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Chico Buarque chega a 350 músicas

Sem calar o bico, Chico Buarque construiu uma expressiva obra zoomusical em que predominam animais políticos. Com o recente lançamento do álbum Caravanas, o compositor chegou a 350 canções produzidas entre 1964 e 2017. Deste acervo, há 89 músicas para 17 produções teatrais e outras 60 para 25 filmes. Entre as autorais, 140 músicas foram divididas com 38 autores. Edu Lobo está em mais de 40 parcerias, seguido por Francis Hime, Tom Jobim e Ruy Guerra.

“Agora falando sério”: Chico Buarque não é um autor zoólatra, mas possui registros valiosos nessa área. Destaque para a adaptação de 12 músicas de Sergio Bardotti e Luiz Enriquez, no musical infantil Saltimbancos, em 1977. A origem vem do conto Os músicos de Bremen, de 1812. Escrito pelos irmãos Grimm, é uma alegoria política da exploração humana no trabalho. Quatro animais protagonistas ganharam música: O Jumento, Um dia de Cão, A Galinha e História de uma Gata. Chico abrasileirou essa aventura zoo: “Morro muito mais que gato no morro / Quando chega o carnaval.” Quatro anos depois, ele adaptou Rebichada e outras canções para o filme Os Saltimbancos Trapalhões.

Em cada década da carreira do compositor, uma tônica zoomusical. Pássaros são os bichos mais cantados no cancioneiro brasileiro. Chico Buarque voou nessa direção com Bom Tempo, de 1967: “O pescador me confirmou / Que o passarinho lhe cantou / Que vem aí bom tempo.” Um ano depois, em parceria com Tom Jobim, lançou o clássico Sabiá: “Sei que ainda vou voltar / Que eu hei de ouvir cantar / Uma sabiá.” No disco de 1969, ele deu um fora no violino, fez as malas e correu pra não ver a banda passar. Deu “Um pega no cachorro / E um tiro no sabiá.” Na própria música, o autor justifica: “Eu queria não mentir.” Mas precisou de metáforas e heterônimo para driblar a censura militar da época.

O Homem vem aí

Enquanto uns se sentavam pra descansar como se fosse um pássaro, outros evitavam as moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir. Deus lhe Pague, mas Boi Voador não Pode, na peça Calabar, de 1972, com o parceiro Ruy Guerra. “Seja esse boi o que for”. Cobra de Vidro deu um bom conselho para prestar mais atenção no “Seu corpo / Partido / Seus cacos / De vidro.” “Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos / Sou Ana de Amsterdam / Das marcas, das macas, das vacas.”

Para o filme Quando o Carnaval Chegar (Cacá Diegues), Chico musicou uma Caçada com figuras de linguagem: “Adivinho seu rastro e cheiro / Me aproximo rondando a sua toca / Eu me espicho no espaço feito um gato / Pra pegar você, bicho do mato / Já conheço seu dorso de gazela.”

Naquela época de Cálice e Sinal Fechado, o disco de 1974 só teve músicas de outros autores, incluindo Julinho da Adelaide, o heterônimo do Chico: “Acorda, amor / Que o bicho é brabo e não sossega / Se você corre o bicho pega.”

Totalmente zoomusical, Passaredo, com Francis Hime, é um canto político e ambiental dirigido a dezenas de pássaros. Foge, some, anda, esconde, vai, voa, xô. “Bico calado, muito cuidado, o homem vem aí”.

Os diversos animais escritos por Chico Buarque, naquela década, revelaram outros instintos de bicho. O Meu Bem Querer “há de me rasgar com a fúria / A fúria, a fúria, a fúria assim dos animais.” Diferentemente de Com Açúcar ,Com Afeto, a música Sem Açúcar é amarga: “Eu de dia sou sua flor / Eu de noite sou seu cavalo”. Também jogaram pedra na Geni porque ela “preferia amar com os bichos” a sonhar com “um bando de orangotango / pra te pegar”. E assim, uma música gravada de Pablo Milanês ficou até comportada: “Gostas de aludir ao sexo / Como um animal travesso.”

Cronista musical, Chico escolheu Escurinho para homenagear Geraldo Pereira: “Já foi no Morro da Formiga procurar intriga / Já foi no Morro do Macaco e lá bateu num bamba.” Da crônica à Ópera do Malandro, um dos personagens (ou o próprio Chico) sente saudades dos 12 anos de idade: “Matando passarinho / colecionando minhoca.” Nessa flor da idade, “Agora eu era o herói / e o meu cavalo só falava inglês”. Já os adultos, como Leo, são heroicos da sobrevivência: “um bicho na toca e o perigo por perto.”

Há poucas pitadas gastronômicas nesse conjunto de obra zoo: “A mesa posta de peixe…”, Feijoada Completa com um montão de torresmo pra acompanhar. (Feijoada… foi cantada em húngaro na adaptação do terceiro livro de Chico Buarque para cinema: Budapeste). Em Morena de Angola, “Será que ela tá na cozinha guisando a galinha à cabidela.”

A década de 70 foi finalizada com uma fartura bem-humorada de citações animais em Dinheiro em Penca, de Tom Jobim e Cacaso: “Asa de tatu / Gritos de minhoca.”

Arca, Circo e louva-deus

Os anos de 1980 começaram bem zoo. Em dueto, Chico e Milton Nascimento gravaram a música-título do teatro infantil de Vinícius de Moraes: A Arca de Noé. Depois, ele resgatou uma referência nacional da zoomúsica: Carcará, a águia do sertão; mais coragem do que homem; pega, mata e come. Na mesma época em que imaginou se o urubu cocorocasse, ele fez versão para Imagina Só, de Sílvio Rodrigues: “O teu cão amigo / Só sabe o teu cheiro / Quando estás comigo.”

A literatura na obra de Chico Buarque começou em 1965 com Vida e Morte, Severina, de João Cabral de Melo Neto, passou pela poesia de Carlos Drummond e se fortaleceu com O Grande Circo Místico, a partir do poema de Jorge de Lima, de 1938, inspirado na saga de uma família circense austríaca, do século XIX.

Assim como Chico Buarque substituiu o nome equilibrista Agnes, por Beatriz (de Dante Alighieri), poderia ter optado por um bestiário com animais de circo. Em parceria com Edu Lobo, as canções desse trabalho tocam no existencialismo do animal humano. Quem é vivo está igualado: o macho, a fêmea, o bicho, a flor (a bela e a fera), tudo foi criado para adorar o Criador.

Na década de 1990, lendas brasileiras para francês ver. Simples e Absurdo:

“Peixe de água doce quis luceliçá e virou caximir.” Não tão simples assim, para os protetores de animais, é a brincadeira da música Cem Mil Reis, de Noel Rosa: “O organdi anda barato pra cachorro / E um gato lá no morro /Não é tão caro assim / Já tenho a pele do gato / Falta o metro de organdi.”

Nem todas as canções com conteúdo ambiental são zoomusicais: Cio da Terra, Capitão, Assentamento, Natureza. A natureza foi bem cantada. No poema de Garcia Lorca há um furacão de pombas na Aurora de Nova Iorque. “Então eu monto num cavalo que me leva a Teerã”. Na Argentina, Chico cantou gaivotas para Caritó. No filme A Ostra e o Vento, “nem um bar, nem um peixe, só o mar tem coral.” Com tanto mar, todo Coração Poeta tem a alma inquieta: acorda o sol e o beija-flor.

Para fechar a década, um dueto com Elza Soares na música de Cole Porter, que reverencia o sexo animal. “Tico-ticos no fubá fazem / Os louva-deuses com fé fazem / Façamos, vamos amar.”

Diário, Caravanas e mulheres

Um disco bem Carioca para o século XXI. Uma gaivota na tardinha do Rio e uma construção linguística em Ode ao Rato, “Que rói a roupa / Que rói a rapa do rei do morro / Rói o riso da moça” da peça Cambaio. “Moça que vira bicho / Altas gazelas nos jardins do palácio.”

Nas Lembranças Cariocas de Drummond têm pupila de gato e poeta que luta como javali, com as palavras em Procissão, “Se arrastando que nem cobra pelo chão”. “É proibido ficar com pena de ver a cobra voltar a se arrastar / Lugar de cobra é no chão / O céu é dos passarinhos.”

“Um passarinho espanhol / Cantava esta melodia / E com sotaque esta letra”. Nos 40 anos de carreira, em meados de 2000, Outros Sonhos e outros olhares os animais: “Eu te contemplava Sempre / Feito um gato aos pés da dona.”

Surgiram novas parcerias. Com Ivan Lins, “Pássaros cristalizados no branco do céu”. Gravou Rosinha de Valença: “No canto do galo eu danço / Pia inhambu, eu calo.” Com João Bosco, Sinhá: “Eu só cheguei no açude atrás da sabiá.” Das mãos de Carlinhos Brown, “Qual letras que se veem a bordo da borboleta / Qual borboletas que estalam letras.”

Em Querido Diário, no disco de 2011, Chico Buarque confirma que é um zoólatra sem compromisso com a causa: “De volta a casa, na rua recolhi um cão / Que de hora em hora me arranca um pedaço.” Até então, sem considerar as sete inéditas do novo álbum, são, aproximadamente, 70 zoomúsicas.

A música Tua Cantiga, de Caravanas, tem verso polêmico: “Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir.” Mas não se comenta que Chico ultrapassou 20 canções com nome de mulheres: Rita e Tereza Tristeza (1965), Carolina (67), Olha Maria (71) Benvinda (68), Acalanto para Helena (71) Ana de Amsterdam, Bárbara, Cala a Boca, Bárbara (72), Angélica e Terezinha (77) Rosa (79), Luísa (1979.

Também gravou Luíza, com z, de Tom Jobim), Beatriz e A História de Lily Braun (82), Silvia (84), Tango de Nancy (85), Cecília, 98, Renata Maria, 2005, Blues para Bia (2017).

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