Cair Atirando

Ana Cláudia Trigueiro
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– Quer dizer então, que agora estamos fodidas de vez?
– Me poupe dessa sua boca suja!

Detestava os palavrões que a filha costumava declarar em alto e bom som, apenas para vê-la enervar-se. As coisas já andavam muito ruins para ainda ter que aturar aquela imatura e suas provocações: perdera o emprego há cinco meses e sacara a última parcela do seguro desemprego há quinze dias. Não teria como pagar os próximos alugueis, nem tinham para onde ir, caso recebessem a ordem de despejo.

Agora lavavam juntas a louça do almoço e ela tentava explicar a situação crítica em que se encontravam. Havia deixado currículos em vários escritórios, mas o desemprego atingira seus piores índices naquele ano. O ex patrão se comprometera a indicá-la para os fornecedores, mas há algum tempo não atendia suas ligações.

– Mãe, isso é hora de você se preocupar com a merda do meu jeito de falar? Estamos fodidas!
F-O-D-I-D-A-S!

Respirou fundo. Um berro ficou preso à garganta, um tapa comichava na palma da mão. Lembrou-se do cafajeste que a engravidou e sumiu do mapa, assim que soube da notícia. Lembrou-se do medo de ter a filha, sem um pai que a ajudasse. Lembrou-se da alegria de ver o bebê pela primeira vez, naquele hospital público quente e sem ventilação. Economizaria suas energias. O motor da máquina de lavar pifara e ela teria que passar a tarde lavando as roupas que as duas acumularam nas últimas semanas.

Após meia hora de espiada no celular, tomou coragem para chegar ao tanque da minúscula área de serviço, onde as peças descansavam no molho. Algumas, na cor branca, boiavam no balde. Calcinhas, sutiãs e meias espremiam-se dentro de uma bacia. Acocorou-se e começou a longa esfregação que a aguardava desde a manhã.

Lembrou da bisavó, Nina, paupérrima lavadeira de rio por toda a vida. Pensou com amargura, que três gerações depois, encontrava-se exatamente no mesmo ponto que a antecessora. Talvez estivesse ainda um passo atrás, pois a bisavó tinha a amplidão do rio, enquanto ela, olhava para uma parede lívida à frente.

A avó, Maria, fora costureira e garantira o sustento dos cinco filhos, vendendo roupas de carregação nos bairros vizinhos ao seu. Um câncer de mama a levara cedo. Obstinada, ainda conseguiu pagar os estudos da filha caçula. A mãe, Josefa, fizera o magistério, mas seus sonhos de emancipação foram interceptados pelo casamento, sorte única daquela descendência de mulheres ímpares.
Infelizmente, o sonho virara pesadelo: por muitos anos ela sofreu nas mãos de um marido violento, que finalmente denunciou, após ser estuprada pela enésima vez.
– Merda de roupa manchada!

Esfregava com força, a camiseta da filha. Dedos dobrados, friccionando o pano quase até rasgá-lo; dentes trincados, lágrimas escorrendo pelo rosto furioso. A bisavó banhava-se no rio, ela, chorava.

Quando cansou, deixou-se cair no chão molhado, com as mãos ensaboadas sobre a bacia. Fodida! Fodida desde tempos ancestrais. Fodida de bisavó, avó e mãe. Todas assombradas pelos infortúnios que levavam as mulheres daquela família ao desespero: pobreza, câncer de mama, violência, angústia.

No dia seguinte, a filha encontrou-a preparando sanduíches. Demorou meia hora para perguntar o que significava aquela caixa de isopor e aqueles embrulhos de papel laminado.
– Estou fazendo o que as fodidas da família fazem quando estão acuadas. Daqui por diante, lave suas próprias roupas ou foda-se com suas camisetas manchadas. Saiu sem ver a cara de espanto da filha, que nunca vira a mãe falar um palavrão sequer.

Foi vender sanduíches na praia e só voltou quando vendeu todos os vinte que havia feito. No dia seguinte fez trinta. No outro, quarenta. Estava furiosa com a vida. Foda-se você! Gritava intimamente. Foda-se você! Caíra atirando contra a sorte.

Enfrentaria aquela sina dos infernos! Reagiria como as outras reagiram. Lutaria contra o destino asqueroso que as fodia a cada geração. A bisavó esfregara roupas, a avó costurara, a mãe denunciara o pai, ela venderia sanduíches. A filha… a filha que aprendesse e rápido! Ela seria a próxima a ser caçada. O destino não a pouparia: ela era daquela família.

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Ana Cláudia Trigueiro

Comentários

17 comments

  1. Fernanda 21 agosto, 2017 at 13:00

    Que texto maravilhoso!! Uma verdadeira retomada da história cotidiana de tantas mulheres. Como somos vencedoras, diante de um mundo tão massacrante de direitos e oportunidades. Sobrevivência, violência, insubsistência… são os gargalos que enfrentamos no dia a dia.
    Parabéns!!

  2. Amália Silva Dias Melo 21 agosto, 2017 at 15:09

    Sem qualquer sombra de dúvida afirmo que Ana Cláudia Trigueiro é uma excelente escritora. A leitura deste conto só reafirma esta certeza. Parabéns! Obrigada por nós presentear com este texto leve, mas também muito profundo nas reflexões que suscita.

  3. Vânia Machado 21 agosto, 2017 at 16:47

    Ótima leitura! Nos remete a história de tantas mulheres ao longo dos anos. Lamentavelmente a história continua atual.

  4. Evelyne 21 agosto, 2017 at 17:36

    Texto rico, sensível e duro, e tão semelhante à realidade das mulheres. Brilhantemente colocado por Ana Cláudia, que possue o dom das palavras.

  5. Viviene Campos 21 agosto, 2017 at 17:37

    Um texto forte, marcante, sua linguagem dura e sem rodeios é impactante, nos sacode a ponto de podermos sentir a dor e o desespero de uma realidade tão atual e tão presente em nossos dias. Adorei!! Que venham os próximos, parabéns!!

  6. Elza Ferreira 21 agosto, 2017 at 17:43

    Leitura dinâmica,real!nos contorna a história de muitas mulheres no processo contínuo de submissão ao trabalho.E hoje quase nada mudou,nem com leis!

  7. Luciana Costa 21 agosto, 2017 at 19:00

    Me lembrou “Vida Maria”. Parece que todos temos um pouco dessas entrelinhas. Parabéns. Consegui adentrar no seu conto.

  8. Joseane 21 agosto, 2017 at 21:29

    Leitura excelente! Está de parabéns Ana Cláudia, retratando a realidade sofrida de muitas mulheres. Um texto bem escrito, que nos prende do início ao fim.

  9. Solange Martins 21 agosto, 2017 at 21:31

    Amei esse conto! Sem dúvidas, consegue traduzir fielmente a história, a vida, o grito de muitas mulheres. Parabéns!

  10. Edmar Cláudio
    Edmar Claudio 21 agosto, 2017 at 21:52

    Conto que desnuda uma realidade cotidiana cruel e perversa para o universo feminino. A precária condição socio- econômica mesclada com a fragilidade do tecido familiar. O desemprego como reflexo da instabililidade de politicas públicas equivocadas e desastrosas. A falta de perspectivas reforçando e perpetuando a reprodução de um modelo deprimente e opressivo. A tentativa de romper com esse mecanismo sufocante soa como um grito solitário de libertação. A trama é bem urdida pelo afinado tear literário de Ana Cláudia. Escritora premiada de valor inconteste. Seja bem-vinda!

  11. Neto 21 agosto, 2017 at 21:57

    Olá, estou lendo depois de estudo sistemático, foi bom pra dar uma aliviada. A liberdade é, senão, um hábito que se adquire de nadar contra as correntes… Mas, quem nada consegue nadar contra as correntes todo o tempo, não é mesmo? Ainda assim é preciso resistir ao pendor do destino… Parabéns… Beijo…

  12. Simone Costa 21 agosto, 2017 at 23:18

    Forte, cruel, mas muito real!
    Essa é a história de muitas…
    Incrível como você nos faz viajar em seus escritos.
    Parabéns Ana Claudia!
    Sucesso!!!!

  13. Sônia Trigueiro 25 agosto, 2017 at 08:49

    O artigo de Cláudia Trigueiro é excelente , retrata o cotidiano de pessoas simples de nossa sociedade. Pessoas que enfrentam muitas dificuldades para garantir a sobrevivência no transcurso de suas vidas. Retratou bem o mundo real e a vida como ela é para boa parte da população trabalhadora Brasileira.

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