Berlim e o Champanhe do Norte

Breno Machado
GastronomiaMais

Chamada por Napoleão Bonaparte de Champanhe do Norte, cerveja Berliner Weisse é ácida e frisante, resultado da adição de lactobacilos às leveduras na fermentação; cervejeiros gaúchos da Perro Libre elaboraram variação refrescante, leve e aromática.

Imagem de capa: Paysans au bistrot (1923), de François Louis Jaques

William Hogarth_Beer_Street

Napoleão Bonaparte chamou a Berliner Weisse de Champanhe do Norte, por sua cor, acidez e baixo teor alcoólico. Ilustração: Beer Street, de William Hogarth.

Confrade, acho que você vai concordar comigo: antigamente, devia ser muito difícil conciliar a vida de expansionista com a de apreciador de bebidas nobres.

Partir para a conquista de territórios sem saber quando retornar para a sua terra natal. E o pior: sem saber se o estoque da bebida preferida que você está transportando será suficiente para a jornada.

Assim foi, apenas para citar alguns exemplos, nos Estados Unidos, quando colonos ingleses anteciparam até mesmo o local do desembarque por receio de acabar o singelo estoque de 40 mil litros de cerveja a bordo.

E também no século XIX, durante a Guerra da Quarta Coalizão, quando Napoleão e o exército francês, saudosos de patrícios espumantes, marcharam para Berlim.

Qual é o jeito? Provar os estoques das bebidas locais.

E qual não foi a surpresa ao encontrarem uma bebida que pelo menos amortizava a saudade, apreciada a ponto de ser chamada pelo próprio Napoleão de Champanhe do Norte? E que essa bebida, na verdade, era uma cerveja ácida, frisante, esbranquiçada e de baixo teor alcoólico?

Hoje vamos falar sobre a Berliner Weisse, estilo que pela descrição pode até assustar – mas acredito que o confrade vai pensar duas vezes antes de recusá-la depois da refrescante, inovadora e brasileiríssima dica que eu vou dar.

La bière blanche de Berlin

Existem basicamente duas características que assemelham a cerveja de trigo originária de Berlim ao champanhe francês (se o confrade faz lição de casa, já pescou o significado de Berliner Weisse).

A primeira é a sensação na boca, ácida e frisante, que a faz parecer uma bebida feita de uvas Epernay – mas na verdade é apenas o resultado de uma fermentação láctica; em resumo: adição de lactobacilos às leveduras na fermentação da cerveja.

E a segunda característica é que, tanto a Berliner Weisse quanto o champanhe, em suas formas brutas podem ser… digamos…um tanto intragáveis!

BXNYX2 wine cellar door shows display of wine and champagne bottles

Cerveja de trigo de Berlim e champanhe francês causam sensação semelhante na boca, (ácidos e frisantes) e em suas formas brutas podem ser intragáveis.

Basicamente, é um estilo de cerveja considerado ácido demais para o paladar iniciante. Chega a travar seco na boca, de verdade.

Tanto é que até mesmo na Alemanha a bebida costuma ser servida com xarope de aspérula, conhecido como Waldmeistersaft; ou de framboesa, chamado de Himbeersaft, para tornar a experiência mais palatável. Embora eu, particularmente, prefira apreciá-la pura.

Mais com mais dá menos

Agora imagine, confrade, uma cerveja do estilo Berliner Weisse com adição de raspas de limão e o lúpulo Sorachi Ace, consagrado pelo caráter cítrico. Pode parecer exagero de acidez, verdade? Mas não é!

Desenvolvida pela cervejaria brasileira Perro Libre, a Sorachi Berliner é uma receita extremamente refrescante, leve, aromática (o fato de ser vendida em lata ajuda bastante a manter esse padrão) e com a acidez na medida, sem perder a personalidade, como é típico dos rótulos sem coleira da marca.

Cervejaria Perro Libre

Cervejaria gaúcha Perro Libre criou uma receita leve, refrescante, aromática, com acidez na medida, sem perder personalidade.

Notas sobre a Perro Libre Sorachi Berliner

A Sorachi Berliner funciona como um meio-termo no universo das Berliner Weisse: não é uma pancada seca como as tradicionais, nem é o frutadão resultante de adições com xarope.

Mas já serve de parâmetro sensacional para aferir seu apreço por cervejas ácidas. Quem sabe, a partir dela, o confrade não degusta as mais extremas?

E se você é aficionado por espumantes franceses, que tal repetir a napoleônica experiência de fazer um intercâmbio pelos fermentados alemães? Ein prosit!

Já conhece a Sorachi Berliner? Ficou com vontade de conhecer, ou provou depois de ler nossa coluna? Tem dicas de lugares para encontrá-la, ou de alguma harmonização interessante? Não deixe de postar seu comentário neste nosso espaço de divulgação da cultura cervejeira.

Sorachi Berliner Perro Libre

A Sorachi Berliner da Perro Libre (RS) harmoniza com caranguejo, faisão e queijo fresco.

E então, que cerveja é essa?

Nome: Sorachi Berliner

Cervejaria: Perro Libre

País de origem: Brasil

Estilo: Berliner Weisse

Álcool: 3,4% ABV

Temperatura ideal: 5 – 7 °C

Copo: Taça

Média de preço: R$ 34 – 40 (Lata de 473 ml)

Onde encontrá-la em Natal: pubs, lojas de conveniência e de cervejas especiais.

Share:
Breno Machado

Comentários

Leave a reply