Cinema e caranguejos
30 de junho de 2010 às 9:26 - ComentarPor Dácia Ibiapina da Silva
No último dia 19 de junho foi comemorado o Dia do Cinema Brasileiro. Nesta data foi feita a primeira filmagem em terras brasileiras, ou melhor, em águas brasileiras. Trata-se de uma “vista” da Baía de Guanabara, filmada do navio Brèsil, pelo italiano Alfonso Segreto, em 1898. Anote-se que o navio era Brèsil, o cinegrafista era italiano e a filmadora era francesa. Hoje, os turistas chegam ao Rio de Janeiro e filmam a Baía de Guanabara do avião, com seus celulares, máquinas fotográficas e câmeras digitais, que cabem na palma da mão. A tecnologia mudou, se globalizou, mas o Brasil segue apenas como importador de tecnologias audiovisuais, além de exibidor de filmes estrangeiros, majoritariamente norte-americanos, em detrimento da produção nacional.
No ano em que se comemora o cinquentenário de Brasília, muito se tem escrito sobre a mudança da capital do litoral para o Planalto Central do Brasil. Datas comemorativas servem também para reavivar mitos. No caso dos 50 anos da nova capital, muito se falou sobre a vida caranguejeira dos brasileiros antes da mudança para Brasília. O Frei Vicente de Salvador, no século XVII, teria dito que os brasileiros viviam, à época, como caranguejos, agarrados ao litoral. Toma-se aqui, de empréstimo, a metáfora dos caranguejos, para falar do cinema nacional. Os dados no fechamento do ano de 2009, não deixam dúvidas. Em 2009, foram vendidos no Brasil 112,7 milhões de ingressos, dos quais apenas 15,9 milhões são referentes a filmes nacionais.
Isto em um ano considerado excepcional.
Os próximos números nos remetem diretamente à metáfora dos caranguejos: 74% do público total das produções brasileiras em 2009 foram concentrados por quatro comédias: Se eu Fosse Você 2, com 6 milhões de espectadores, A Mulher Invisível, com 2,3 milhões de espectadores, Os Normais 2 com 2, 1 milhões de espectadores e Divã, com 1,8 milhão de espectadores. São quatro produções cariocas coproduzidas pela Globo Filmes. Não é necessário dizer muito mais. A produção de cinema no Brasil segue concentrada no eixo Rio/São Paulo. Os talentos que surgem fora desse eixo acabam migrando em busca de emprego, fomentos e infraestrutura. No Rio de Janeiro está a Globo, com tudo que significa para a indústria nacional de televisão; e agora também, para a produção de cinema, por meio da Globo Filmes. No Rio de Janeiro estão também a Agência Nacional de Cinema e a TV Brasil.
No cinquentenário de Brasília, pode-se constatar que a capital do Brasil mudou, mas a capital do cinema brasileiro não. Segue sendo o Rio de Janeiro. A despeito de algumas políticas públicas de descentralização da produção nacional, como as cotas regionais em editais de produção do Ministério da Cultura, não houve avanços significativos neste item em relação à produção de filmes de longa-metragem de ficção – o filé da produção audiovisual. Este filé, bancado pelo dinheiro público, por meio das leis de renúncia fiscal, quando não do investimento público direto, segue alimentando quase que exclusivamente os produtores de cinema do Rio e de São Paulo. E assim eles seguem vivendo como caranguejos, agarrados ao litoral.
Professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília

