Charles Mingus: a máquina de excessos

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Charles Mingus representou uma nova era na improvisação coletiva, expressada em grau máximo no álbum Mingus Ah Um (1959), conjunto de nove temas musicais complexos, tensos, ricos em efeitos e abismos psicológicos de um monstro produtivo

Fotografia de capa: O homem mais furioso do jazz

Charles Mingus_arte da capa original de S. Neil Fujita

Arte da capa de “Mingus Ah Um”, de S. Neil Fujita; álbum está entre as 50 gravações da Biblioteca do Congresso para compor arquivo da história cultural dos Estados Unidos.

Com um talho aberto de uma ponta a outra na cabeça, após forte pancada em uma cômoda, o pequeno ser, então com dois anos de idade, pintava como protagonista da tragédia familiar.

Ele ouvia: “Baby morreu! Baby morreu!”. Era abril de 1924 e o médico antecipava a possibilidade: “Vou fazer o melhor, sr. e sra. Mingus, mas ele está indo embora rapidamente”.

O buraco acima do olho esquerdo concentrava as atenções. A criança super desenvolvida, com grossas articulações, ombros e quadris largos, gostava de baratas d’água e de guardar formigas em uma garrafa.

Os pais se inquietavam com a mania curiosa, mas salvar o filho era a única preocupação naquele instante. De repente, um grito. Foi o segundo som emitido no dia – o primeiro veio de uma bronca na irmã Grace por uma sessão de cócegas.

O menino ia sobreviver, suspirou o doutor. “Não se preocupem, em uma semana ou um pouco mais ele vai estar novo em folha”. Daí em diante, a vida de Charles Mingus ganhou ares cinematográficos.

Uma nova era no improviso coletivo

No começo dos anos 1940, Mingus tocava na tradicional banda de Louis Armstrong e na orquestra de Lionel Hampton. Fera nos arranjos e com uma personalidade peculiar, logo se destacou nos conjuntos dos dois ícones.

Até que em 1950 começou a solar no trio de Red Norvo, o ‘Mr. Swing’ que ajudou a estabelecer a marimba e o xilofone como instrumentos no jazz. O branco Norvo liberou Mingus para experimentar sonoridades e quebrar barreiras harmônicas.

A improvisação coletiva nunca mais seria a mesma, a partir de então, com uma música complexa, tensa, rica em efeitos e abismos psicológicos, conduzida por um sujeito caudaloso e produtivo, verdadeira máquina de excessos. Foram tantos sucessos que a loucura cresceu na mente criativa e nem sempre ponderada.

Entre 1954 e 1963, ele lançou The Jazz Experiments Of Charlie Mingus, Pithecanthropus Erectus, The Clown, Charles Mingus Presents Charles Mingus, Tijuana Moods e The Black Saint and the Sinner Lady. Cada um melhor do que o outro, de assimilação imediata.

Chales Mingus e Dizzy Gillespie

Dois dos principais jazzistas de todos os tempos: os sorridentes Dizzy Gillespie e Charles Mingus; contrabaixista tinha fama de intragável e proibir voos solo no espaço que comandava

A mistura gospel, bebop e free jazz que deu certo

Escolhi Mingus Ah Um (1959) para esta nota por vários motivos. Por ser seu primeiro disco lançado pela Columbia; pela capa fantástica do designer gráfico S. Neil Fujita; por traduzir com perfeição a mudança na linguagem musical de uma época, algo gospel, bebop e free jazz.

O álbum faz parte das 50 gravações escolhidas pela Biblioteca do Congresso Americano para compor o National Recording Preservation Board, arquivo da história cultural norte-americana.

As faixas são tanto nervosas, como introspectivas, de uma beleza e agressividade compreendida apenas para quem mergulha nas ‘estórias’ da vida de Mingus, um cara que extrapolou o imponderável na tríade esborniana: sexo, drogas e muita grana – prazer estético dos mais interessantes você tem ao ler a autobiografia Saindo da Sarjeta (Zahar Editores), e escutar os seis discos citados nesta nota.

Alguns dos temas de Mingus Ah Um viraram standards. A abertura, Better Git It in Your Soul, é um exemplo. Ela nos remete a décadas anteriores, cheia de ‘riffs’, mas já sugere o que Mingus aprontaria nos anos subsequentes.

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No começo dos anos 1940, Mingus tocava na tradicional na banda de Louis Armstrong; na década seguinte, ele sacudiu o jazz com sua personalidade explosiva e discos históricos

Musicalidade superou egocentrismo em várias bandas ao longo da carreira

Raros são os jazzistas que compuseram tantas obras-primas em tão pouco tempo – Coltrane? Miles Davis? Ornette Coleman? Charles Mingus soltou explosões arrebatadoras ao lado de um time afinado, em Ah Um.

Seu temperamento vetava voos solo no espaço que comandava, o que não ofuscou o brilho do saxofonista John Hardy e de Willie Dennis, no trombone. Todos harmonizam em Goodbye Pork Pie Hat, balada sensual, escrita para o saxofonista Lester Young.

O êxtase contemplativo é trocado pela velocidade compressora de Boogie Stop Shuffle, feita para bater cabeça como um metaleiro (Charles Mingus é o pai do thrash metal jazzístico, capaz de instigar o pogo fácilmente).

O piano de Horance Plan tenta suavizar a trilha semelhante a do seriado Batman, aquele cheio de onomatopeias estampadas. Só que não consegue, tamanha é a energia envolvida. A pegada furiosa é mantida com Birds Calls, homenagem a Charlie Parker.

Enquanto Fables Of Faubus soca a consciência branca e protesta contra o então governador de Arkansas que, a mando do presidente Dwight Eisenhower, enviou a Guarda Nacional para abafar um protesto de nove estudantes negros.

Charles Mingus.2

Charles Mingus (1922- 1979) fez tanto sucesso que a loucura cresceu na mente criativa e nem sempre ponderada; nascido no Arizona, morreu aos 56 anos no México.

Morte veio com implosão do sistema nervoso central

Em 1979, Mingus Ah Um ganhou três bônus (o original tem seis faixas), em uma restauração da obra de O Homem Mais Furioso do Jazz, apelido devido à fama de destratar subalternos.

Dois geniais: Pedal Point Blues, caótica trilha para o trânsito de uma metrópole, e GG Train, um bebop para lá de vibrante.

Mingus morreria naquele mesmo ano de esclerose lateral amiotrófica, causada pelo abuso de heroína.

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