Cabra das Rocas: a reconstrução de um bairro e de uma história de vida

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Estudante do Curso Superior de Tecnologia em Produção Cultural – IFRN Campus Natal Cidade Alta;
E-mail: raf06ael@yahoo.com.br

Cabra das Rocas conta a história de João, menino canguleiro, morador do bairro das Rocas, filho de pescador e que almeja ser aluno do Colégio Atheneu. A narrativa ocorre entre o momento da inscrição do personagem na seleção de admissão até sua aprovação. Nesse entremeio, ocorrem situações de conflito, descobertas e amizades que o personagem central, João, vivencia. Segundo o biógrafo, Alexis Peixoto, Homero Homem (1921-1991) defendia ser “Cabra das Rocas” o “[…] símbolo da vitória de nosso homem sobre a miséria e o analfabetismo, que não se tratam nem curam literalmente com ideologia”. O bairro das Rocas aparece com destaque nas linhas de Homem, como também a construção de alteridade: o canguleiro das Rocas e o xarias da Cidade Alta.

Descendente de Manuel Mascarenhas Homem, capitão-mor da capitania de Pernambuco (1596-1603) e líder da incursão que efetivou o processo de colonização no atual território do Rio Grande do Norte, fundando uma cidade e uma fortificação, Homero Homem tem suas origens em Canguaretama/RN, auspiciosa zona de engenhos de açúcar. Nascido em 5 de janeiro de 1921, Homero Homem de Siqueira Cavalcanti ainda criança se mudou para Natal após recorrentes negócios do seu pai que não lograram êxito.

Fixou residência no bairro das Rocas nos anos finais da década de 1930, histórica zona portuária da capital potiguar que ainda nos anos de 1920 havia se tornado um bairro populoso de Natal, onde reunia operários, pescadores e ferroviários. Seu avô, Siqueira Cavalcanti, Desembargador, morava no bairro da Cidade Alta. No início de sua vida adulta mudou-se para o Rio de Janeiro. Jornalista, poeta e romancista, o canguleiro – como chamado por Peixoto – envolve-se com a política partidária, concorrendo a alguns cargos eletivos no legislativo fluminense, mas sem nunca ter sido eleito. Durante parte de sua vida foi simpatizante do ideal comunista, porém acaba por abandoná-lo após a década de 1950.

Homero Homem tem no primeiro romance Cabra das Rocas um dos seus escritos de sucesso, publicado até mesmo em italiano. O trabalho do escritor potiguar contou com duas edições distintas, a primeira em 1966 e a última na década de 1970, nesta alterou alguns trechos do texto para o público infanto-juvenil, além de acrescentar dois novos capítulos. Porém, alguns contos que compõem a obra já haviam sido rascunhados e publicados ainda na década de 1940.

O romance de Homem configura um conjunto de contos sobre João, suas relações e experiências, e também sobre as Rocas. Na sua soma, os capítulos organizados pelo escritor potiguar acabam por contar a epopeia de um menino pobre de um bairro pobre que consegue alçar voo por meio da educação. No entanto, cada um dos capítulos tem uma independência entre si, percebendo-se a configuração de pequenos contos. “Rocas da frente”, “Um homem do mar”, A boca de Dora”, “Tatu morrendo de medo”, “O chispa humana” são exemplos de alguns capítulos autônomos e que acabam sendo costurados, por vezes sem tanto sucesso, por outros. Essa sensação de um “romance desmontável” pode ser atribuída ao contexto de construção da obra já adiantado anteriormente. Alguns capítulos escritos e alguns contos já publicados vinte anos antes da primeira edição e a adição de novos outros na edição da Série Vaga-lume.

Essa obra de estreia no romance do escritor canguleiro é construída por personagens que se confundem com a própria história de vida do autor. João, Budião, seu Geraldo, dona Laura, Porco-Espinho (Jorge), Dora, Mestre Brás e, inclusive, o bairro das Rocas são personas fortes que marcam a narrativa. Em Cabra das Rocas se percebe a reconstrução de uma espacialidade e, junto a essa, uma a reelaboração da memória de Homero Homem.

O autor espelha sua personalidade e história de vida na narrativa do romance, não apenas na figura do pretenso protagonista, mas também presente em pelo menos mais duas coadjuvantes. João, Budião e Porco-Espinho, dissecados e confrontados com a biografia de Homem, revelam-se o próprio romancista. O João, filho de um homem do porto, aventureiro, aberto a novas experiências e que almeja ser aluno do Atheneu; Budião, canguleiro de raízes profundas; e Porco-Espinho ou Jorge, herdeiro de uma família rica e que tem o trânsito frequente e facilitado entre as Rocas e a Cidade Alta. Não só sua personalidade, mas o seu nome completo aparece na listagem dos aprovados do exame de admissão do Atheneu publicada n’A República e lida cada nome por seu Geraldo até a aparição do nome de João.

Homero Homem descreve não só a si, porém outros que compartilhavam seu convívio. Mestre Brás, pai de João, marinheiro, rude, líder da comunidade e apoiador distante do sonho de ser “doutor” do filho, pode ser lido como Joaquim Homem de Siqueira Filho, pai de Homero, que apesar de não ser marinheiro, passou a trabalhar no porto quando de sua mudança para Natal e também apoia o filho, mesmo contrariado, nas suas escolhas de vida.

Outra personagem emblemática que se reconstrói em Cabra das Rocas é o bairro que confere título ao romance. As Rocas não aparecem apenas como um cenário em que se desenvolve a trama, mas como essencial para entendimento do habitus dos indivíduos retratados pelo poeta potiguar. O bairro é descrito nos seus aspectos geográficos e vivenciais, estabelecendo suas fronteiras. Outros espaços são observados no romance, como o porto, a praia, as dunas, que se complementam às práticas do bairro operário, e a Cidade Alta, que compreende um outro mundo, costumes e gestos diferentes das Rocas.

As diferenças entre a Cidade Alta e as Rocas são enfatizadas pela recorrência do uso dos termos xarias e canguleiros. O primeiro, xingamento típico das Rocas, que denominava o “morador da Cidade Alta, urbano e próspero, comedor de xaréu, peixe proibido à fome humilde do povo das Rocas, que o arrancava do mar a ponta de anzol e ia vendê-lo no mercado da Cidade Alta.” e que era identificado quando levava a mão ao nariz quando se via confrontado com o odor forte das Rocas da Frente. O segundo era o que caracterizava o morador do bairro e personagem do romance, que não era apenas resultado do consumo do peixe cangulo, mas vem carregado de uma identidade, de um indivíduo acostumado a “catinga” fermentada pelo sol, que espera as boas novas trazidas pelos marinheiros, frequenta a feira, às missas aos domingos, tem como lazer as conversas nas calçadas e a ida ao circo, entre outros aspectos expostos por Homero Homem. Ser identificado por xarias ou canguleiro configurava também a ideia de pertencimento e alteridade, do reconhecimento de si e dos outros.

Observa-se uma temporalidade linear, considerando o início e fim de parte da história de João, e na, na maioria das vezes, associada ao presente das narrativas. Numa perspectiva histórica o romance se localiza entre as décadas de 1930 e 1960, levando em conta sua aproximação com a história de vida do autor e a organização educacional operada no bairro título.

Cabra das Rocas pode ser encarado como a narrativa de autor nascido no Rio Grande do Norte que ganhou muita visibilidade, sobretudo fora do seu local de origem. A obra tem grande conotação social, apresentando o conflito entre os moradores dos bairros das Rocas e Cidade Alta, seus habitus, assim como a ideia defendida da mudança de uma realidade por meio da educação.

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