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3 de março de 2010

Um poema de Zohra Saed

Por Sylvia Beirute

Um poema de Zohra Saed
(excerto de “Drop by drop we make a river: a collection of Afghan writings from 1978-2001”)

Um sonho espiralando dentro de uma fita-cassete desbotada…
Eu sou a escrava da Lua, sem ela sou nada.
1974, Cabul
Ele cantava para meninas de rostos roliços e luminosos desfalecendo.
Meninos carregam rádios portáteis para gravar cada concerto.
Então, para impressionar as meninas de olhos compridos e negros,
eles tocam suas fitas nos parques por perto.
Meus pais podem ter se conhecido assim.
A voz de Ahmad Azhir embrulhando dois corpos jovens com uma fita,
enquanto ao fundo minha mãe é repreendida pela mãe dela.
Mas isto é só um capricho dentro de uma canção…
A mãe também pode ter sido um cisne.
Olhos tão negros drenam a manhã de sua luz.
Ele primeiro sentia a beleza dela na medula dos ossos dele.
O pai nos conta isto enquanto ela se deixa levar para fora da sala
e o volume da saia faz com que redemoinhos de ar rocem nossa pele.
Ele muda o nome dela para o de uma flor com um rosto incandescente
e veias finas do verde mais pálido. Uma flor como a Lua.
O casamento da mãe e do pai foi arranjado pelas anciãs.
Mas houve um tempo antes disto: quando era uma menininha
com fitas brilhantes tremulando na ponta das tranças,
ela escalou muros para entregar cartas de amor às meninas
por quem ele tinha uma queda.
Anos mais tarde, eles estavam comprometidos e recitando poemas de amor
numa cidade que flutuava no perfume das laranjeiras.

23 de fevereiro de 2010

Cântico da Estrada Aberta

Por Tácito Costa

Walt Whitman

A pé, coração alegre, sigo em direção da estrada aberta,
Sadio, livre, o mundo a minha frente,
O longo caminho marrom a minha frente conduz-me para onde acho que convém.
Daqui para frente, já não peço boa sorte, pois eu mesmo sou a boa sorte,
Daqui para a frente, não mais me queixarei, não mais adiarei, nada mais necessitarei,
Porei fim às lamentações interiores, bibliotecas, críticas lamurientas,
Forte e contente, sigo em direção da estrada aberta.
A terra é suficiente para mim,
Não desejo que as constelações estejam próximas,
Sei que elas estão muito bem onde se situam,
Sei que elas bastam aos que lhes pertencem.

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20 de fevereiro de 2010

Poesias de Maria Teresa Horta

Por Tânia Costa

Modos de Amar

Modo de amar – I

Lambe-me as seios
desmancha-me a loucura

usa-me as coxas
devasta-me o umbigo

abre-me as pernas
põe-nas nos teus ombros

e lentamente faz o que te digo:

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5 de fevereiro de 2010

Tim Tim no Tibet

Por Tácito Costa

De Cora Rónai, no Twitte:

“Aqui mora um grande poeta: Tim Tim no Tibet – http://bit.ly/cxkRHl Busquem os posts antigos, revirem tudo. É o máximo”.

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Já dei uma rápida olhada. Gostei. Aproveito para reproduzir um poema do poeta, que usa o pseudônimo de Alcipe (D.Leonor de Almeida Portugal, Marquesa de Alorna, nome literário Alcipe (1750 – 1839), conforme informação publicada no próprio blog.

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para o Luís Quintais

Foi a noite junto à igreja de Diu
ou a tarde que entrámos nas grutas de Elefanta?
Há na tarde para sempre perdido um navio
e há na noite um demónio sinistro que canta.

Os deuses que avistámos na loucura mansa
vingaram-se de nós com seu simples durar
e o Cristo que trouxémos na guerra e na bonança
fez-se deus nesta terra e perdeu-se do mar.

Foi a noite que trouxe este manso esquecer
em que a História se deu no passo de uma dança
e nos chamam de longe os que vieram morrer
além da sua terra e aquém da lembrança?

Foi a noite a entrar na igreja de Diu
ou a sombra de Deus na ilha de Elefanta?
Shiva hermafrodita desta cave sorriu
e o mundo se fez contra toda a esperança!

4 de fevereiro de 2010

The Road Not Taken, de Robert Frost

Por Tácito Costa

Por Charles M. Phelan

Caro Tácito, segue tradução minha do poema de Robert Frost: The Road Not Taken.

The Road Not taken, by Robert Frost
Tradução Charles M. Phelan

A Trilha Não Tomada

Duas trilhas bifurcaram num bosque no outono E lamentando não poder por ambas caminhar E ser um único viajante, por um tempo fiquei E observei tão quanto podia Até aonde na curva, sob arbustos sumia

Ai a outra tomei, justo assim ponderei, E tendo talvez a melhor escolha Por que havia grama a querer ser gasta; Muito embora lá o tempo por elas igualmente passara,

E ambas repousavam naquela manhã, Sob folhas que passo algum houvera violado. Oh, a primeira para outro dia deixei! E mesmo sabendo que uma trilha à outras levam, Questionei se a volta um dia farei.

Deverei sobre isto com um suspiro falar anos e anos a frente em algum lugar: Duas trilhas bifurcaram num bosque, e Eu – Escolhi a menos viajada, E isso fez toda a diferença.

4 de fevereiro de 2010

“O Corvo”, por Fernando Pessoa

Por Tácito Costa

Por Charles M. Phelan

O CORVO (Edgar Allan Poe)
Tradução: Fernando Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste, Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais, E já quase adormecia, ouvi o que parecia O som de algúem que batia levemente a meus umbrais. “Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais. É só isto, e nada mais.”

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro, E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais. Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais, Mas sem nome aqui jamais!

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25 de dezembro de 2009

Nosso Tempo

Por Tácito Costa

HILDA HILST

Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.
Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
“Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas”.
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.