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Neste Brasil sem brasão, o liso contra o barão

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Primeiramente #ForaTemer. Em segundo lugar “não, a culpa não é do povo”, não é verdade que cada povo tem o governo que merece. Em terceiro lugar o povo não é burro, não é a ignorância que alimenta a corrupção, mas é exatamente o contrário. A corrupção alimenta, fabrica, multiplica e veicula a ignorância nos mais diversos meios midiáticos. A opinião de que os pobres em sua ignorância têm mantido oligarquias e políticos inescrupulosos no poder é uma opinião classista, preconceituosa e distorcida. Basta que retomemos os últimos anos de acalorado debate nas ruas e nas redes sociais para vermos que os eleitores dessa classe começam entre eles.

Os poderosos votam entre si e isto é compreensível. Mas também a classe média, médicos, juristas, intelectuais e educadores defendem ardorosamente ideais classistas, conservadores, xenofóbicos, e contrários às minorias, à distribuição de renda, aos direitos sociais e aos direitos humanos. Se se considerar que essas pessoas dominam os meios de comunicação de massa, que muitas delas são formadoras de opinião, que são elas que desmerecem, desqualificam e atacam o poder transformador da educação, não podemos atribuir ao povo a pecha máxima de culpados pelo establishment.

Se se considerar que o poder econômico aliado ao poder político determina inclusive quanto de investimento se deve dar a educação, determina igualmente o nível e a qualidade da educação a ser oferecida ao povo, estes não podem ser mais culpados que vítimas. Cometemos uma dupla injustiça alimentada por uma ideia classista e elitista altamente preconceituosa, porque além de referendarmos que direitos sociais sejam saqueados ao povo ainda os culpamos por seu demérito.

Reflito o que digo acima em função do resultado geral das eleições municipais ora encerradas. Muitas opiniões das expostas acima ouvi e rebati quanto pude. Neste pleito, alguns fatos marcaram minha retina e minhas ideias, além dessas opiniões de que falo. Vimos de alto abaixo do Brasil situações as mais singulares. O coração financeiro do Brasil, a cidade de São Paulo, disse não às ideias progressistas e elegeram um candidato elitista, classista e defensor de ideais extremamente nocivos a uma sociedade profundamente marcada ainda pela desigualdade social. E por que o fez?

Fê-lo porque o partido de esquerda que abrigava o candidato à reeleição demonizou-se e foi demonizado. Foi demonizado porque sofreu profundos ataques nos últimos anos, ataques oriundos dos mais diversos meios e pelos mais diversos instrumentos: midiático, político, jurídico. Demonizou-se porque errou e, incapaz de fazer o mea culpa, defende-se dos ataques sem admitir nem corrigir os erros cometidos. Fê-lo porque os ideais reacionários foram divinizados pelos mais diversos meios e servindo-se dos mais diversos instrumentos: midiático, político, jurídico. Fê-lo porque a narrativa dominante nos veículos formadores de opinião construiu a ascensão de um personagem forjado pela mídia e etiquetado por um falso controle de qualidade. Fê-lo enfim.

Aqui no alto do Brasil, onde o atlântico faz a curva, nesta província potiguar, dois fatos também se destacaram no cenário político. Primeiramente na capital, quando a segunda candidata mais votada à Câmara se classificou no pleito final em 442° lugar, abaixo inclusive de candidatos com zero votos, revelando uma distorção de uma lei que se insinua feita para corrigir desigualdades.

Acende-se com isto a lanterna de alerta ao fato indiscutível de que sem uma reforma política séria jamais atingiremos a igualdade democrática falsamente propagada aos quatro cantos. Mas houve também o episódio do “liso e do gari”, candidatos à prefeito e vice-prefeito da cidade de Jucurutu/RN, cuja campanha se construiu justamente na assunção da pecha, muitas vezes responsável pela derrota de muitos candidatos, qual seja? A de que não por não disporem de recursos financeiros para enfrentar um pleito nem deveriam estar ali.

O motorista e o gari sublimaram a crítica e a transformaram no símbolo de uma luta de classes. Reeditaram em escala menor o feito do candidato operário eleito presidente. Elegeram-se derrotando o barão, filho de barões que governam o município há quarenta anos. Levam consigo a mesma expectativa e o mesmo estigma: a sombra da dúvida sobre sua competência para fazer melhor em função de sua classe social. Se fracassarem reforçarão aquele preconceito: o povo não soube votar. Fosse o Barão eleito, estaria já o povo a amargar esta falácia.

Está encerrada esta eleição, e, como em todo Carnaval, a vida volta ao seu curso normal, mas não esqueçamos que hoje mais do que nunca os ricos disputam aos pobres seu lugar na governança. Sua meta é retirar direitos, desfazer da justiça social, precarizar a educação, aquartelar educadores e calar os trabalhadores. Os episódios acima só ilustram o que ainda está só começando, mas não esqueçamos: o liso ganhou aqui, e, no rio de Janeiro, perdendo ou ganhando, o povo fechou com Freixo – o liso defensor dos direitos humanos. Há uma luz no fim do túnel.

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Edilberto C.

Comentários

1 comment

  1. Ruben 4 outubro, 2016 at 10:07

    A esquerdice-fanaticoide como sempre fala fala fala e nada diz de conteúdo histórico e fatico.. Engana a şi mesma com palavras de ordem regressivas e surreais. Criam narrativas longas falsas superficiais. Nem olham o umbigo nem a História. Auto-critica é contumaz auto-elogio. Distorcem tempos histórias fatos interpretações. Usam antolhos ideológicos ultrapassados. E se dizem progressistas. Uma farsa.

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