Cinco Dias de Sagração (*)

5 de julho de 2009 às 21:26 - Comentar
Por Carmen Vasconcelos

“As moças solitárias
carregam nos seios os estigmas da lua.”
(Boghdán Tymích Rubtchák)

Seu corpo era corpo de homem, ancorado nas machezas. Ele não carecia. Não temia o sublime. Era moreno, medieval, impassível. Espiava espichados cortejos de pecadores, cultivava a concisão. As vontades, não as expiava, nem tinha crepitações. Era homem, e de sol; incólume, porém, aos incêndios de mulheres e de ratos, à ardência dos sinais.

Mas, naquele tempo de acontecimentos inexplicáveis, todas as coisas cortejavam o destino. Um dia, o homem que poderia ter morrido de heroísmo mudou-se em dama. Mudou-se, não se sabe o motivo. Mudou-se, e a partir desse momento, foi tomado de ternura esfomeada. Não sabe o que perdeu, não lhe perguntem.

É mulher. Empalideceu. Ganhou febres, ganhou astúcia, ganhou o medo de envelhecer. Foi marcada nos seios pelos estigmas da lua. Vestiu o hábito da vertigem. Mudou-se em dama. Aprendeu a chorar e se arrepender. Mudou-se em dama o homem. Agora é mulher, mulher egressa de travessias, cujo pudor foi espoliado pela paixão. Não leva inocência nas mãos e nem pureza na barra do vestido. É mulher tingida de mundo, muitas vezes refeita, mulher que conheceu gozo e descaso e toda sorte de “milacrias”. Mulher sem placidez, carecida, entregue ao cativeiro da esperança.

De tanto olhar a lua, ficou prolongada de sortilégios e pelos prolongamentos da lua, aos sábados não é mulher, nem se volta ao homem: vira serpente luminosa. Nesses dias, quem a vê tomar banho, fica cego imediatamente.**
Essa mulher se lembra do seu corpo de homem. Ela se lembra de superfícies planas, de julgamentos destituídos de paixão, de rígidas afetividades. Mas, além de memória, seu corpo de homem é também amor. Ama o seu antigo corpo de homem no outro, no que não é ela. Ama suas antiguidades naquele que a quer mansa, desamparada. O corpo de homem que já foi ela a quer agora, e ela não é de ficar se adiando.

Ela o ama e vai para ele, para o corpo de homem que a espera. Leva o melhor e o pior de si, a serpente do sábado lhe dá flexibilidade. Vai para ele, consagrá-lo. A umidade da mulher consagra o homem, a sagração do homem consagra a mulher. Ela vai para consagrar o amado corpo do homem e consagrar a si mesma.

Mesmo tomada de carências, tem gosto pela vida e pelas ondas do mar. E estarrece de ter tanto gosto. Adora o mistério, mas sem “temência”, pois o mistério ela o vivencia quando se entrega às mutações. O mistério ela o possui no coração de ousadias irrompidas.

O homem, ela o experimentou sendo ele, e agora o experimenta no outro. Agora, aproxima-se dele, mas não é ele. Não tem retorno, ela jamais será homem de novo. O ser homem, cujo conhecimento foi só experimentado, parece exaurido, como se o pouco que conheceu fosse demasiado para ela. Apesar de já ter sido ele, o homem lhe será desconhecido para sempre e a isso ela chama destino. Ou amor.

* Título de um romance de Cunha de Leiradella.
** Variação da lenda européia da Melusina.

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AGENDA

  • Pinacoteca está com Edital aberto para ocupação das Salas de Exposições

    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

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  • Rede Cinemark exibe direto de Londres a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House

    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - Comentar
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura