Breve notícia de Joca Reiners Terron

29 de julho de 2010 às 15:48 - Comentar
Por Nelson Patriota

“A literatura é uma imensa teia de aranha. Você pode ser pego por ela ou não. Se for enredado, poderá seguir infinitamente pelas ramificações da teia, indo de um autor a outro, entrando em Charles Bukowski e descobrindo John Fante e divertindo-se e amenizando um pouco a solidão da existência, enquanto foge da aranha. Com a web não é diferente, suponho. Sem direito a uma educação formal, porém, só nos resta a aranha”. É com esse engenhoso apólogo que o escritor Joca Reiners Terron expressa sua relação com os livros e a literatura.

Quem é Joca Reiners Terron? Confessamos que não o conhecíamos até a semana passada, quando abrimos a edição do jornal literário Rascunho, (julho, 2010), deparando com a entrevista feita pelo seu editor, Rogério Pereira, com esse escritor.

Não é difícil desconhecer autores num país das dimensões continentais como o nosso, compartimentado por tantos muros internos, reais ou virtuais, mas eficazes na produção do isolamento. Daí a importância de uma publicação como o Rascunho, feito lá em Curitiba, no Paraná, mas propondo um diálogo com um número cada vez maior de autores de todo o país.

Cuiabense, nascido em 1968, fixado em São Paulo, capital, Joca Reiners Terron é autor de dois romances: “Não há nada lá”, e “Do fundo do poço se vê a lua”, do livro de poemas “Animal anônimo”, e dos livros de contos “Hotel Hell, curva de rio sujo” e “Sonho interrompido por guilhotina”. Regalado recentemente com uma bolsa do projeto “Amores Expressos”, passou um mês no Egito para escrever as impressões que a viagem lhe causaria, no que resultou o romance “Do fundo do poço se vê a lua”.

Reiners Terron revela, ao longo da entrevista, uma reserva de argumentos e informações literárias que contrastam visivelmente com a casmurrice de certos escritores, avessos a falar de si ou de sua obra. Comunga com o americano Paul Auster da filosofia de que só existe vida quando narrada, o que remete diretamente às modernas histórias de vida, cujo precursor é o filósofo Wilhelm Schapp, autor que ousou dizer num livro revolucionário, infelizmente ainda não traduzido em português, que “só há vida na narrativa”. Antes deles, porém, Mallarmé já havia dito que “tudo existe para terminar num livro”…

A ausência de crítica literária especializada é um tópico que Reiners Terron não deixa passar em brancas nuvens. Mas faz questão de precisar a que se refere: “Faltam críticos com visão panorâmica do que está sendo produzido atualmente na literatura brasileira”. Mais adiante, especificará que “fazem falta escritores que não queiram ser somente narradores, poetas, cronistas, dramaturgos [...] e que compreendam que existe uma imensa necessidade de reflexão e que isto também é produção criativa”. É uma preocupação pertinente, na medida em que a falta de boa crítica dificulta e retarda, com certeza, o processo de divulgação e reconhecimento da obra de ficção, justo num momento em que a literatura brasileira passa por uma enorme efervescência criativa de Norte a Sul.

Ao leitor atento e perspicaz, não passa despercebido o tratamento diferenciado que o editor Rogério Pereira brinda ao escritor cuiabense, prestando-lhe um tratamento próprio aos autores canônicos. Certamente, repercutindo ecos de um processo em desenvolvimento nesse sentido, pois, numa das perguntas, acrescenta, a título de exercício de reverência, o revelador aposto: “O senhor é considerado um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea”, frase que o entrevistado não se dá ao trabalho de contestar.

Com diversos projetos em andamento, Rainers Terron é um genuíno escritor dos tempos de hoje: sempre em débito com o cronômetro, administrando vários trabalhos simultaneamente, tentando dar conta de contratos com editores, frequentando encontros literários para audições de leitura e debate de seus contos e poemas, integrando fóruns de discussão na internet. Se alguém achar que esse é um ritmo de vida inconveniente para um escritor, bem, então é melhor repensar a opção que porventura fizer por esse ofício.

Postar Comentário

AGENDA

  • Pinacoteca está com Edital aberto para ocupação das Salas de Exposições

    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

    mais informações »

  • Rede Cinemark exibe direto de Londres a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House

    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

    mais informações »

  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”