Camarón de la Isla misturou flamenco e rock progressivo em álbum histórico

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A Andaluzia é o berço do folclore espanhol e terra de Camarón de la Isla, músico que soube mesclar a tradição de um gênero tido como ‘coisa de cigano’, de gueto, com o som que fazia a cabeça dos jovens nos 70s; disco La Leyenda del Tiempo (1979) tem grandes momentos

Responda de forma politicamente incorreta:

O que um vizinho pensa do outro que gosta de escutar flamenco bem alto?

No mínimo, que ele banca o toureiro diante do espelho com uma calça apertada, ou algo parecido, castanholas à mão.

Puro Magal.

Vez ou outra, gosto de ouvir flamenco por uns 30 minutos.

É o tempo exato para sonorizar, diria, iluminar a melancolia existente em todos nós.

O excesso de violões e vozes estridentes pode soar cansativo pra você.

Mas, de vez em quando, vale escutar o que Federico Garcia Lorca dizia vir “[…] do primeiro soluço e do primeiro beijo”.

Ainda mais o disco La Leyenda del tiempo, de Camarón de la Isla – ou simplesmente Camarón.

Na Espanha, os mais antigos o consideram um marco como Sgt. Peppers…, por sua mistura de jazz e rock progressivo.

À época, para variar, o disco revolucionário vendeu pouco.

Em 2013 foi lançada uma edição de luxo para comemorar o 35º aniversário de Leyenda…

O pacote inclui CD, vinil e livreto com mais de 60 páginas.

Além do documentário Tiempo de Leyenda (segue a íntegra):

São dez músicas antológicas, cinco delas adaptações de textos teatrais de Garcia Lorca, feitas pelo produtor Ricardo Pachón.

Pachón, por sinal, é quem toca o projeto comemorativo, pois Camarón morreu em 1992, vítima de câncer no pulmão, aos 41 anos de idade.

O músico era o penúltimo filho de uma família de ciganos andaluzes de San Fernando, próxima a Cádiz, localizada numa ilha (daí o la Isla do nome de guerra).

Entre 1969 e 1977 gravou nove discos com Paco de Lucía, monstro da guitarra cigana.

Mas sua obra máxima é Leyenda

Detalhe: Camarón tem o disco mais vendido da história do flamenco, Soy Gitano (1989).

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Músicos tarimbados no rock progressivo formaram time de Camarón na gravação do álbum revolucionário, um marco zero, considerado por parte da crítica nativa como o Sgt. Pepper’s espanhol

Poesia e rock progressivo

Jorge Monge Cruz, o Camarón, gravou Leyenda… com músicos do rock progressivo espanhol.

Estava tão empolgado que passou um mês socado na casa de Pachón, no pente fino em arranjos e composições apresentados pelo produtor.

A ideia inicial era usar poemas de Manuel Molina, mas uma confusão entre as esposas de Pachón e do poeta finalizou a negociação.

No documentário tem fotografias e imagens daquele período de efervescência cultural e política na Espanha, com arte contemporânea estourando em várias cidades.

Franco morrera dois anos antes, em 1977, ano da primeira eleição democrática, após quatro décadas de ditadura franquista.

A voz histriônica, sofrida de quem pede para a amada pensar mais um pouco antes de sumir de vez, aparece em temas, como La Tarara e Volando Voy (virou hino camarônico).

Em Nana del caballo grande, espécie de Within You Without You gitana, cítaras relembram George Harrison no clássico dos Beatles de 1967.

E Leyenda del Tiempo, faixa-título, um delírio sonoro gitano de melodia contagiante.

Camarón era contratado da Philips por uma mixaria mensal, sem direito a royalties.

Pachón então o ofereceu a CBS, com a promessa de tratá-lo como estrela.

Mas uma melhorada salarial, a liberação do principal estúdio sem limite de tempo e a possibilidade de tocar com jazzistas madrilenos o amarraram onde estava.

camaron-de-la-isla-2O resgate

Inexiste espaço para a cultura popular dentro do progresso proposto pela modernidade.

Na Espanha, como no Brasil, o folclore foi ‘descoberto’ via periferia.

Sobretudo na Andaluzia, em vez de Castela ou na Catalunha.

E como tal arranjo costuma sufocar o que vem de longe, ‘de fora’ dos grandes centros econômicos, a coisa minguou até virar exótica, esdrúxula.

Hoje o flamenco é fora de moda entre a juventude espanhola.

O som triste e rebuscado é visto como regional, do gueto cigano, fora de uma realidade urbana e americanizada.

Camarón de la Isla tratou de promover a integração entre o folclore e o que fazia a cabeça dos jovens naquele período histórico.

Fechar os olhos para o resgate de uma sonoridade tão rica e simbólica é o que tentamos evitar aqui nesta nota.

Pois, para além de mera curiosidade sobre a cultura dos outros, reconheço elementos similares com o que acontece deste lado do paraíso.

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