golpes imprecisos.

que é pela visão que a sabedoria primeiro se achega

& que o peso do voo é mais leve que a pena

que empluma o olho do vidente em seu sonho.

 

o poeta me ensinou

 

que na peregrinação há riscos muito maiores,

mas que somente assim é possível aprender o tempo

& voltar-se mais vivo à bagagem de afetos.

***********

Mardônio França

sem use – abuse da poesia
avise qdo chegar
q vou preparar a trança do sonho
vou trazer o brilho do particípio e desafiar o tempo
avise qdo será o dia a partida e o caminho
qdo os pássaros serão libertados
os meninos sírios poderam andar livres nos parques de paris
os nigerianos brincaram com barquinhos de papel em veneza
os fugitivos da guerra da seca do norte do brasil terão
terra, água e plantio
avise qdo o dia, e ele chegará

não vamos duvidar de darwin, de salvador dali e de dom sebastião
dom dom dom sebastião
que chega com peter parker dançando toda a relva do mundo
no sarapintar no meio do bloco de carnaval do benfica
vem e fica no meio do nada desafiando o sal e o sol
vem e chega perto, desliza no meu peito
mordisca meu coração infiltrado e saltimbanco
vem desliza na praia na raia do mundo na saia do vento
vem participa da alegria com o punhal e a poesia
arma paixao, coroado movimento nas ruas
distribuídos flores astrais & canções de amor
viola veleiro canção do tempo.

**********

Marcos Cavalcanti

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Tácito Costa

Comentários

1 comment

  1. Carlos Gurgel
    Carlos Gurgel 17 março, 2017 at 19:46

    são de palavras assim que um sarau se constrói. são de palavras assim que o coro do sarau se forma. como uma fome de palavras que se espalham e desperta o tempo de todos nós. são de versos assim que a vida suspira, inspira, respira. assim, sem tempo para pensar e parar, prosseguimos. você não tem ideia poetamigo Tácito Costa, o valor que suas palavras tem para cada um de nós. nossa voz, nosso verbo: muitíssimo obrigado !!!!!

    Cgurgel

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