Chove, chuva!

Tácito Costa
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O natalense da gema tem medo de chuva que se pela. Não sai de casa, primeira providência. Fica triste e enfurna-se nos dias chuvosos. Reclama. Que sacrilégio. Nam!

Eu passei parte da minha infância entre Natal e Santana do Matos. Estranhei demais nos primeiros tempos em Natal. Os meninos não tomavam banho de chuva. Ficavam dentro de casa brincando, vendo televisão. Enquanto em Santana, mal os trovões pipocavam a gente já ganhava as ruas, de biqueira em biqueira, uma algazarra medonha, procurando àquelas mais generosas.

Fui menos solto do que gostaria e era desejável. Menino mimado, mole e com constantes crises da garganta, estive sob a rédea curta de minha tia Nenê e minha avó Constância (referências de brabeza e bondade, respectivamente), que me criaram desde os primeiros dias de nascimento.

Se por um lado, legou-me o sortilégio de ter três mães, por outro me impediu – em parte – de levar uma vida mais livre. O peso da responsabilidade era imenso pra tia e mãe-vó, como todos a chamávamos. O “em parte” aí é porque eu, como todo menino, dava uns pitus nas duas e aprontava de vez em quando. Eu era mole, mas tava vivinho da silva.

Chuvas remetem-me a antigos episódios que guardo comigo. Das horas que passava, na rua em frente a nossa casa, que não era calçada, fazendo “açudes” com pedras e barro; das duas vezes em que quase me afoguei levado pela correnteza; e dos banhos no açude Alecrim, cuja sangria era aguardada com ansiedade.

Na primeira vez, foi próximo à mercearia do meu pai, no centro, no beco onde ficava o hotel de Tonha Baracho. Uma chuva muito forte formou uma correnteza que me arrastou alguns metros. Depois do medo, fiquei tendo pesadelos durante muito tempo, sempre com a água me carregando.

Da outra enrascada quem me salvou foi meu primo, Júnior de Enoque. Na rua do colégio existe um riacho, que recebe águas do açude dos Caldeirões. Na época de inverno bom, o açude enche e sangra para esse riacho.

Pela proximidade – corta uma parte da cidade – era um dos locais preferidos para banho e nossas brincadeiras. Sem saber nadar, entrei no riacho, que pegou volume em pouco tempo. Comecei a beber água e a providencial ajuda desse meu primo, da mesma idade que eu, mas parrudo me livrou do pior.

Eu sei que estou doido para tomar um banho de chuva como antigamente e se brincar encher uma câmara de ar de pneu e fazer do mar meu Alecrim. Navegar mais que nunca é preciso!

Açude Alecrim, em época de sangria

Açude Alecrim, em época de sangria

 

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Tácito Costa

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