Cidades Fantasmas

Marcos Aurélio Felipe
AudiovisualDestaque

I
Ou foi o velho documentarista americano Albert Maysles ou foi Richard Leacock que professou que os lugares não passavam de um ponto na geografia até que alguém desembarcasse entre suas fronteiras e contasse uma história. No documentário Cidades Fantasmas, que acabei de ver e que se tornou uma espécie de capsula do tempo, na qual imergia em cada plano à medida que suas imagens deslizavam na tela, o diretor Tyrell Spencer levou sua câmera para quatro cidades e vilas latino-americanas, que não existem mais e que não passam de uma fotografia presa na memória (de quem lá viveu; ou insiste ainda em viver, habitar à fórceps suas ruínas): Humberstone (Chile), Fordlândia (Brasil), Armero (Colômbia) e Epecuén (Argentina)…. e contou suas histórias. O documentário Cidades Fantasmas percorre essas quatro cidades e vilas, cada uma localizada em um país diferente dessa nossa latino-américa, que, em algum momento do passado, foram devastadas por algum fenômeno natural (Armero e Epecuén) ou por consequências decorrentes da ordem econômica (Fordilândia e Humberstone). Em cada uma delas, a câmera de Tyrell se comporta como uma câmera-fantasma, perscrutando e cartografando suas vias e ruas vazias, seus restos de casas e prédios públicos sem nada, suas ruínas e seus escombros; suas residências, com cômodos e restos de paredes tomadas por raízes, pedras, sombras e réstias do passado.

II
Em Cidades Fantasmas, a câmera quase sempre se movimenta em traveling – lateral ou frontal –, o que nos dá a sensação de um personagem a percorrer os cantos e recantos, como se tivesse em algum momento anterior percorrido esses espaços e artérias daquels cidades e vilas. Cidades Fantasmas é um documentário, preponderantemente, fundado em imagens carregadas de um simbolismo muito forte. São imagens imateriais, quase imagens (não-imagens, praticamente), a partir das quais nos resta imaginar como eram os lugares, os movimentos dos homens, as peripécias das crianças, o desenrolar cotidiano e o tecido social em Humberstone, Fordilândia, Armero, Epecuén. É uma câmera que olha e observa e se movimenta lentamente. Às vezes, fazendo-nos senti-la como se flertasse com as câmeras subjetivas do cinema de horror, buscando os cheiros do passado, as cores e volumes daquelas paredes, muros, pedras: dos escombros que foram lugares; das ruínas que foram casas, lares e espaços de sociabilidades e convivências de outrora; das ruas que foram campos de futebol, parques de diversões, geografias do brincar e do passar do tempo.

III
Em relação aos entrevistados (em pelo menos uma das cidades e vilas, ouvimos pelo menos dois ex-habitantes), que aparecem ao longo do documentário, o diretor Tyrell Spencer situa-os como sujeitos que comprovam o visível (ou melhor, o invisível, o que não vemos e apenas pressupomos, imaginamos e, em casos específicos, reconhecemos e rememoramos). São depoimentos que confirmam, na esteira do que escreveu o professor e historiador Raimundo Arrais da UFRN, que “uma cidade não é feita apenas de tijolos, pedras, muros, ruas e cal, mas de memórias, lembranças, emoções, dores, sentimentos e tristezas” (não tenho certeza da literalidade e se as aspas estão colocadas corretamente). Cada um dos personagens conta a sua dor, as consequências e vivências das horas e dos momentos de cada catástrofe: imediata – quando natural – e processual – quando da ordem da economia e da produção material fracassadas. As fotografias documentais usadas como atestado histórico, meramente, ilustrativas, são quase desnecessárias se não fosse nossa necessidade comprobatória e confirmatória – de indexação da memória, do tempo histórico, do passado, na imagem, pois a força de cada plano e das auto-narrativas já dá conta do todo. Olhar cada quadro desse documentário, sobretudo a aterradora sequência de abertura, com a câmera passeando por uma cidade, praticamente, tomada por cruzes enferrujadas, como se fosse um grande cemitério chileno, não foi fácil.

IV
Percorrer junto com a câmera aquelas vilas e cidades abandonadas, entrar em muitas casas – de porta em porta pelos corredores e cômodos irreais, fantasmagóricos, imateriais e pressupostos –, foi imaginar uma cidade da infância, que, como em Epecuén, na Argentina, dela restam, materialmente, as ruínas que aparecem quando no período de estiagem as chuvas cessam e baixam as águas do lago. Aqueles lugares sem nada, carregados de fantasmas e memórias, são todos por mim conhecidos: vivi em cada um daquelas cidades e vilas, senti o choro de entes familiares quando precisaram deixar seus lares e vi famílias inteiras não terem mais o que produzir porque a migração era o único caminho apresentado como solução. Cada um carrega seus fantasmas e memórias, suas perdas e alegrias. Em 1983, uma cidade do interior potiguar (a cidade onde nasci e vivi toda a minha primeira juventude), que Eduardo Coutinho filmou quando encontrou clandestina sua mais conhecida personagem, transformou-se em todas estas cidades fantasmas do documentário de Tyrell Spencer, com menor ou maior intensidade, maior ou menor similitude. Quando em Humberstone, uma ex-habitante descreve para o documentarista à sua frente o que havia em cada recanto da sua casa – descrevendo objetos, mobília e outros elementos dos interiores, abandonada e deixada para trás com o fracasso da produção de salitre, o filme já estava completo.

* * *
Nessa sequência emblemática, além de me fazer lembrar de Cemitério do Esplendor (2015, de Apichatpong Weerasethakul), permitiu-me perceber que todos os fantasmas, memórias e sensações já tinham chegado e já tinham sido inscritos na câmera e… nas minhas memórias – e me guiariam por todo o documentário de Tyrell Spencer. Desse momento em diante, já não havia mais distinção entre registro, espectador, imagens, memórias, movimentos de câmeras e efeitos óticos e oculares. Éramos um só corpo no mesmo andamento e sincronia espacial, temporal, histórico e emocional – nesse “espelho de duas faces” que é o cinema, como escreveu Jean-Louis Comolli, que permite que “o espectador se inscreva na mise en scène” e, em um jogo carregado de oticidade, “ver-se, vendo as imagens que, ao mesmo tempo, lhe veem”. Qualquer coincidência com a realidade, não é mera semelhança.

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Marcos Aurélio Felipe

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