Careca: mundividência e estética

Artes VisuaisDestaque

Carlos Antônio de Figueiredo desde menino foi chamado de Careca (06.05.1961) tem formação acadêmica em Educação Física e Arquitetura. Pessoa afável, simples, detém a arte da conversa e a capacidade de despertar confiança e empatia num primeiro encontro. Seus pendores artísticos remontam à infância, pois gostava de desenhar nos cadernos dos colegas; adolescente, já pintava camisetas sob encomenda. Creio que atualmente é o mais importante artista plástico residente em Mossoró, tanto no que concerne ao pleno domínio de múltiplas técnicas, o que o faz transitar em domínios que dizem respeito a diversos estilos históricos da pintura ocidental, manifestando-se em quantidade e qualidade criteriosa dos seus trabalhos.

Essa mundividência, fruto de uma espécie de excitação mental, manifesta-se na sua obra através das inúmeras séries de trabalhos com características bem distintas, engendrando exposições monotemáticas que atestam de maneira categórica suas potencialidades, fazendo ver do amplo domínio das habilidades necessárias ao ofício do artista consciente das suas capacidades, mas, sobretudo, realizando-se nos seus trabalhos de um apuro formal dificilmente alcançado, atualmente, em terras do Rio Grande do Norte. Creio que Vicente Vitoriano é um dos poucos que detém tal capacidade.

Um dos traços que mais distingue Careca de uma boa quantidade de pintores é sua capacidade de compreender teoricamente a natureza e o efeito cromático causado por determinada cor quando posta em evidência ou seja, justaposta a uma outra. Quero dizer de sua habilidade de colorista sem carnavalizar a tela, gerando uma totalidade pictórica que nos conduz a fruir com prazer a harmonia conseguida com inúmeras cores, quase sempre muito vivas.

Isso também é perceptível nos suas telas: quer sejam expressionistas ou abstratas. Lembro também os retratos de pessoas, nos quais conseguiu captar traços psicológicos do retratado. Alguém que não conseguisse desenhar com propriedade jamais teria êxito num gênero bastante complexo, como o de fixar traços da compleição de um rosto e um eventual espectador inferir prováveis contornos de uma alma.

Tratarei brevemente de algumas séries que tive acesso.

Há uma série em preto e branco sobre Santos da Igreja Católica, tendo como pano-de-fundo uma justaposição de recortes com motivos tanto elaborados com a linha curva quanto com a linha reta, -que como sabemos, não é todo artista que é exitoso nesse contraste, – mesmo tendo essa profusão de cores opositivas, a figura central não perde seu contorno, é ressaltada e não pode ser confundida devido aos atributos que porta no corpo.

Uma outra série tendo como tema os santos, revela o seu hábil domínio do desenho clássico, sendo capaz não apenas de retratar o corpo humano nas exatas proporções exigidas pelo desenho clássico, como, por meio do jogo de matizes geradoras do sombreamento com o objetivo de compor semblantes bem distintos para cada rosto. Curioso é a presença de ressonâncias do barroco em algumas telas, pois algumas vinhetas que contornam a figura em evidência excedem em adornos, contrastando com o tema dominante.

A série de pinturas baseadas em xilogravuras são de forte apelo lírico e lúdico, parecem propor um mundo no qual os seres humanos vivam em harmonia com o meio. Creio ser um dos seus trabalhos mais originais.

Eis uma obra que permanecerá nos anais das Artes Plásticas em Mossoró. Careca insculpe seu nome, eterniza-se e triunfa sobre a morte. Lamento apenas que todas suas belas retrações da padroeira de Mossoró, Santa Luzia, seja cega…

Share:

Comentários

1 comment

  1. Janilce da Silva Falcão 5 julho, 2018 at 07:35

    Ele é uma pessoa maravilhosa, simples e humilde que tenho o privilégio de ser sua aluna onde eu achava que não tinha vocação para pintura com a existência da minha sogra Dorinha Almeida que sempre gostou de artes me convidou para participar das aulas na escola de artes que temos em Mossoró e estou adorando e não quero perder mais nenhuma.

Leave a reply