Vagalume da Paz
4 de fevereiro de 2012 às 8:12 | 2 ComentáriosVaga vagalume
Venha em cardume
O mundo está escuro!
Vire luz
Traga paz
Vaga vagalume
Venha em cardume
O mundo está escuro!
Vire luz
Traga paz
Tradução de Antonio Cicero
No blog Acontecimentos
En ti estás todo, mar, y sin embargo,
¡qué sin ti estás, qué solo,
qué lejos, siempre, de ti mismo!
Abierto en mil heridas, cada instante,
cual mi frente,
tus olas van, como mis pensamientos,
y vienen, van y vienen,
besándose, apartándose,
con un eterno conocerse,
mar, y desconocerse.
Eres tú, y no lo sabes,
tu corazón te late y no lo siente…
¡Qué plenitud de soledad, mar solo!
*********
Em ti estás todo, mar, e contudo
como estás sem ti, e só,
e longe, sempre, de ti mesmo!
Aberto em mil feridas, cada instante,
qual minha fronte,
tuas ondas vão, como meus pensamentos,
e vêm, vão e vêm,
beijando-se, separando-se,
num eterno conhecer-se,
mar, e desconhecer-se,
És tu e não o sabes,
teu coração te late e não o sente…
Que plenitude de solidão, mar só!
JIMÉNEZ, Juan Ramón. “Soledad”. In: RICO, Francisco (org.). Mil años de poesía española. Antologia comentada. Barcelona: Planeta, 1996.
Em homenagem ao folclorista Deífilo Gurgel, o poema Tarrafas, de sua autoria, musicado pelo meu amigo e parceiro musical, Iúri de Andrade. Ambos já não partilham de nossa convivência.
TARRAFAS – Deífilo Gurgel
À sombra do cajueiro que floresce junto ao mar
Paciente o pescador tece a rede de pescar
Enquanto a mão se entretece nesse mister singular
Outra mão por trás do tempo vai tecendo sem cessar
A tarrafa que algum dia, vai pescar o pescador
Juntamente com seu tédio, seu sorriso e sua dor.
E tece com tal mestria essa tarrafa de vento
Que o pescador nunca pensa, quando pesca o seu sustento
Que a morte o está pescando, lentamente, dia a dia
Nessa embora inevitável, invisível pescaria.

Naquela noite, juro.
Peguei na mão do silêncio,
Beijei a gelada boca da pergunta…
Parecia partir… Romper o fio.
Depois de alguns muitos passos,
Ergui a cabeça e o peito.
Abracei novas incertezas:
Seguir é rumo.
Sussurro, nem sempre é gozo.
Nenhuma alegria é permanente,
Agora é antes, depois é sempre…
Só o agora é urgente.
Eu sou, tu és,
Rio corrente.
a verdadeira tela
está na tinta
jogada na atmosfera
na evaporação da ideia
não querida
despercebida
o verdadeiro poema
está na pre formação
da palavra
de um feto não gerado
é a imagem no branco
quando não vejo palavra
nem letra
nem ideia
só a canção
ouvida no âmago
da alma
À querida amiga poeta Anne
Todas as poesias do mundo
Não dão conta
De um sentimento sozinho
Sagrado
De tão fino
Invisível
Profano
De tão humano
Insano
Basta um
Para suar palavras e fazê-las inócuas
Cansadas
Sem fala
Vazias como bacias sem água
Elas devaneiam e tentam molhar em vão
O imensurável abstrato que existe
Num seco papel
De um concreto poeta triste
Por Eucanaã Ferraz
Nunca mais será setembro,
nunca mais a tua voz dizendo
nunca mais, eu lembro,
nunca mais, eu não esqueço,
a pele, nunca mais,
o teu olhar quebrado,
dividido, vou esquecê-lo,
é o que te digo, nunca mais
a minha mão no teu sorriso,
a tua voz cantando,
vou apagá-la para sempre,
e os nossos dias, setembro, lembro
bem, dentro a tua voz dizendo não
(ouço ainda agora), como se quebrasse
Um copo, mil copos, contra o muro.
Rasgarei o que não houve, o que seria,
mesmo que tudo em mim me diga não
(e diz), mas é preciso.
Como não se pensa mais um pensamento,
quero, prometo:
nunca mais será setembro.
*******
FERRAZ, Eucanaã. Cinemateca. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Por Regiane de Paiva
Meu corpo não encerra em si a extensão do que é,
ele se descobre no silêncio dos teus e dos meus ais.
Ele se cria naquilo que inventas
e se renova
quando tu reinventas um laço preso e refeito em dermes.
Não é meu o corpo quando em ti se aninha.
Ele ganha vida própria:
mãos, boca, pés, língua, voz…
Salta, corre, brinca, pousa
se despedaça em mil desejos
e se regenera no sufoco do teu gemido.
Solto na lida, é apenas mais um corpo que resiste.
Preso na tua carne,
rompe o túmulo e esmaga fantasmas,
flutua às margens do delírio
e sossega confiante no abismo do teu sussurro…
quando fui a ser-te
deixei de dançar aos passos do sul
a doença como virtude em si mesma.
sem explicação.
se eu fosse arquiteta, poderia ser arquiteta, mas não
enfurnada numa casa que deram por minha
no salto que me fizeram areia entre os dedos
tenho brincado de muitas coisas, um empreguinho de vilanias
ainda e de novo, convale-sendo, me enganado e ao outro.
quando não podia a palavra dizer, dançava
agora olha, eu minto. eu não sei esse nada
as colagens, a pintura, o concerto, a partitura
digo – te amo, a tudo que é parede, elas me sabem. eu não
tenho saudade de nenhum parente, mas de tudo o que não pude ter sido
o tempo que não passou, os dentes furados da escavação e a geografia afetiva.
eu sei o banho e as baratas. eu sei o acordar, abrir os olhos
eu sei a lembrança persistente de alguma extinta irmandade quando capotava.
TEMOS DEIXADO MUITAS COISAS PRA DEPOIS
o arroz mofado por jogar fora, os cacos do cinzeiro por juntar, fazer amor
encontrar um rio pra ter o filho com fluidez, se afogar e se deixar a-
deus,
desnorteada, que vim a ser-me?
*

Respirar, viver, lutar,
Dormir e acordar,
Quem sabe,
De repente,
Apenas silenciar.
E depois do silêncio.
E depois?
Será que tudo valeu?
E se valeu, valerá?
Chegar, partir, querer, amar,
Sorrir, sonhar, seguir, voltar,
Desistir, odiar.
E depois?
Quando o silêncio
For a única canção,
Quando nada
For o abrigo que restar,
Valeu, ser e ter tudo
E não lembrar?
As interrogações
Serão sempre pontos,
Traços e finais.
E assim a roda da vida vai centrifugando.
Esmagando no convés da nau do isolamento
Os outsiders, os chamados excêntricos.
Claro, dali eles foram apartados – e exilados.
Procuram vozes desaparecidas. Deliram
Arranjam casamentos com vestidos tecidos com o fio de Ariadne.
Inútil procurar aqui a pureza.
As parcas cochicham
E a solidão vai num vórtice que se afasta do centro
Por Lobo Errático
falves silvas insolenes
atravessam, diáfanos
a luz deficiente que nos banha as casas
e ruínas,
enquanto eu fumava pedra
na manhã rarefeita
quem te assassinou, cidade,
desde á paixão-mulher de moacy?
e por que você sobreviveu?
quem te assassinou, cidade,
desde a saúdade de civone?
e pra que você sobreviveu?
Por Carlos Gurgel
vislumbro versos velhos
aqui
do alçapão onde estou
multiplicam-se multidões de moucos e mudos morros
encaixoto meus pares
valso pela vastidão dos museus
o urro de um javali que morre
debalde
tudo desaproveitado
é como um sinal avermelhado de covardia
planos são tão poucos e porcos
vou como se fosse vídeo
e o verso que do início envelheceu
floresce
como uma pólvora
recheada de lágrimas e compressas.
nina, faz um poema para mim?
não precisa ser lírico nem nada
só peço que ele tenha palavras
não como essas,
palavras, assim… como se diz?
palavras cheias de você mesma.
Eu vi Jango Goulart
Tropeiro, suave, fugido.
Eu vi o poeta Cabral
De flor vigilante, escondido.
De pano vermelho, tingido,
Eu vi o toreiro ferido.
De flor sem perfume, ungido,
Eu vi o sangue escorrido.
Não pus perfume na flor
Não pus poesia na dor,
Mas na Ferida tem pus
Que nem poeta espremido.
Não poetize o vermelho,
Pois eu vi Jango Goulart
Ser visto por trás do escuro
Da luz do poeta vendido!
Por Gastão Cruz
Talvez eu não consiga quanto amo
ou amei teu ser dizer, talvez
como num mar que tu não vês
o meu corpo submerso seja o ramo
final que estendo já não sei a quem
**********
CRUZ, Gastão. A moeda do tempo e outros poemas. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009.
Este poema e a história dele está no livro “Histórias de Literatura e Cegueira (Borges, João Cabral e Joyce), que li nos primeiros dias do ano. É um poema para poetas, principalmente, por isso o transcrevo neste espaço. TC
Por João Cabral de Melo Neto
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.
Repetição
Sufoca suspiro
Não sei bem como comunicar um sono
Só a fome
Por isso…projétil
Ao espelho: lanço!
Recorto, respiro
Fuga é fenda

Curvo a cabeça,
Reverenciando o vento
E a folhagem verde,
Como se comigo falasse,
Numa sabedoria natural,
Ao movimento do vento,
Rende-se no calor
Dourado da tarde.
Olhando o horizonte,
Silencio ao tilintar
Do mensageiro do vento;
Natureza viva.
À mesa, lembranças postas,
Como e me alimento
De saudade viva.
Ao redor de tudo, olho,
Reverenciando o tempo,
Os afagos, os silêncios,
Os poemas calados,
A sépia, pelo verão, pintado;
Morna tarde de verão
Que enche de amor, a vida
E pinta de fogo, o Sol,
O coração.
(Ednar Andrade).
Prévia da troça Manicacas no Frevo ocorre hoje, com concentração às 18h no Bar de Pedrinho, no centro da cidade.
Por Sérgio Vilar
NO DIÁRIO DO TEMPO
Todas as quintas-feiras têm sido motivo de samba no pé e boemia no Centro Histórico. E hoje não será diferente. O grupo Arquivo Vivo se iniciou timidamente no Buraco da Catita, subiu a ladeira até as adjacências do Beco da Lama para tocar de graça no Bar de Fátima e hoje ganhou a simpatia do público em frente ao Bar de Nazaré, onde fincou “morada” em mesa postada no meio da rua e sob as bênçãos de São Jorge. A partir das 19h o som começa. Tudo de graça e no gogó.
O Prêmio Hangar de Música 2012 promoveu uma solenidade à altura da importância conquistada pelo premiação nestes dez anos. Uma verdadeira celebração da música potiguar.
Vaga vagalume
Venha em cardume
O mundo está escuro!
Vire luz
Traga paz