Caso de estilos

6 de novembro de 2009 às 9:48 - Comentar

Do leitor Hamilton Alves, de Florianópolis, por e-mail:

“Numa troca de correspondência internética, por sinal muito interessante, com formulações muito curiosas, que buscavam aproximar os estilos de dois escritores, que viveram em ambientes culturais tão diferentes, Machado de Assis e Thomas Mann, cheguei a ponto, respondendo a uma das indagações de meu interlocutor, de sugerir que, no tocante à famosa novela “Morte em Veneza”, guardava mais ou menos o estilo solar de um conto de Machado como “Idéias de Canário”, um dos melhores, a meu ver, que produziu dentre outros tantos, que o consolidaram como um dos maiores contistas mundiais.

O tema veio à baila porque o meu interlocutor, em certo momento, quis saber se o fato de Mann ter nascido de uma mãe brasileira teria de algum modo interferido em sua obra, diferente, segundo ele, da linha seguida, meio fria e distante, da maioria dos escritores de língua germânica.

Limitei-me, de início, a responder que o fato da hereditariedade (provindo do seio de uma mulher dos trópicos ou dos nossos trópicos especialmente) poderia, sim, ter exercido alguma influência na narrativa do consagrado escritor, mas que de outro lado era muito difícil de verificá-lo.

A seguir, suscitei a semelhança com Machado no conto citado, que reflete bem o estilo solar que caracteriza a semelhança entre ambos. E isso, por si só, revelaria o significado considerável que a descendência de Thomas Mann teria na marca de seus romances, especialmente o já referido “Morte em Veneza” – em que tal característica fica mais visível.

Essa opinião, expendida assim ao acaso, no curso do diálogo havido, levou meu interlocutor a lembrar que poderia suscitá-la num ensaio ou noutra peça literária.

Disse-lhe que, quando menos, uma crônica bem que seria o lugar próprio para esse fim, ainda que de forma muito resumida, como é, em geral, o espaço de uma crônica.

Foi por isso que dei tratos à obra e, aqui, neste curto espaço, coloco esse tema curioso e ao mesmo tempo inédito de achar semelhança no estilo solar de Machado de Assis com o de Mann em sua novela consagrada.

Essa semelhança existiria mesmo, teria algum fundamento ou trata-se de um mero devaneio de um cronista, que, no curso de uma conversa, subitamente, a esposou ao sabor de um lampejo momentâneo?

É fora de dúvida que as duas obras (independentemente de serem gêneros bem distintos) guardam esse teor solar a que me referi, com o sentido de “claro, límpido, vibrante” – (Dicionário Aurélio).

Ambos tiveram mãe (no caso de Mann)_ e pai (no caso de Machado) não nascidos no país de cada qual.

Saber se os respectivos pai e mãe dos dois eminentes escritores decidiram sobre seu gênio ou estilo literário é um problema crucial e, provavelmente, insolúvel.

Até porque o gênio é um mistério. Embora o estilo possa ter sido de alguma forma afetado.”

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    COMENTÁRIOS

    • Anne Guimarães: Um poema ensolaradamente gris em tons de azul.... A vida simples e sagrada de quem encontra no mar a sua honra, a sua luz. Admiro tudo que eleva a vida de um pescador.... Lindos versos, bela vida natural potiguar! :) - Tarrafas
    • Anne Guimarães: Poeta Anil.... Sempre bom ler seus poemas.... Ouvir sua voz, receber sua alma.... "Abracei novas incertezas /Sussurro, nem sempre é gozo/ Só o agora é urgente" afff mexeram aqui dentro, rsrs. Esse também é o papel da poesia, motivar, emocionar, contar aquilo que a gente não disse , mas viveu ou vive - em silêncio - na quietude dos sentimentos mais intensos.Você sabe bem o que isso significa, vive poesia e respira versos na beleza do cotidiano sagrado. Beijos,querida! :) - Fio de luz
    • Anchieta Rolim: ...só o agora é urgente...Belo poema, Ednar. - Fio de luz
    • Anne Guimarães: Querida poeta-flor! ô coisa lindaaaa.... Lembrei agora de um poema de Carlos Nejar para sua filha Carla, em um dos versos sábios ele diz: " é no simples que as coisas são completas." É isso mesmo, quanto mais simples, mais doce, mais prazer nessa vida breve vida. Estarei sempre contigo, menina! Suas palavras serenas me mostram que - de uma forma ou de outra - é especial cada segundo de leitura aqui. Beijos no espírito. :) - Vagalume da Paz
    • Anchieta Rolim: Romana, é justamente isso que falta no mundo minha amiga, luz e paz. Bela poesia! Parabéns ! - Vagalume da Paz
    • Anchieta Rolim: Beleza de texto J. Paiva. Só espero que os meninos de hoje também sonhem com um Brasil melhor...Pois ainda há muito a ser feito.Parabéns! - Política de menino
    • Paulo César: Sr. Tácito, Pelo que eu saiba jornais não permitem a transcrição de artigos da forma como o senhor vem fazendo no seu site. Colocar um link é uma coisa, transcrever e fazer o leitor continuar no seu site, quando o artigo tem direitos autorais e está hospedado em outro local e tem regras de uso.O utilização da forma como o senhor vem fazendo denota pirataria, palavra muito em voga e contraditória, mas ainda passível de sanções pelas atuais leis do país. Não alerto apenas por alertar, mas sugiro consultar - se me permite a sugestão - um advogado para entender a sua situação atual(devidamente gravada e arquivada para uso, mesmo que esse e outros conteúdos sejam retirados do ar imediatamente). Com muito respeito, Paulo César - Viajantes e apaixonados em transe
    • Jarbas Martins: Qualquer seleção de poemas, antologia, florilégio, ou que outro nome tenha, sempre passou, no período histórico chamado de Modernidade, pelo crivo da parcialidade. Baudelaire, que além de poeta, era crítico de poesia, e da arte de um modo geral, sabia disso.O poeta e antologista Paul Éluard,à época da festiva revolução surrealista, tanto sabia que lançou a sua parcialíssima seleção - "Le Meilleur choix de poèmes est celui que l'on fait pour soi- 1818-1918". (A Melhor seleção de poemas é aquela feita para si mesmo -1818-1918"). Nestes rasos tempos da Pós-Modernidade - o prestígio, uma espécie de capital simbólico, segundo Bourdieu (e viva as lições do meu colega e amigo, professor-doutor Emmanuel Barreto), teria que entrar como um critério.O mercado assim determina.Daí a razão porque Ferreira Itajubá e Jorge Fernandes (mesmo com o aval de nomes como Luís da Câmara Cascudo,Mário de Andrade e Manuel Bandeira) - sempre são "esquecidos" das antologias feitas no preconceituosíssimo e longínquo Sudeste. Pobres, marginalizados e insulados em sua província submersa - não contam com uma "fortuna crítica" que merecem. - A identidade do verso brasileiro
    • Jairo llima: Fernando Monteiro está no centro do cânone de nossa literatura. Fico feliz de ser contemporâneo e conterrâneo deste artista. - As asas da noite que surgem (1)
    • Fernando Monteiro: Belo hai-cai, Poeta -- obrigado! -- com essa certeza, sempre, de haver sido LIDO, sim, quando o ouvido apuradíssimo da LEITURA (raridade rara - tautologia necessária) é não menos que o do Poeta que sucedeu, aí, em grandeza lírica, o querido (saudade!) Luís Carlos Guimarães: JARBAS MARTINS. - As asas da noite que surgem (1)