Bibliotecas mais atraentes
29 de março de 2010 às 16:52 - 1 Comentário
Em meio a discussões sobre o futuro do livro frente ao leitores eletrônicos, as bibliotecas se moldam às grandes livrarias e ler já não é a atividade principal dos seus freqüentadores
“É como um Game Boy [videogame portátil], só que para livros?”, indaga Antonio Claudio tentando entender o que é um e-reader. O estudante de 12 anos freqüenta cinco dias por semana a Biblioteca Pública Érico Veríssimo, em Parada de Taipas, na periferia de São Paulo, e desde 2007 anota num caderno escolar os livros que lê, seguidos de pequenos resumos. A lista de títulos é variada, entre eles cinco volumes da série Harry Potter, de J.K. Howling, seis romances de Sidney Sheldon e algumas peças de William Shakespeare. Claudio nunca viu ou ouviu falar de leitores eletrônicos e ao ser apresentado a um demonstrou desinteresse: “Nada se compara a um livro”.
Tratado como prodígio pelas atendentes da biblioteca, o adolescente destoa de seus pares pelo tanto que lê e com os quais pouco tem sobre o que conversar a não ser sobre “os livros da moda, Crepúsculo, Lua Nova, essas coisas”, reclama. Claudio encaixa-se na estatística do Ministério de Cultura, aferida na última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, segundo a qual apenas um em cada quatro brasileiros freqüenta regularmente bibliotecas públicas (uma para cada 33 mil habitantes). Ele ultrapassa no entanto a média nacional de 4,7 livros lidos por ano. “Acho que em dezembro a lista de 2010 terá uns 20”, especula.
Em São Paulo, a prefeitura administra 52 bibliotecas cujo acervo soma pouco mais de dois milhões de livros, catalogados por 277 bibliotecários em atividade. O volume de empréstimos foi de 955 mil em 2009, distribuídos entre os 85 mil usuários inscritos e a lista dos mais retirados iguala-se a dos best-sellers nas livrarias. Na biblioteca freqüentada por Claudio há uma lista de espera com 21 nomes de interessados – já foi de 38 – em ler Crepúsculo, da escritora americana Stephenie Meyer. Os campeões de empréstimos são também os mais furtados ou não devolvidos. Em cada biblioteca da cidade pelo menos vinte livros não retornam às estantes, todo mês.
A imagem austera e sisuda de lugares silenciosos e dedicados à leitura pouco corresponde ao que se vê nas bibliotecas da capital paulistana. A reportagem d’O Estado de São Paulo visitou seis delas. As salas de leitura existem mas não é o principal atrativo. Telecentros com acesso a internet, oficinas de desenho e contação de histórias preenchem uma vasta programação em todas as unidades da rede, municipal e estadual.
Internet. No último sábado à tarde, por exemplo, cerca de 50 crianças estavam presentes no térreo da Biblioteca São Paulo, recém-inaugurada e que custou aos cofres públicos cerca de 12 milhões de reais, onde anteriormente funcionou o presídio do Carandiru. A reportagem d’O Estado de São Paulo abordou 10 delas, das quais apenas duas portavam livros. Pablo Henrique, de 10 anos disse que costuma ir todo fim de semana ao lugar para acessar internet — “atualizar meu Orkut” – e ver filmes. Dois primos, o irmão mais novo e três amigos, todos na mesma faixa etária, deram depoimentos semelhantes. Do outro lado, as exceções. Jenifer e Giovana Marques, irmãs de 9 e 6 anos respectivamente, levadas pelo pai Wagner, corretor de seguros, dividiam-se entre livros de Pedro Bandeira e Ziraldo.
Arquitetada nos moldes de uma grande livraria, repleta de recursos eletrônicos e com uma grade de eventos que inclui shows musicais aos domingos, a Biblioteca São Paulo amplia a tendência de transformar as bibliotecas em centros de eventos relacionados à leitura (palestras, saraus, oficinas, seminários) e não somente dedicada ao ato em si. É a única na cidade que disponibiliza um Kindle para uso dos freqüentadores. O uso do aparelho é raro, mais por curiosidade que por hábito.
Anna Duckworth: uma relação de amor com os livros
Anna Duckworth, 61 anos, bibliotecária da rede municipal desde 1978 – a mais antiga em atividade – percebeu a mudança de foco nas bibliotecas brasileiras mais fortemente no começo dos anos 2000. Durante o mestrado que realizou no Simmon’s College, em Boston, no começo da década de noventa, e como estagiária de duas bibliotecas americanas ela já havia testemunhado a guinada fora do país.
“Eu acho que é a única maneira de despertar o interesse de novos e potenciais leitores. Foi-se o tempo em que um estudante ia a uma biblioteca fazer pesquisas. Isso eles podem fazer na internet. Contar histórias, envolver os potenciais leitores com coisas relacionadas ao livro pode ser a nossa tábua de salvação”, diz Anna, que hoje se dedica a pequenos eventos na Biblioteca Belmonte, em Santo Amaro, zona sul da capital, e diz não acreditar que a tecnologia dos leitores eletrônicos possa suplantar o uso do livro físico a curto ou médio prazo. “Talvez em cinqüenta, sessenta anos. Até pelo acesso que é restrito. Essa onda vai demorar a se espalhar até a borda”, sentencia.
Lá fora, enquanto a discussão livros x tecnologia incendeia debates entre leitores, mercado e editores, as bibliotecas seguem a marcha da mudança. Na Inglaterra, o governo investiu no último ano cerca de 193 milhões de libras, aproximadamente 900 milhões de reais, na reforma e construção de novas bibliotecas nas cidades de Birmingham, Cardiff, Newcastle e Swindon. Todas dentro do padrão das superbibliotecas, equipadas com cafés (filiais da rede Starbucks), teatros, cinemas, auditórios e centros de informática.
Apesar da tendência acima mencionada, ainda é possível encontrar estudantes nas bibliotecas paulistanas, a maioria dedicada ao estudo em grupo, quase nenhum a pesquisa nos moldes antigos de consulta a enciclopédias e almanaques. “Durante dois anos estudamos todos os fim de semana aqui (Centro Cultural São Paulo) mas agora estamos de mudança para a do Carandiru”, contou Jaqueline Brasileiro, 24, que com mais quatro colegas de faculdade optou pela mudança ao saber que a Biblioteca São Paulo é mais iluminada, espaçosa e dispõe de um café e acesso a internet em maior quantidade de computadores.
“As bibliotecas sobreviverão. Para vários fins além de ler literatura. Estudar, encontrar pessoas, ter acesso a informação, do modo que cada uma delas achar conveniente aos seus freqüentadores”, diz Anna Duckworth, que acredita ser essa a melhor – única? – maneira de confrontar o desinteresse pelos locais e a chegada de recursos tecnológicos para a leitura. Antonio Claudio, em Parada de Taipas, dá de ombros e confessa freqüentar a biblioteca do bairro por prazer, “mesmo que eu seja o único na sala de leitura nos próximos anos”.
Bibliotecas no Brasil
Uma biblioteca pública para cada 33 mil habitantes
300 municípios brasileiros ainda não dispõem de bibliotecas
No estado de São Paulo elas somam 720
Existem 52 mil bibliotecas escolares no país, 2.200 universitárias
(Reportagem publicada no jornal Estado de São Paulo – 28.03.2010)


1 Comentário
Interessante essa matéria.
Me pergunto, quando, no Rio Grande do Norte, teremos uma biblioteca de vergonha, bem cuidada e que seja, também, uma opção cultural para o Estado?
O que é mais triste é que, da última vez que fui la na Câmara Cascudo (Há uns 6 meses), os funcionários me disseram que estavam começando a digitalizar o acervo no único (!) único computador que tinham.