Livro: A reinvenção de Malcolm X

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Com uma retórica poderosa, Malcolm tinha 1,91m de altura e o dedo apontado contra desvios morais, que incluiam traição conjugal, bebedeiras e vergonha contra a cor da pele

Um dos maiores fornecedores de capital humano para a religião como negócio é o submundo do crime.

O sujeito está ali, nascido e criado em meio às labaredas, abandonado por homens de terno e cargos públicos, sem túnel algum no fim da meia luz circundante, até surgir uma voz protetora.

Logo vira presa fácil, massinha de modelar na mão de um enganador profissional.

Burlada todas as regras do Purgatório terrestre, ainda que almas perdidas bradem o nome do Senhor desde as primeiras letras, o nome Dele é mencionado como suprema opção amenizadora do tormento ordinário.

Pois não é comum vermos gente aos berros em prol da Ressurreição pessoal, após um chamado dos céus?

“Deus apareceu pra mim!”.

Incrédulos apostam em picaretagem, mentira braba de um condenado pela lei dos homens.

Já os crentes apregoam o caráter único da fé para amansar espíritos em perdição.

Não raro presidiários aceitam o Evangelho com fervor, assim como um náufrago agarra a última boia.

Talvez seja ali na cafua, onde todos os demônios estão presentes, que Deus enfrente seu maior teste.

O roteiro da vida de Malcolm Little, bandido apelidado de Detroit Red, futuro Malcolm X, tem semelhança com minha especulação momentânea.

Na cadeia, o líder de um movimento nacionalista negro que assombrou os Estados Unidos no começo da década de 1960, conheceu o Islamismo por vias tortas.

Após ser preso mais uma vez por assalto à mão armada, Malcolm conheceu Alá.

Em quatro anos de detenção, consumiu tudo que podia sobre o islamismo.

E iniciou correspondência com Elijah Muhammad, dono e mentor da Nação do Islã, seita que promoveu uma releitura do Alcorão e encantou milhares de negros pobres urbanos.

A Nação era muito questionada por muçulmanos do Oriente Médio e norte da África, mas ganhou força na América dos 60s.

Livre da cadeia, Malcolm foi nomeado ministro da NOI (Nation of Islam) e virou mito.

malcolm-x-2Biografia vencedora do Pulitzer

Para entender a complexidade dos 39 anos vividos por uma das principais personalidades do século passado, Manning Marable escreveu Malcolm X – Uma Vida de Reinvenções.

O catatau deu o Pulitzer póstumo de não ficção para Marable, historiador e professor da Columbia University.

O fato trágico é que o autor morreu dias antes do lançamento do livro, em 2011.

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Manning Marable morreu dias antes do lançamento do livro vencedor do Pulitzer de Não Ficção em 2012

Nas mais de 600 páginas, se revela na origem paterna, na Georgia pós-escravagista, a transfusão de ideais do ativista jamaicano Marcus Garvey para o filho.

A história hipnotizante contada por Marable mescla o melhor do jornalismo investigativo com talento literário.

Malcolm era uma figura imponente.

Tinha 1,91m de altura, era bonito, dono de uma retórica poderosa, virulenta contra qualquer desvio moral, que incluía traição conjugal, bebedeiras e vergonha da cor da pele.

Em pouco tempo, ganhou as manchetes.

Menos de dois anos se passaram para o marginal violento, terror nas ruas da Cidade do Automóvel, conquistar seguidores e respeito.

Mas a atenção conseguida para a causa da Nação do Islã fomentou a inveja dentro da organização.

Conflitos internos com os demais chefes ligados a Elijah registram alguns dos principais capítulos desta biografia.

Um deles ocorreu durante uma das viagens de Malcolm ao Oriente Médio.

Malcolm X foi o último a saber?

O complô que culminou em sua morte por fuzilamento durante um culto começou com a desconstrução de sua imagem ‘viril’.

E, para o propósito, naquele universo peculiar, nada mais grave do que fofocar sobre a infidelidade da mulher de Malcolm.

Black Muslim leader Malcolm X holds up a paper for the crowd to see during a Black Muslim rally in New York City on Aug. 6, 1963. (AP Photo)

No dia 06 de agosto de 1963, Nova York viu um Malcolm X inspirado; a mesma cidade seria palco de seu fuzilamento, pouco mais de um ano depois. Fotografia: AP Photo

Aliás, fofocar não, debochar em público, em um templo lotado no Harlem.

Foi o que fez um desafeto, mancomunado com parte da alta cúpula da Nação do Islã, ansiosa pela cabeça do líder mais carismático.

Foram inúmeras humilhações e puxadas de tapete.

A maior delas o relaxamento das medidas de segurança adotadas nos cultos.

A falha seria fatal para Malcolm, voz explícita da raiva nos guetos das metrópoles americanas.

Isso reforça a tese de complô generalizado, entre a Nação e o Governo, a CIA e o FBI.

Se a biografia de Malcolm X é conhecida por meio mundo, o que Manning Marable nos oferece vai além, como prova de sua exaustiva perseguição em busca dos detalhes de uma figura trágica e fascinante.

Se Martin Luther King simbolizava a classe média e os da grana de Atlanta, Malcolm Little abandonou a escola sem concluir o Ensino Médio.

A universidade foi a colônia penal.

Adquiriu poder bruto para influenciar jovens negros a sentirem orgulho de própria cultura e história.

De quebra, o livro apresenta a complexidade de um país causador de tanta repulsa e admiração.

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