Carteira de estudante

Andreia Braz
CrônicaMais

Mesmo depois de uma noite maldormida, decidi levantar cedo naquele dia porque não queria adiar um certo compromisso, tampouco perder a carona de um colega de trabalho que é sempre muito gentil quando preciso de algum favor dele. Além disso, almoçaríamos juntos naquele dia. Depois de alguns bocejos e algumas reflexões matinais, decidi que um banho gelado e um café bem forte espantariam metade daquele sono e da moleza que me puxavam de volta para a cama. Levantei rapidamente e segui um velho ritual: abri janelas e portas (adoro a luz do sol), lavei o rosto, escovei os dentes e preparei meu café da manhã. Depois do banho, degustei o bom e velho café com um pedaço de bolo de macaxeira (meu bolo predileto). Estava pronta para encarar o novo dia.

Ao chegar à universidade, no entanto, não fui direto para o local do meu compromisso. Decidi dar uma passada na livraria do campus e conferir uma feira de livros que começava exatamente naquele dia, por ocasião dos 40 anos da Cooperativa Universitária da UFRN. O evento contava com feira de sebos, palestras e, claro, algumas promoções da livraria que festejava quatro décadas de serviços prestados à comunidade acadêmica. Infelizmente, não foi possível tomar o café de sempre no balcão da livraria. A atendente havia faltado porque estava doente. Lamentei o fato e segui em frente. Afinal, após o almoço, eu teria um encontro com um grupo de amigos que se reúne, especialmente, para tomar café, e isso já era motivo de alegria para iniciar minha jornada. Estar com eles é sinônimo de boas conversas e muito aprendizado.

Bem, chegando ao local do meu compromisso, logo entendi que seriam necessárias ao menos umas três horas para ter em mãos minha carteira de estudante, o que me fez pensar em voltar outro dia; afinal, eu tinha tantas outras coisas por fazer. No entanto, decidi ficar. Não tinha escolha. Eu realmente precisava fazer minha nova identidade estudantil. Em poucos minutos, quem sabe tentando esquecer o tamanho da fila, estava conversando com algumas meninas; uma delas visivelmente revoltada com o fato de ter de pagar um valor x todo ano para fazer uma carteira que poderia simplesmente ser renovada eletronicamente. Realmente, aquilo não fazia sentido.

Depois desse papo, começamos a falar sobre a precariedade do serviço de transporte público em Natal, comparando-a com outras capitais do país, como São Paulo, por exemplo, e criticando o preço abusivo da tarifa de ônibus em nossa cidade. Não demorou muito para iniciarmos um longo diálogo sobre desigualdade social, violência e temas afins. Temas como distribuição de renda, sistema carcerário brasileiro, violência doméstica, também fizeram parte de nossa pauta, marcada sempre pela revolta de saber que muitas coisas poderiam ser resolvidas com ações mais enérgicas do poder público. Mas o papo não foi de todo sério, também falamos dos nossos humoristas prediletos e coisas do gênero. As gargalhadas foram suficientes para amenizar a tensão gerada pela discussão anterior.

E nesse clima de leveza, começamos a falar de música. Uma das moças com quem estava conversando é membro da orquestra de violoncelos da UFRN, e isso foi tema para o restante da nossa permanência na fila. Letícia, que é natural de Luís Gomes (município do RN), faz o curso de Bacharelado em Música na UFRN. No meio da conversa, acabei descobrindo que já havia assistido diversos concertos nos quais ela tocou. Apesar de não entender muito de música, técnica e teoricamente falando, sou uma apreciadora da música clássica e adoro assistir aos concertos gratuitos que a Escola de Música da UFRN oferece.

Letícia falou de sua árdua preparação como violoncelista e da rotina extenuante de ensaios e estudos teóricos. Ela ensaia no mínimo cinco horas por dia. É uma vida de muito estudo e também de algumas privações. Ledo engano pensar que a vida de uma musicista resume-se a eventos e reconhecimento do público. Há muito trabalho por trás de cada novo espetáculo! No próximo feriadão, por exemplo, ficará na cidade estudando. Ela divide um apartamento com uma amiga em Natal e às vezes passa muito tempo sem ver a família, que mora no interior. Entre outras coisas, Letícia contou da necessidade de estudar, além da música em si, conteúdos de arte, história etc.

Ainda sobre sua trajetória como violoncelista, ela falou de algumas conquistas importantes, como uma viagem para o Canadá, em 2016, onde ficou por vinte dias e fez vários concertos. Além da experiência como artista, ressaltou a importância do intercâmbio cultural, da vivência com mexicanos e canadenses, especialmente, no alojamento onde a orquestra ficou hospedada, na cidade de Québec.

Fiquei encantada com a história dela, e passaria muito mais tempo ali a escutando, mas, chegada a vez de renovar minha carteira de estudante, despedi-me daquela moça simpática que havia conhecido há poucas horas e por quem já nutria certo carinho e admiração. Há coisas que não sabemos como explicar, mas somos gratos por tê-las vivido. Despedi-me daquela manhã calorenta e agoniada com um sentimento de gratidão. Em pensamento, agradeci a Letícia por ter ido fazer sua carteira de estudante no mesmo dia que eu. Sigo torcendo pelo sucesso profissional daquela jovem musicista e desejando que ela consiga realizar seus sonhos, inclusive o de estudar fora do país.

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Andreia Braz

Comentários

3 comments

  1. Ana Cláudia Trigueiro
    Ana Cláudia 1 setembro, 2017 at 16:13

    Como sempre, um jeito todo especial de falar do cotidiano. Uma narrativa fluída e gostosa, quase como um diário, que o leitor deseja seguir até o final. Parabéns, amiga! Também desejo tudo de bom para a musicista. Beijos.

  2. Edmar Claudio 2 setembro, 2017 at 10:50

    A autora nos presenteia com um texto adorável em que se destaca a importância da comunicação informal entre pessoas que , em certos momentos, têm o mesmo objetivo ou ocupam temporariamente o mesmo ambiente. Destaco, nesta narrativa, a cuidadosa atenção nas pessoas, nas origens, nos ofícios, nas necessidades peculiares de cada um daqueles que nos estão próximos, mas que precisam ser percebidos e entendidos como seres com identidades e particularidades diversas. E como flui, dessa percepção do outro, um espaço interativo de troca de experiências, saberes e , sobretudo, de solidariedade, compreensao , respeito e tolerância.

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