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Cinco vezes jornalismo literário – O segredo de Joe Gould

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Dos livros já lidos ao longo do ano, cinco obras do Jornalismo Literário (ou do Novo Jornalismo) chamaram minha atenção com mais força e encanto que outras obras de outros nichos e gêneros literários. Clássicos de ontem e de hoje prenderam mais o meu tempo e notas que resolvi compartilhar em uma série de cinco textos em que retomo cada um dos livros e sensações a partir de uma primeira e única leitura. São comentários esparsos e ligeiros, que, originalmente, foram publicados em um blog escondido nos subterrâneos da grande rede fora da qual hoje, praticamente, nada existe.

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O livro O Segredo de Joe Gould tem pelo menos três idades, dois personagens e mais de um segredo. A primeira vez que o jornalista americano Joseph Mitchell escreveu sobre o excêntrico Joe Gould foi, em 1942, em um longo perfil que fora publicado na célebre revista The New Yorker intitulado “O Professor Gaivota”.

A partir daquele momento, o mendigo, andarilho e boêmio, que perambulava pelo Greenwich Village, em NYC, desde a década de 20, ganhou fama e notoriedade; e teve sua história publicada para que outras pessoas a conhecesse, além dos artistas, poetas, escritores, pintores, garçonetes, barman, donos de lanchonetes, restaurantes, pubs e casas de shows – que eram “aporrinhados”, diariamente, por Gould atrás de dinheiro, bebida, cigarros, comida. Mas sobretudo em busca de recursos para o Fundo Joe Gould cujo objetivo era a produção e posterior publicação da obra que estava escrevendo: “História Oral do Nosso Tempo” – uma obra monumental, com suas observações e registros sobre o mundo em que viviam e sobre as biografias de centenas de desocupados, relatos de viagens de marujos, aventuras sexuais e descrições de experiências nas ruas, clínicas e albergues, fruto de mais de 20 mil conversas segundo o próprio Gould.

Em 1964, depois de reencontrar Joe Gould ao longo dos anos em diversos momentos, Joseph Mitchell publica o segundo e último perfil do personagem excêntrico, que já havia morrido, aos 66 anos, no final da década de 50 em um hospital psiquiátrico, que era originário de uma família de médicos, estudou em Harvard e terminou seus dias nas ruas de Nova York.

Nesse segundo perfil, Mitchell nos conta como conheceu Gould, como foram os contatos com as pessoas e com o seu personagem real que resultaram na produção do primeiro perfil. O Segredo de Joe Gould – o livro – traz essas duas reportagens, que, ao estilo Joseph Mitchell de se dedicar a personagens anônimas, ouvi-las e lhe dar voz, apresentam-nos ao excêntrico Gould, com todos os seus dilemas, sonhos e com o seu segredo. Depois de publicado o segundo perfil, como demonstra o posfácio de João Moreira Salles, o jornalista Joseph Mitchell nunca mais escreveu e publicou qualquer outro texto, apesar de diariamente continuar frequentando a redação da The New Yorker até morrer em 1996.

Atrelado ao enigma Joe Gould, entrou para os anais da história do jornalismo o enigma Joseph Mitchell que silenciara por mais de 30 anos – talvez por razões éticas, talvez psicanalíticas. Nesse percurso, fica a dúvida se este autoexílio de Joseph Mitchell foi em função da culpa por ter revelado um segredo de quem lhe confiara sua historia ou se porque os sonhos do personagem espelhavam também os sonhos do jornalista. Ao final, deixamos as páginas desse livro que integra a bela coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras com a quase certeza de que as dimensões éticas e psicanalíticas marcam a trajetória não apenas de Joe Gould, mas do próprio Joseph Mitchell e de que, em casos especiais, as relações entre as pessoas são definidoras de seus percursos e itinerários biográficos de forma que não se pode medir, que não se pode sequer supor.

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