Brado retumbante

9 de fevereiro de 2012 às 14:32 - 1 Comentário

Por Maria Elena Pereira Johannpeter
FSP

Nas últimas semanas, assistindo ao seriado O Brado Retumbante, fiquei muito chocada ao ouvir, dito pela “esposa do presidente”, que todas as ONGs merecem ser fechadas, pois são desonestas e se utilizam totalmente do dinheiro do governo, embora sua sigla signifique organizações não governamentais. Deixou nas entrelinhas que as ONGs estão a serviço apenas de políticos inescrupulosos.

Existem, no Brasil, 338 mil ONGs registradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que trabalham seriamente. Também sabemos que existem ONGs que são criadas exclusivamente para cobrir os interesses escusos de políticos, de empresários ou de outras pessoas. Porém não se pode “encher a boca” e dizer que todas merecem ser fechadas. É um grande desrespeito com as organizações sérias, como a que criei e onde trabalho há 15 anos, bem como outras, como a Todos Pela Educação ou o Movimento Brasil Competitivo (MBC) ou a própria Fundação Roberto Marinho, que é também uma ONG.

Sei que todas as que citei não se perturbam com esses pronunciamentos. Porém as pequenas, as que lutam diariamente por doações para poder colocar comida na mesa ou conseguir medicamentos para o seu público assistido, essas sofrem, sim, e muito.

Os meios de comunicação, com o enorme poder que têm em suas mãos, devem ser muitíssimo cuidadosos para não ajudarem a destruir aquilo que eles mesmos apoiam.

Na ONG Parceiros Voluntários são quase 3 mil organizações sociais conveniadas (OSCs) e 400 mil voluntários engajados no Rio Grande do Sul. Essas OSCs lutam contra todo tipo de problema que se pode imaginar para auxiliar crianças, idosos, pessoas com necessidades especiais e doentes a amenizarem as suas dores, a tristeza, a fome e a falta de um lugar para morar. Conhecemos de muito perto essa realidade e, por isso, podemos ser testemunhas do enorme esforço que essas ONGs fazem para buscar recursos e manter esses lares em benefício de quem não tem nada. Aqui, no Rio Grande do Sul, temos exemplos fantásticos de dedicação e profissionalismo. Muitas dessas ONGs dão um passo mais à frente e participam de longos cursos de capacitação para aprenderem a ser gestores e, assim, buscar sustentabilidade para a instituição que lideram.

Somente para citar um exemplo: por meio de uma parceria firmada com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Petrobrás, finalizamos, após três anos de trabalho, o projeto Desenvolvimento de Princípios de Transparência e Prestação de Contas em Organizações da Sociedade Civil. Durante esse período, foram capacitadas 76 ONGs e 148 lideranças dessas ONGs em 21 cidades gaúchas. Os grupos contaram com o auxílio de profissionais de várias áreas e receberam assessoramento para aplicar ferramentas de transparência e prestação de contas e gestão, além de avaliar aspectos jurídicos, tributários e contábeis. Após as atividades, as organizações seguiram recebendo consultoria de especialistas durante mais dez meses.

Será que essas pessoas são sérias, ou não? Será que elas merecem a nossa admiração, nosso respeito e um braço estendido para ajudar a seguirem adiante, ou não? Peço cuidado, muito cuidado, aos meios de comunicação pelos milhões de pessoas que em boa parte das vezes dependem unicamente dessas ONGs para resgatar alguma dignidade. E que o governo realmente feche as ONGs que estão a serviço de corruptos, mas que não cometa o erro de desvalorizar os milhares de sérias.

Carlos Drummond de Andrade sintetiza muito bem o valor do nosso envolvimento com o outro: “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade”

1 Comentário

  1. Marcos Silva
    10 de fevereiro de 2012

    Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I).

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POESIA

    Névoa
    16-05-2012 às 9:40 - 7 Comentários
    Por Jarbas Martins

    Carl Sandburg

    Vem a névoa
    em breve pisar de gata.

    Queda-se olhando
    o porto e a cidade
    sentada em seu silêncio e
    esgueirando-se em seguida.

    (Tradução de Jarbas Martins)

    * * *

    Fog

    The fog comes
    on litlle cat feet.

    It sits looking
    over harbor and city
    on silent haunches
    and then moves on.

    (Carl Sandburg, “Selected Poems”, G.Books,1992)

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Amigo Carlão, Vejo com muita alegria a sua inquietação e leitura. Tb indico fortemente o livro .Jerônimo, A Técnica do Livro de autoria do grande Dom Paulo Evaristo Arns ( Sua tese de doutorado) , trad. de Cleone Augusto Rodrigues e prefácio de Alfredo Bosi . Belíssimo livro em capa dura Jeronimo traduziu a vulgata da biblia e é considerado o patronomo dos bibliófilos e amantes do livro. Saudações bibliófilas. ab imo corde - Help
    • edjane linhares: Muito lindo, Jarbas. A experiência do haicai, como Fernando nos lembrou, ajuda muito neste processo de contemplação e silêncio, ato solitário e sublime. Quero agradecer a homenagem às mães no seu último haicai (único vestígio da data por aqui). Aguardo coletânea deles. Um abraço. - Névoa
    • Jarbas Martins: Amigo Jóis: gosto da sua poesia e da sua prosa digressiva, inflada de saberes e sabores, biscoito fino para raros paladares.Nem precisava dizer isso, mas como em seu comentário você se reportou a um incógnito Aguinaldo Soares, usando termos utilizados por ele contra mim - deu-me vontade de voltar ao assunto. Repito mais uma vez: Aguinaldo Soares sabe escrever, e a expressão "sólida cultura" é tão infeliz que não me restou outra alternativa: pedi desculpas ao ilustríssimo desconhecido.Não conheço o Aguinaldo, mas presumo que ele, como eu, temos algo em comum: fizemos o curso de direito.Daí o nosso gosto pelas sentenças líquidas e certas. Abraços, Poeta ! - Ditirambo
    • Marcos Silva: Li um livro interessante sobre Jerônimo, A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo, de Paulo Evaristo Arns - Help
    • Jarbas Martins: Tradução inventiva a tua, Marcos. Nenhuma novidade nisso. Você é um reconhecido mestre na arte tradutória. - Névoa
    • Jóis Alberto: O poema é bom! Afirmo isso, embora não tenha plena consciência do ofício de poeta. Porque se eu for intelectual, sou dos mais incompletos – em meio a preconceitos, totens e tabus, como vocês já tiveram oportunidade de ler mais de uma vez, aqui neste democrático SP. Além do mais, como posso ter sólida base cultural nesses tempos em que tudo que é sólido se desmancha no ar? Tempos de modernidade e amores líquidos, de fodas em excesso e entediadas, blasé até – foda blasé é ‘foda’! – de gente que trepa com a mesma rotina de quem escova os dentes, tema objeto das sátiras ingênuas de meia dúzia dos meus poemas eróticos. Ingênuas não só se comparadas às sátiras e poemas eróticos/pornográficos de um grande poeta, Bernardo Guimarães, por exemplo, mas ‘ingênuas’ também no sentido libertino, filosófico, da palavra ‘ingênuo’! Ou então as fodas são escassas como as leituras de gente que, se leram os gregos, leram em traduções, não no original, e fazem a pose erudita de quem muito entende esses clássicos da filosofia, da poética e da ética, da antiguidade greco-romana. O que danado é ‘inveja poética’? Se é inveja não é poética, nem ética! Porque a ética, é verdade, pode tratar da inveja, da emulação, mas a inveja despreza a ética. O que danado significa ‘fracasso moral da estética’? De qual moral estamos falando? Da moral burguesa? Sinceramente! Qual o poeta que não esconde a fonte onde bebe? Como poeta bissexto, escondo e revelo fontes. Sem maiores dificuldades coloco as cartas na mesa, porque nesse jogo de cartas – de cartas muitas vezes marcadas, e viciadas – uma das minhas cartas prediletas é a do coringa, do joker! Porém, como há muito não jogo nem pif-paf, buraco ou sueca, uso essa expressão ‘jogo de cartas marcadas’ como um dos inúmeros clichês que pululam por aí, em discussões de intelectuais de prestígio... - Ditirambo
    • Cássio: Biografia eu não sei, mas recomendo o filme do júlio bressane. No seu livro Cinemancia tem também uma tradução interessante da "epifania" de são jerônimo. - Help
    • Marcos Silva: Belo poema, bom poeta, boa tradução. Sugiro a alternativa: NÉVOA. Névoa vem em pés de gatim Senta e olha sobre porto e cidade ancas silêncio e se moveu - Névoa
    • Jarbas Martins: Tenho a honra e o dever de confessar que a tradução que fiz do poema "Dormire", de Ungaretti, publicado há alguns dias neste SP - teve a orientação do poeta Fernando Monteiro ! Obrigado, mestre Fernando, obrigado poetas Anne Guimarães e Lívio Oliveira. - Névoa
    • Nina Rizzi: "A capa já dá o tom da revista. Uma foto de Câmara Cascudo passeando de riquexó (uma espécie de carroça de duas rodas e movida a tração humana) em Moçambique, ao lado de uma pessoa não identificada. A foto - de autoria desconhecida - foi clicada em 1963, quando o folclorista estudava costumes e tradições africanos. As observações e anotações depois seriam o mote para o livro Made in África. A imagem foi cedida pela família. E a filha, Ana Maria Cascudo, escreve artigo contando as inúmeras viagens do pai, em um diálogo emblemático entre Natal e o estrangeiro." Viu, neguinho não existe não, ô rapá! - Tributo ao mar