Literatura

Cinco vezes Jornalismo Literário – Marilyn de Mailer

norman

Dos livros já lidos ao longo do ano, cinco obras do Jornalismo Literário (ou do Novo Jornalismo) chamaram mais a minha atenção que outras obras de outros gêneros literários. Clássicos de ontem e de hoje prenderam o meu tempo e notas com mais interesse, que resolvi compartilhar neste Substantivo Plural. São comentários esparsos e ligeiros, que, originalmente, apreendidos em uma primeira e única leitura, foram publicados em um blog escondido na grande rede fora da qual, praticamente, nada se move. Neste texto, sem qualquer pretensão que não seja o compartilhamento de impressões sobre obras-primas da história do jornalismo, chegamos a Marilyn (1973), de Norman Mailer.

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O primeiro relato apaixonado que vi sobre Marilyn Monroe foi do diretor, produtor e ator Daniel filho em uma entrevista na TV Globo no final dos anos 90/ início dos anos 2000. Com brilho nos olhos, ele refez a história de Monroe, seus filmes e ocaso … até Os Desajustados (1961, de John Huston). Da literatura existente, já tinha lido alguma coisa de Edgard Morin sobre Marilyn em um livro, cujo título não me lembro, mas que analisava o starsystem e sua derrocada. Nesse mesmo livro, tecia considerações também sobre James Dean e o inseria no turbilhão desse sistema que alimentou Hollywood… Tenho e li de forma fragmentada a biografia escrita por seu psicanalista, ou que mostra a relação de Marilyn com o seu psicanalista, mas confesso não lembrar de quase nada. Agora com “Marilyn”, de Norman Mailer, chego a outro trabalho biográfico sobre uma das estrelas do cinema mais desejada, inconstante e, ao mesmo tempo, determinada à superação que se conheceu.

Sob a poética de Mailer, a atriz que nasceu Norma Jean e depois assumiu o nome de Marilyn Monroe foi uma personagem na totalidade de sua complexidade: “Se possivelmente foi estrangulada [por sua avó] uma vez, sufocada novamente pela vida no orfanato, reprimida pelo estúdio e engasgada com as fúrias dos [diversos] casamentos, como reação manteve total controle sobre sua vida, o que talvez signifique dizer que escolheu estar no controle de sua morte”. Para Norman Mailer, que produz uma biografia romanceada, Marilyn Monroe é um enigma que, permanentemente, alimenta sua personalidade dupla na mesma medida que se vive.

Em sua última participação em um set de filmagem, comandado por George Cukor, “Marilyn está triunfante e arrasada. É um Napoleão feminino, mas para orgulho de apenas uma de suas almas. A outra, mais tímida, é um rato de orfanato”. Nessa duplicidade mental, completa Mailer, “é como se tivesse passado a vida comprando vitórias para a mobília psíquica de uma personalidade e designado todas as derrotas para a outra”. Tecendo pouco a pouco a história de uma heroína em suas fragilidades e superações, em uma estrutura cronológica assumidamente copiada de outro biógrafo, Norman Mailer não nos apresenta apenas fatos que integram a linha biográfica de uma atriz do período áureo de Hollywood, mas em vários momentos faz reflexões e teorizações partindo da psicanálise, do lugar da identidade, da dissimulação e atuação permanentes que os sujeitos assumem diante de outros.

Nesse âmbito, Mailer diz: “existe uma bênção em possuir pouca identidade: a habilidade de se mover de uma vida para outra com mais prazer que dor. Embora a falta de identidade progressivamente se torne um fardo em situações estáticas, essa falta de densidade psíquica também oferece conhecimento rápido sobre um novo papel”. Norman Mailer, que espreita sua presa sem pudor, não mede palavras, seja em relação aos biógrafos que, no mais das vezes, fundamentam suas conclusões em factóides e confiam no poder de dissimulação da personagem, seja em relação a própria Marilyn que, em determinado momento de sua vida, “parece está sendo alimentada pelo doce do sexo”, apesar de em anos futuros vir a “ser mais adorável, mais luminosa, mais uma heroína, menos uma puta”; menos a sensual atriz que, impregnada com esse mel e dissimulação visíveis, canta “Feliz aniversário, senhor Presidente” para uma platéia boquiaberta e em êxtase.

Mas, ao mesmo tempo nessa biografia romanceada, Norman Mailer se perde em elogios ao talento de Marilyn, quando, em Os Homens Preferem as Loiras (1953, de Howard Hawks), observa que ela domina o filme e sua realização de uma forma que passa a “habitar o enquadramento” e a “se apropriar da direção …. como se fosse o diretor oculto”. Fiel a trajetória de sua heroína, que se teve um começo, precisaria ter um fim, Mailer também produz sua ode envolta em teorias e mistério, alimentada, naquela América ainda órfã e desgastada pela luta pelos direitos civis, por conspirações e histórias mal contadas.

É dessa forma que, na suposição de sua teoria, Marilyn Monroe pode não ter morrido de acidente ou de um suicídio devido ao uso de barbitúricos em excesso, mas ter sido assassinada numa trama que pode ter envolvido os Kennedy, a CIA e o FBI.

Nome conhecido do novo jornalismo americano ou do jornalismo literário, Norman Mailer também escreveu A Luta, A Canção do Carrasco e Os Exércitos da Noite… obras que devem ser lidas, relidas e estudadas.

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Marcos Aurélio Felipe

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