Cinema e história em Samuel Fuller – renegando a América

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“Enquanto eu viver, viverão meus mortos”
(Amado Nervo – apud Prelúdio e Fuga do Real, de Câmara Cascudo)

“Renegando o Meu Sangue” (Run of the Arrow, 1957), de Samuel Fuller, é um dos quatro westerns realizados pelo diretor americano e consiste em um confronto e em uma afronta à Civilização – especialmente, aos Estados Unidos da América, enquanto espaço nacional constituído pela Guerra de Secessão (1861-1865).

Com o desenrolar da história do soldado confederado O’Meara (Rod Steiger), que não reconhece os EUA pós-guerra civil e abandona suas origens e parte para o Oeste, acompanhamos uma saga que termina em meio a estrutura comunitária e identitária das tribos Siouxs americana. Nesse filme, Samuel Fuller opõe dois mundos, duas percepções sobre a vida e a realidade histórica e o faz de duas formas distintas. Como se não bastasse colocar em polos opostos o Norte-Sul (União e Estados Confederados do Sul), jogou com as estruturas identitárias dos povos nativos em contraposição a Civilização Ocidental e, por consequência, a América.

Aqui, temos uma profunda reflexão sobre ser americano, o que significou a Guerra de Secessão e sobre os conceitos de pertencimento e identidade. Aceitar-se ou não dentro das entranhas da América, como um apátrida ou, inevitavelmente, como um integrado ao país que se formou a partir de 1865, tornaram-se questões fundamentais que a câmera de Fuller evidencia, circunstancia, registra, coloca em crise e em relevo, sem qualquer rodeio ou desvio no enfrentamento.

É o que vemos nas sequências entre o soldado O’Meara e sua mãe (e depois com o capitão da cavalaria – em um diálogo que se dá próximo ao final e revela a barbárie pertencente a todos os lados). Em um primeiro ato, quase um preâmbulo, o soldado sulista O’Meara renega a pátria em que nascera, que se esfacelara e se reerguera com a Guerra Civil Americana.

Na sequência em que ele confronta sua mãe (com os corpos quase colados à superfície da imagem, com os elementos do plano de fundo desfocados e o foco todo na mãe e no filho a confrontarem-se e afrontarem-se com todas as palavras), Samuel Fuller nos mostra que não era possível unir Norte e Sul sem atos extremos, corpos ao chão, degola, prisões e sem que corações e mentes padecessem. É o momento em que duas pessoas ligadas pelo sangue passam à limpo o que afinal restou – em um diálogo sobre aceitar e recusar, resignar-se e debater-se contra um estado de coisas que, à custo e a contragosto, surge depois de uma guerra violenta.

Samuel Fuller, com longos planos fixos, mostra-nos que sobreviver é também morrer; aceitar é também padecer; e que renegar é, ao mesmo tempo, não esquecer o passado e seus fantasmas.

Quando, nessa sequência, o combatente confederado O’Meara confronta sua mãe já velha, com os locais a olharem aquela cena sobre uma ponte que une e separa, o que está em crise é, em última instância, a mãe-pátria. Ficar é aceitá-la: tornar-se um cidadão norte-americano – o que O’Meara rejeita. Uma rejeição que é mais do que uma rebeldia inconsequente; é antes não colaborar para a manutenção do estado de coisas que provocou a morte de tantos companheiros que padeceram nas batalhas. (Não foi Elio Gaspari que, em um dos tomos da Coleção As Ilusões Armadas, lembrou, ao entrevistar as organizações armadas do período do Regime Militar no Brasil, que a memória e o compromisso com os mortos eram os fatores que impeliam os sobreviventes a perseverarem?).

Mais do que insultar Abraham Lincoln para desespero da sua velha mãe, o autoexílio foi a resposta dada, ainda que dentro das próprias fronteiras da América, mas com outra identidade e partilha de sensações e ações comunitárias.

Esta é a opção de O’Meara, ao anunciar sua partida para o longínquo Oeste: espaço sagrado não só para o gênero Western, mas para os povos Sioux (por sinal, interpretados por atores brancos – mas não todos os que aparecem –, com Charles Bronson inclusive fazendo um dos guerreiros nativos). Um autoexílio posto em cena por um plano geral, no qual vemos O’Meara cruzando as vastas planícies áridas no lombo de um cavalo, com abutres rondando o céu e o corpo de um velho Sioux colonizado a dormir sobre a terra a ser ocupada pelas cavalarias americanas, que aparecem para construir um forte.

Em Renegando o Meu Sangue, há sequências antológicas.

Sem retoques ou qualquer temor ou condescendência, como a do diálogo entre mãe-filho, além de outras como a da batalha entre as tribos Sioux e a cavalaria americana, cuja bandeira dos EUA protagoniza o duelo, com um soldado ianque tentando livrá-la do fogo e um nativo sioux que a arrebata à força. Mas é a sequência de abertura a mais brutal que confronta – sem qualquer parcimônia – a Civilização, com um travelling a nos colocar nos despojos da guerra: corpos, armas, restos de nada e de caos, incerteza e um país em ruínas.

De repente, no campo da imagem, desponta um soldado ianque montado a cavalo – que é logo abatido por um disparo seco e certeiro que o leva ao chão e em cujo corpo, transformado em mesa, O’Meara instala o banquete para a sua refeição do dia (com direito ainda a um trago). É a banalidade da guerra que Fuller inscreve na imagem: a insignificância da vida e do outro.

Já não há salvação.

Em Renegando o Meu Sangue, que não tem os movimentos e angulações sofisticados da câmera de Dragões da Violência (1957), Samuel Fuller realiza um filme apátrida (contestador da sua própria nação, que também precisa ser colocada em crise por todos os horrores cometidos).

No segundo ato, mais longo e que prolonga a crítica a constituição dos Estados Unidos da América, O’Meara não se transforma apenas no personagem contundente a enfrentar o país unificado de Abraham Lincoln (com os escombros e as ruínas humanas e civilizatórias, nos quais duas regiões, diametralmente, opostas em termos de produção material e visão do outro, escoram-se e definem o futuro). O personagem O’Meara também entra em transformação à nível da própria identidade, quando o filme propõe a mescla do sangue, que, em tese, significa: um americano branco tornar-se um nativo Sioux (ainda que, ao desestabilizar as noções de identidade e pertencimento, Fuller tenha preservado as crenças cristãs e o figurino ocidental de O’Meara. O que, por um lado, não deixa de ser chocante, sobretudo aos olhos da cavalaria, quando confrontada e afrontada por um guia sioux que porta a sua língua, religião, vestuário, cor – todo o seu corpo).

Fuller brinca com o roteiro. Às vezes, decorrente de ter que adaptar-se as estratégias narrativas impostas pela indústria. Uma delas, as coincidências no entorno da bala: que se transforma em um objeto fetiche. A mesma retirada do corpo do soldado ianque, abatido por O’Meara na sequência de abertura e sobre o qual monta o banquete. Projétil que se transforma em “símbolo do final do conflito” por ser proveniente do último disparo dado na Guerra de Secessão e que, no final, é reutilizada para um novo disparo contra o mesmo soldado ianque do início. Coincidências que ficam por conta das estratégias do roteiro, que, afinal, precisa criar empatia com o público.

Mas o ato que move O’Meara a pegar o rifle, ao mesmo tempo, coloca em xeque a dimensão identitária que o cercou desde o começo e definiu sua psicologia e composição. Principalmente porque, em Samuel Fuller, a segunda chance dada aos indivíduos, dificilmente, está descolada das perdas e danos que demarcam seus destinos.

Por outro lado, o desfecho favorável aos Siouxs, que conseguem manter a integridade dos seus corpos e território, fica por conta do ato de pensar a História com outros desdobramentos, quando na verdade o massacre que se abateu sobre os nativos localizados na América não teve resultados diferentes do que se abateu sobre os povos nativos assentados no lado de cá do continente.

Nesse contexto, Samuel Fuller quebra o pacto com o seu personagem, que lhe propunha a fuga da Civilização para não viver sob os EUA. Mas o plano final com O’Meara, seguido da jovem nativa, com quem se casara no ritual Sioux; e pelo “filho de adoção”, não foge da problemática da descaracterização cultural por vir e da consequente eliminação dos nativos americanos.

Como o letreiro final avisa:

“O fim desta história só pode ser escrito por você”.

Entretanto, seus desdobramentos acabaram sendo escritos pelo próprio processo histórico de dominação e poder de uma cultura sobre outra, de uma visão de mundo e vida sobre uma concepção de realidade e poder distinta.

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