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Carito, um poeta do c…

Quando conheci Carito, numa carona descuidada com Sergio Vilar e Alex de Souza (desculpem a delação, meninos…), eu gostei logo dele. Seu bom humor me ganhou de cara. Mal suspeitava eu o quanto daquela leveza (era Fagner que tocava no toca-fita do carro?) eu v(iv)eria em forma de poesia.

Se alguém se atrevesse a me perguntar o que é poesia, eu responderia. Sim, logo eu, que tenho um certo horror a isso de opiniões formadas sobre tudo, eu, que não sou poeta, mas que me meto em alguns poemetos, eu, que também tenho as minhas convicções, afinal, a gente há de ter umas duas ou três: eu responderia que poesia é um jeito de ver e viver a vida. Uma maneira de sentir-ser o mundo.

E enquanto escrevo isso, já imagino Carito dizendo e rindo baixinho para essa solenidade toda de definições conceituais-caralhais:

Sentar no mundo. Para sentir.

Há várias coisas na poesia de Carito que me ganham.

Quando abri o livro dos Jovens Escribas lá no sábado de lançamento no ateliê de Flávio Freitas (que, aliás, assina também com seus desenhos o ótimo título “Entendeu ou quer que desenhe?”), um verso minou logo meu coração:

“A minha primeira medida

É quebrar a régua”.

Esses arquitetos-poetas-cineastas-vocalistas-performers etc. e tal são mesmo o cão!
(Ou, como disse o (im)próprio: “eu sou alguéns”).

Se for pra pensar o caos ao redor em forma de gavetas, eu pensaria: nessa gaveta da poesia de Carito tem as meias da plasticidade da linguagem: isso de puxar a matéria da(s) língua(s) para calçar e aquecer todos os pés possíveis de sentido; já nessa outra gaveta, eu coloco as calcinhas do riso: sacanagenzinhas imprevistas que quebram com uma expectativa e, para quem não for carrancudo, faz divertir à beça com o verso.

Há outras gavetinhas, claro. Mas eu prefiro essas. Gosto de ver/ler Carito chafurdando as duas gavetinhas, usando e abusando da metalinguagem. Tanto que ele diz:

“A poesia não tem pressa.
Não tem preço sua graça
Seu banco
É o da praça.”

“Ora trem muito
Ora trem pouco
Ora estar louco
Ora estação.”

“De Ásia ou azia
A palavra sempre
Fantasia”

Segundo os sabidos, Schopenhauer disse que o mundo ou é vontade ou é tédio. Carito então estica a baladeira da linguagem e atira justamente no convencional para quebrar com o que era previsível, esperado, tedioso. Acerta no alvo da vontade com seus versos precisos, curtos e certeiros, pra mexer com a gente, leitor, dando aquela instigação de ler só mais um de seus poemas:

“Cortei você da minha vida
Minha admiração por você
Foice”

“Quando procuro riso
E encontro raso
Não sei se estou
Fora do prazo”

“Os instantes são plenos
Os anos cada vez mais
Menos”

“E assim diz o $istema:
– Me dê cifra, ou te devoro!”

Leio e releio o livro (só o texto da orelha já é um furo!) e penso: que será dos nós, Carito? Que será da gente? Como diz ele mesmo, “O futuro? Adeus, pertences!”. Nestes tempos sombrios, comemoro: que bom que existe no mundo e neste Brasil temeroso um Carito, um poeta do caralho, que nos “anima” com sua poesia.

Tagscarito
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Cellina Muniz

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