Biografia tenta explicar o fenômeno Saramago

20 de junho de 2010 às 11:03 - Comentar
Por Nelson Patriota

Conhecido principalmente por não recuar diante de posições e ideias controversas, largamente exploradas em seus livros, o escritor José Saramago ganha agora uma biografia que ajuda a entender um pouco da atmosfera de polêmica e radicalismo que cerca seu nome e sua obra, não obstante a aparente unanimidade em torno desta, desde que recebeu premiações maiúsculas como o Camões (1995) e o Nobel (1998).

Intitulado apenas “Saramago – biografia”, o livro é assinado pelo experiente escritor português João Marques Lopes, com trabalhos publicados sobre Almeida Garrett, Eça de Queirós e Fernando Pessoa, e doutorando em Literatura Brasileira pela Universidade de Utrecht, na Holanda.

Escrita de forma cronológica, a biografia parte das raízes familiares de Saramago, fincadas na sua Azinhaga natal, “uma aldeia perdida no meio do Ribatejo”, que poderia muito bem ter saída de um conto de Miguel Torga. Por essa razão, Lopes não vacila em situar as origens da família do escritor entre os desfavorecidos da sociedade portuguesa, numa época em que a expectativa de vida no país era de 47 anos, enquanto o analfabetismo rondava espantosos 61,8%.

Fato dos mais curiosos cerca a origem do nome Saramago: a alcunha pespegada à família do futuro escritor foi incorporada ao seu nome – ele se chamaria tão somente José de Souza – por iniciativa de um notário “bêbado”, e quando foi percebida, meses depois, seu pai deixou como tal para evitar a canseira do conserto cartorial…

O fenômeno Saramago começa a ser explicado a partir do momento em que a família aldeã resolve se mudar para Lisboa, onda a escola pública findará por atrair o jovem ribatejano, e, em seguida, o mercado de trabalho – inicialmente como aprendiz de serralheiro mecânico, depois como jornalista, editorialista, escritor. A par disso, desde os dezesseis anos, Saramago adota o costume de frequentar bibliotecas públicas em Lisboa.

Esse hábito explicaria como Saramago adquiriu um conhecimento tão sólido da tradição literária portuguesa, notadamente de Eça de Queirós e de Fernando Pessoa. Este, aliás, seria “recriado”, juntamente com seu heterônimo Ricardo Reis, num livro essencial da bibliografia saramaguiana – O Ano da Morte de Ricardo Reis que, juntamente com Memorial do Convento, forma o pilar sobre o qual se assenta até hoje sua notoriedade literária.

Além de acompanhar fato a fato a vida de Saramago, o livro de Lopes traz revelações e curiosidades sobre o escritor, como, por exemplo, sobre seu romance de juventude, intitulado Terra do Pecado, que passou quase anônimo pela crítica, e que o escritor até hoje mantém em seu index prohibitorum pessoal. O biógrafo assim o descrever: “Terra do Pecado vale hoje mais como um exercício de escavação arqueológica no passado do escritor do que propriamente por razões de história literária, ainda que sua arquitetura geral e estilo estivessem longe de ser uma rematada tolice”.

Entre esse primeiro romance (1947) e outros experimentos de juventude e a publicação de Poemas Possíveis (1966), abre-se um hiato de quase vinte anos, no qual Saramago nada publicou. Findo esse hiato, porém, não deixará mais de publicar, e com uma profusão e uma riqueza de assuntos que não tardará a chamar a atenção da crítica internacional, não obstante o fato de ser ainda hoje a língua portuguesa pouco conhecida literariamente fora das fronteiras dos povos lusófonos.

Paralelamente a essa regularidade criadora, Saramago chamará a atenção sobre si por abraçar ideias controversas, como o iberismo – integração de Portugal à Espanha, seus reparos à democracia, como no romance Ensaio sobre a cegueira, seu comunismo “empedernido”, sua crítica ao totalitarismo sionista, sua recusa a certos conceitos literários em voga, como a autonomia do narrador.

Entre o escritor e o polemista, a biografia de Lopes oferece um rico painel de uma personalidade fascinantemente criadora, em torno da qual não costumam haver meios-termos, mas cuja obra ostenta um relevo inconfundível no arquipélago da língua portuguesa contemporânea.

No dia 18 último, essa biografia virou sua última página, com o anúncio da morte do grande ficcionista português, orgulho da língua portuguesa. A partir de agora, caberá aos leitores manter vivo o legado que José Saramago deixou a eles, lendo-o, comentando-o, discutindo-o. Considerados os parâmetros usuais de avaliação e reconhecimento da obra de arte não há razões consistentes para duvidar da perenidade desse legado.

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    NAN GOLDIN
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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”