Comecei a ler O culto do amador, de Andrew Keen. Confesso que decidi ler depois de instigado pelos comentários de Nelson Patriota, de Alex Medeiros e de Tácito Costa.
Prometo que farei uma resenha mais detalhada ao fim do livro, mas pelo menos duas coisas já me deixam preocupado. A primeira é que Keen fala de uma posição autoritária. Explico o que quero dizer: ele fala com base na sua própria autoridade, de crítico e ex-adepto de um ciberculto doentio. Não sou um utopista da rede. Não suporto ler algumas coisas escritas por gente como Pierre Levy, mas longe de mim me expressar contra o que esses camaradas defendem sem um levantamento bibliográfico e teórico convincente.
E esse é o segundo problema de Keen, por enquanto. Ele sofre de uma superficialidade teórica que é de doer. Fundada em um bem definido lugar social e ideológico de onde fala o autor. Ele não conhece ou não entendeu os estudos sobre jornalismo e comunicação mais contemporâneos.
Por exemplo, Keen diz:
Os blogs tornaram-se tão vertiginosamente infinitos que solaparam nosso senso do que é verdadeiro e do que é falso, do que é real e do que é imaginário. Hoje em dia, as crianças não sabem distinguir entre notícias críveis escritas por jornalistas profissionais objetivos e o que lêem em joeshmoe.blogspot.com.
Keen desconsidera todo avanço nos estudos de comunicação e jornalismo da segunda metade do século XX e início dos anos 2000. Só para simplificar, os estudos do jornalismo tendem a reafirmar algo que falei até jocosamente no debate da Siciliano: quem entende de verdade dos fatos é gastroenterologista e não jornalista. O jornalismo é uma arte de contar estórias, já diz Nelson Traquina. Como eu gosto de falar, é ficção baseada em fatos reais. Então é superficial e inverídica a afirmação de Keen.
Na sua crítica à democracia virtual ele entende que o mundo necessita dos editores profissionais. Ele esquece que esses editores não servem à verdade, mas atendem a critérios de noticiabilidade que são carregados de uma cultura organizacional e da ideologia deles mesmos e dos veículos onde atuam. É como pedir a um editor da TV Ponta Negra que deixe passar uma notícia com pesadas críticas contra a prefeita Micarla de Sousa. Além disso, por outro lado, as mídias sociais garantem o acesso a vozes alternativas. Isso me faz pensar no Blog da Petrobras, criado depois que a empresa se viu obrigada a pagar espaço em veículos convencionais para que sua voz fosse ouvida, uma vez que os jornais estavam se recusando a publicar suas posições ou, quando publicavam, editavam de tal maneira que não era mais possível reconhecer a voz da empresa. Para ser ouvida, a empresa criou o Blog.
É bom ter um radical falando desse lado da arena. É bom porque nos levará a um equilíbrio possível. Mas Keen deve ser lido com cuidado, porque além de sua fala de autoridade e da superficialidade teórica, ele fala de um muito bem definido lugar social e ideológico. Afinal, só essa ideologia para acreditar que existe alguma coisa na sociedade, conhecido como guardiões da cultura, personalizados em jornalistas, cineastas, etc..
Thompson, na obra A mídia e a modernidade, fala com muito mais profundidade e reflexão que Keen demonstra nessas primeiras páginas de nosso encontro. E Thompson dizia nos anos 80, antes da Internet, portanto, que a emergência de qualquer mídia promove uma completa reorganização da cultura e de todos os bens simbólicos da sociedade. Foi assim quando surgiu o códex, a imprensa, o rádio, a tevê. É assim agora. E é inevitável. O problema é olhar com um olhar superior essas mudanças e achar que elas significam perda. Nunca significaram e não acho que nesse caso significarão.
Prometo um texto mais completo quando eu terminar de ler o livro.