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“Bença”

ruas de natal

A rua me assusta e me fascina.

Enquanto desço a ladeira da Avenida Câmara Cascudo, um grupo de meninos fardados, se amontoa numa calçada. Um valentão dá repetidos socos no braço de um outro, acuado. São uns seis rapazotes. Talvez 13, 14 anos. O que eu posso fazer? O que apanha, quando percebe minha preocupação silenciosa, ri como se estivesse aguentando firme o gestos sistemáticos do “bullying” moderno. Desço a ladeira,  os calcanhares pesados, ante minha tentativa de ficar indiferente ao menino-espelho, que leva socos da vida. Todos nós, cada um de nós, já esteve nos dois lados daquele canto de muro.

Bom dia, bença, pessoal. Eu estou aqui, bença, trabalhando, pessoal. Em nome de, bença, Jesus. Oferecendo esses produtos ao preço de, bença, dois reais que, se você estiver comprando, bença, vai estar ajudando a Casa Leão de Judá, que trata, bença, de independentes químicos. Eu sou natural, bença, do estado de João Pessoa, na Paraíba.

A apresentação acima parece surreal para você que anda pelas ruas de Natal (em cuja estação é agraciada com um sol e um segundo sol de assistente) no seu carro, com os vidros fechados por causa do ar-condicionado? Não é surreal para mim. Foi hoje cedo, pela manhã. Aconteceu mesmo. E, acredite, a quantidade da palavra “bença” disposta no período acima não foi a metade do que o rapaz baixo de olhos esverdeados e tez morena, vendedor ambulante de balinhas e chicletes e canetas de qualidade duvidosa, possuidor do cacoete mais incrível que eu ouvi nos últimos tempos, proferiu. Sua estratégia de marketing envolve, primeiramente, chegar falando em nome de Deus. E, convenhamos, quando estamos diante de um procurador de Deus, ficamos embaraçados em nos sentir incomodados com a oferta de qualquer produto. Em seguida, ele explica que está ali representando uma casa de tratamento de (in)dependentes químicos, mantida por doações e tals – cujos números de celular dispostos na camiseta que usava, estão sempre desligados, caso o curioso queira averiguar, como foi o meu caso -, além de falar aleatoriamente versículos da Bíblia, fazer sutis e subliminares ameaças aos passageiros sobre sua vida pregressa e de ser “ex-drogado, ex-traficante, ex-matador de aluguel” e que agora está no caminho do bem e, claro, falar “bença” no meio das frases, de maneira tão orgânica e natural quanto o ato de respirar.

Confesso que não comprei o kit balinhas e caneta e, por alguns miligundos, me afligiu a ideia de Deus ficar zangado comigo, porque não dei pelota para seu procurador. Mas aí, me distraio, observando uma plantinha. Dessas que não damos muita importância, que conseguiu brotar e ramificar nas paredes do muro inclinado da minha eterna ETFRN. E eu penso – antes de ser distraída desses pensamentos, por um jovem alto e musculoso, cantor e ao mesmo tempo vendedor de seus CD´s com composições próprias, e cuja voz é um misto de leandro e Leonardo com Zezé di Camargo e Luciano, que entra no ônibus logo em seguida daquele outro – que cada um de nós, de alguma maneira, na vida, já teve que brotar nos sulcos das paredes de alguma situação dura e plana. A vida, assim como a rua, me fascina e me assusta.

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Sheyla Azevedo

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