Caminhos de dentro

24 de março de 2010 às 21:40 - Comentar
Por Carmen Vasconcelos

Sibila da Líbia, arte de Michelangelo na Capela Sistina, Vaticano

Percorrer uma pessoa não é percorrer uma pessoa. É sempre somente uma tentativa. Um poema chamado “Desejo”, escrito em dia de treva, eu o encontrei entrecortado por outras minúcias. “Uma portinhola obriga-me/a amoldar o ato/de percorrer-te./Tua solidão ofega, ensombra./Mas te passo te adentro/agarro escuros em ti/espalho a unção de mim/afogueada e tonta./És antro, não refúgio, constato./Mas acato. Aceito perder-me.”

Só assim se tenta percorrer alguém: aceitando perder-se nas muitas formas de percorrer alguém. Caminho nunca findo, toda pessoa é labirinto, é um sem fim de corredores. E toda pessoa tem cantos aonde ninguém vai. Nem mesmo a própria pessoa.

Melhor então percorrer a si mesmo, explorando a solidão, nossa condição mais nua? Tentar encontrar-se é menos perigoso? Melhor entremear-se por florestas, que não são senão nós mesmos, como o fizeram Rousseau e Thoreau?

Retirar-se de alguém, fazer o caminho de volta? Quando se trata de pessoa, ter caminhado uma parte não garante o conhecimento do retorno. É a natureza do labirinto e não há princesa que nos presenteie com seu fio. Voltar pode ser muito, muito doloroso. Quase sempre o é, porque os retornos não têm precisão.

Nem sempre nos labirintos pessoais há os monstros que pensamos encontrar, mas haverá sempre alguns outros ou muitos outros. Toda pessoa tem minotauros, górgonas, esfinges, quimeras e hidras dentro de si. Pedras que se chocam e esmagam os passantes. Turbilhões que fazem naufragar os mais intrépidos navegantes. Porões enormes e escombros que nos podem surpreender agudamente. Percorrer alguém, mesmo sendo só tentativa, é capaz de envenenar o resto das nossas vidas.

E não haverá Sibila, nem poeta, nem um pai cuidadoso que nos guie. Percorrer uma pessoa é um ato solitário, quase tanto quanto percorrer a si mesmo. Mas há uma diferença gritante. Quando nos percorremos estamos nus, mas, para caminhar os outros, recorremos aos panos, aos couros e às vezes até às armaduras de metal e aos coletes à prova de bala. Percorremos os outros, quase sempre, munidos de escudos.

Talvez o contato com os recônditos alheios fique ainda mais difícil por causa das nossas defesas. Por causa do nosso apego insistente ao nosso modo de ver as coisas. Talvez as nossas vestes nos pesem, as nossas defesas nos enganem. Quem sabe até a nossa vontade de que o outro seja quem pensamos impeça-nos de entendê-lo um pouco mais como ele realmente é.

A portinhola. Talvez as pessoas todas devessem preservar as portinholas. Se quero entrar em ti, tenho de amoldar-me. Tenho de largar as vestes, as armaduras, os coletes, as burcas, os lenços. Devo entrar em ti nuamente, como se em mim entrasse, para me encontrar. Devo entrar em ti de mãos dadas contigo, e não solitariamente. Devo entrar em ti com a tua permissão, nunca antes de ela me ser dada. Para conhecer-te um pouco, devo abster-me de violar-te.

Mas… Como é difícil, não?

Comentários fechados.

AGENDA

  • Pinacoteca está com Edital aberto para ocupação das Salas de Exposições

    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

    mais informações »

  • Rede Cinemark exibe direto de Londres a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House

    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

    mais informações »

  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante