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Bipolar sim, e daí?!

Iara_Bipolar e dai

Eis-me aqui, sem vergonha da história que tenho escrito, com vontade de ser eu mesma, porque a bipolaridade não me roubou de mim: me ressignificou, assim como acontece com quem passa por uma doença ou problema grave.

No último dia 30, comemorou-se o Dia Mundial do Transtorno Bipolar, uma data de conscientização acerca deste problema cada vez mais comum entre os brasileiros.

Uma das doenças que mais incapacita para o trabalho, e o transtorno mental que mais mata por suicídio: 15% dos doentes se matam.

Eu me lembro da primeira vez em que coloquei meus pés num consultório de psiquiatria. Foi em 2008 ou 2009, não me recordo bem, só sei que comecei a lidar com medicamentos e terapia a partir dali.

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“[…] me encontro no quadro de estabilidade emocional mais duradouro que já vivenciei […] ainda estou propensa a flutuações de humor e, se me boto desprevenida, o caos ainda pode se instalar”.

Atualmente, não poderia me sentir mais confortável pra falar sobre assunto, uma vez que me encontro no quadro de estabilidade emocional mais duradouro que já vivenciei.

Não foi fácil chegar até aqui. E sei que os desafios ainda se alargarão pela vida afora.

Mesmo com o tratamento seguido à risca, ainda estou propensa a flutuações de humor e, se me boto desprevenida, o caos ainda pode se instalar. A vigilância deve ser constante.

Intensa, lúdica, melancólica: sinais que me marcaram desde a infância. Com a chegada dos vinte e poucos, o que seria apenas uma personalidade forte, foi, devagar – mas intempestivamente –, cedendo espaço para a manifestação de pensamentos, sentimentos e comportamentos desajustados do que se convenciona chamar de “normalidade”.

Destempero, ansiedade, jeito explosivo, impulsividade, aceleração dos pensamentos, apetite ruidoso (de todo tipo!), melancolia – uma amarga melancolia: pechas que se evidenciaram fortemente, trazendo-me prejuízos de muitas ordens: nas relações interpessoais, no autocuidado, na funcionalidade da vida prática, dentre tantos outros atropelos no meu caminho de bipolar ainda ‘sob ajustes’.

Flutuações de humor

Iara_Bipolar e dai.3Foram vários os médicos, medicamentos então! Fui uma verdadeira cobaia. Mas só assim pude encontrar o esquema de remédios adequado para o meu caso específico.

Não há uma fórmula única quando se trata de transtorno mental. Imagine para o transtorno bipolar, com todas as suas variações, configurando uma doença que, por muitas vezes, ainda é um mistério para os profissionais de saúde.

Não escapei da genética assombrosa que me circunda. Filha e sobrinha de bipolares, o sangue que rola em minhas veias é controverso e já foi motivo pra muita revolta e desolação; hoje me vejo dentro desse caldo denso de possibilidades que se chama vida (ou sobrevida, dependendo da época), o que não me resta muito que fazer a não ser aceitar a condição e encontrar maneiras de conviver com ela.

Aceitação. Autoaceitação. Se teve algo pra mim que foi libertador, foi aceitar o diagnóstico.

E leia-se: aceitar um diagnóstico de uma doença mental não significa torná-lo uma muleta, sobre a qual você põe o peso de suas ações, utilizando o mesmo para justificar atitudes que, muitas vezes, não passam de reverberações de sua personalidade.

Por isso a importância da psicoterapia, que tem me ajudado a perceber as fronteiras entre o que é genuinamente meu, e aquilo que é sintoma da doença.

BipolarDoença mental não pode virar muleta

Hoje eu digo o que sinto e isso é de uma libertação imensurável! Estou viva, bem viva – eu, que já morri tantas vezes. Não é fácil.

Quem viveu ou vive algo parecido, sabe: não é um leão que se tenta matar pra acordar todos os dias. São tantos!

E não é só leão: há os bichos rasteiros e venenosos, aves de esquisita viuvez, peixes de semblante obscuro, etc etc.

É um luta diária de amanhecer com a exigência da coragem e entardecer com a obrigação da vida bem cumprida. Comprida, essa vida, que só aceita o zero, depois dos noves fora.

Minha conta nunca é fechada. Ficam sempre as pendências pra amanhã. E se ele não vier? Sinto muito.

A mim só resta fazer o que me compete para estar aqui o mais plena possível.

E, se isso significa tomar medicação, fazer terapia, estudar sobre minha doença, abrir mão de certos desafios que me tomam mais energia do que tenho, reconhecer minhas fragilidades; então, pronto.

Eis-me aqui, sem vergonha nenhuma da história que tenho escrito. E com imensa vontade de ser eu mesma.

Porque a bipolaridade não me roubou de mim: me ressignificou, assim como acontece com toda pessoa que passa por uma doença ou problema grave, estando disposta a crescer com isso.

Muito mais forte e mais linda eu sou hoje, depois que me vi no olho do furacão, e vivi no fundo do abismo: não garanto para lá nunca mais voltar – essa doença tem suas artimanhas de querer nos dominar de vez em quando.

Após mergulhar no abismo bipolar

Iara_Bipolar e dai.4Mas carrego aqui, perto do coração, uns antídotos muito poderosos que uso rotineiramente e que, em caso de desespero profundo, são acionados em sua máxima potência: abraços largos de amigos e familiares, cheiros no suvaco de filho ao fim da noite em prece, carinho ao pé do corpo e da alma vindo do amor que escolhi pra mim.

Tudo isso, obviamente, aliado ao tratamento convencional, que eu não sou boba nem nada, não me iludo: a química às vezes tá bem errada aqui dentro, tenho que me esforçar pra equilibrar as forças e, pra isso, vale tudo.

Pra quem tem o básico de sua saúde mental ainda preservada nesse mundo onde, rapidamente, tudo que é sólido desmancha no ar, eu convido a se informar sobre o assunto e tentar ter empatia pelas pessoas que carregam um sofrimento como esse, invisível, inaudível, mas rochoso, cruel, de quase impenetrável entendimento.

Pra quem sofre, fica o meu acolhimento, sei o que sente, sei pelo que passa, eu te entendo, eu te abraço, você é importante, suas queixas são válidas, não são por frescura ou vontade de chamar a atenção. Sua dor é sólida, eu posso ver sua sombra. Eu mesma carrego a minha.

Lucidez para a empatia, é o que desejo. E um terreno macio onde pôr os pés depois de uma caminhada difícil.

Um bom começo é procurar entender o problema através do site da Abrata (Associacão Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos).

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Iara Carvalho

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