Houve um tempo em que líamos Herman Hesse. Não lembro dos grandes livros dele, O Lobo da Estepe, O Jogo das Contas de Vidro… Lembro de Sidarta, Demian e O Último Verão de Klingsor. Parece besteira, mas Hesse ganhou o Nobel de Literatura. Hoje isso não diz mais nada, porque a academia sueca sofre de esclerose mental. Pois bem, foi por causa desse cara que eu passei a ver a vida de modo diferente. Foi por causa dele que eu fui parar em Nietzsche. A partir daí meu olhar para o mundo ficou oblíquo, desconfiado. Leio Schopenhauer sempre com um sorrisinho sacana no canto da boca. Mas Klingsor foi fundamental para eu não ter medo da velhice e da morte. Tem dias que eu vivo as mesmas sensações do velho artista Klingsor brindando seu entardecer. Hoje, por exemplo, estou assim. Penso em Picasso vivendo seus últimos dias. Penso em Luís Buñuel no limiar da despedida. Não pensem que o que estou dizendo aqui, agora, é carta de náufrago. Não, estou apenas sentindo o bafejar do vento solar em minhas faces e dizendo, ora, não seja por isso, venha. Viver e morrer é o mesmo sintoma da viagem. Gente humana é travessia, dizia o grande João. Não é preciso temer isso. Só quem teme são os covardes. Às vezes tem gente que olha para mim e diz, creia em Deus homem. E eu digo interiormente, o que é que eu tenho a ver com a história antiga do povo judeu? O que é que muda meu olhar diante deste mar, só porque um beduíno queria poder e disse ter visto um anjo em sua tenda ditando normas para sua sobrevivência? Religiões que nascem de revelações não me dizem nada. Kant me diz mais coisas inquietantes. Spinoza também. Então essa felicidade que sinto ao ver o sol nascer é algo bastante necessário. Eu brindo o roçar dos dias pelas esferas da eternidade. Eu brindo aos amigos. Eu brindo a Klingsor e sigo em frente. Assim vivo bem melhor em meio a este torvelinho de estúpidos.
