Centenário de Kurosawa (terça-feira, 23)

21 de março de 2010 às 18:47 - Comentar
Por fernando monteiro

“Eu estava nu na bacia. O local em volta era vagamente iluminado e enquanto eu me encharcava de água quente, balançava a bacia segurando-me nas bordas. Na parte mais baixa, a bacia balançava entre duas tábuas inclinadas. Eu ouvia o barulho da água que se chocava quando a bacia se movia de um lado para a outro. Aquilo devia estar muito interessante para mim. Balancei a bacia com toda a força. De repente, ela virou. Tenho uma lembrança viva do estranho sentimento de insegurança e surpresa que experimentei naquele instante, da sensação na pele causada pelas tábuas e escorregadias. Lembro-me de alguma coisa que brilhava intensamente, quando olhei para cima.”

Essa é a mais remota lembrança da infância de Akira Kurosawa, de acordo com o relato do próprio cineasta na sua autobiografia (Gama no Abura, Iwanami Shoten, Tóquio, 1984). A recordação pulsa como a cena de um filme ou a aquarela do banho de uma criança, delicadamente pintada com um espanar de água que sugere as gravuras coloridas do pintor Hiroshige, num Japão – ou “Cipango”, para o viajante veneziano Marco Polo – ainda arcaico enquanto o século dezenove rolava para o vinte como um rolo de fumaça de trem subindo na paisagem de inverno aos pés do monte Fuji.

Tudo é impressivo e delicado, quando se trata desse diretor nascido em 23 de março de 1910, e que quis ser pintor e terminou pintando com uma câmera que pôs o cinema do seu longínquo país em contato com as telas do mundo. No cinema, Kurosawa pintou aquarelas e gravuras, animadas a buril, de samurais hieráticos e modernos marginais da Tóquio aniquilada pela vergonha da derrota – numa nação capaz de levar a honra nacional e, mesmo, a individual, desde o domínio patriótico e moral até o limite da monomania. Foi assim com o suicídio público do escritor Yukio Mishima, arrasado pela alma nacional rendida aos americanos (segunda ele, “com desonra”).

Mishima foi um nacionalista perturbado por visões que o aproximaram de um perfil neofascista, mas Akira (que também tentou o suicídio) foi um japonês capaz de compreender “honra” de outro modo, entre os códigos nipônicos antigos e o desespero do Japão do típico “lumpen” de cidade grande, de megalópole próxima – como é Tóquio – dos cenários da ficção científica de mistura com templos de silêncios recônditos, jardins em miniatura e modernas gueixas ainda exercendo a sua profissão sempre confundida com outra (pela grosseria ocidental)…

Depois de vermos o pequeno Kurosawa nu (detalhe: ele tinha apenas um ano, e a recordação ficou, entre os vapores do banho na bacia, remotíssimo), mudemos a perspectiva para diante do túmulo do cineasta, com as datas marcadas à maneira japonesa 黒澤 明 – nascido em 23 de março de 1910 e falecido em 6 de setembro de 1998”.

Poderia ser acrescentado: Aqui repousa o Homem da Alma Dividida entre Oriente e Ocidente, Samurais e Yakuzas, Cerimônias do Chá e Pregões da Bolsa de uma capital enlouquecida de néons acesos noite e dia, piscando como os olhos de um velho dragão herdeiro de algum mundo de repente sem lugar no século da Bomba.

QUEM FOI?

Quem foi Akira Kurosawa? – perguntarão os jovens leitores deste blog, diante da mesma velocidade de mudança que determinou o ocaso da Terra do Sol Nascente. Acima de tudo, Kurosawa foi o mais popular dos grandes cineastas japoneses. Tal título é dele – e ninguém tasca.

Nascido no seio de uma família de samurais que ficaram sem emprego quando suas espadas se tornaram anacrônicas – como os seis tiros dos pistoleiros do Oeste americano –, iriam se passar muitos anos, desde os banhos da infância, para surgir o homem, inquieto, a trabalhar com as tábuas escorregadias da memória.

Antes disso, ele tentou ser aceito numa escola de arte, porém foi rejeitado talvez de modo menos traumático do que o reservado a um cabo austríaco (e aquarelista medíocre) que viu ruir a esperança de sobreviver vendendo inofensivas paisagens de inofensivos campos…

Seja como for, em 1936 o futuro diretor de “Trono Manchado de Sangue” terminou por ler, um dia, anúncio de vaga para assistentes de direção de cinema. Ele foi lá, e o aceitaram, não pelos pendores de pintor amador, mas pela experiência de espectador de cinema: desde garoto, via filmes como se necessitasse deles para respirar o perfume dos crisântemos.

Aos 33 anos, Kurosawa dirigiria seu primeiro filme – Sanshiro Sugata (ou “A saga do judô”) –, que foi alvo de crítica de militares rígidos, porém agradou ao público. O êxito em escala internacional, no entanto, só viria com “Rashomon” (1951), filme baseado num conto original de Ryunosuke Akutagawa e que conquistou o Leão de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Veneza, no mesmo ano.

Pronto. Akira Kurosawa estava lançado mais para além de Tóquio e Kioto. Certamente, o seu talento não era maior do que os de Ozu e de Mizoguchi, gênios também oriundos de uma cultura ainda injustamente ignorada (cinematograficamente falando), naquela altura. E a pedra de toque do reconhecimento dela não vai ser senão o sucesso de filmes como Shichinin no samurai (“Os Sete Samurais”, de 1954), uma saga do Japão feudal que chegou a influenciar John Sturges, mestre de westerns do outro lado do mundo. Diretamente inspirado nos sete samurais de Kurosawa, surgiriam os pistoleiros sturgianos do clássico Sete homens e um destino (1960), inaugurando o filão dos remakes transpostos para cenários completamente diversos.

Cineasta reflexivo, esse japonês que aqui recordamos transitou pelo ambiente internacional de filmes em muitos idiomas e propostas etc, como um sofisticado diretor quase silencioso nos “sets”, porém bem humorado e articulado nas entrevistas coletivas. Em tais ocasiões, era possível ouvi-lo (tive o privilégio, em Roma) a explicar coisas mais objetivas e práticas do que a vaga teoria de bares enfumaçados dos cigarros da nouvelle vague. Exemplo:

“A tarefa dos iluminadores exige muita criatividade. Um iluminador realmente bom tem seu próprio plano, embora naturalmente ainda precise discuti-lo com o cameraman e o diretor. Mas se ele não desenvolve o seu próprio conceito, seu trabalho não vai muito além de colocar luz sobre toda a estrutura montada. Eu penso, por exemplo, que o método corrente de iluminação dos filmes coloridos é errado. Para compor as cores, toda a estrutura é inundada de luz. Sempre digo que a luz deve ser tratada como em um filme em preto e branco, sejam as cores fortes ou não, de forma a deixar as sombras aparecerem.”

Aqui, Akira Kurosawa está querendo dizer (atenção, jovens diretores brasileiros) que a Cor não aboliu o império da sombra, no cinema, ou melhor, que cores têm funções diversas, e são linguagem, forma, vocábulo fílmico, ao invés de apenas “estarem alí”, impressas na película sem exame.

Noutro momento, suas meditações deixaram críticos fascinados, em Cannes:
“Não me lembro quem disse que criação é memória… (…) Minhas próprias experiências e as diversas coisas que li permanecem em minha lembrança e tornam-se a base sobre a qual crio algo novo. Eu não poderia partir do nada. Talvez ninguém possa, é preciso um arranco, como ao escrever roteiros – quando se deve, antes, partir de alguma cena impressa na lembrança, alguma idéia que bóia como um calhau num rio lamacento. Sim, também é necessário o estudo dos grandes romances e das grandes peças teatrais que o mundo produziu. Deve-se procurar saber por que são grandes. De onde vem a emoção que se sente ao ler? Que grau de paixão o autor teve de perseguir, que nível de meticulosidade teve de impor para modelar os personagens e os fatos da maneira como fez? Deve-se ler inteiramente, a ponto de se compreender todas estas coisas. Deve-se também assistir aos grandes filmes”…

E Kurosawa os assistiu, desde a adolescência, quando seu irmão mais velho tornou-se narrador profissional de filmes mudos (isso existia – no peculiar “Cipango”, é lógico); tendo acesso às salas onde o irmão “narrava” os filmes, o jovem Akira anotava todos os filmes que via. De graça.
No seu relato autobiográfico, é longa a relação lista das obras que ele considerava fundamentais na sua formação, e entre elas está um filme franco-brasileiro: “Rien que les heures” (1926), de Alberto Cavalcanti dizendo “presente!” numa lista de nomes de ouro: John Ford, Jean Renoir, Charles Chaplin, Fritz Lang, Sergei Eisenstein, Carl Dreyer, Luis Buñuel etc.

ORIENTE VERSUS OCIDENTE

O jovem japonês apaixonado por cinema encontraria no diretor Kajirô Yamamato o “mestre” da profissão, no sentido técnico da palavra. Kurosawa ainda trabalharia como assistente de Mikio Naruse, Eisuke Takizawa e outros diretores não destinados a obterem o sucesso do discípulo, na segunda metade do século passado.

Anos depois, chegaria a vez de Akira se sentir meio “deixado de lado”, quando as críticas ao seu “ocidentalismo” – para alguns – seriam somadas à sua [má] fama de perfeccionista até os mínimos detalhes, estourando orçamentos… e, por uma única ocasião, levado á tentativa de suicídio, em 1971 (para total surpresa dos amigos e familiares), quando se viu afetado pela crise na indústria cinematográfica japonesa, quando “um filme de Kurosawa” significava um orçamento já proibitivo para um cinema que deixara de ser a a novidade, descoberta preferida de uma Europa encantada com obras ao mesmo tempo fincadas em tradições e numa modernidade difícil pem se tratando do orgulhoso Império posto de joelhos, num dia, e levantado para se “americanizar”, no outro.

O cinema – e a vida – de Kurosawa refletem esse impasse não da forma mais direta e nem com fixação num passado que não poderia voltar (como lamentam cultores dos filmes de samurais desempregados e perdidos, atingidos no seu código de honra e humilhados até a necessidade de mendigar restos de glória e comida).

Nesse sentido foi que Akira considerou seu vigésimo-oitavo filme como “a sua obra definitiva”, isto é, “Ran”, o filme mais caro do cinema japonês (11 milhões de dólares, em 1985), e talvez o mais devastadoramente desiludido, expressando a contrafação trágica, de matiz shakespereano, da qual Kurosawa foi próximo por afinidade e admiração do Bardo acima de todos os poetas do Ocidente. Uma das melhores adaptações cinematográficas de Macbeth foi assinada pelo diretor nipônico – que transportou a peça inglesa para o dramático clima “kabuki” de belo Kumonosu-jô” (1957). Deu mais do que certo.

OCIDENTE VERSUS ORIENTE

Sem admiradores fervorosos do peso de um Francis Ford Coppola e um George Lucas, Kurosawa não teria realizado seus últimos filmes. Sob a influência (quase pressão) desses dois “kurosawamaníacos”, a Twentieth Century Fox se dispôs a negociar a aquisição dos direitos de distribuição internacional de Kagemusha (“A sombra do Samurai”, 1980) e dos demais filmes da uma “fase final de A. K” mergulhada em controvérsia, porque apoiada na fortaleza – “proibida”, ideologicamente, para alguns dos seus colegas japoneses – que o colocou definitivamente em associação com o poder de Hollywood.

Já declinando em sua aura de prestígio nacional – na razão diretamente proporcional à dependência da aprovação pela máquina americana (acidamente criticada etc) – o diretor iria pagar caro pela “mãozinha” generosa dos Coppolas & Lucas de estrondosos sucessos de bilheteria como “O poderoso Chefão” e “Guerra nas estrelas”. Talvez só eles pudessem realmente ajudá-lo, com os recursos de quem se entendia “muito bem” com os gerentes financeiros da maior indústria cinematográfica do planeta – para a qual Akira Kurosawa trabalhou, nos seus últimos anos. Afinal de contas, ele podia ter a certeza de haver consolidado mais do que uma carreira difícil numa cinematografia hoje rendida à imitação, infelizmente. Afirmando seu mundo pessoal em conexão com o Japão profundo, sem dúvida que ele obteve ampla ressonância como o diretor japonês – o único! – mais ou menos situado como Federico Fellini está para a história do cinema italiano.

Mesmo que se “redescubra” um Valerio Zurlini – ou um Francesco Rosi – debaixo da nuvem espessa de admiração pelo cineasta de Rimini, o fato é que o nome alçado ao panteão nem sempre é o do mais sutil ou o do mais complexamente talentoso dentre diretores que se tornaram “míticos” como um Antonioni, um Visconti, um Bergman, um Buñuel, um Ford, um Lang e um 黒澤 明, o tímido senhor de óculos escuros que, há cem anos, nascia num país de samurais errantes e cerejeiras como as que cercam o seu túmulo.

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AGENDA

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    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”