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9 de março de 2010

Horóscopo

Por Madame Cabaret

Por Madame Cabaret
( http://www.madamecabaret.blogspot.com/ )

A previsão é a visão turva do acontecimento.

Não é ao acaso a ocorrência de eventos festivos em meu Cabaret. A atração pelos mangues se dá pela riqueza ali disponível.

Era dia de casa cheia. Muitos políticos, empresários e jornalistas se esbaldavam na companhia de algumas de minhas meninas.

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24 de novembro de 2009

Solidão

Por Larissa Gabrielle

solidão

Como muito bem dizia o cronista Antônio Maria, só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta.

A cidade, a rua, a casa, o ar, o colo, a cama, o corpo e principalmente a multidão nos acumula um apelo desesperado de angústia. É como estar apaixonado, nada além da pessoa amada sensibiliza. É como a morte, nada além do silêncio desespera.

Quando eu era criança viajava com meus avós para Itaiçaba, terra deles no interior do Ceará, passava por casas no meio do mato, lá longe, onde a luz da lamparina trazia felicidade. Lembro que ficava imaginando como seria a vida daquelas pessoas, que as crianças não conheciam o Topo Gigio, não brincavam de Barbie e a fada Xuxa que alegrava minhas manhãs descendo de uma imensa nave espacial não alimentava os sonhos deles. Lembro que eu dizia na minha inocência infante “Vixiii, Vó e eles não brincam? Não se divertem?”.

Hoje adulta, mas não menos criança, vejo que a solidão daquelas casas era minha. Quando observo o cotidiano das pessoas que não vivem na zona urbana entendo os valores que eles trazem no coração. O aconchego, a mesa farta, a contemplação do sol nascendo, a família reunida para a sopa ao entardecer, as verdades que são para sempre.

Acredito que eles se sintam menos sós do que eu e meu celular com mais de quatrocentos números na agenda. Do eu e meu orkut com mais de oitocentos “amigos”. Do que eu e meu twitter com meus mais de duzentos seguidores. Do que e minha TV com mais de cem canais, eu e meu MSN, meu Skype e todas as palavras, todos os sambas, todas as noites.

Não há entendimento com a solidão. Ela gosta de silêncio.

16 de novembro de 2009

A biografia de Clarice Lispector

Por Tácito Costa

clarice 1“A irresistível biografia escrita por Benjamin Moser (Why this World, Oxford University Press), que recebeu ótimas criticas nos Estados Unidos, ilumina o mistério Clarice Lispector, tanto o literário quando o pessoal. Ele – e ela – hoje estão no circuito universitário americano, nas rádios, jornais e programas culturais.

Será um bestseller como Paulo Coelho? Com certeza, não. Vai ser a mais lida das nossas escritoras gracas ao Ben? Provável, se ainda não é.

Benjamin esta semana sentou na cadeira onde durante quatro anos sentou Paulo Francis, responsável pela última frase do livro, o perfeito epitáfio de Clarice, segundo Benjamin: “Ela se tornou a própria ficção”. Lucas Mendes

aqui

12 de novembro de 2009

Julio Cortázar

Por Tácito Costa

julioConfira no link abaixo texto e fotos do jornalista e tradutor Cassiano Viana e do fotógrafo Sergio Werner sobre o escritor Julio Cortázar. São fotos de lugares em Paris citados por Cortázar em sua literatura e de outros nos quais ele viveu.

aqui

6 de novembro de 2009

Vladimir Nabokov

Por Tácito Costa

nabokov

“O lançamento no dia 17 de novembro de um livro inédito de Vladimir Nabokov gera polêmica 32 anos depois da morte do autor de “Lolita”.

O filho único do escritor russo, Dmitri, de 75 anos, hesitou durante 30 anos antes de confiar a obra ao agente literário Andrew Wylie, que negociou os direitos em 2008 com as editoras Knopf/Random House, nos Estados Unidos, e a Penguin, na Grã-Bretanha.

Guardado no cofre forte de um banco em Montreux, na Suíça, onde Nabokov morreu em 1977, o manuscrito “O Original de Laura” –título completo de uma obra incompleta– foi alvo de apaixonados debates em várias conferências e artigos que continuam sendo feitos sobre um dos maiores escritores do século 20.

Nascido em São Petersburgo em 1899, ele escreveu primeiro em russo e depois em inglês, a partir de 1941.

O professor de literatura russa da Universidade de Cornell, Gavriel Shapiro, destaca que o escritor quis queimar o rascunho de “Lolita”, o romance que o tornou mundialmente famoso em 1955.

Chamas

Foi a viúva de Nabokoc, Vera, que salvou “Lolita” das chamas, assim como impediu que “Laura” fosse queimado. Em uma entrevista encontrada nos arquivos da BBC, Vladimir Nabokov explica que as fichas de cartolina nas quais escreveu a obra não são capítulos completos. “Depois vou preenchendo os vazios”, acrescentou. Esse procedimento de escrita progressiva, feita através de pequenos retoques, serve de argumento para quem critica a publicação da obra incompleta.

Segundo Dmitri, o livro inédito conta, “em parte, a história de um neurologista brilhante, mas fisicamente pouco atraente, deprimido pela infidelidade da esposa mais jovem e que pensa em cometer suicídio”. (FSP)

6 de novembro de 2009

Fliporto 2009

Por Tácito Costa

Foi aberta ontem à noite por Eduardo Galeano, com a palestra “Os espelhos da memória”, a Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas – Fliporto 2009. No link abaixo, a programação do evento, que este ano homenageia o poeta João Cabral de Melo Neto.

aqui

5 de novembro de 2009

Moacyr Scliar

Por Tácito Costa

“Manual da Paixão Solitária”, de Moacyr Scliar, recebeu ontem o Prêmio Jabuti de livro de ficção do ano. A obra de Scliar já havia conquistado em setembro o Jabuti de melhor romance. Já o livro de não-ficção do ano é “Monteiro Lobato: Livro a Livro”, de Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini.”

3 de novembro de 2009

A foto que eu vi

Por Tácito Costa

Jairo Lima
A Fernando Monteiro

vi o sangue e o pus de Anna Akhmátova
celebrados em duras taças de granito
e ali estava um corpo de suores
feito poema
transformado em mito
ou salmo de escárnio e maldições ferozes
ou ainda em memória de gritos

vi a grande mordaça cujo número é vinte e dois
jogada inútil num monte de pó
para que um canto, uma blasfêmia
fosse buscar sua têmpera
nas próprias fornalhas do sol

ah, estes clarões de sangue
como iluminam
e rasgam
as rimas, os risos, os guizos
a sensibilidade em febre, assustada
de minúsculos passarinhos
que negam o trovão da Grande Mágoa
e se entretêm em cantar pequenas insolências
ritmadas
em versos ruiz

vi, de fato, a foto ensangüentada
enclausurada num sacrário ateu
e vi escrito em suas carnes devastadas
queste parole di colore oscuro
que dante um dia no inferno viu

3 de novembro de 2009

Dois lançamentos literários no Midway

Por Tácito Costa

Dois lançamentos literários estão programados para quinta-feira (5). Ambos no mesmo local – Shopping Midway. Às 18h30 as Edições Flor do Sal lançam no Cinemark o livro “De Mocinhos e Super-Heróis”, seleção de crônicas do jornalista Alex Medeiros, no Cinemark.

No mesmo horário, mas na Livraria Siciliano, a Editora Una lança “Lábios-espelhos”, da poeta Marize Castro. Os locais dos lançamentos são vizinhos, é sair de uma fila e entrar na outra.

30 de outubro de 2009

Contos e causos de Públio José

Por Nelson Patriota

O rico repertório de causos sertanejos é uma fonte segura para um ficcionista novato. Por essa razão, fez bem o jornalista Públio José em buscar na sua vivência interiorana a substância que enforma a matéria das histórias reunidas em seu livro de estreia “Contos. Porque conto”.

Na apresentação que faz ao livro, o escritor Tarcísio Gurgel salienta justamente a presença dos causos na escrita ficcional de Públio José, na medida em que ele traz ao leitor pequenas histórias ambientadas em vilas e pequenas cidades sertanejas e agrestes, das quais informa detalhes socioeconômicos gerais, e onde destaca um fato curioso, habitualmente engraçado, envolvendo algum personagem popular. As ilustrações de Vancildo Cabral Cardoso (Jupy) e Rita Gurgel dão a cada conto um colorido adicional.

A ficção de Públio José seria, assim, uma escritura sem preocupações de ordem formal ou estética, situando-se naquilo que o professor Tarcísio Gurgel descreve como “as graças do quê mais do que os salamaleques do como”? Ou seja, se a história diverte o leitor, por que reparar se ela não se apresenta numa forma literária sofisticada?

O reparo que se poderia fazer a esse tipo de exortação é que nem toda história se propõe a divertir; não exclusivamente só a isso. Tampouco se deve dividir os escritores entre os que divertem mais e os que divertem menos. Nisso, o professor Tarcísio Gurgel acerta ao assinalar que essas são questiúnculas acadêmicas.

Nem se aplica aos contos de Públio José esse caráter unívoco de divertir por divertir. Ao lado da diversão, como assinalamos acima, ele agrega costumes, lugares, crendices, particularidades da vida sertaneja (ou agreste), entre outras. Isso confere aos contos uma riqueza que, individualmente, eles não parecem ter. A par disso, destaque-se o apuro e a correição da linguagem, decantada nos muitos anos de atividades jornalísticas do autor.

O cenário que se abre ao leitor é rigorosamente nordestino, embora apresente elementos comuns a outras regiões e culturas. Como imaginar uma coletânea de causos sem, digamos, um diabo que seduz um ambicioso, o que não passa de mais uma versão popular de um velho tema medieval que tem um motivo trágico, em outras tantas versões do drama do Fausto, seja o de Goethe, seja o de Marlowe, etc. Isso em nada tira o brilho do conto “A pereba do agiota”. Como não ver no conto “A mão misteriosa” um daqueles causos inverossímeis que compõem a biografia popular de Pedro Malasarte? Em “O Rui Barbosa de Macau” e “O francês invade Seridolândia”, deparamos a mesma crítica e a mesma incredulidade do sertanejo respondendo a tudo aquilo que lhe pareça excessivo ou inverossímil.

Numa outra vertente, o autor sobe literalmente aos palcos dos comícios do interior para flagrar um disparate pronunciado por um chefe político, ou uma alusão que foge ao entendimento do homem interiorano que, ao ouvir “Robespierre”, entende “pobre do Pié”, um deficiente físico indigente que, de repente, vê sua vida mudada graças ao equívoco.

Já em “Dedo assassino” Públio como que franze o cenho para narrar a trágica e inglória luta de um sertanejo contra a picada de uma cascavel. É interessante observar que o escritor Nilson Patriota tratou de tema análogo em seu conto “Picada de cobra”, o qual tem um fim igualmente trágico, traduzindo um saber comum do sertanejo no trato com os ofídios.

Os contos situados na fazenda “Barrinha”, em São José de Campestre, com seus habitantes permanentes – o casal Lenira e Lindolfo, a empregada Maria Rosa, os trabalhadores eventuais e ocasionais visitantes constituem um núcleo narrativo à parte dos demais relatos de “Contos. Porque conto”. De fato, são narrativas que sintetizam uma abordagem mais pessoal do autor ao seu mundo da infância, reminiscências soltas que poderão vir a constituir um volume próprio, quem sabe costuradas por um fio conduzido pelo mesmo narrador impessoal que aparece fugazmente nesses causos e contos, dos quais transparece uma grande riqueza demográfica e sociológica e que são, a nosso ver, a parte melhor do livro.

27 de outubro de 2009

Ler…

Por Daniel

Tácito,

Após intensa ausência, volto à tona para defender Daniel Pennac.  Li Como um romance para minha dissertação de mestrado.  E acho que há uma incompreensão de sua parte ao criticá-lo como sendo argumento pífio sem ler o texto de Pennac.

Não cabe aqui o detalhe, mas recomendo a todos a leitura de Pennac.  Resumidamente, Pennac fala do leitor maduro como um leitor que lê por prazer.  Por isso, ele tem o direito de não ler.  Ele dá vários exemplos e um do contraponto, que é a relação entre ele, seu filho e a leitura.  Quando criança, o menino era um leitor voraz.  Quando se torna adolescente, revolta-se contra a leitura – porque era obrigado a ler para fazer trabalhos, resenhas, resumos… páginas e páginas de leitura com finalidade.  Para Pennac, e nisso assino embaixo, o fundamento principal da leitura não é qualquer finalidade, mas o prazer.

Na minha dissertação trabalhei essas ideias de leitura conjugadas com outras teorias de leitura e com as noções de estética da recepção e da teoria do efeito estético (Jauss e Iser, principalmente).

Pennac, a meu ver, concorda com você: leitura é fundamental.  Mas ele mostra como é o processo de se tornar um leitor maduro – num caminho de ler de tudo (maus e bons textos) até aprender a apreciar os bons textos.

Depois mando uns artigos sobre o assunto para o site.  Aliás, falarei sobre estética da recepção sexta-feira para um grupo de professores num projeto do Pro-ler do governo do estado.

24 de outubro de 2009

Vi uma foto de Anna Akhmátova

Por Tácito Costa

Por e-mail, enviado por Maria da Paz Ribeiro Dantas (Recife – PE):

Tácito, boa noite.

Li o poema de Ferrnando Monteiro Vi uma foto de Anna Akhmátova, no seu blog. Foi uma ótima idéia, essa de lançar aos quatro ventos uma poesia que ainda é aventura, emoção, envolvimento. Se possível, transmita a Fernando este recado com a impressão de minha leitura:

Fernando:

Com Vi uma foto de Anna Akhmátova – que li no Substantivo Plural -, você rebentou todas as comportas; trouxe de volta o fogo dos poetas “possessos”. Que delírio! Quem pode dizer que “as grandes narrativas” (jargão do pós-modernismo) estão sepultadas ?

Grande abraço

22 de outubro de 2009

O animado cordel da belle époque

Por Tácito Costa

“Na grande época da alfabetização em massa, as duas décadas finais do século XIX, qual foi o livro mais lido na França? Quem pensou em Émile Zola acertou no tema e errou no autor, pois o mais vendido não foi um livro propriamente dito, antes um folheto com cinco páginas de textos, gravuras e canções intitulado O Testamento Oficial de Émile Zola, que atingiu a fabulosa marca de 160 mil exemplares em 1898. Escrito por um tal de “Zola, vulgo Javali Pornográfico”, o folheto legava a totalidade de suas obras “aos banheiros públicos, que farão delas o uso naturalmente indicado”, e terminava com a letra paródica de uma canção cujo refrão dizia: “Compuez Zola! Compuez!” (Vaiem Zola! Vaiem!).”

aqui

9 de julho de 2009

Ainda sobre os amadores

Por Daniel

Tácito,

Concordo com você.  Porém, não deixo de vislumbrar que a nossa nova economia discursiva sofre interferência das relações de poder e de capital, tais quais as da mídia convencional.  Apesar da emergência das vozes alternativas, como você destaca, alguns fenômenos são bastante claros.  Um único exemplo para pontuar a questão: apesar de Nassif, Substantivo Plural e outras vozes alternativas, o site mais visitado do país é o UOL – que é a Folha de São Paulo presente na Internet.  Mas de resto você limitou bem o grau de concordância que eu tive na questão com Andrew Keen.

9 de julho de 2009

Prosseguindo a leitura de O culto do amador

Por Daniel

Prossigo, também, minha leitura de Andrew Keen ( O culto do amador: como blogs, MySpace, YouTube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009).

Keen (2009, p. 82) diz que, com a emergência da Internet, perdemos “aquela conversa ou debate informado sobre os fatos em relação aos quais todos têm uma opinião que é lugar-comum”. Que imagem é essa? Quem disse que na mídia convencional é diferente? A Internet, reitero, desvela o discurso que já está presente na mídia convencional.

Mais a frente, ele cita uma matéria do The Economist que informa que os falsos links de fraudes publicitárias constituíram, em 2006, algo em torno de 10 e 50% de toda publicidade online em 2006 – “totalizando algo entre 3 e 13 bilhões de dólares” (KEEN, 2009, p. 85). Para quem se arvora a ser um especialista preciso, a precisão é inacreditável!

Na mesma página, Keen diz que na mídia convencional a gente era capaz de reconhecer a distinção entre conteúdo publicitário ou pago e as matérias, coisa que não é mais real na Internet. Quer dizer que Keen realmente acredita – e os seus seguidores também acreditam – que a gente é capaz de distinguir matéria paga de texto redacional no jornalismo convencional? Diz ainda Keen (2009, p. 86) que esse “apagamento das linhas entre publicidade e conteúdo se deve em parte ao aumento da nossa descrença em negociantes e na publicidade”.

Nossa descrença não é resultado, como parece supor o autor, da emergência da Internet. Lembro-me dos comerciais das Casas Bahia cinco anos atrás. Eles interrompiam o conteúdo jornalístico dos programas, sem nenhuma marcação ou deixam, levando a uma nítida confusão entre conteúdo editorial e comercial. Em uma mídia convencional.

Além da afirmação de que a Internet favorece à explosão de narcisismo, apareceu um outro trecho em que concordo bastante com Keen (2009, p. 90):

A ironia da mídia “democratizada” é que alguns produtores de conteúdo têm mais poder que outros. Numa mídia sem guardião, em que a verdadeira identidade das pessoas está muitas vezes oculta ou disfarçada, quem é realmente fortalecido são as grandes empresas com grandes orçamentos para publicidade [reproduzindo os modelos de distribuição do discurso da mídia convencional, na ilusão de democracia da Web 2.0]. Teoricamente, a Web 2.0 dá voz aos amadores. Na realidade, são muitas vezes os que têm a mensagem mais ruidosa, mais convincente, e mais dinheiro para difundi-la, que estão sendo ouvidos.

Concordo com Keen, em que pese a minha discordância dessa noção elitista de guardião da cultura (e todas as suas implicações de uma cultura que precisa de defesa por estar ameaçada de morte) que ele costuma usar e do que fica subentendido em relação à mídia convencional, como se esse modelo não fosse sua perfeita reprodução. Incomoda-me a defesa de Keen da mídia convencional, como se ela não tivesse as mesmas facetas negativas e defeitos crônicos que o autor só enxerga na Internet, especialmente sua forma mais participativa, a chamada Web 2.0.

9 de julho de 2009

Prosseguindo a leitura de Foucault

Por Daniel

Reitero que não consigo entender porque o pensamento de Foucault é ameaçador à democracia. Estou cada vez mais certo que tal idéia é fruto do desconhecimento sobre o que defendia o filósofo francês. Exemplo destaco a seguir, no comentário de Manoel Barros da Motta, introdutório ao volume 5 de Ditos & Escritos. Há outros trechos que elucidam tanto quanto aqui. Inclusive, trechos de entrevistas, falas e textos de Foucault em que, como estudioso do poder, rejeita diversos modelos autoritários (sem contar nas suas análises do poder psiquiátrico e do poder penal). O que vier entre aspas é citação de Foucault:

Foucault considera que no século XIX surgiu na Europa algo que jamais existira, Estados filosóficos, ou que ele chama também de Estados-filosofias, isto é, “filosofias que são simultaneamente Estados, e Estados que pensam sobre si, que reletem sobre si mesmos, que se organizam e definem suas escolhas fundamentais a partir de proposições filosóficas, dentro de sistemas filosóficos e como a verdade filosófica da história”. Fenômeno surpreendente e perturbador para Foucault, porque todas essas filosofias que se tornaram Estados eram filosofias da liberdade desde o século XVIII até Marx e, no entanto, “essas filosofias da liberdade instituíram, a cada vez, formas de poder que, seja na forma do terror, da burocracia ou ainda do terror burocrático, eram o próprio oposto do regime da liberdade, o contrário mesmo da liberdade tornada história”.

Foucault caracteriza como de cômica amargura a posição desses filósofos ocidentais modernos: pensando-se numa relação de oposição essencial ao poder, quanto mais foram ouvidos e investidos nas instituições políticas, mais “serviam para autorizar formas excessivas de poder”. (…) Foucault chega a dizer que mais do que o apoio dogmático das religiões, a filosofia autenticou Estados sem freio. Marcante é o exemplo do stalinismo.

2 de julho de 2009

“Remanso da Piracema”

Por Tácito Costa

remanso

Em um dos seus últimos textos publicados no “Caderno de Saramago” (AQUI), o escritor se penitencia por ter se metido, no início da carreira, a fazer crítica literária: “Há uns quarenta anos, por espaço de alguns meses, exerci de crítico literário na “Seara Nova”, actividade para a qual obviamente não tinha nascido, mas que a benévola generosidade de dois amigos considerou poder estar ao meu alcance. Foram eles o Augusto Costa Dias, que teve a ideia, e Rogério Fernandes, então director da (a todos os títulos) saudosa Revista. No geral, suponho não ter cometido injustiças graves, salvo o pouco cuidado com que opinei sobre “O Delfim” de José Cardoso Pires. Muitas vezes, depois, me perguntei onde teria estado a minha cabeça naquele dia. Diz-se que um tropeção pode acontecer a qualquer, mas aquilo não foi um tropeção, foi (perdoe-se a vulgaridade da palavra) um estampanço”).

Eu também não nasci para tão sério e perigoso ofício, embora tenha inventado, por pouco tempo, é verdade, a comentar livros quando comecei no jornalismo cultural. Tirei o corpo fora antes de levar umas tapas prometidas por um poeta a quem faltaram humor e humildade para relevar as besteiras juvenis que eu escrevi.

Agora, só comento livros dos amigos e isso mesmo quando eles fazem questão, como foi o caso de François Silvestre, que lançou recentemente “O Remanso da Piracema”. Como o texto ficou mais longo do que eu planejava postei em PROSA.

29 de junho de 2009

Keen

Por Daniel

Comecei a ler O culto do amador, de Andrew Keen.  Confesso que decidi ler depois de instigado pelos comentários de Nelson Patriota, de Alex Medeiros e de Tácito Costa.

Prometo que farei uma resenha mais detalhada ao fim do livro, mas pelo menos duas coisas já me deixam preocupado.  A primeira é que Keen fala de uma posição autoritária.  Explico o que quero dizer: ele fala com base na sua própria autoridade, de crítico e ex-adepto de um ciberculto doentio.  Não sou um utopista da rede.  Não suporto ler algumas coisas escritas por gente como Pierre Levy, mas longe de mim me expressar contra o que esses camaradas defendem sem um levantamento bibliográfico e teórico convincente.

E esse é o segundo problema de Keen, por enquanto.  Ele sofre de uma superficialidade teórica que é de doer.  Fundada em um bem definido lugar social e ideológico de onde fala o autor.  Ele não conhece ou não entendeu os estudos sobre jornalismo e comunicação mais contemporâneos.

Por exemplo, Keen diz:

Os blogs tornaram-se tão vertiginosamente infinitos que solaparam nosso senso do que é verdadeiro e do que é falso, do que é real e do que é imaginário.  Hoje em dia, as crianças não sabem distinguir entre notícias críveis escritas por jornalistas profissionais objetivos e o que lêem em joeshmoe.blogspot.com.

Keen desconsidera todo avanço nos estudos de comunicação e jornalismo da segunda metade do século XX e início dos anos 2000.  Só para simplificar, os estudos do jornalismo tendem a reafirmar algo que falei até jocosamente no debate da Siciliano: quem entende de verdade dos fatos é gastroenterologista e não jornalista.  O jornalismo é uma arte de contar estórias, já diz Nelson Traquina.  Como eu gosto de falar, é ficção baseada em fatos reais.  Então é superficial e inverídica a afirmação de Keen.

Na sua crítica à democracia virtual ele entende que o mundo necessita dos editores profissionais.  Ele esquece que esses editores não servem à verdade, mas atendem a critérios de noticiabilidade que são carregados de uma cultura organizacional e da ideologia deles mesmos e dos veículos onde atuam.  É como pedir a um editor da TV Ponta Negra que deixe passar uma notícia com pesadas críticas contra a prefeita Micarla de Sousa.  Além disso, por outro lado, as mídias sociais garantem o acesso a vozes alternativas.  Isso me faz pensar no Blog da Petrobras, criado depois que a empresa se viu obrigada a pagar espaço em veículos convencionais para que sua voz fosse ouvida, uma vez que os jornais estavam se recusando a publicar suas posições ou, quando publicavam, editavam de tal maneira que não era mais possível reconhecer a voz da empresa.  Para ser ouvida, a empresa criou o Blog.

É bom ter um radical falando desse lado da arena.  É bom porque nos levará a um equilíbrio possível.  Mas Keen deve ser lido com cuidado, porque além de sua fala de autoridade e da superficialidade teórica, ele fala de um muito bem definido lugar social e ideológico.  Afinal, só essa ideologia para acreditar que existe alguma coisa na sociedade, conhecido como guardiões da cultura, personalizados em jornalistas, cineastas, etc..

Thompson, na obra A mídia e a modernidade, fala com muito mais profundidade e reflexão que Keen demonstra nessas primeiras páginas de nosso encontro.  E Thompson dizia nos anos 80, antes da Internet, portanto, que a emergência de qualquer mídia promove uma completa reorganização da cultura e de todos os bens simbólicos da sociedade.  Foi assim quando surgiu o códex, a imprensa, o rádio, a tevê.  É assim agora.  E é inevitável.  O problema é olhar com um olhar superior essas mudanças e achar que elas significam perda.  Nunca significaram e não acho que nesse caso significarão.

Prometo um texto mais completo quando eu terminar de ler o livro.

16 de junho de 2009

Ulisses x Odisseia

Por Lívio Oliveira

- Diz-se que, quando o pintor Matisse aceitou ilustrar o “Ulisses”, em 1934, para uma edição americana especial, Joyce fez todo o possível para que ele captasse bem os detalhes tipicamente irlandeses. Mas Matisse ilustrou à sua maneira. E ao lhe perguntarem por que seus desenhos tinham tão pouco a ver com a obra, o pintor reconheceu que não a tinha lido. Baseara-se na “Odisséia”, de Homero, para fazer as ilustrações.

In O Comércio das Palavras – Textos e Montagens-, Américo de Oliveira Costa, volume I, Presença Edições, Rio de Janeiro, 1989.

www.oteoremadafeira.blogspot.com