Bloomsday Virtual 2018 – #Bloomsdayvirtual

João da Mata
DestaqueLiteratura

Comemoração do Bloomsday

Há trinta e dois anos é comemorado o Bloomsday em Natal. Participo das comemorações desde a prima volta como ouvinte, conferencista, curador e, sobretudo, como entusiasta desse grande-dia em homenagem a James Joyce. Para comemorar o Bloomsday 2018, reuni alguns textos escritos durante esse tempo. Onde misturo a Irlanda com Natal e vivo um John`s day em Natal. Finalizo esse ensaio homenageando Molly Bloom e o seu famoso monólogo lido por grandes atrizes e traduzido por muitos escritores. Esse monólogo foi traduzido ente outros por Borges e Haroldo de Campos (texto em anexo). Selecionei também algumas cartas de Joyce á sua esposa Nora Barnacle, musa do Bloomsday.
Epifanias

Pintei o muro da casa com o azul do mar grego
Thalatta Thalatta
Fui jesuíta e músico aprendiz
“Introibo ad altare dei”
Com Homero fui um aedo
Percorri com o Sr Dom Flor as ruas da Irlanda
Às quatro esperei Molly Bloom me trair
Fiz do Potengi o Liffey
Onde naveguei seguindo as correntes do pensamento
Deixei Penélope esperando
De Maria Boa fiz minha Circe, a bela e má feiticeira.
Da minha biblioteca uma Torre do Martelo
E Tive problemas de vistas
Ouço ruídos e lembro Joyce
E sinto-me cada vez mais seu igual

1- O Ulysses

” Sua escrita não é sobre alguma coisa. É a coisa em si.” Samuel Beckett

A Revolução Joyciana
O modernismo literário de James Joyce resgatou dois dos mais importantes legados dos gregos. O Ulisses de Homero (séc. VIII – IX ac) e o Movimento Circular, considerado divino, perfeito. A tradição recriada numa roupagem moderna.
Existe o romance, antes e após Joyce.
Ele cria no plano da linguagem e, como o Einstein da Literatura, ele reinventa e funde o Espaço – Tempo.
A linguagem como personagem. As palavras prevalecem e importam mais que a história.
No Ulysses ouvimos as personagens muitos mais que as vemos.
Trabalhando com múltiplos planos narrativos ele funde gêneros, sons, dialetos, imagens poéticas e sensações.
Joyce se utiliza do Fluxo de Consciência empregado por Éduard Dujardin em “Lauriers Son Coupés (1887).

O Ulisses de Joyce é um romance caleidoscópico que dá margem a muitas interpretações. A revolução trazida por Joyce resgatou dois dos mais importantes legados dos gregos. Homero (Ulisses) e o Movimento Circular (Finnegans Wake). Sua literatura é tão revolucionária quanto a física de Einstein. Concordo com Auden que se a civilização grega não tivesse existido … nunca nos teríamos tornados plenamente conscientes, o que significa que, para o melhor e para o pior, nunca nos teríamos tornado humanos.
Joyce dessacraliza a literatura fundindo gêneros e épocas. Misturando o erudito com o popular. É dos restos que sua literatura é feita. Sua personagem principal um homem comum com nós vivendo uma vida besta pode soltar um pum, ao mesmo tempo que estuda a Grécia antiga. Para Joyce nada é perdido. No Ulisses ouvimos muitos sons, sentimos cheiros … O cheiro de sebo derretido desprendeu-se dos pavios da vela do deão, e se fundiu na consciência de Stephen, com o tinido daquelas palavras: balde e lâmpada, lâmpada e balde. Molly adora o barulho da bandeja quando Bloom traz o café da manhã para ela. Associa palavras com vozes que escuta. Utiliza o monólogo interior, que mistura com a voz dentro dele, com as pessoas, os bichos, as línguas, os barulhos, etc. Joyce fala com sons que sugerem sentidos a partir da carne da palavra. Ouçamos o Ulisses. A verdadeira poesia nos alcança antes de ter sido entendida, escreveu Eliot. O Ulisses é um livro para poetas falou o meu amigo Chico Ivan, idealizador do Bloomsday em Natal. Joyce é um escritor para quem tem insônia. Para Lacan a palavra é um dejeto, e Joyce é um escritor que fuça a carniça da linguagem.
A estética joyciana é a de Thomas de Aquino. Beleza é verdade. Para atingir a beleza precisamos da integridade, simetria e esplendor. A epifania é a harmonização dessas coisas numa manifestação do criador. “ sou um cristo desviado”.

 

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2 – O blue book das eclésias

O Ulisses de James Joyce – o “blue book das eclésias”- é também um livro sobre o amor. Leopold Bloom, o protagonista do romance que revolucionou a literatura universal, passa o dia perambulando por uma Irlanda (terra da ira) decadente, e tem consciência da traição de Molly Bloom. São dezesseis horas e o relógio de cuco toca … e nessa hora vesperal Molly recebe o amante em casa. “Eles são loucos para entrar de onde eles saíram”, diz Molly. Oito de setembro é o aniversário de sua amada e 16 de junho foi quando Joyce se apaixonou perdidamente por ela. As datas são muito importantes para o aquariano Joyce nascido no dia 02 de fevereiro. O tema do ciúme também está presente na sua única peça “Exílio” e no último conto de Dublinenses “The Dead”. Um dos maiores contos do século XX foi levado às telas por John Huston com o título “Os Vivos e os Mortos” (EUA 1987). No Ulisses, Joyce fala muito através dos sons. O leitor sente prazer e dor ao ouvir o som da trombeta, o suspiros das folhas, o ruído do mar e o som da água escoando no ralo da pia em espiral. A polissemia das palavras valise, da palavra montagem, da palavra ideograma encadeando novos sentidos. Joyce é um alquimista da palavra e a linguagem é o personagem principal desse imenso cipoal cheio de ruídos e labirintos que é esse enciclopédico romance Ulisses. “Deus é um barulho na rua”. “Todos esses ruídos convergiram numa única sensação vital para mim: imaginava conduzir meu cálice incólume, através de uma multidão de inimigos”. Durante o dia16 de junho Bloom chega a um estado mental que é mais abnegação do que ciúme. Joyce evoluiu no tratamento desse tema desde suas primeiras criações literárias. É com uma grande pulsão verbal com que Joyce fala do amor numa feerie carnal pulsipulso.
“Ele beijou os fornudos ricudos amareludos cheirudos melões do seu rabo, em cada fornido melonoso hemisfério, na sua riquêga amarelêga rêga, com obscura prolongada provocante melonicheirosa osculação”. Ao fim do episódio de Nausícaa (cap.13), o “relógio de cuco” informa a Bloom que ele é agora um corno. Cuco, cuco, cuco… cukoo-cloc; relógio de cuco e cuckoldcorno.
No final, Ulisses “retorna” para casa (Ítaca) e encontra Penélope (cama). A mulhervaginabismo onde o homem se perde e jamais retorna. O romance encerra com um pungente monólogo de Molly Bloom. “yes, I said yes I will Yes oui jái dit oui je veux bien. SIM EU QUERO SIMS.
Vagueando por Natal tenho o meu Johnsday. No restaurante da universidade converso sobre Flaubert. Um grande escritor admirado por Joyce. Alguém que buscou a impessoalidade na sua literatura. Em Joyce, impossível separar a vida do opus. No cemitério do Alecrim entro no reino de Hades e rezo um cantochão na igreja do Galo. Lanço as cartas do Tarot e tiro a carta 15. Blake e “A Canção dos Loureiros” do Édouard Dujardin. Sigo o fluxo de consciência. Caminho por suas ruas e vielas esburacadas très bian aussi. Lembro-me da escola de pé no chão nas Rocas e da fábrica de pregos das Quintas onde fui menino. Depois olhar o Potengi e namorar na pedra do Rosário.
Em Ponta Negra bato uma brahma. Na Padre Pinto, saindo do bar do coelho, olho o rio que parece o Liffey. Molly Bllom nessa hora deve estar me traindo. Capitu also e Otelo coitado. São quatro horas e nessa hora alguém está sendo chifrado. Tudo que é proibido é bom. Clô telefona para falar de Shakespeare e de Hamlet, a Monalisa da literatura : Words, words, words….cama camisola ave Maria cheia de graxa. Lê em voz muito alta o Finnegans Wake. Literatura de notívagos e bruxos. Fim again Fim. Nunquam satis discitur. O eterno ciclo viquiano do movimento circular divino. Só com compaixão, humor e lirismo vamos conseguir sangrar os mares desse Potengi desmamado e poluído numa das esquinas do mundo onde meu amigo “foi feliz e se deu bem”. Parafraseando Stephen Dedalus no Retrato do Artista quando Jovem, de James Joyce, referindo-se á Irlanda, eu diria de Natal (eu que já sou meã: “Natal é uma porca velha que devora suas crias”.

3- Joycircunvuluçõesbabélicas

O diacronismo cambiante da navelouca de Bloom–mente—fluxo -feérie-carnal-verbal. Rio (Nossa Senhora) Corrente. Sinfonia de signos. Da cappo. Fim-agains-Fim. Finneganswake. Novamente.
No meio da morte estamos com vida. Corrida sem vencedor.
Livro-cidade-mulher. Molly Bloom: eles são loucos para me
comer. Aíiiiiiiiiiiiii. Vai, segue, mete que a vida é só um dia mares. Telemacus vagueia thalasses.
Introibo ad altere dei. Abre verunque as pernas. Porra de des(esperta-dor). Cuco. Cukooo. Cucckolddddd. Sim, eu sei sou corno. E daí!.Ela gostou. Que barulho é esse é Deus ninguém entende. Como uma onda no mar que flui num jorro orgásmico.
Amo-te tântalo. Aligozou. Anna Lívia mais que bela Plurabelle.
Pausa. Depois glissando um chocolate quente. O amor corre consciência. Ela me beijou com seus lábios carnudos. Divagadamente as moscas copulam. Solidão. Livro- surubalingüística.
Verdeargenteoceanico. Ulisses volta para Ítaca. Ela dorme e ronca desafinadamente em staccato. Do pesadelo tento lentamente despertar. É a história. Um dia todos os dias. Dimensão multi-fractal. A cabeça junto aos pés: Dorme. Sim Thomas de Aquino. Santo Agostinho e todos os filósofos da igreja pecadora. Imagens, urdiduras, palavras nada além que palavras inventadas. O hades esqueço, lotófagos seduzem, proteus bondemeuvelho Liffey. Não sou quem navegabundo.
Joyceglosas Cila e Caribdes. Os caminhos do criador Shakespearou. Flaneur Dublin. Puns popular e erudito. O todo em um romance enigma. O caminho mais difícil são as curvas das estradas sinuantes do corpo. Sinos tocam. É a hora do ângelus Molly. Epifania. Eu sou o alfa-omega- alfa. O caminho e o fim do romance cíclico dessacralizado. Chance?. Nenhuma… “a intuição do amor é apanágio das mulheres”. RomanceAmor. Fraulein Molly. Ema Flaubert Bovary c´est moi aussi don Quijote. I am a yhwk Deus.

4- Uma Natal Joyciana

Natal como te amo: leviana? Nem tanto. Escrota? Menos. Muitos disseram assim das suas cidades e mulheres. Natal banhada por rio e mar também tem suas graças …. um certo charme na sua decadência. Precisa de um grande escritor para traçar suas ruas e becos. Reavivar sua memória esquecida. Salvador teve Jorge Amado. Alexandria teve um Ptolomeu. A Irlanda entrou no mapa do mundo com a escritura de James Joyce. A decadência de Natal tem o rosto da modernidade. Natal sofre com as atuais administrações e com as oligarquias. E são dos resíduos com que se faz a grande literatura. Outros disseram de uma terra desolada.
O que Joyce escreveu sobre a Irlanda eu poderia transportar para Natal. Mas, eu não sou Leopold Bloom e mesmo assim comemoro o bloomsday. A Irlanda também é bebum e ruidosa.
“Terra de uma raça esquecida por Deus e oprimida pelos padres … a raça mais atrasada da Europa”. Eu também poderia dizer isso de Natal, mas eu não sou Joyce. Prefiro andar por suas vielas e bares. Freqüentar o bar de Zé Reeira e tomar uma cerveja com Zizinho, Ronnie Von e Celina Muniz. Adentrar na garçonnièri de Abimael e conversar sobre o próximo lançamento. Tomar cerveja em Maria Boa e lembrar de todos os porcos boêmios.
Aquela amiga que nunca gozou senão em Mary Good. Sim, eu digo sim. No restaurante tenho pavor daquela mulher que fala comendo. Com os amigos tenho uma grande discussão sobre Flaubert. Um grande escritor admirado por Joyce. Alguém que buscou a impessoalidade da literatura. Em Joyce, impossível separar a vida do opus. No cemitério do Alecrim entro no reino de Lete e rezo um cantochão na igreja do Galo. Lanço as cartas do tarot e leio Blake e “ A Canção dos Loureiros” do Édouard Duajardin. Sigo o fluxo de consciência. Caminho por suas ruas e vielas esburacadas três bian aussi. Lembro da escola de pé no chão nas Rocas e da fábrica de pregos das Quintas onde fui menino.
Depois olhar o Potengi e namorar na pedra do Rosário. Em Ponta Negra bato uma brahma. Da boulevard Padre Pinto olho o rio que parece o Liffey. Molly Bllom nessa hora deve estar me traindo.
Capitu also e Otelo coitado. São quatro horas e nessa hora alguém está sendo chifrado. Tudo que é proibido é bom. Clô telefona para falar de Shakespeare e de Hamlet, a Monalisa da literatura : Words, words, words….cama camisola ave Maria cheia de graxa. Lembro do Finnegans Wake que deve ser lido em voz alta e por notívagos. Fim again Fim . Nunquam satis discitur. O eterno ciclo viquiano do movimento circular divino. Só com compaixão, humor e lirismo vamos conseguir sangrar os mares desse Potengi amado e poluído.

5 – O Opus Fin – Finnicius Revém do James Joyce

“ sangro á margem do negro riacho de meu ramo partido” JJ

FW, Finnicius Revém na feliz tradução de Haroldo de Campos mantida pelo tradutor brasileiro Donaldo Schuler, que a traduziu integralmente e foi editada numa edição primorosa pela editora Ateliê em cinco volumes. Romance riocorrente concluído em 1939 por Joyce após dezessete anos de gestação e experimentação quando foi utilizado mais de sessenta idiomas. Feito de longas palavras “soundsenses” que devem ser lidas em voz alta e calembours (trocadilhos). Enquanto o Ulisses é um livro diurno, o Finnegans Wake é um romance da noite e dos sonhos. Nesse romance Joyce utiliza a técnica labiríntica do celebre Livro de Kells (em inglês : Book of Kells; em irlandês: Leabhar Cheanannais), também conhecido como Grande Evangeliário de São Columba, de Sir Edwward O´Sullivan. Um manuscrito Ilustrado com belas iluminuras feito por monges celtas em torno do 800 da nossa era.
O FW é um livro de difícil acesso e poucos conseguem vencer esse imenso cipoal de signos, sons, palavras-valises, trocadilhos, paródia, citações e muita erudição. Joyce é um grande leitor de Giordano Bruno e seus mundos infinitos, do Vico e sua história cíclica, do Alcorão, do Livro dos Mortos, da Cabala, do Livro de Kells, etc, etc. É um livro que pretende traduzir o mundo e conter todos os ensinamentos. Para o seu biógrafo S. L. Goldberg o livro é um malogro literário artístico e não foram poucos críticos que o execraram. Para penetrar nesse imenso labirinto é preciso ler a sua exegese. Um dos livros que se encaixam nessa categoria é o Skeleton Key to Finnegans Wake (NY 1944, Londres 1947 ) escrito por Joseph Campbell e Henry Morton Robinson. Escreve Campbell e Robinson, na tradução e citação de Dirce Waltrick: Além de ser um sonho confessional, Finnegans Wake é também uma Fonte de Mito. Mitos, como sonhos, são um produto da mente inconsciente (…). Finnegans Wake é o primeiro exemplo literário da utilização do muito numa escala universal. Outros escritores – Dante, Bunyan, Goethe – empregaram simbolismo mitológico, mas suas imagens eram traçadas a partir do receptáculo do Ocidente. Finnegans Wake penetrou no oceano universal.
Um capítulo que resume o opus joyciano, um dos mais célebres e divulgados do FW é o “Anna Lívia Plurabelle, ALP” ( Capítulo VIII ). Uma tradução desse capítulo acompanhado de uma introdução e estudo pode ser lido no livro da professora Diece Waltrick do Amarante; para ler Finnegans Wake de James Joyce” ( Iluminuras 2009). Esse capítulo também foi traduzido pelos irmão Campos e reproduzido na tradução brasileira do Castelo de Axel de Edmundo Wilson. Enquanto o Ulisses é um livro diurno e narra a peregrinação do Sr Flores durante 18h do dia 16 de junho, o Finnegans Wake é um livro da noite, dos sonhos e subconsciente que narra a morte e ressurreição do herói. A história do morto que ressuscita é recorrente na literatura e pode ser encontrada em Apuleio, Joyce, Jorge Amado e Ariano Suassuna.
Finnegans é um pedreiro que morre e ressuscita reencarnado na pele de um taberneiro, após ter sido borrifado por uma poção mágica de uísque. Humphrey Chimpden Earwicker mais conhecido pelas iniciais H. C. E., que ás vezes é traduzida como Here Comes Everybody é o herói Mr. Todos Nós, ou Sr. TodosNós de Finnicius Revém e percorre o ciclo viquiano do Fim Again Fim ( wake, acordar depois do Fin, Fim ). Fragmentos do FW foram traduzidos pioneiramente no Brasil pelos irmãos Campos em “Panaroma do Finnegans Wake” (1962). Uma tradução elogiada pela crítica especializada que proporcionou pela prima volta o contato com essa obra inclassificável.
Ana Lívia Plurabelle é a esposa de um homem culpado e caluniado, Sr Todos Nós HCE. Anna Lívia decide lavar a roupa suja do marido para que ele ressuscite de consciência limpa. Mas ALP transforma-se no rio que absorverá nossas máculas e que depois desaguará no mar. Para alguns críticos Anna é uma alegoria da história. Duas lavadeiras, sentadas em margens opostas, conversam entre si, enquanto lavam a roupa suja. Falam exatamente de ALP e do Sr. Todos Nós, o H. C. E. À medida que o rio flui a história da humanidade deságua no mar e tudo recomeça num ciclo de Vico ( ref. Giambattista Vico in “A Ciência Nova”)

Conversa das lavadeiras:

Olha a camisa dele ! Olha que suja ela está ! Ele deixou em mim toda a minh ´agua escura … Sei de cor os lugares que ele gosta de manchar, sujeito suujo (tradução de Dirce em obra citada).
À medida que o rio Liffey flui (rio Heraclitiano como metáfora da mulher) as margens se afastam e as lavadeiras não mais podem se ouvir. Por isso gritam uma à outra palavra em qualquer língua, em todas as línguas. É o ruído branco da ciência moderna e da física não linear, a junção de todos os ruídos e cores transformadas na cor branca ou no arcoirissonico joyciano. As lavadeiras já foram associadas como as bruxas de Macbeth, ou com os coveiros de Hamlet. Joyce é um amante da literatura de Shakespeare e toda a sua obra é permeada pelo bardo inglês.
As lavadeiras são mumificadas em Shaun (Pedra) e Shem (árvore). Elas representam a dualidade de todo o ser humano, ou a dualidade indissociável da onda-partícula. As árvores e a pedras são recorrentes no Finnegans Wake e carregadas de simbolismo, podendo significar entre outras coisas a vida e a morte. Joyce gostaria de ter criado uma língua que fosse a junção de todas as línguas e que todos pudessem decifrar… um dialeto da humanidade. Sua última obra é repleta de enigmas instigantes que dialogam com a literatura universal e continua a desafiar a nossa compreensão. Ele não nos enganou quando disse que escreveu uma obra para ser discutida nos próximos trezentos anos.
Dez anos antes de ser publicado o Finnegans Wake (1939) nasceu o físico americano Murray Gell-Mann, ganhador do premio Nobel de Física pela descoberta do quark, partícula fundamental do átomo. O termo quark foi emprestado do FW e a física assim como toda ciência e filosofia podem dialogar com as artes como pensou o demiurgo e revolucionário James Joyce.

6- Cartas de Joyce A Nora Barnacle
– Eu odeio as mulheres que não sabem nada. Joyce
– Por que você nãos escreve livros que as pessoas possam ler – Nora

No dia 10 de junho de 1904 Joyce conhece Nora Barnacle e se apaixona loucamente. No dia 16 de junho Joyce passeia com Nora e experimenta momentos de beleza e transcendência, suas célebres epifanias. Por esse motivo o escritor escolheu esse dia como o dia de Bloom, o Bloomsday. Dia em que transcorre toda a ação do Ulisses. As famosas cartas de Joyce a Nora foram publicadas pela Massao Ohno, com tradução da Mary Pedrosa. Cartas muitas vezes picantes e que revelam um outro lado do escritor genial que iria revolucionar a literatura com seu Ulisses, em 1922. Um livro de amor. Um livro que também é uma homenagem a Nora.
Selecionamos quatro dessas cartas ( trechos) para comemorar o Bloomsday2010.
15 de agosto de 1904
Minha cara Nora. Neste instante soou uma hora. Cheguei em casa às onze e meia. Desde então estou sentado numa poltrona como um cretino. Não posso fazer nada. Não ouço nada a não ser a tua voz. Estou como um cretino a ouvir-te chamar-me querido. Ofendi duas pessoas hoje ao deixá-las com frieza. Queria ouvir a tua voz, não a dos outros. Quando estou contigo deixo de lado o meu temperamento desconfiado e desdenhoso. Quisera estar sentindo agora tua cabeça sobre o meu ombro. Penso que vou deitar-me.
Levei meia hora escrevendo isto. Vais escrever qualquer coisa para mim? Espero que o faças. Como assinar esta carta? Não vou assinar nada, porque não sei que nome usar.

7 de Setembro de 1909
Minha Norazinha silenciosa. Dias e dias se passaram sem carta tua, mas creio que pensaste que eu já teria embarcado. Partimos hoje à noite. Lá para o fim da semana ou no domingo havemos de estar juntos, espero.
Agora, minha Nora querida, quero que releias e tornes a reler tudo que te escrevi. Há uma parte feia, obscena e bestial, e há uma parte santa e espiritual: tudo junto sou eu. E Penso que agora compreendes o que sinto por ti. Não vais mais brigar comigo, vais, querida? Estou cansado hoje, caríssima, e gostaria de dormir em teus braços, não fazer nada, mas somente dormir, dormir em teus braços.

Como vai ser longa a viagem de volta, mas que glória vai ser nosso primeiro beijo. Não chores, querida, quando me vires. Quero ver-te de olhos brilhantes e lindos. Qual será a primeira coisa que me dirás, imagino?
La nostra bella Trieste!*
Tu me amas, não é verdade? Agora vais acalentar-me no teu peito e abrigar-me e talvez ter pena de mim por meus pecados e loucuras e guiar-me como a uma criança.
Naquele peito amigo estar eu queria.
(que é tão amigo e belo de verdade!)
Onde ia ficar a salvo da ventania.
Devido à amarga austeridade
Naquele peito amigo estar eu queria.”

A Nora Barnacle Joyce
22 de dezembro de 1909
Rua Fontenoy, 44, Dublin.

Nora, minha querida

Remeto pelo correio (expresso e registrado, com valor declarado) um presente de Natal*. É a melhor coisa (mas afinal muito modesta) que posso oferecer em retribuição ao teu amor fiel, verdadeiro e sincero. Pensei em todos os detalhes nas noites de insônia, ou nos carros em disparada ao redor de Dublin. Acho que o presente acabou ficando bonito. Entretanto, mesmo que vá causar somente breve rubor de prazer em teu rosto no primeiro momento em que o vires, ou se fizer teu coração amoroso, terno e leal dar um súbito salto de alegria, eu me sentirei muito, muito bem recompensado de todos os meus cuidados.
Talvez este livro, que agora te envio, sobreviva a nós ambos, a mim e a ti. Talvez os dedos de algum rapaz ou moça (filhos de nossos filhos) virem reverentes estas folhas de pergaminho, quando os dois amantes cujas iniciais estão entrelaçadas na capa tenham há muito desaparecido da terra. Nada há de restar, então, minha querida, de nossos pobres corpos humanos movidos pela paixão; e quem poderá dizer onde vão estar as almas que em seus olhos contemplavam uma a outra. Eu pediria que minha alma fosse espalhada no vento, se Deus me deixasse apenas soprar suavemente, para sempre, em redor de uma flor azul escuro, estranha e solitária, numa sebe agreste de Aughrim ou Oranmore.
Jim.

16 de Dezembro de 1909
Minha doce queridinha. Até que enfim tu me escreves!. Deves ter à tua bucetinha Levado uma esfregação feroz para me escrever uma carta tão desconexa. Quanto a mim, querida, estou tão esgotado que tu terias que levar uma hora a lamber -me para que eu ficasse com o pau duro para meter nas bordas de tua boceta, quanto mais para uma foda completa…
* O presente que ele Joyce enviou a Nora era manuscrito encadernado do livro “Música de Câmara”
Em Trieste (sua segunda pátria) — norte da Itália – onde vive uma quadra importante de sua tumultuosa vida. Nessa cidade nasce a sua filha Lúcia e é em Trieste que Joyce começa a escrever O Retrato do Artista quando Jovem. Na bela Triste ele leciona Inglês e conhece o escritor de Senilidade, Ítalo Svevo.

7- James Joyce e J. L. Borges

sim, eu disse sim. SIM

Borges foi alfabetizado em língua inglesa. Leu o D. Quixote pela 1ª vez (prima volta) na famosa versão inglesa de Smollet. Na intimidade era chamado Georgie.
Os dois são ligados pela tragédia da cegueira. Cego também era Ulisses, cuja Odisséia inspirou o Ulisses de Joyce. No livro Elogio da Sombra Borges escreveu o belo poema

(J. L. Borges em Elogio da Sombra, 1968)

Em um dia do homem estão os dias
do tempo, desde aquele inconcebível
dia inicial do tempo, em que um terrível
Deus estabeleceu os dias e agonias,
até esse outro em que o onipresente rio
do tempo terreno retorne à sua fonte,
que é o Eterno, e que se apague no presente,
o futuro, o ontem, o que agora é meu.
Entre a aurora e a noite está a história
universal. Da noite vejo
a meus pés os caminhos do hebreu,
Cartago aniquilada, Inferno e Glória.
Dai-me, Senhor, coragem e alegria
para escalar o cume deste dia.

Borges também traduziu o célebre monólogo de Molly Bloom. Do qual transcrevemos uma parte na tradução do Haroldo de Campos.

MONÓLOGO DE MOLLY BLOOM (trecho Final)
Ulisses de James Joyce; trad. Haroldo de Campos.
o sol brilha para você ele me disse no dia em que estávamos deitados entre os rododendros no cabo de Howth com seu terno de tweed cinza e seu chapéu de palha no dia em que eu o levei a se declarar sim primeiro eu lhe dei um pedacinho de doce de amêndoa que tinha em minha boca e era ano bissexto como agora sim há 16 anos meu Deus depois daquele longo beijo quase perdi o fôlego sim ele disse que eu era uma flor da montanha sim certo somos flores todo o corpo da mulher sim foi a única coisa verdadeira que ele me disse em sua vida e o sol está brilhando para você hoje sim por isso ele me agradava vi que ele sabia ou sentia o que era uma mulher e tive a certeza de que poderia sempre fazer dele o que eu quisesse e dei-lhe todo prazer que pude para levá-lo a me pedir o sim e eu não quis responder logo só fiquei olhando para o mar e para o céu pensando em tantas coisas que ele não sabia em Mulvey e no Sr. Stanhope e Hester e papai e no velho capitão Groves e nos marinheiros que brincavam de boca-de-forno de cabra-cega de mão-na-mula como eles diziam no molhe e a sentinela defronte à casa do governador com a coisa em redor de seu capacete branco pobre diabo meio assado e as moças espanholas rindo com seus xales e seus pentes enormes e os pregões na manhã os gregos judeus árabes e não sei que diabo de gente ainda de todos os cantos da Europa e na rua Duke e o mercado de aves cheio de cacarejos em frente a casa de Lalaby Sharon e os pobres burricos tropicando meio adormecidos e os vagabundos encapotados dormindo na sombra das escadas e as enormes rodas dos carros de boi e o velho castelo velho de milênios sim e aqueles belos mouros todos de branco e de turbante como reis pedindo a você que se sente em suas minúsculas barracas e Ronda janelas velhas de pousadas olhos espiando por detrás de rótulas para que seu amante beije as grades de ferro e as tabernas semicerradas à noite e as castanholas e a noite que perdemos o barco em Algeciras o vigia rondando sereno com sua lanterna e Oh aquela terrível torrente profundofluente Oh e o mar carmim às vezes como fogo e os poentes gloriosos e as figueiras nos jardins da Alameda sim todas as estranhas vielas e casas rosa e azul e laranja e os rosais e os jasmins e os gerânios e os cáctus e Gibraltar quando eu era jovem uma Flor da montanha sim quando eu pus a rosa em meus cabelos como as moças andaluzas ou de certo uma vermelha sim e como ele me beijou sob o muro mourisco e eu pensei bem tanto faz ele como outro e então convidei-o com os olhos a perguntar-me de novo sim ele perguntou-me se eu queria sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro enlacei-o com meus braços sim e puxei-o para mim para que pudesse sentir meus seios só perfume sim e seu coração disparando como louco e sim eu disse sim eu quero Sim.

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João da Mata

Comentários

4 comments

  1. Arlene Venâncio 16 junho, 2018 at 08:36

    O Bloomsday foi meu deleite desde 99 com os nossos eventos na UFRN organizado pelo Sr. Dom Flor Francisco Ivan. Até hj tenho belas recordações!!!

  2. João da Mata 16 junho, 2018 at 12:49

    Um dia, um grande dia, um santo dia é só o que queria.

    Sim, toda ação do Ulysses de Joyce se passa num único dia.
    Um dia. Uma hora, a vida não passa disso. Todos os dias num só dia.

    Os personagens vivem a vida comum e frequentam lugares comuns: restaurante, cemitério, bordel, biblioteca, etc

    O Sr Bloom passou no correio, presenciou uma comunhão na igreja e participou de um enterro.

    Nascimento, vida e morte num só dia como nas estrelas.
    Almoçou um sanduiche com um copo de vinho. Depois foi na biblioteca nacional. Na praia se masturbou e passou num hospital onde uma amiga acabara de dar a luz.

    No bordel tomam um porre. Stephen volta para a Torre do Martelo de onde saiu pela manhã. Melancólico ele caminha com recordações de imagens poéticas e leituras.

    O Bordel foi transformado num templo sagrado onde são cantadas litanias e salmos. A solidão e a compaixão o acompanham antes de explodir nas fantasias impotentes de Circe.

    Os passos são guiados pelo fluxo de consciência. Depois da biblioteca Bloom come novamente no Hotel Ormond na companhia de um amigo, onde presencia duas moscas copulando.

    Nas mentes das personagens pululam mil fantasias. Stephen urde brilhantes imagens, enquanto Bloom fala através de clichês em staccato.

    Bloom tem consciência que está sendo traído às quatro horas da tarde. O relógio Cukoo (associação com Cuckold) lembra que ele é corno. Mas, seu estado mental é mais abnegação que ciúmes.

    No meio da morte as personagens estão com vida. É hora de cantar e ouvir Molly Bloom dizer seu monólogo.
    É dia de cantar e celebrar a grande festa da literatura mundial.
    É o dia de Bloom. Um homem comum, assim como eu e você.
    Sim, eu digo sim!

    João da Mata Costa

  3. Maria Aparecida Anunciata Bacci 16 junho, 2018 at 13:23

    Parabéns por nos presentear com toda essa rico estudo ,artigos textos poemas sobre Jamesm Joyce e Bloomsday em Natal. Mais uma o meu muito obrigado Prof. João da Mata, e viva esse grande dia da Literatura Mundial;

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