Cabeças cortadas: as virtudes e seus terrores

Pablo Capistrano
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Sobre as diferenças entre “terror” e “horror”, meu padrinho de batismo, o diretor de teatro Carlos Furtado costumava a dizer: “Terror é o medo diante daquilo que conhecemos; horror, é o medo diante do desconhecido”.

Uma passada rápida de olho nos contos de H.P. Lovecraft ou de Edgar Allan Poe (seu percussor literário) elucida bem essas distinções. Enquanto nos contos de Poe, a fonte do que nos apavora é racionalmente articulável (um fantasma, um louco assassino, uma máquina de tortura, um animal), nas ficções de Lovecraft há o apelo para o incompleto, o inexplicável. Há sempre uma força invisível, um ruído pouco nítido, uma geometria que não é desse mundo, uma cor estranha que cai do céu tingindo o ambiente com um tóxico veneno gasoso.

Esse é o nosso horror cotidiano em democracias liberais. O difuso mal-estar econômico que não se manifesta em um líder, um chefe, um ditador qualquer que se preste e servir de Grande Outro, mas que mesmo assim nos sufoca, como se uma nuvem radioativa nos desmontasse de dentro para fora.

Talvez seja esse caráter inefável do Horror que torne o Terror (seu duplo complementar) sempre mais visível.

Daí o argumento recorrente, propalado por quatro em cada cinco conservadores ocidentais, embalados muito provavelmente por uma leitura rudimentar da obra de Hannah Arendt, de que a vida em uma sociedade fortemente regulada pelo mercado é uma espécie de piquenique democrático, ao passo de que nos países de “Estado forte” viveria-se em uma eterna e sufocante “Queda da casa de Usher”.

Se por um lado essa argumentação retórica serve como ferramenta ideológica que despista a simbiótica vinculação do modo de ser do mercado com o horror; por outro, não erra ao indicar a ligação do modo de ser do Estado moderno, em graus maiores ou menores, com o terror político.

A questão é que, entre Poe e Lovecraft, há sempre uma revolução a moldar as formas com que o horror econômico e o terror político vão se expressar nas sociedades modernas.

Toda revolução genuína carrega consigo dois aspectos conflitantes: O desejo da abertura para o futuro, que molda o acontecimento revolucionário; e a covardia diante do desconhecido, que puxa o freio de arrumação do terror.

Como potência, a revolução se descortina quando o insuportável se torna tão incontornável que não há outra opção a não ser destruir um velho mundo para tentar recriar um novo. Como reação, ela se apresenta quando o clamor pela justiça e pela virtude abre espaço para que o medo da mudança se manifeste como um retorno de conteúdos recalcados, aparentemente superados, que ressurgem em pleno momento de embriaguez revolucionária.

Foi por isso que, quando o antigo regime ruiu na França; Robespierre, que decapitou com a mesma lâmina tanto radicais como Danton quanto “ultras” como Hébert; anunciou a formulação mais clara do terror político: “(…) virtude, sem a qual o terror é desastroso, e, terror, sem o qual a virtude não tem poder (…)”.

É a virtude, em sua articulação com um sentimento de justiça sem concessões, sem demora, severa, inflexível, imediata; que tempera o terror político no tempo das revoluções. O terror é ao mesmo tempo uma emanação pura da virtude e um movimento de defesa diante das possibilidades inquietantes da emancipação.

Um movimento desse tipo se fundamenta em quatro pilares básicos: (1) o voluntarismo (sim, é possível remover montanhas sem nos preocuparmos com os obstáculos objetivos); (2) a violência divina (sim, é imperativo esmagar o inimigo, não importando quem ele seja); (3) a noção de justiça igualitária (Não, sem espaço para qualquer proporcionalidade na aplicação da lei, qualquer transigência é sintoma de corrupção); (4) confiança no povo (sim, é melhor errar com o povo do que acertar contra ele).

Mas esses pilares não estão postos soltos na arquitetura ideológica das revoluções. Eles são costurados pela ideia essencial de virtude.

Quando se perguntava “O que querem os que não querem o terror?”; Saint Just tinha uma resposta muito clara: “querem corrupção”.

A oposição entre virtude e corrupção alinha as manifestações do terror na história. Muito além do acontecimento revolucionário, como poderia supor Edmund Burke, enquanto lia, assombrado diante da sua lareira londrina, as notícias do banho de sangue que chegavam do outro lado do canal da mancha; o que tempera o terror é a necessidade de purificação social e de correção moral.

E isso, amigo velho, não é atributo exclusivo das revoluções.

As contrarrevoluções são pródigas neste quesito, basta, para citar como exemplo, as fogueiras inquisitoriais que assombraram Lisboa, do Terreiro do Paço, com seus autos de fé, ao largo da Igreja de São Domingos, com seus massacres de cristãos novos.

Revoluções são movimentos tectônicos da história. Elas chacoalham a ordem e desempacotam possibilidades emancipatórias surpreendentes. A despeito do terror ser um traço recorrente das revoluções modernas, é frágil afirmar que ele é “causado” pelo distúrbio revolucionário, como a evaporação da água do mar e as condições climáticas causam chuva por exemplo.

Antes da revolução, a virtude, e seu apelo de pureza e permanência, tem um papel muito mais proeminente na construção do terror em nossas narrativas políticas.

A história nos dá algumas pistas do ponto de virada em que a luta sincera pela moralização da política se torna politização da moral e cria o terreno fértil no qual o terror frutifica; mas não é fácil, no calor concreto dos acontecimentos políticos, lançados na ferocidade do mundo da vida, perceber quando atravessamos esta fronteira.

Neste tempo de cabeças cortadas e discursos que transformam violência em justiça, a dica talvez seja a de sempre desconfiar dos virtuosos com o mesmo ceticismo com que julgamos os corruptos porque, como colocou Bertold Brecht na boca dos velhos deuses ancestrais, na peça A Alma Boa de Setsuan: “(…) ninguém pode ser bom por muito tempo se a bondade não for estimulada”.

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Pablo Capistrano

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