Agenda para um novo ano

O obsequioso leitor deve saber que em tempos assim, quando se está na iminência de um novo ano, é aconselhável descolar-se das amarras do presente e buscar resgatar os projetos de vida que ficaram para trás, a fim de compor, com as sobras que deles houver, um novo conceito de futuro. Não se trata, ainda, de enveredar pelos temerários caminhos da utopia triunfalista de uma idéia de humanidade que já não atende às nossas exigências. No máximo, podemos revisitar o mundo novo que Huxley adjetivou de “admirável”, para no final achá-lo cientificista em demasia, portanto mais distante de nós do que esteve da geração do seu autor.

Quando ceticismo e auto-ironia se encontram na mesma encruzilhada da história, como sucede presentemente, não cabe lugar para atitudes excessivamente ousadas, embora seja de atitude que se trate neste arremedo de crônica. Que haja, portanto, atitude, não heróica, porém. Nem açodada. Nada que o ceticismo ou a auto-ironia reprove. Sem discrição e leveza (esta, exigência inegociável de Calvino), nenhum projeto pessoal há de prosperar.

Disso decorre ainda que a agenda para um ano que se inicia tem de ser pautada pela economia de meios: caber numa folha de borrão, não exceder os limites de uma lauda A4, acomodar-se folgadamente nas dimensões de uma mensagem eletrônica respondendo a uma pergunta corriqueira.

Que itens podem compor uma agenda assim minúscula? Por exemplo: ver detalhes da reforma ortográfica que entra em vigor neste ano em sete nações lusófonas, inclusive o nosso país. Nem que seja só a título de curiosidade, para que nossa auto-ironia (que passará a se escrever autoironia!) se deleite em apontar futilidades aqui, fatuidades ali, incoerência em quase toda a parte, e nenhuma lógica que justifique tantas mudanças, recuos e lacunas. Tantas novas normas e contranormas.

Outros programas de talhe igualmente modesto são aqueles que seguem a pauta classificada de auto-investimento. Postos de lado os riscos do auto-engano, projetos que tenham a haver com investimentos individualizados, como levar realmente a sério o estudo do inglês (ou do mandarim, para os mais otimistas), desabituar-se do consumo de supérfluos (o que tem arruinado alguns sonhos vitais!), reciclar os próprios conhecimentos profissionais, não porque se esteja visando a uma promoção (ou, ao menos, não só isso), mas pelo prazer de constatar o quanto os saberes evoluíram e que ainda somos capazes de percebê-lo, se não no todo, ao menos em parte.

Há que se pensar também em saldar uma ou duas dívidas intelectuais que involuntariamente se adquire, sem que se saiba bem por quê. Por exemplo, ler certo livro que sabemos com certeza (também sem sabermos por quê) contém informações essenciais do mundo da vida. Não podemos mais adiar o contato com essa fonte!

Nada, portanto, que suscite nostalgias impossíveis de viver de novo. O que equivale a capitular de inadmissível aquele rol de “coisas desejáveis”, que você faria se lhe fosse dada a chance – como naquele pseudo-Borges de ampla divulgação até bem pouco. Sem esquecer, porém, que a blague seria muito do agrado do criador de Pierre Menard, autor do Quixote...

Contudo, a rubrica “auto-investimento” não deve esgotar a agenda propositiva do ano que se inicia. Mais importante ainda é se estar preparado para os desafios da agenda de surpresas que estão por vir. Porque certamente virão, desejáveis e indesejáveis, na sofreguidão natural que faz e refaz os dias, como um artesão que nunca se satisfaz com o acabamento de suas peças...




Incluído em: 24/12/2008


Alegoria com elefante em trânsito

A frequencia com que os ditados populares aparecem na obra de José Saramago indica que esse escritor português encara a cultura em seu sentido mais literal, que é o antropológico. Dito de outra forma, Saramago faz da sabedoria popular, representada pelos provérbios e ditados da tradição, o interlocutor preferencial de sua obra romanesca, à medida que os desfia ao sabor da trama das suas histórias.

Em “A viagem do elefante”, livro que Saramago acaba de lançar simultaneamente em Portugal e no Brasil, o diálogo com a tradição popular é parte integrante dessa que é uma história linear clássica: desde que começa, segue uma cronologia direta regular que é ditada pela viagem de um elefante de Portugal até a capital austríaca. Trata-se de um presente que o rei dom João III envia ao arquiduque Maximiliano da Áustria, visando, através desse exótico mimo, a reforçar as boas relações com os poderosos Habsburgos, do qual o arquiduque é o nome mais eminente de sua época.

Como em todo romance que se preza, episódios dos mais variados humores se sucedem, inclusive escaramuças entre militares portugueses e austríacos, tentativas de exorcismo, falsos milagres e disputas religiosas. Lembremos que o núcleo da trama foi baseado em fontes históricas bem documentadas. Afora isso, o mais é exercício ficcional e alegoria. E logo o leitor perceberá que a forma de narrar os fatos se sobrepõe em interesse à própria narrativa.

O que torna a prosa saramaguiana incomparável é justamente o diálogo com a sabedoria popular embutida nos ditos espirituosos, líricos, doutrinários do povo. É com eles que Saramago se identifica, mesmo quando os refaz, os emenda ou os contradiz. Ciente dessa transgressão a que não consegue resistir, ele põe na fala do capcioso tratador do elefante da trama a explicação cabal para seu modus operandi: “Não sou eu quem joga com as palavras, são elas que jogam comigo”.

Para fazer justiça à prosa saramaguiana é preciso destacar o cuidado com que ele trabalha dois personagens absolutamente distintos: o secretário Pedro de Alcáçova Carneiro, secretário de dom João III, e o cornaca indiano Subhro (ou Fritz, como será no futuro, por injunção do arquiduque da Áustria). O primeiro, mestre da dialética, é o criador da figura de linguagem “ato poético”, a propósito da visita que o monarca português faz ao cercado no qual vive o elefante Salomão em Belém. Quando indagado o que seja um ato poético, responde habilmente: “Não se sabe, meu senhor, só damos por ele quando aconteceu”. É dele também esse primor de ironia filosófica: ao ouvir do rei que o céu lhe estava garantido, replicou: “Não sei, meu senhor, se este é o melhor tempo de ir para o céu”.

Mestre da empatia, Saramago consegue entrar na pele do cornaca Subhro sem descuidar dos séculos de sabedoria que ele traz da Índia, país de onde foi afastado desde que veio para Portugal como tratador de Salomão, há dois anos e meio. A certa altura, tentando explicar a um militar português a história do deus indiano Ganeixa, ele resvala em críticas à trindade cristã: “Nunca ouvi pedir nada a deus nem a jesus, nem ao espírito santo, mas a virgem não tem mãos a medir com tantos rogos, preces e solicitações que lhe chegam a casa a todas as horas do dia e da noite”. E, repreendido, negaceia: Tudo isto são palavras e só palavras, fora das palavras não há nada [...] uma palavra que, como todas as demais, só por outras palavras poderá ser explicada [...]”.

Embora vasta, a obra de Saramago deixa entrever poucas fontes literárias diretas. Uma exceção é a Bíblia, frequentemente citada e comentada. Mas sendo comunista e ateu, esses comentários são quase sempre sardônicas e críticos. “A viagem do elefante” mantém essa característica em vários momentos. Quando, por exemplo, leva um pároco de aldeia a tentar exorcizar um suposto demônio encarnado em Salomão (o elefante). O episódio se encerra com um coice que o elefante inflige ao pároco. Em outro momento, um sacerdote exige que o cornaca protagonize um milagre forçando o elefante a ajoelhar-se diante de uma imagem de Santo Antônio em público. Comentários acerca da parábola dos demônios lançados aos porcos embaraçam o pároco exorcista, entre outros.

Resta uma última observação: apesar de suas 256 páginas, “A viagem do elefante” porta o nome de “conto”, e não de romance, como habitualmente os textos longos são intitulados. A explicação de Saramago é que o livro não encerra outros traços distintivos do romance, como uma história de amor, um personagem feminino importante... Mas, reconsiderando o que disse, ele próprio ponderou: “Quanto a mim, já desisti de classificações. Entenda cada um o livro como lhe parecer melhor e chame-lhe o que quiser”. Magister dixit.




Incluído em: 28/11/2008


Quando a estrela cantava

Houve uma época na vida do rádio norte-rio-grandense em que o artista se auto-entrevistava, numa espécie de monólogo falado e que às vezes era levado aos jornais. Impressa, essa modalidade de conversa direta do artista com seu público ganhava o curioso nome de entrevista-monólogo. A cantora Glorinha Oliveira inaugurou esse simulacro de entrevista na nossa imprensa no dia 9 de fevereiro de 1951. As razões que levaram a cantora a ocupar um quarto de página de um caderno do “Diário de Natal” daquele ano se explica pelo fato de que ela já era cantora exclusiva da Rádio Poti, emissora afiliada dos Associados, grupo ao qual o DN também pertencia. Outra razão que vinha se somar a essa era que a artista acabara de inaugurar o seu fã-clube, com sede na Rua dos Paianazes, n. 1225, Alecrim, num evento que mobilizara centenas de fãs e amigos do rádio. É dispensável assinalar o significado da criação de um fã-clube artístico, termômetro da altíssima popularidade de que ela gozava junto ao seu público, numa época em que o rádio local vivia sua fase de ouro.

Símbolo de uma época, o Fã-Clube Glorinha Oliveira era composto unicamente de mulheres e resultara da iniciativa de uma fã da qual a história guarda o nome: Srta. Rocilda Francisca do Nascimento. Primeira presidente desse fã-clube, Rocilda teve, durante a inauguração do clube, o seu dia de glória, posando para fotos junto a Genar Wanderley e Sandra Maria, ícones do rádio natalense, juntamente com sua musa inspiradora, entre outras personalidades da vida natalense que se fizeram presentes ao evento.

Para galgar posição tão invejável no rádio local, Glorinha Oliveira exercia atividade diuturna a fim de dar conta dos diversos programas que estrelava como cantora, radioatriz e comediante. Estrelou, por exemplo, no famoso “Balança, mas não cai”, um dos humorísticos mais memoráveis do nosso rádio, sem falar nas inúmeras revistas musicais que protagonizou e nas mensagens publicitárias que gravou.

Dotada de natureza versátil, Glorinha teve sua fase de empresária-artista, quando geriu o famoso “Beco da Glória”, nos anos 1980. Ali se reuniam os artistas e os boêmios mais genuínos da cidade, como Liz Nôga, Adriel de Sousa Lima, Eliete Regina, Luiz Cordeiro, Ubirajara Macedo, Lucinha Lira, Taís Marques, dentre outros. A principal estrela do lugar, porém, era a própria Glorinha, que sempre dava uma “canja” aos seus fãs no encerramento das atividades diárias do glorioso “Beco”.

Certo dia, Glorinha Oliveira nos telefonou, propondo que a ajudássemos a escrever sua história de vida. Nasceu aí o projeto do livro A Estrela Conta, parodiando o célebre programa que inscreveu seu nome no livro de ouro do rádio potiguar. Lançamos A Estrela Conta em 2003, mas fôssemos editá-lo hoje, incluiríamos nele pelo menos mais um capítulo: a despedida dos palcos de Glorinha Oliveira.

Esse episódio aconteceu em 12 de dezembro de 2007, no auditório da Assembléia Legislativa. Seus numerosos amigos do Clube dos amantes da Boa Música (que ela ajudou a fundar em 1992, juntamente com o radialista Luiz Cordeiro) se fizeram presentes à solene ocasião, e cantores se revezaram no palco como forma de homenagear a artista evanescente, para delírio da platéia.

Faltou a Glorinha Oliveira realizar algo de importante?

Prefiro não perguntar à artista e deixar, assim, às remanescentes do Fã-Clube Glorinha Oliveira a tarefa de imaginar projetos para a cantora. Quanto aos fãs em geral, antigos ou novos, estes podem imaginar também, por seu lado, outros projetos para uma cantora de perfil difícil de enquadrar em modelos pré-estabelecidos.

E mesmo que tenha faltado a Glorinha realizar algo, o que isso importa, comparado ao tanto que ela fez pela nossa música, pelos nossos sonhos, pela nossa auto-estima de admiradores de sua voz, que outros já compararam à do rouxinol, mas que preferiremos sempre considerar simplesmente como a voz da musa maior da nossa canção?

No dia 27 próximo, Glorinha Oliveira fará aniversário.

Parabéns, Glorinha!




Incluído em: 24/11/2008


A Papangu revisita Renard Perez

Graças à tenacidade que caracteriza, desde Vingt-un e sua Coleção Mossoroense, as coisas da gente de Mossoró, a revista Papangu atravessa as turbulências de longevos cinco anos de circulação em condições “saudáveis”. No seu número mais recente, embora a política mereça a capa, a cultura tem lugar cativo nas suas páginas finais como a dizer que, entre uma e outra, boas cercas fazem bons vizinhos. Isso se patenteia muito bem no trabalho de alguns colunistas “pertinentes”.

O escritor Clauder Arcanjo pertence a essa categoria de autores que acreditam na possibilidade de fazer cultura em periódicos de capas invariavelmente políticas, uma possibilidade descartada por alguns jornalistas/escritores que migraram para o espaço virtual da internet. O artigo que Clauder assina na Papangu, cujo título é “O romancista Renard Perez”, é uma minuciosa apreciação crítica da obra ficcional do autor macaibense, com destaque para o seu único romance, “Começo de caminho: o áspero amor”. A propósito, não falta “gancho” ao artigo, haja vista que este ano Renard comemora seus 80 anos de vida. Para dar um toque especial à efeméride, gestões estão sendo feitas entre os intelectuais de Mossoró e uma instituição macaibense a fim de viabilizar a reedição do romance. As gestões estão no bom caminho e sinalizam para uma solução positiva ainda este ano.

Sabemos o quanto “Começo de caminho: o áspero amor” significa para seu autor. E razões não lhe faltam. Publicado pela prestigiosa editora Lidador em 1967, obteve o prêmio de ficção da Fundação Cultural Distrito Federal desse mesmo ano, sob elogios generosos de Jorge amado, Fausto Cunha, Rachel de Queiroz, entre outros.

Em 1983, o romance foi republicado pela Civilização Brasileira, em convênio com o Instituto Nacional do Livro. De fato, porém, trata-se de um novo romance, com desfecho diferente e várias mudanças de estrutura e conteúdo, fruto do esforço do escritor em busca da melhor definição para o seu romance.

Mesmo assim, a edição continuou a desagradar o autor. Uma das causas de queixa tinha a ver com as sempre desagradáveis “gralhas” tipográficas, tão freqüentes que os antigos linotipistas forjaram uma persona e um brocardo: “o diabo mora na tipografia”. Seria o demo, em última instância, o causador das inoportunas “gralhas”...

No fundo, o que Renard Perez quer, é o que quer qualquer escritor: dar uma chance a um livro querido que ainda não foi suficientemente lido; além do mais, há novas gerações de leitores que precisam conhecer o drama vivido pelo jovem candidato a escritor, Carlos Vasconcelos, e sua reticente musa que ele resume numa única emissão de voz: Clô.

Genuíno romance de formação (Bildungsroman, como o tipificaram os clássicos alemães), “Começo de caminho: o áspero amor” reproduz em termos ideais a trajetória pessoal do jovem Renard em sua chegada à cidade do Rio de Janeiro, nos anos 1940. Esse elemento autobiográfico finda por contagiar a atmosfera do romance com tintas nostálgicas que redimem o açodado herói nordestino (cearense?), presa fácil de atitudes e idéias insensatas. Assim como ele conseguiu amadurecer para o romance que escreveu na história, assim ele amadurecerá para a relação com Clô, afinal uma obsessão de que ele não pode se livrar. Mas um jovem escritor não encontraria melhor via para o amadurecimento se vivesse outras paixões, preferencialmente malsucedidas, até que, mais amadurecido nos anos, viesse a conhecer um amor estável, adequado à sua condição de escritor na maturidade?

Renard Perez descarta essa via. Ele prefere que Carlos persiga Clô como um ator trágico o abismo. A diferença agora é que o abismo reluta em atrair seu perseguidor. Antes disso, o admoesta com advertências sensatas, mas custosas demais ao entendimento sôfrego do jovem escritor à véspera de ter seu primeiro romance editado. Ele precisa ter alguém com compartilhar esse júbilo quase insuportável. E o mundo da vida que freqüenta não lhe deixa outra opção além de Clô(tilde).

Não é difícil imaginar o quantitativo emocional que segue nessa relação de Renard escrevendo seu primeiro romance onde um jovem autor (afinal, ele próprio) está escrevendo também seu primeiro romance! Criador e criatura absorvidos pela mesma ambição! O amálgama de biografia e ficção confere um fascínio irresistível a esse romance que não recua mesmo quando se posta à beira do confessionário, como a dizer que só na sua própria biografia Renard Perez encontrou inspiração para escrever um romance. Nele, resumiria a dupla polissemia da palavra romance: paixão e literatura.

Sob esse duplo signo, portanto, “Começo de caminho: o áspero amor” é um livro imprescindível, e vale o esforço para que as novas gerações o conheçam.




Incluído em: 06/11/2008


Saramago vai ao cinema

Em meio à devastação dantesca da grande cidade, cegos, em grupos ou deambulando solitários e às apalpadelas por calçadas e ruas apinhadas de detritos de toda a natureza, esquecem de súbito suas aflições e se rejubilam com uma chuva fina e persistente que começa a cair. A cena, de raro efeito cinematográfico, no filme Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles, parece antecipar a distensão do desfecho encerra a trama com uma sugestiva, mas enganosa, esperança.

Baseado no livro homônimo de José Saramago, gêmeo do outro “Ensaio sobre a lucidez”, do mesmo autor, o filme de Fernando Meirelles é capaz de reconciliar qualquer leitor do Nobel português com a possibilidade de se levar à tela um grande romance sem desfigurá-lo. O cinema às vezes consegue tal proeza. Lembremos, por exemplo, o filme “De olhos bem fechados”, de Stanley Kubrick, baseado no “Romance do sonho”, de Arthur Schnitzler, ou “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos, baseado no livro do mesmo nome de Graciliano Ramos.

A forma gratuita como a cegueira começa a atingir paulatinamente os habitantes da grande e indistinta cidade que lhe serve de cenário, síntese de um mundo em processo de aniquilamento, é um modo exemplar de demonstrar que um cineasta não se perde quando permanece fiel ao roteiro do romance. Fosse filmado nos padrões hollywoodianos, com certeza o diretor seria forçado a fazer concessões aos produtores, o que terminaria inevitavelmente por afastar o enredo do filme do seu enredo original, como estamos fartos de ver nas versões megalômanas de épicos e clássicos literários que vêm de lá.

Outra proeza de Meirelles é manter sob permanente tensão uma narrativa que parece estar sempre tocando os limites da dramaturgia, não fosse a exímia urdidura de Saramago mostrar-se capaz de ultrapassá-los, no espaço estreito do microscópio social representado pelo confinamento dos cegos numa espécie de abrigo improvisado. A vida sob vigilância militar, a exemplo que se costumava fazer nas epidemias medievais, suscita, entre seus habitantes, idéias tão doentias quanto aquelas que levam as autoridades a confiná-los, haja vista que a cegueira é interpretada como um mal contagioso e desafiador da ciência. Não demora a que se formem grupos entre os cegos e surjam lideranças capazes de se aproveitar da situação para exercer formas de tirania compatíveis com a situação. É o que ocorre quando um dos cegos, autoproclamando-se “rei” de uma das alas do presídio, e munido de um revólver, começa a controlar a distribuição de comida e termina por estabelecer a troca por comida por mulheres das outras alas. É um paroxismo que termina por abreviar o fim de uma tirania que parecia totalmente fora de controle, não fosse a ação da mulher do médico, personagem que encarna a lucidez em meio à cegueira geral.

Metáfora do fim da história? Ou seria apenas uma alegoria bíblica transposta para os nossos dias? Comunista, embora, José Saramago não ignora os relatos que a Bíblia faz sobre as dez pragas do Egito e outras manifestações da caprichosa ira divina contra os desafetos do povo eleito, e até mesmo contra esse próprio povo, em certas ocasiões.

Crítico da modernidade em sua versão capitalista, Saramago sabe que o homem é uma “paixão impossível”, como pregavam os existencialistas. Para castigá-lo, o profícuo romancista português já pôs em cena uma Morte saída dos pesadelos medievais, e satanizou um Estado desvairado e decidido a punir os seus cidadãos em represália a um mau resultado eleitoral. A cegueira subitânea e transitória que percorre as páginas do romance saramaguiano e, agora, a película de Fernando Meirelles, deixa claro que, para o seu criador, o ser humano é uma paixão esgotada. Em sua utopia às avessas não há mais lugar para tergiversações de qualquer natureza.

De fato, a leitura que sugere o desfecho, com a volta progressiva da visão aos sobreviventes dessa “undécima praga divina” não é, em absoluto, promissora. Pelo contrário, o cenário que sobressai das vias urbanas captadas pela lente do diretor desestimulam qualquer sonho da razão, considerada a obra sobre-humana de reconstrução que se terá pela frente. A partir desse ponto, o ciclo da história terá um novo recomeço. Mas, se depender de Saramago, será um ciclo de mão única. Pela via socialista. A crise global do capital especulativo, ora em curso, parece lhe dar razão.




Incluído em: 30/10/2008


O Nobel de Le Clézio

Ainda não foi desta vez que o americano Philip Roth foi laureado com o Nobel de Literatura. Nem é chegada a hora do peruano Vargas Llosa, dois nomes fortes para o galardão sueco, dentre dezenas de outros tão bem ou mais cotados.

A escolha recaiu no francês Jean-Marie Gustave Le Clézio, e deu motivo para que se visse aí mais um sinal da confirmação do eurocentrismo como corrente dominante na Academia Sueca nestes últimos anos. Há quem veja, porém, apenas um retorno da França ao centro das letras mundiais, refletindo uma espécie de reconciliação da academia sueca com o país centro-europeu, depois da fissura que sucedeu à recusa de Jean-Paul Sartre ao galardão em 1964, num gesto difícil de entender em nossa época, e que o próprio escritor não se importou em explicar (aliás, um caso isolado no mundo da literatura). É verdade que em 1983 Claude Simon, outro francês, foi laureado, e bem recentemente (2000) Gao Chingjian, francês de origem chinesa, também mereceu a mesma distinção.

Como costuma suceder, a Academia se deu ao trabalho de explicar as razões da premiação: Le Clézio foi escolhido por buscar a "aventura poética e o êxtase sensual, por explorar a humanidade além e abaixo da civilização reinante". A academia também distinguiu sua “sensibilidade ecológica”. A não-concessão do Nobel a Philip Roth tem pelo menos uma explicação: o fato de Doris Lessing, outra autora de língua inglesa, ter sido contemplada no ano passado, tendo sido precedida por Harold Pinter e J. A. Coetzee, outros dois autores de expressão inglesa. Era importante que a academia sueca assinalasse com um gesto firme que não havia abandonado sua vocação cosmopolita.

Le Clézio é também um escritor preocupado com o fazer literário. Sobre essa questão, que tanta tinta já verteu sobre os mais variados suportes, ele encontrou uma fórmula perfeita: escrever como sendo um ato de sobrevivência: "Das duas, uma: ou nos arriscamos a nos deixar devorar pela literatura, ou por nós mesmos. Se nos deixamos devorar por nós mesmos, ficamos loucos. Se nos deixamos devorar pela literatura, nos tornamos escritores". Essa fórmula de justa medida o insere automaticamente na legião dos autores para quem vale o dilema de Ascendino Leite: “literatura ou morte”. Mas é à tradição gaulesa de um Flaubert e de um Proust que remontam as raízes desse dilema.

A láurea deste ano se presta assim a simbolizar o valor do francês como língua culta; mas se presta também a causas colaterais importantes, como a valorização de bens simbólicos não-ocidentais, como o nomadismo, a miscigenação, a resistência das culturas marginais, mitos e modos insulados etc. É sabido que Le Clézio incorpora esses não-valores, o que não o coloca, todavia, como uma exceção; pelo contrário, a França é hoje um país mestiço, haja vista a imigração de africanos, árabes, judeus e orientais, latino-americanos e outros que fazem da sociedade francesa uma espécie de melting-pot de raças e culturas. A presença de escritores como o albanês Ismail Kadaré, do chinês Dai Seiji, do tcheco Milan Kundera, do haitiano René Depestre, entre dezenas de outros escritores não-franceses que fizeram do francês sua língua de cultura, e que estão há décadas incorporados ao estilo de vida francês, acentua de forma muito clara a dinâmica sociocultural que anima a França contemporânea. Acentua, também, o fato de que a Academia sueca tinha à sua disposição um vasto leque de escolhas literárias nos domínios gauleses e, desta vez, preferiu não ignorá-lo.

As chances de Philip Roth arrebanhar o Nobel no próximo ano ficam, portanto, mais fortes, na medida em que se torna uma cobrança crescente da opinião pública ocidental que a Academia sueca não vai poder ignorar por mais muito tempo. É uma espécie de obviedade que se explica por ela mesma. Não se pode esquecer, porém, que a academia ignorou outras obviedades do passado, como Marcel Proust, Vladimir Nabokov e, menos longinquamente, Jorge Luis Borges.

Também não se pode esquecer que Vargas Llosa se mantém com boa cotação, assim como o italiano Umberto Eco. Mas por ser o autor de O nome da rosa um scholar, que divide seu tempo entre estudos medievais, vanguardas européias e um ou outro romance a cada década, faz dele um curinga. A canadense Margaret Atwood, que já dispõe de uma obra sólida e numerosa, é outro nome que está em alta na bolsa de apostas do Nobel.

Em língua portuguesa, Portugal parece ter uma situação bem sólida, como pelo um nome bem lembrado, que é o de António Lobo Antunes, mas o moçambicano Mia Couto e o angolano Pepetela não podem ser negligenciados. Os brasileiros Ariano Suassuna e João Ubaldo Ribeiro já fazem por merecer um reconhecimento maior no exterior. Até porque, há dez anos da concessão do Nobel de Literatura a José Saramago, já transcorreu tempo suficiente para que outro autor de língua portuguesa seja laureado.




Incluído em: 28/10/2008


Livros terapêuticos

Livros ajudam a entender o mundo, como se sabe, embora se saiba também que eles às vezes servem exatamente para o contrário disso e findem confundindo mundos e fundos... Há quem vá além dessa contradição e ache que livros se prestam também a outras finalidades, como propiciar fugas do real, como Cascudo o fez num livro tardio, ou imergir nos labirintos do inconsciente, como Kafka fez insistentemente. Ou, ainda, a finalidades terapêuticas lato sensu. Neste partido se perfila o escritor inglês Alain de Botton, conhecido dos leitores brasileiros pelo livro “Como Proust pode mudar sua vida” (“How Proust can change your life”) que é uma espécie de guia de auto-ajuda apoiada em preceitos e lucubrações do criador de Swann e de Odette de Crécy. Não confundir, portanto, com os habituais exemplares do gênero que freqüentam as colunas dos “mais vendidos” nas revistas semanais.

Animado pelo sucesso do seu receituário proustiano, De Botton agora dirige uma instituição que leva o sugestivo nome de “Escola da Vida” (“School of life”), cujo objetivo é prescrever indicações de leituras que ajudem as pessoas a enfrentar mudanças, encarar crises ou, simplesmente, aproveitar um certo momento da vida. Em outras palavras, é a biblioterapia como modus curandi. Dispensa dizer que o próprio De Botton está à frente dessa “Escola da Vida” e, à falta de biblioterapeutas diplomadas (em vista da inexistência dessa ciência até um mês atrás), seu curso de terapia proustiana o qualifica para o ofício.

Conceitos radicais encontram-se embutidos na nova disciplina e para que alguém se habilite a cursá-la deve compartilhar da idéia de que os livros são imprescindíveis a cada fase da vida das pessoas. Deve crer também que há sempre um livro certo para cada situação da vida, não importa se de euforia, de paixão, de indiferença, de ceticismo, de ansiedade... A cada uma delas, garante o biblioterapeuta, um livro em meio à pletora livresca do mundo, ajudará a entender tudo o que haja de importante a seu respeito.

Assim, por exemplo, para quem ficou (ou está) perdidamente apaixonado, o divã bibliográfico prescrito pela Escola da Vida é “Fragmentos de um discurso amoroso”, de Roland Barthes. Aos que se confessam preocupados com a morte, a receita é “Nada a temer”, do inglês Julian Barnes. Ou seja, a cada caso, pelo menos um livro. Certamente para os ciumentos o “Otelo”, de Shakespeare, seria receita infalível. Em compensação, os melancólicos melhorariam enormemente mediante a leitura do “Dom Quixote de La Mancha”, de Cervantes. A novela machadiana “O alienista” também seria alternativa para esse caso específico.

Evidentemente que é preciso atentar para os riscos de tal receituário e não cometer equívocos, sob pena de graves conseqüências como, por exemplo, quando se recomende o “Ulisses”, de Joyce, a nervosos; “O Judas, o obscuro”, de Thomas Hardy, a céticos; ou “A filosofia na alcova”, do Marquês de Sade, a puritanos. É que obras marcadas por um viés monocórdio podem causar distúrbios em mãos erradas.

A idéia implícita na criação da “Escola da Vida” é uma dessas invenções anglo-saxônias capazes de se aclimatarem em qualquer latitude, o que lhe confere um status de universalidade prévia, tal o potencial que porta. Basta, para tanto, que se tenha uma cultura relativamente estável e consolidada, para que se lhe reivindique sua adoção. Decorre disso que ao “Quixote” correspondem dezenas de obras nacionais análogas: as sagas do Malasarte, as comédias de Cornélio Pena, os humorísticos do cinema e da televisão etc. Do mesmo modo se dá com outros traços da natureza de cada povo.

A “Escola da Vida” se define como uma “pequena loja com grandes ambições”. Uma delas é não se deixar confundir com uma réplica sob forma de loja dos manuais de auto-ajuda. O detalhe fica explícito na fórmula desenvolvida por De Botton: “Esse é o tipo de lugar que pode te tornar genuinamente sábio, em vez de apenas esperto”.

Os cursos da “Escola da Vida” são, evidentemente, pagos. Mas, felizmente, não é indispensável tê-los cursados para desfrutar dos benefícios da leitura.




Incluído em: 06/10/2008


Nenhuma história desperdiçada

“São diversas as carências humanas”, diria um redivivo Zaratustra, sentado à sombra de uma conífera por trás da qual espreita um atormentado Nietzsche. “Entre elas, a necessidade de ouvir e contar histórias”. E uma citação de Margaret Atwood permite a Alberto Manguel (apud “A cidade das palavras”, Cia. das Letras, 2008) introduzir um inexcedível argumento em favor desse preceito zaratustriano, ao tempo em que apresenta um paradoxo próprio à linguagem: se política, ela pretende se valer de categorias reais para congelar as identidades por meio de definições estáticas, segregando, mas não individualizando; já a linguagem da poesia e das histórias, que reconhece a impossibilidade de nomear o mundo de modo preciso e terminante, nos reúne sob a égide de uma humanidade fluida e compartilhada, ao mesmo tempo em que nos confere identidades transparentes. Dispensa dizer que no confronto entre política e ficção, Manguel toma claramente o partido desta. Entre outras razões, porque já dissera, em página anterior do mesmo livro, que “as histórias podem alimentar nossa mente, levando-nos talvez não ao conhecimento de quem somos, mas ao menos à consciência de que existimos – uma consciência essencial, que se desenvolve pelo confronto com a voz alheia”. Os leitores de Bakhtin se regozijarão de ver uma idéia-força do lingüista russo transplantado para o domínio da ficção (área, aliás, tão cara a ele), e traduzida em linguagem comum.

A citação de Margaret Atwood propõe uma charada ao leitor: “Pelas regras do jogo, eu devo sempre mentir. E agora: acredita em mim?”.

A última parte do silogismo da escritora canadense poderia ter continuidade com um complemento do tipo: “acredita agora que estou mentindo?”. Este, aliás, é o drama das pessoas que vivem em torno de Baudolino, esse mentiroso sincero criado por Umberto Eco num livro homônimo. Baudolino apresenta como sua principal identidade o fato de se assumir mentiroso. Mas quão longe uma pessoa é capaz de difundir mentiras por princípio? Pena que Manguel não tenha se ocupado dessa criação de Eco a fim de iluminá-la com seus paradoxos.

A propósito, é fácil encontrar “omissões” nesse livro de Manguel. Quando poderia citar Robert Frost (“God’s speech to Job”), não o faz. Com isso, deixa de apontar o débito que Deus reconhece ter com Jó: “My thanks are to you for releasing me/ from moral bondage to the human race [...] You set me free to reing. You are the Emancipator of your God, and as such I promote you to a saint”.

De modo idêntico, ao comentar a descida de Gilgamesh ao ínfero mundo, Manguel esquece que Ulisses também o fizera na “Odisséia” no afã de consultar o vidente Tirésias, do mesmo modo que Orfeu, na tentativa de resgatar sua amada Eurídice de volta à vida. Enfim, ao introduzir o tema do Doppelgänger, o “duplo”, não lhe ocorre que Dostoievski escreveu uma novela justamente com esse tema e título. Nosso Machado também o fez no conto “O espelho”.

Nada disso desmerece o livro de Alberto Manguel, pela simples razão de que, no fluir da escrita, todo escritor vai fazendo necessariamente suas escolhas, e nem todas se lhe oferecem de pronto. Do mesmo modo que nem todas se lhe fazem necessárias ou imprescindíveis. Além disso, persegui-las à exaustão só serviria para desviá-lo de seu curso natural, colocando no centro da discussão não a relação entre histórias e vidas, mas uma digressão entre analogias, monótona e desnecessária.

Mais vale, então, ficarmos com os paradoxos da linguagem emprestados às histórias que nos contamos para nos sentirmos vivos, para sabermos quem somos. Manguel vê poucas possibilidades de sucesso no “Conhece-te a ti mesmo”, admoestação que Sócrates popularizou nos diálogos platônicos. Mais realista, acredita que já lucraríamos bastante se por meio delas nos dermos conta de nossa própria existência. Assim como fez Enkidu a Gilgamesh, Mefistófeles a Fausto e Jó a Deus. Olhando bem, qualquer história comporta esse ensinamento especular que replica a humanidade em nós. Só por isso, nenhuma história merece ser desperdiçada.




Incluído em: 18/09/2008


Do destino incerto dos livros

Mas, para que tanto livro, meu Deus? A Expressão, bem ao estilo do espanto de Drummond ante a abundância de pernas femininas à mostra nas ruas, é quase inevitável em face do impacto que as feiras e bienais literárias costumam suscitar. A Festa do Livro, encerrada domingo último na Praça do Arsenal, no Recife Velho, não foi diferente. Lá se encontravam dezenas de estandes abarrotados de livros, cordéis, revistas, CDs, discos de vinil e inúmeras quinquilharias com fins decorativos. Num palco armado numa das bifurcações da praça, poetas de diferentes regiões se emulavam, numa disputa recitatória pela preferência do público, mas especialmente do júri, em torno de uma premiação pecuniária. O potiguar Marcos Cavalcanti, natural de Santa Cruz do Inharé, sagrou-se, pela segunda vez consecutiva, o vice-ganhador. Uma dupla feminina local foi aquinhoada com o prêmio principal. Tudo dentro do previsível.

Nesse torvelinho, lançamos para um pequeno e curioso público, nossa “Antologia poética de tradutores potiguares”. Outras centenas de autores potiguares tiveram seus livros expostos no estande reservado à editora da UFRN. Títulos de caráter mais específico ou de interesse mais geral foram os mais comercializados na ocasião. Todavia, livros assinados por Câmara Cascudo, Zila Mamede e Luís Carlos Guimarães também conquistaram leitores pernambucanos.

A (im)pertinência da pergunta inicial, porém, não cala: para que tanto livro, meu Deus? Quase dava para sentir a disputa surda travada nas estantes, cada livro tentando atrair a atenção e o interesse dos seus potenciais leitores. Para isso, revestem-se de capas as mais criativas ou inusitadas, enquanto seus autores às vezes também recorrem a expedientes originais ou já saídos de moda para propiciar-lhes uma condição menos banal na babel livresca. Quem os lerá, se o farão, e a que tempo?

A Festa do Livro, tanto essa de que viemos de participar, como as anteriores e as vindouras, têm esse frenesi a que nem autores nem público conseguem escapar. E pessoas suscetíveis não deveriam absolutamente se aventurar em ambientes tão nervosos, como ouvi de um transeunte ocasional.

Os livros, aí subentendidos os grandes eventos que propiciam, como as bienais sul-americanas e européias, não vivem uma hora pacífica, e seria estranho que o vivessem, se tudo o mais atravessa crises e dúvidas. Estatísticas sobre dificuldades do mercado editorial, crise da leitura, migração de leitores para a internet etc., se chocam com a proliferação de feiras de livros, que se regionalizam e se municipalizam; com o surgimento de novas e mais sofisticadas livrarias, comercializando produtos cada vez mais requintados e que comportam várias mídias; com a criação de pontos de venda de livros em farmácias, shopping centers, bancas de revista etc. De que lado está a verdade?

Não o sabemos, porque depende, sempre depende de algo. E esse imponderável nunca se deixa capturar em definitivo. Não é por outra razão que encarna o próprio espírito da pós-modernidade, essa medusa de incontáveis cabeças, todas conflitantes entre si.

Vistas de dentro das suas linhas, as feiras de livros e que tais vão muito bem, como mostram seus resultados objetivos: público, vendas etc. Por isso, seus organizadores estão sempre cogitando de ampliá-las. A Festa do Livro de Recife, que até a edição deste ano – a 6ª – teve a duração de um dia, culminando uma semana inteira de atividades livrescas que mobilizaram dezenas de bairros daquela cidade, já estuda a hipótese de estender-se por mais um dia. Foi o que revelou um abaixo-assinado de seus participantes.

Se haverá um refluxo nessa tendência ascendente, ainda é cedo para afirmar. Apesar das estatísticas conflitantes em contraste com a evidência dos fatos. Atendo-nos aos fatos, porém, evitaríamos muita discussão estéril nessa seara...




Incluído em: 03/09/2008


Exorcismos do sonhador acordado: Esmeraldo Siqueira e o diário dos seus sonhos*

O ano de 1961 se reveste de um significado singular na vida do escritor Esmeraldo Siqueira. De abril a setembro desse ano, ele anota cuidadosamente os sonhos de véspera que publicará juntamente com outro livro, sob o título de “Pleorama e Diário dos Meus Sonhos” (Pongetti, 1968). O primeiro, todavia, reúne reflexões sobre arte e literatura, obra distinta, portanto, da que se lhe segue.

Se observarmos a descrição do sonho inaugural da série, datado de 7 de abril, veremos que há ali um possível indício de sua motivação. Trata-se de sonho que nada guarda de convencional: o sonhador recebe um presente pelo correio cujo remetente é ignorado. Esse detalhe, porém, lhe passa despercebido, dominado que está por um fato intrigante: o presente vinha acondicionado dentro de um envelope espesso e resistente que, ao apalpá-lo, lhe parece um relógio. Ao abri-lo, porém, descobre que é uma bússola de ouro, de forma redonda e achatada. Frustrado, o sonhador coloca-o em cima de uma mesa. O fato de a bússola ser de ouro não arrefece em nada a decepção com o objeto; queria-o um relógio, não uma bússola. Mas eis que de repente o desprezado objeto começa a bater a hora com sonoridade musical. E conclui o narrador: “Fiquei maravilhado, acreditando no milagre de uma bússola também poder funcionar como relógio”.

O velho Nicéforo, patriarca de Alexandria e célebre intérprete dos enigmas oníricos que Cascudo evocou em seu “Prelúdio e fuga do real”, encontraria elementos de rico significado simbólico no sonho da bússola-relógio descrito acima. A primeira, que o sonhador desejava ardentemente um relógio, ou seja, preocupava-o algo de caráter temporal, um acontecimento iminente de transcendental importância; a segunda, que ele não se reconhecia carente de orientação, serventia da bússola; nem de dinheiro, metal de que aquela se revestia. Ao descobrir, entretanto, que a bússola também se prestava a bater a hora com sonoridade musical, tudo mudou e, numa reviravolta narrativa, cronômetro, bússola e ouro se somam num único objeto, agora pleno de significado para seu possuidor!

O aparente happy end do sonho não lhe priva de certo toque kafkiano, dada a sucessão com que os acontecimentos se atropelam. Lembremos que Kafka foi também um obsessivo anotador dos seus próprios sonhos, aos quais costumava dar um tratamento literário. Senão, como explicar a procedência de narrativas tão oníricas como “O Castelo”, “O Processo” e “Um médico de aldeia”?

Nem todos os sonhos que Esmeraldo Siqueira foi recolhendo ao longo dos nove meses seguintes guardam fidelidade ao modelo inicial, isto é, ao maravilhoso e ao inesperado. Igual ao que ocorre nos contos de fadas, por exemplo. De fato, muitos se reportam ao mundo real, o que os torna às vezes triviais, pouco significativos, mesmo. Mas de permeio deparamos aqui e ali com relatos oníricos que funcionam como espelhos do dia-a-dia do narrador, nas suas relações de trabalho, amizade e conflito com seus conterrâneos. E eis que de repente um Veríssimo de Melo, um Othoniel Menezes, um Celestino Pimentel, um Câmara Cascudo, um Luís Tavares, entre outros, protagonizam com o narrador aventuras oníricas inusitadas. Em outras ocasiões, é o próprio narrador que vivencia experiências-limite, quando se descobre alado e capaz de evitar ser presa de armadilhas ou torpezas.

Acima de todas as peripécias que os sonhos parecem infligir ao perplexo sonhador acordado (como seu protótipo de As mil e uma noites sob o domínio do califa Harum al-Rachid), às voltas com seus enigmas, o que mais chama a atenção em “Diário dos Meus Sonhos”, é a determinação do narrador em não recuar diante das situações mais enigmáticas, mesmo aquelas que contrariam suas convicções. O respeito à verdade, marca, aliás, do intelectual Esmeraldo Siqueira, leva-o a descrever cenas que ele sabia serem totalmente contrárias aos seus valores. É o que acontece, por exemplo, no sonho do dia 17 de abril. Após confessar que sonhara praticando uma felação com uma senhorita que tivera um fraco por ele, cujos detalhes considera dispensáveis, conclui: “Inegavelmente, a vida sexual só nos deixa na morte. Eu sempre procurava resistir às fraquezas dessa moça do sonho, mas pratiquei dormindo o que tantas vezes evitara acordado...”.

No sonho do dia 16 de maio, um comerciante lhe passa nota falsa e se recusa a recebê-la de volta. E prossegue o autor: “Dois empregados tomaram o partido do patrão, chegando mesmo a agredir-me. Com um bisturi, pude degolar os agressores”. Em seguida, segue uma Nota à guisa de comentário: “Este sonho é reflexo muito significativo da desgraçada época que estamos sofrendo. Apesar de minha vida pacata, dos meus hábitos de trabalho e de estudo, os males do tempo me perseguem até dormindo”.

Na progressão anárquica dos sonhos, o narrador vai revelando um quadro fragmentário, embora verossímil, de sua época. O trovador Luís Tavares mostra quadras que o narrador rememora; o maestro Waldemar de Almeida é motivo de uma busca coletiva pela cidade; Veríssimo de Melo discute com o narrador um caso de duplo plágio em poesia; o antigo Ateneu da Junqueira Aires serve de cenário para uma reunião de seu quadro de professores à época: Luís Wanderley, Celestino Pimentel, Israel Nazareno, João da Mata Paiva e Câmara Cascudo. Num outro sonho coletivo, o narrador se vê entrando num bar que porta o nome de “Bar-restaurante dos Literatos”. Em seu interior divisa um grupo formado por Dorian Gray, Newton Navarro, Sanderson Negreiros, Celso da Silveira e Luís Rabelo. E observa: “Não me prestaram a menor atenção, entusiasmados como de costume com eles mesmos”.

Um dos últimos registros oníricos do livro tem tinturas de humor: o livreiro Walter Pereira muda de ramo e em vez de vender livros, passa a vender quitutes. O narrador de imediato se faz seu freguês e come glutonamente três pratos de deliciosa canjica.

No último sonho, as tribulações da vida diária natalense são postas de lado, trocadas por um idílio poético: “Francamente o confesso: meu inconsciente não está nada satisfeito com a minha idade. Sonho-me de novo jovem, de coração transbordante. Acho-me numa esquina de Natal. Dois brotinhos passeiam. Ambos me conhecem e me cortejam. Gosto mais de um deles, mas o disfarço quanto posso, para não desanimar o outro. O da minha preferência é verdadeiramente gracioso. Tem um sorriso divino, toda vez que me olha. Sinto-me apaixonado. Qualquer coisa de delicioso me enche a alma. A hora adianta-se, e os dois brotinhos despedem-se de mim. Permaneço ainda na esquina numa espécie de êxtase”.

Após a descrição desse idílio, o autor anuncia o fim do seu projeto, cujo objetivo fora alcançado: reunir um número suficiente de sonhos para perfazer um pequeno volume.

Sem se perguntar em qualquer fase da escritura do seu Diário dos Meus Sonhos se os sonhos podem ou não ser significativos, o autor se limitou a narrá-los com o máximo de detalhes que a vigília lhe facultou. Veraz como usava ser, não recuou diante de quaisquer dos enigmas que eles lhe propuseram. Tais características conferem ao seu livro uma radicalidade desafiadora que se mantém atual até os nossos dias.


* Palestra proferida no Conselho Estadual de Cultural, no dia 19 de agosto passado, como parte da sessão comemorativa do centenário do escritor Esmeraldo Siqueira.




Incluído em: 20/08/2008


Certezas para céticos

Existe jornalismo cultural no Rio Grande do Norte? A pergunta, de inequívoco tom provocativo, abriu os debates relativos à noite de encerramento da II Feira do Livro do Natal Shopping, no dia 8 passado. Da mesma natureza da pergunta: existe literatura no Rio Grande do Norte?, que animou uma das mesas-redondas da Feira do Livro de Mossoró, realizada em período coincidente com o evento natalense, uma e outra pergunta se pauta por fazer tábua rasa dos consensos dos seus usuários. No primeiro caso, os jornalistas; no segundo, os intelectuais.

Para um jornalista habituado às lides do jornalismo cultural, a pergunta sobre a existência do seu ofício deve lhe soar meio fora de ordem (ou de propósito), não menos do que pareceria a um escritor indagar-lhe sobre a literatura potiguar. Seria o mesmo que pôr em dúvida os seus escritos.

Mas, quer o jornalismo, quer a literatura, comportam tais provocações, porque é disso que tratam os perguntadores do óbvio, ou daquilo que assim parecia até então, e que, de repente, deixa de sê-lo por um momento, quando a perplexidade nos leva a perceber outros níveis da realidade no nosso entorno.

É justo, então, descartar a ambas as perguntas por descabidas? Preferimos pensar que não. Na verdade, vemos nisso um exercício de revalidação das nossas opiniões, pois no momento em que fazemos tábua rasa daquilo que nos parecia óbvio e evidente, há exíguos momentos atrás, admitimos a possibilidade de reconsiderarmos nosso repertório de certezas. E as dúvidas que costumam assomar, nessas ocasiões, podem não se limitar àquelas sobre se temos ou não jornalismo cultural, ou literatura. Coisas não menos óbvias, como a crença nos alicerces do nosso cotidiano (uma invenção um pouco nossa também, mas que preferimos ignorar) podem sobrevir nesse exercício de céticos. Depende só de querermos assim proceder. Afinal, ignoramos também de quantas dúvidas outras se revestem nossas certezas de agora, de ontem ou de tempos que já não podemos determinar com exatidão.

Paga-se, portanto, um ônus, queira-se ou não, à escola dos céticos quando alguém se inscreve nessa tão antiga instituição, de onde se costuma sair com muitos menos certezas do que se ingressou. À dúvida cartesiana não se chega senão após um prolongado estágio em suas classes mais avançadas. Dúvidas de menor monta, todavia, são imediatamente oferecidas aos recém-chegados, e não demorarão a aprender a arte de questionar sobre tudo e sobre todos.

A essa escola para céticos já se conferiram muitos nomes. O mais recente deles é o de pós-modernidade. Mas até bem pouco lhe cabia perfeitamente a denominação de moderno, modernista e uma ou outra derivação ou corruptela desse nome.

A existência, ou não, de jornalismo cultural ou de literatura, entre nós, potiguares, persiste, assim, uma questão em aberto. Nesse último caso, foi o que aconteceu no debate a que aludimos no início destas algaravias, do qual participamos com os jornalistas Tácito Costa, Ivo Filho e Alex Gurgel. Como sabemos, convencimento demanda tempo, esta é uma das primeiras lições ministradas nas escolas para céticos. O tópico se refere ao tema: como demover pessoas de convicções firmes de suas certezas.

Se algum dos debatedores recebeu, no passado, nota de louvor na matéria acima referida, deve ter esquecido os ensinamentos recebidos. De outra forma, não teríamos saído da discussão ainda mais céticos do que o iniciamos.




Incluído em: 12/08/2008




De bruxos e biografias

“Há um abismo no modo como o leitor estrangeiro, de um lado, e a crítica do Brasil, de outro, vêem a obra de Paulo Coelho”. Foi o que declarou o jornalista Fernando Morais na segunda-feira, por ocasião da abertura da II Feira Literária de Natal, no Natal Shopping, quando lançou o seu livro “O mago: uma trajetória do brasileiro que se transformou em um dos autores mais lidos do mundo”. A palestra foi antecipada por apresentação feita pelo também jornalista Vicente Serejo, cujas observações serviram de deixas para posteriores questionamentos da platéia.

De acordo com o biógrafo de “Chatô: o rei do Brasil”, “há vinte anos que a crítica do Brasil desanca a obra de Paulo Coelho, sem que isso diminua um mínimo que seja o sucesso que ele faz lá fora”. Provocado por Vicente Serejo a separar o que existe de “sábio” e de “sabido” na obra do mago carioca, Morais preferiu tergiversar, sob o argumento de que ele, biógrafo de “Olga”, não era crítico literário, por isso, não se arriscaria a tecer juízos de valor numa seara que lhe era de todo estranha. Com essa negativa, também descartou a hipótese de que tivesse investido tempo seu e de seus auxiliares para tentar “resgatar” a obra do criador de “Verônica decide morrer”.

Num momento posterior da sua palestra, Fernando Morais explicaria a razão por que escrevera o retrato do aventuroso bruxo: porque pressentira que, por trás do miliardário sucesso desse escritor que, jura Morais,”é o único autor que supera Shakespeare em número de traduções em todo o mundo”, haveria, ainda por descobrir, alguma história inacreditável. Em seguida, emendou: “ao pesquisar sua vida, descobri passagens de arrepiar, que vão muito além de episódicos envolvimentos com drogas, homossexualismo, demência e rock ’n’ roll”.

Ao opor o Brasil ao “consenso universal” de reconhecimento do autor do “Diário de um mago”, Morais parece introduzir furtivamente razões dubitativas sobre a insistência com que a crítica do país se compraz em apontar elementos não literários em sua obra, enquanto o mundo culto não se cansa de louvar-lhe as qualidades dessa mesma obra. E ironiza: “Todo mundo acha que conhece a chave do segredo do sucesso dele, mas ninguém consegue repeti-lo. E sempre em tom de brincadeira, cita que há quem jure que ele, Coelho, faz sucesso no exterior porque foi traduzido por ótimos tradutores...”

Minutos antes, o escritor Nei Leandro de Castro havia conversado com o público sobre a reedição do seu romance “O dia das moscas”. Num dado momento, interpelado pelo poeta Marcos Cavalcanti sobre a coincidência da alcunha de bruxo dada tanto a Machado de Assis quanto a Paulo Coelho, Nei retrucou com um curto e áspero comentário: a partir daquele momento não usaria mais a forma “bruxo do Cosme Velho” ao se referir ao autor de “Dom Casmurro”. Era a maneira de diferenciá-lo do outro “bruxo” que seria alvo da palestra seguinte.

E sem dar maior importância à conversa sobre magia e cifrões, que se desenrolava no simulacro de palco armado na arena do shopping, o autor de “Ojuara” partiu, imitando gesto análogo que o crítico Manoel Onofre Jr fizera minutos atrás. Na certa, comungando iguais razões.

Reproduzia-se ali, nos gestos citados acima, atitudes comuns à crítica brasileira no seu trato com a obra coelhiana. E se isso ocorre, ocorre à revelia do seu autor, senão também do seu biógrafo. Porque se Morais garante não dar importância à obra do seu biografado, preferindo exaltar-lhe qualidades outras, o mesmo não vale para o mago. Pela simples razão de que, queira ou não Morais, são os livros que levam o nome dele, Coelho, mundo afora, por razões que a crítica brasileira desconhece. E pelo andar da carruagem, o desacordo não terá desfecho conciliatório no curto ou médio prazo. Foi sintomático que o Prêmio Camões tenha sido outorgado este ano a João Ubaldo Ribeiro, um escritor que faz a cada dia mais da língua portuguesa a sua pátria. Enquanto isso, o andejo Coelho se envaidece de conquistar o mundo culto, embora não o doméstico. Em algum lugar, ele deve ter esquecido o conselho de Fernando Pessoa, aquele em que língua e pátria se confundem. Sem tal amálgama, parece sugerir o poeta luso, não se faz literatura. Em compensação, coisas como gnose, ocultismo, magia e que tais dispensam tal princípio, como se pode ver na obra desse bruxo midiático dos nossos dias.




Incluído em: 06/08/2008


Poesia de Diulinda explora os descaminhos do desejo

A dicção feminina é uma das interfaces mais vigorosas da poesia norte-rio-grandense. Sem precisar se reportar à voz fundadora de Auta de Sousa, poderíamos lembrar o timbre personalíssimo de Myriam Coeli e Zila Mamede, a lírica sofisticada de uma Iracema Macedo, de uma Marize Castro ou de uma Diva Cunha, na atualidade. E quer porque são por demais numerosas essas vozes e timbres poéticos, quer porque são por demais exclusivos, raramente encontram correspondentes na interface masculina da nossa poesia.

E como para dizer que o estro feminino não cansa de produzir novos fenômenos poéticos em nossas letras, a poetisa Diulinda Garcia, que já havia surpreendido a crítica com seu “Caminho do invisível”, lançou na semana passado sua segunda coleta de poesias, intitulado “Abstração”, e mostra que afiou em definitivo a régua e o compasso de sua arte.

No prefácio intitulado “Se não fossem os poetas...”, o escritor Valério Mesquita observa que os poetas são necessários porque permitem, com seu estro de ofício, “que um pouco do multifário milagre do mundo sobreviva ao burburinho frenético dos dias comuns destinados ao olvido”. Seu comentário se inspirou, por certo, nos versos de “Abstração”, pródigos em cristalizar flagrantes poupados ao esquecimento, graças à pena sensível de Diulinda, capaz de operar sínteses repletas de lucidez poética. Como em “Se eu fosse você”:

Se eu fosse você,
colocaria em palavras
tudo que gostaria de dizer.
Se eu fosse você,
celebraria o milagre da vida,
num ritual de dança bailarina
e me arriscaria em caminhos
que outros não fariam.
Se um fosse você,
preencheria os espaços em branco
e me sentiria pleno...
Faria uma viagem de aventuras
e esqueceria a realidade cotidiana.
Se eu fosse você,
dançaria no ar
E numa coreografia improvisada
Abraçaria as estrela.
Mas... só se eu fosse você”.


A nota de leve ironia que encerra o poema é um achado que, ao mesmo tempo em que põe em xeque as mil possibilidades postas à disposição do interlocutor obsconso que as provoca, refaz o caminho do real e admite, como o faz Drummond, os limites do eu: “Tudo é possível. Só eu impossível”.

E para provar que desejo é matéria por demais feminina, a poesia de Diulinda não cessa de explorar esse tema, sob os seus mais variados aspectos. No poema “Eu te amaria”, ela diz:

Se amar-te eu pudesse
um dia,
Seria tua a certeza,
Não a tua dúvida.
Eu o teria e amaria por inteiro,
assim como se ama:
a lua cheia
a rosa
a paz
a neblina faceira
e o próprio ar
que nos faz respirar.


Mas o poema que talvez expresse com mais originalidade o tema do desejo, em “Abstração”, seja o poema ”Vil metal”.

Ainda que não seja como desejei,
preservo-me o direito de:
sonhar
chorar
cair
levantar
e prosseguir,
ir além do que as mãos
ousam tocar
e o vil metal
pode conquistar


No poema “Bovary”, a poetisa prossegue na sua dissecação do desejo, agora mediante a empatia com a torturada heroína de Flaubert:

A solidão, o desespero
e a ansiedade,
asfixiavam os seus desejos.
Os seus sonhos,
congelavam-se
nas galerias da rotina diária
de seu tempo.
De repente seu mundo
começa a explodir.
levanta seu olhar pra vida
e desperta a Bovary adormecida.
Insurge-se
à submissão imposta
ou permissiva.
Segue seu instinto
e coloca em cena
sua sensualidade reprimida.


A temática do desejo, porém, não esgota o universo de interesses da poetisa. Tempo, memória e meio ambiente cobram o seu tributo à poetisa e esta não se furta a atender-lhes, ao que acrescenta um poema pela paz, nota com que encerra essa sua segunda e bem-sucedida incursão pelos domínios do verso.




Incluído em: 30/07/2008


Por que escrever?

Só nos parece haver uma resposta óbvia para essa pergunta: porque se quer ser lido. Mesmo quem escreve para a gaveta espera que o dia chegará quando seus escritos ganharão divulgação, preferencialmente sob a forma de livro.

À pergunta “por que escrever?” habitualmente antecede, entretanto, outra: por que ler?

De fato, só se escreve após se ter estabelecido uma relação mais do que ocasional com a palavra. Isso é algo que às vezes demanda tempo, sendo raros, na verdade, os casos de precocidade literária ou poética.

Faz sentido que a escrita comece pela leitura porque aquilo que foi lido sugere outras combinações de significado, suscitando novos textos. A paixão pela escrita deriva, assim, da paixão pela leitura, e se realimenta dela, numa simbiose que não tem tempo para acabar.

Se até aí tudo parece simples, quando se examina a história de cada escritor vê-se que cada caso é singular, sem falar que ninguém é só escritor, e nem sempre o foi. Assim, se é comum que um jornalista evolua para a condição de escritor, após certo número de anos na profissão, ou acumule essa atividade com a anterior, sabe-se que isso não sucede com freqüência. Profissões como direito e magistério sugerem também trazer consigo o gérmen da escrita, quando se considera o grande número de advogados e professores que se tornam escritores com o passar do tempo. Mais surpreendente é notar que a literatura exerce forte fascínio sobre profissionais pragmáticos, como os médicos. Em suma, não há profissão incompatível com a de escritor, como se pode ver pela variadíssima gama de lançamentos, literários ou não, que agitam os fins de semana e, às vezes, dias úteis, das livrarias da cidade. Em alguns casos, a condição de escritor é cobiçada por motivações extraliterárias, como busca de status, reconhecimento público imediato, etc. Nesses casos, a literatura semelha uma espécie de ‘no man’s land’ a que se aporta para fincar um marco pessoal duradouro. Em todos esses casos, escritor é uma condição a que se chega após se ter desempenhado outros papéis sociais, nada impedindo, porém, que se lhe associe atividades anteriores.

O caminho até o livro, porém, não é uma estrada pavimentada só por sonhos; barreiras de muitas espécies se interpõem ao projeto de escritor e, muitas vezes, levam seu postulante a renunciar a seu intento. A essa decisão se somam hesitações, insegurança sobre o real valor do trabalho literário, falta de conhecimento sobre o mercado editorial etc.

Se no passado a alternativa era uma hamletiana dúvida entre publicar ou não publicar, a questão, hoje, felizmente, está relativizada, fazendo com que a restritiva condição de escritor, que abria exceções para uns poucos eleitos, já não seja tão desesperadora para o autor involuntariamente anônimo. É que a universalização da internet trouxe consigo um novo lugar para a escrita, possibilitando que outra faixa de leitura se estabelecesse, lado a lado com a da tradição do livro impresso.

Diferenças, entretanto, separam o escritor do livro do seu êmulo da internet: o caráter mais local, do primeiro, em comparação com o caráter não de todo determinado, que marca o texto na rede. Mas mesmo aí há mudanças significativas em curso. A comunidade de leitores, vinda à luz com a criação dos blogs, está produzindo um certo equilíbrio nessa equação. Nossa experiência com o blog www.substantivoplural.com.br nos tem convencido de que esse é um bom caminho alternativo para o livro.

Retornando à questão inicial, então, podemos afirmar que o objetivo imediato do ato de escrever, qual seja, ser lido, é atendido, em certo sentido, quando o escritor lança seu escrito na rede. Falta-lhe, evidentemente, o rito que cerca o ato inaugural de se lançar um livro numa livraria, ante um público em parte conhecido, em parte desconhecido, mas reverente, que legitima seu autor ao obsequiá-lo com o ato de receber-lhe o autógrafo. A responsividade que a rede propicia, porém, pode compensar a ausência da pirotecnia dos lançamentos.




Incluído em: 22/07/2008


Contos com dialeto celeste

A crer nos relatos bíblicos, séculos a perder de vista nos separam do ato de rebeldia inaugural perpetrado pelo casal edênico, coadjuvado por um ofídio. Antes disso, o Livro dá conta de outra rebelião, dessa vez nas esferas celestiais, em que um anjo teria protagonizado um ato contestatório ao Grande Demiurgo, provocando uma cisão irremediável nas hostes do etéreo. Um desses antecedentes (ou terão sido ambos?) serviu de inspiração ao escritor amazonense Carlos Trigueiro (hoje residente no Rio) no processo de criação de seu Mahlaliel, o anjo também rebelde que narra os contos de “Confissões de um anjo da guarda” (Bertrand Brasil, 2008).

Considerado com justiça um dos ótimos contistas da atualidade, autor de mais três obras de ficção: “O clube dos feios e outras histórias extraordinárias” (1994), “O livro dos ciúmes” (1999) e “O livro dos desmandamentos” (2004), além de “Memórias da liberdade” (1985), Carlos Trigueiro chama a atenção da crítica nacional há pelo menos uma década, haja vista que em “O Clube dos feios...” já se revela um autor que domina perfeitamente o seu ofício, como, de resto, demonstram cabalmente seus títulos seguintes.

Não obstante, um novo livro de um ficcionista pode trazer surpresas, até mesmo para leitores céticos e exigentes. Ainda mais quando retoma um velho tema – a rebelião dos anjos – e o traz para os nossos dias, conferindo a esse personagem uma mobilidade que lhe permite interferir nos negócios humanos, mas preservando seu anonimato.

Na primeira narrativa de “Confissões de um anjo da guarda, Mahlaliel diz a que veio: trazer informações que corroboram o ceticismo terreno com as coisas do além. E não há contradição nisso, a rigor, porque Mahlaliel, que é tratado por seus pares como rebelde, devasso e inconfidente, prefere se autodenominar de dissidente. É que, ao contrário de um rebelde sem causa, ele tem abundantes razões para dissentir. Mas bastaria sua primeira alegação: apesar de ter solicitado dezenas e dezenas de vezes ao arcanjo de plantão uma audiência com Ele – o Onisciente, ou “Architecto”, o encontro lhe foi negado durante séculos. E assim, Mahlaliel não pôde questioná-Lo naquilo que o incomodava: “Por que Ele permite tanta desigualdade entre os homens, enquanto as demais espécies nascem, vivem e morrem sem oscilações de eqüidade, numa existência digna, do início ao fim?”.

A partir daí, Mahlaliel se muda com armas e bagagens para a Terra, onde, agora livre-pensador e livre-atirador, pode experimentar à vontade seu próprio método de justiça (às vezes, sumária!).

Mas o que reserva de mais extraordinário esse pequeno “Confissões de um Anjo da Guarda” é que ele faculta a cada leitor uma gama tão variada de temas e de histórias bem realizadas que cada um pode escolher, a seu gosto, seus contos favoritos sem, por outro lado, descartar quaisquer outros. De nossa parte, destacaríamos três, afora o conto que dá nome ao livro. O segundo seria “Uma questão de cor”, o terceiro, “O jornalista”, e o quarto, “Clínica para normais”.

O conto “Uma questão de cor” é de longe o relato mais realista do livro, não tergiversando diante de um tema candente e atual como o racismo de cor. Em “O jornalista” – conto que tivemos o privilégio de publicar, anos atrás, nas páginas de “O Galo” – apresenta ao leitor um diabo pragmático e reciclado. No último conto de nossa eleição, temos um personagem em conflito com um mundo que debelou todas as doenças, e essa situação se torna sua enfermidade. Daí que ele busca uma doença que lhe devolva a sensação de humanidade tal como a conhecemos.




Incluído em: 11/07/2008




Enquete relativiza obra de Machado

AS REEDIÇÕES SUCESSIVAS de suas obras, concomitantemente com novos estudos críticos indicam que no ano do centenário de morte de Machado de Assis, seu nome está firmemente colocado no centro do nosso cânone literário. Não obstante, Machado não é uma unanimidade plena, e já tem pelo menos um rival disputando seu posto. Trata-se do mineiro João Guimarães Rosa.

A revelação foi feita numa enquete que o jornal Folha de S. Paulo publicou no caderno “Mais!”, do dia 22 do mês passado, após ouvir trinta nomes, entre críticos e ficcionistas, dentre os quais, citam-se: Antonio Cândido, Kathrin Rosenfield, Alcir Pécora, Milton Hatoum, Cristóvão Tezza, Walnice Nogueira Galvão, Eduardo Giannetti, Moacir Scliar, Raimundo Carrero, Willi Bolle.

A emulação entre Machado e Rosa se justifica, jornalisticamente, porque encontra suporte não só no centenário de morte do primeiro, mas também no centenário de nascimento do segundo, deixando margem, no que respeite às naturezas mais suscetíveis, para divagações sobre uma possível sucessão do mineiro sobre o carioca desde a conjuração dos acasos, dos astros e das coincidências.

A idéia de comparar Machado e Rosa não é “gratuita”, admitamos. Mas claramente sugere que a situação do autor de “Dom Casmurro” no cânone não é mais hegemônica, imperial, como pensou todo o século XX. E isso supõe já uma espécie de questionamento que leva a resultados surpreendentes: no item “autores mais votados”, Machado vence facilmente seu concorrente, recebendo 11 votos contra 2, de Rosa. Mas outros 12 votantes preferiram a opção: “são da mesma estatura”, enquanto 5 ficaram com a última alternativa: “não é possível comparar”.

Curiosamente, porém, no item “obras mais votadas”, 15 escolheram “Dom Casmurro” e outros 15, “Grande Sertão: veredas”. Assim, aqueles 5 que, na primeira parte da enquete, optaram por: “não é possível comparar”, se contradisseram ao votarem em um ou em outro livro, visto que nesse item não houve abstenções. E a conclusão é óbvia: as duas obras são comparáveis em importância e centralidade, o que, de certo modo, refaz o resultado da parte inicial, quando Machado havia vencido por folgada maioria, e coloca-o no mesmo patamar de importância, haja vista que o que estava em disputa, em verdade, era saber se era “Dom Casmurro” ou “Grande Sertão: veredas”, a obra mais importante da nossa literatura.

O questionamento sobre quem é maior nas nossas letras não pára, porém, com as respostas colhidas junto a 30 escritores. Até porque a própria “Folha” promete dar continuidade à análise, no que deverá ser acompanhada por muitos departamentos de Letras, universidades afora, que devem estar planejando debates e oficinas sobre esse novo quadro canônico.

A leitura das respostas, mais do que a observação dos números, deixa entender que se trata de uma disputa na qual não há vencidos, tão-somente vencedores. É o que sugere o crítico Antonio Cândido, em tom conciliador: “Uma das coisas que mais enriquecem a literatura brasileira é o fato de haver nela dois escritores tão grandes, mas tão polarmente opostos quanto o parcimonioso Machado de Assis e o derramado Guimarães Rosa”. Não menos diplomático, Willi Bolle negaceia: “Machado é o maior escritor brasileiro do século 19, assim como Guimarães Rosa é o maior do século 20”. E demole os fundamentos da enquete com apenas uma pergunta: “Ora, o que se ganharia se colocássemos um deles no pedestal em detrimento do outro?”

Esse, porém, é o tipo de debate que, para o bem ou para o mal, uma vez deflagrado, ganha tamanha autonomia que nada mais será capaz de sustá-lo, e não tardarão a surgir livros e revistas discorrendo sobre múltiplas questões relacionadas com o assunto. Não faltará, mesmo, quem proponha um tertius, feliz sucessor de um agora flexível cânone!

A questão Machado ou Rosa se dá num contexto estreito, no qual dois nomes sobressaem no gênero da prosa de ficção, não encontrando paralelo, por exemplo, na poesia, pois quem se atreveria a reivindicar a primazia de Drummond sobre Bandeira ou Cabral, ou do segundo ou terceiro sobre o primeiro, para ficar só nesses nomes?

Talvez a questão que precisasse ser feita fosse: por que tivemos tão poucos escritores de ficção realmente grandes em dois séculos?




Incluído em: 02/07/2008


O clube da melhor música

Um tempo da delicadeza – a imagem aparece na canção “Todo o sentimento”, de Chico Buarque de Holanda e Cristóvão Bastos – sugere que há, na velhice, possibilidades que só serão conhecidas àqueles que franquearem sua soleira: há ali, sob roupagens não de todo distintas, mas pouco a pouco discerníveis, tesouros de alegria ainda não experimentados; sequer conhecidos aos outros tempos humanos. A delicadeza que Chico associa ao idoso pode ser um prêmio para a árdua prova que este teve de passar até compreender-se maduro, no sentido em que um fruto o é, quando sazonado pela estação propícia. A esse homem (aqui, lembremos, ainda reconhecemos nessa palavra os dois sexos naturais e os mais que resultem dos caprichos da libido humana), chegado à agora chamada idade da ordem terceira, restam caminhos que só a ele se oferecem, porque só ele reúne as condições para trilhá-los. E se se chega sempre novo a cada nova idade da vida (a ilação é do barão de La Rochefoucault), há um vigor de espécie própria nessa idade que a experiência recomenda que seja tida como última (mas, quem sabe, ainda teremos tantos centenários que lhes associaremos, algum dia, uma quarta idade do homem!).

Não é fácil, todavia, reconhecer as mudanças que se operam na velhice, embora aceitemos facilmente qualquer mudança que diga respeito aos jovens e aos homens de meia idade, por exemplo. As mudanças comportamentais preferem ignorar, por uma estranha polidez, os estratos etários mais rarefeitos.

Um acontecimento literário acontecido no dia 13 passado, na sede social do América (Avenida Rodrigues Alves), mostrou um pouco do vigor a que nos referimos linhas atrás. Nesse dia, o jornalista Ubirajara Macedo, octogenário ativo e afirmativo, lançou o livro “Clambom – um clube em defesa da boa música”, que escreveu em parceria com Pedro William Cavalcanti, outro clambonista convicto.

Algumas centenas de pessoas das três idades se fizerem presentes ao local, como a dizer que também se sentiam irmanados naquele acontecimento, ou que com ele se identificavam. E, afinal, por que não? A quem não move uma alegria nova? Pois o sentido que se oculta por trás da palavra “Clambom” é um sortilégio saído da cartola de um prestidigitador que chega ao requinte máximo de sua arte.

A empatia do público terceiro-etário se deveu a uma cumplicidade parenta daquela “intriga do bem”, popularizado por Cascudo, e até hoje de largo uso entre nós. Na verdade, o Clambom é uma criação de idosos natalenses quando ainda engatinhavam no exercício de modestos projetos coletivos.

Contam Ubirajara Macedo e seu parceiro que o Clambom tem vários “pais” o reivindicando, mas é fato mesmo que a idéia nasceu no “Beco da Glória” – misto de bar e boate que a cantora Glorinha Oliveira mantinha na Rua Fabrício Pedrosa, na Praia do Meio –, numa reunião presidida pelo radialista Luiz Cordeiro. O livro de atas da entidade registra que isso aconteceu no dia 22 de abril de 1992. Entre as testemunhas, a cantora Glorinha, os autores do livro, o comerciante Francisco Ivo da Silva, a jornalista Thaís Marques, os cantores Chico Januário e Liz Nôga, a fotógrafa Aldorisse Henriques, o contador Adriel de Souza Lima, entre outros. Por essa razão, Luiz Cordeiro é hoje unanimemente reconhecido como aquele que primeiro sonhou o projeto Clambom: uma entidade voltada para a fruição da boa música. De lá para esta data, dezesseis anos transcorridos, a entidade já deu provas de sua capacidade de mobilização, extrapolando as cancelas que dividem segmentos de público por faixa etária e realizando eventos maiúsculos, públicos e privados, que já integram a memória cultural do natalense, tendo como único pretexto sempre a fruição da melhor música!

O Clambom tem colhido resultados surpreendentes em seus empreendimentos que partem da música para contagiar e mobilizar pessoas. Seu maior mérito, porém, talvez seja fazer dessa idéia uma paixão capaz de inflamar corações e mentes de pessoas a quem palavras como paixão e entusiasmo são tão poucas vezes usadas no coletivo.




Incluído em: 27/06/2008


Uma fábula lobatiana

A republicação da obra literária de Monteiro Lobato pela Editora Globo vem paulatinamente encerrando um hiato que, em alguns casos, perfaz algumas dezenas de anos. Isto significa dizer que duas ou três gerações de brasileiros praticamente ficaram impedidas, durante largos anos, de terem acesso a edições regulares das obras do escritor paulista devido a problemas envolvendo questões relativas a seus direitos autorais. Com isso, deixaram de desfrutar de sua vasta e importante obra ficcional, quer em sua vertente infantil, e que popularizou seu nome no mundo inteiro, quer em sua vertente adulta, na qual sobressai o contista de “Urupês”, “Negrinha”, entre outros.

Se o contista Lobato é, indiscutivelmente, um mestre do relato ligeiro, não se pode ignorar sua única experiência no romance, traduzida no livro “O presidente negro”, uma fábula futurista que vem bem a propósito, nestes dias que antecedem as eleições presidenciais americanas, quando um candidato negro se apresenta com chances reais de chegar à Casa Branca.

E “O presidente negro” trata exatamente desse tema, num país dividido inexoravelmente entre brancos e negros, o que retratava fielmente os Estados Unidos à época de Lobato. O problema do romance é que o autor toma, desde o princípio, o partido dos brancos, tornando-se como que uma espécie de depositário fiel das teorias eugenistas que popularizaram, no começo do século passado, idéias acerca da superioridade da raça ariana, vale dizer, os brancos, sobre os negros e os amarelos. É que nesse tempo ainda se falava em raça pura, conceito cujos representantes mais típicos seriam os europeus do Leste e os brancos da América do Norte.

O romance futurista de Lobato data de 1926, cinco anos, portanto, antes da decisiva viagem que o escritor fez aos Estados Unidos, como representante comercial do governo brasileiro, e de onde veio cheio de crença no progresso. Mas é como se ele já a tivesse feito, haja vista o parti pris claramente favorável à suposta raça branca que faz no livro, embora isso não pareça deitar raízes no Übermensch nietzchiano. A ideologia de Lobato é mais de natureza eugênica, cujo esboço remonta ao “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas” de Gobineau, e que tem desdobramentos nas utopias à moda de Huxley e Orwell, Verne e H. G. Wells.

Seja como for, tivesse Lobato esperado mais uma década para escreveu seu romance eugenista, poderia ter uma chance de rever alguns conceitos racistas, por exemplo, através da leitura de “Casa-grande e senzala” (1933), de Gilberto Freyre, haja vista que essa obra ia frontalmente de encontro às suas idéias, ao propugnar pelas vantagens da miscigenação das raças.

Obra escrita no estilo folhetinesco para um diário paulista, “O presidente negro” é, aliás, a única experiência de Lobato no romance tipo ficção científica, embora já tivesse escrito contos fabulosos, como se pode ler em “O macaco que se fez homem”. Mas, se por um lado, o tópico racista se revela politicamente incorreto para os tempos de agora, certamente não o foi quando de sua publicação, haja vista que a obra teve numerosas edições ainda em vida do autor.

O segredo desse sucesso se deve, em parte, à marca “Lobato”, conquistada por obras importantes como “Urupês”, “Negrinha”, “Cidade Mortas”, todas anteriores à fábula futurista, e que ganharia força com a publicação da literatura infantil do escritor.

Releva, ainda, o fato de que “O presidente negro” foi escrito ludicamente num período de três semanas, tempo normalmente insuficiente para a escritura de um romance. Não obstante, ele apresenta criações não menos engenhosas, em alguns casos, do que as dos seus êmulos europeus e americanos. O livro é criativo em termos de imaginação prospectiva: a cidade de Erópolis devolve ao longínquo ano de 2228 possibilidades alternativas à fria engenharia genética proposta por Huxley em seu “Admirável mundo novo” ou por Orwell em “1984”. Já o “Teatro onírico”, capaz de fixar na tela os sonhos, “como hoje o cinematógrafo fixa em filmes o movimento material”, é um achado de potencialidades inesgotáveis! As discussões sobre o feminismo, por sua vez e, sobretudo, a solução imperial adotada pelo presidente Kerlog dão à narrativa um toque de verossimilhança compatível com outras decisões tomadas pelo gigante do Norte ao longo de sua turbulenta história rumo à hegemonia novecentista, o que finda por aproximar a realidade da mais desenfreada fabulação.

Embora os modernistas tenham esnobado o seu talento, Lobato, redivivo em bem-cuidadas edições, tem muito a dizer ao leitor destes dias interessantemente pós-modernos.




Incluído em: 18/06/2008


Bloomsday, 18ª edição

A perene modernidade de Joyce James, que foi confessadamente invejada por Thomas Mann e exultada reiteradas vezes por Jorge Luis Borges, se prepara para armar seu circo de prestidigitações em Natal. A data será o dia 16 deste mês, tendo como cenário a Biblioteca Zila Mamede, e como fundo a celebração do cinqüentenário da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O motivo é a comemoração do Bloomsday – o famigerado dia em que transcorre toda a ação do romance “Ulisses” de James Joyce, acompanhando a peregrinação laica de Leopold Bloom e de Stephen Dedalus por uma Dublin recendendo a incenso de igreja e a fumo concentrado de bares e bordéis; abrindo grandes planos com seus logradouros públicos, em franco contraste com os cubículos abafados e mal iluminados das suas habitações populares. O epílogo “Molly Bloom” deve ser apreciado como um gran finale.

Idealizada pelo professor Francisco Ivan há 18 anos e inspirada em manifestações análogas nascidas numa Dublim que o exílio não apagou da mente de Joyce, a comemoração do Bloomsday chega a sua 18ª edição, em Natal, com o vigor de um vernissage, ante o interesse crescente que suscita sobretudo entre os jovens.

A edição deste ano reserva um requintado hors d’oeuvre aos neodevotos do homem de Dublin: a presença do escritor Décio Pignataro que, concretista sobrevivente de embates dentro e fora dos círculos neoístas, se dá o luxo de parodiar o próprio Joyce, a ele acrescendo um provável mas sutilmente interpretativo “doomsday” – dia do juízo –, ao Bloomsday, o que tem tudo a ver com a gênese e a genética do seu criador.

A partir de agora, portanto, o Dia de Bloom será também um Dia do Juízo que se incorpora à nossa vida literária, quiçá inspirado em modelos alienígenas mas, considerando a inventividade da blague, legítimo e destinado a ter vida longa.

Como uma idéia de características tão particulares como o Bloomsday ganhou adeptos em Natal, apesar de toda a mística de dificuldades que cerca a leitura do “Ulisses”, esse é um mistério que o próprio Francisco Ivan tem dificuldade em explicar. Como estudioso de Joyce, admite que seu ídolo é pouco palatável aos gostos apressados que são, aliás, uma característica forte nos jovens de hoje. “Eles querem tudo já, e o ‘Ulisses’ não se entrega fácil”, adverte.

Talvez a própria mística de dificuldades ajude a popularizar o ‘Ulisses” e, em decorrência, o Bloomsday, não só aqui, mas nos lugares mais diversos, mundo afora. Isso não quer dizer que os clássicos em geral sejam fáceis e só “Ulisses” difícil. A leitura do épico “Em busca do tempo perdido” impõe dificuldades consideráveis, aliás, bem conhecidas do bibliófilo José Mindlin, e que o lê anualmente. Ciente disso, Mindlin chega a aconselhar os leitores de Proust a não desistirem ante a primeira tentativa, mas a tentarem uma e outra vez, até conseguirem entrar em sintonia com os mundos de Combray e de Guermantes. O numeroso séqüito de personagens que trafegam pelas páginas de Proust não é menos complexo, por exemplo, que as criações de Joyce. Mas a verdade é que o “Ulisses” impõe um gênero de dificuldades que lhe é próprio. A presença de um (às vezes) intratável Organizador ao lado da do Narrador é apenas uma delas. Outras se ligam à complexa linguagem e seu amálgama de neologismos, fusões sintáticas, alusões a clássicos, paródias etc. Mas ainda tem mais. O suíço Fritz Senn, reconhecido expert em Joyce, escreve: “Não há leitor de “Ulisses” para quem algumas passagens não sejam literalmente estrangeiras e para quem muitas não tenham permanecido por longo tempo”.

Esses obstáculos não preocupam Francisco Ivan. Ele chega mesmo a aproveitar o conselho de Mindlin a favor do “Ulisses”. Se as dificuldades continuarem maiores do que o desfrute da leitura, ele sugere leituras auxiliares, como “Enfim um homem comum”, de Anthony Burgess, ou o “James Joyce” de Richard Elmann. Só uma coisa é inadmissível, para ele: desistir. Ou mesmo o “Joyce” de Jean Paris.

Considerado sob o seu lado prático, o conselho de Mindlin pode realmente encorajar leitores inseguros a se aventurarem no “Ulisses”, porque nunca está descartada a esperança de que com o avançar das páginas a leitura vá paulatinamente se descartando do excesso de sombras que a obnubilam e se iluminando na outra margem.

Tal proceder, que nos parece compor uma espécie de “síndrome Bartleby” (alusão ao teimoso amanuense saído das oficinas de criação de Melville), pode até funcionar em contextos de dimensões menores; com “Ulisses”, seguramente não. É o que nossa experiência de leitor joyciano nos autoriza a dizer. Informações biográficas, introduções críticas e exegeses consagradas até ajudam, o in(s)cipiente leitor do “Ulisses” a se aclimatar (pois se trata de algo de alguma maneira climático, atmosférico) nos seus entornos, arredores e demais acidentes geográficos; sem falar na complexa demografia que o anima... Mas aí surge um outro problema: até que ponto nossa leitura do livro não ficará contaminada pelas leituras paralelas concomitantes ao núcleo autoral?

Sob esse aspecto “Ulisses” está longe de ser um romance “popular”, como nos tenta fazer crer seu exegeta Burgess. Ao menos não no sentido pleno da palavra – consagrado, conhecido pelo povo. A popularidade do “Ulisses” decorre de um traço muito peculiar que o distingue: o amálgama de tipos comuns que ora emergem, ora submergem de dentro de suas páginas. Tudo o mais é linguagem, recriação disso e vertigem. Quem tiver receio das alturas deve mantê-lo distante dos olhos...




Incluído em: 11/06/2008


Um malogro na seara da poesia

Ainda não será desta vez que o público natalense aficionado de poesia terá idéia do que significa reunir em sua cidade um certo número de poetas, não só representando diversos estados brasileiros, mas incluindo delegações de países dos cinco continentes. Isso era o que previa o projeto acalentado como a menina dos olhos da organização não-governamental chilena Poetas del Mundo a qual, como fica evidente desde o título, nutre ambições internacionalistas. E quem lhe negaria tal direito sabendo, como sabemos todos, que a poesia está entre as artes mais cultuadas pelo homem?

Fontes seguras da ONG chilena já não escondem que malograram as negociações que vinham sendo feitas com agentes culturais públicos locais com vistas a produzir as condições adequadas à realização do evento em Natal. Isso, não obstante os declarados intentos da referida ONG em colocar nossa cidade como meta preferencial do seu projeto, o que teria ocorrido após cuidadosa análise de diversas proposições encaminhadas por outros estados brasileiros disputando a primazia do evento.

É possível que o projeto agora migre com armas e bagagens para solo pernambucano, lugar onde a poesia tem encontrado insumos de qualidade ímpar, se considerada a pujança de seus rebentos manuelinos, cabralinos e que tais. Reforça essa hipótese o fato de que Poetas del Mundo será homenageada na Festa Internacional do Livro de Porto de Galinhas, em Pernambuco, em dezembro vindouro. Mesmo assim, não está descartada a chance de que o encontro fique adiado para o ano seguinte, o que colocaria Natal novamente na perspectiva dos seus organizadores.

Por agora, entretanto, o resumo da ópera é que desacordos monetários puseram fim ao projeto poético-internacionalista em solo potiguar este ano.

A novidade da notícia ainda não permite que se aquilate todo o seu significado. Terá sido um grande prejuízo cultural para nós, natalenses e, por extensão, brasileiros, considerando uma potencial invasão de poetas que para cá viriam, procedentes de outros estados e até de outros países, atraídos pelo apelo da organização chilena?

São questões que, por enquanto, ficam na berlinda. Pode-se, todavia, especular sobre a consistência de alguns dos objetivos do referido congresso, tal como foram passados à imprensa. Dentre estes, salientem-se dois: seu caráter internacionalista e seu ativismo pacífico. Quanto à primeira, vem a inevitável pergunta: como debelar o fantasma de Babel nesse cenário em que poetas de idiomas, tradições e valores diferentes seriam de repente colocados lado a lado para darem expressão a seu estro? Como evitar que o patético tome de assalto as atenções e mentes de audiências unilíngües?

Não sei que respostas rápidas e eficazes teriam os organizadores do evento para tais questões. Nem mesmo estou certo de que o assunto tenha sido ventilado com a profundidade que merece, uma vez que Natal seria palco do primeiro evento internacional da jovem organização chilena. Seria, assim, uma espécie de laboratório poético, com todos os riscos implícitos num tal empreendimento.

De fato, Poetas del Mundo é fruto dos tempos do exílio parisiense do poeta Arias Manzo, fugindo da ditadura implantada no país andino por Pinochet e seus sequazes, em seguida à deposição do presidente Salvador Allende.

Ao poeta reintegrado à vida chilena, após a queda de Pinochet, a bandeira da poesia pode lhe ter ocorrido como uma estratégia a ser somada a outras formas de luta, não apenas capazes de promover a fraternidade humana, mas até mesmo de prevenir a eclosão de lutas fratricidas, guerras civis e outros flagelos sociais a nível continental e, mesmo, planetário.

É evidente, porém, que o caminho para a fraternidade entre os povos passa pelo diálogo e pela negociação e, não raras vezes, pela concessão. E um encontro de cinco ou seis dias é um tempo por demais exíguo para que idéias complexas sejam discutidas por falantes de idiomas diferentes com resultados animadores. A sociedade civil dos poetas tem desempenhando em toda a parte um importante papel em favor da causa da paz, embora também se revele útil em tempos de guerra. Lembremos a utilidade que poemas de Verlaine e Rilke tiveram na Segunda Guerra Mundial.

Mas tanto num caso como no outro, o fator tempo é essencial para transpor barreiras lingüísticas, preconceitos arraigados, diferenças de pontos de vista etc.

Ponderar questões dessa natureza seria uma boa agenda para a ONG chilena, ao menos até um próximo evento que venha a mobilizar os poetas do mundo.




Incluído em: 04/06/2008


A consciência “negra” de Machado de Assis

Muitas sombras e algumas incompreensões cercam a vida do escritor Machado de Assis. Dentre estas, a de que teria sido absenteísta com relação à escravidão e ao movimento abolicionista. Neste ano em que se comemora o centenário de morte do “bruxo do Cosme Velho”, estas questões tendem a se amiudar em discussões e comentários e, em alguns casos, em livros.

É, por acaso, o que sucede com “Machado de Assis afro-descendente”, inovadora pesquisa que o professor Eduardo de Assis Duarte, mineiro que lecionou ciências sociais na UFRN há poucos anos atrás, lançou pela editora Pallas em fins de 2007 e que tomamos aqui como parte da bibliografia renovadora e comemorativa dos cem anos que nos separam do criador de “Dom Casmurro”.

A idéia do livro do prof. Duarte é relativamente original, embora o maranhense Josué Montello já a tenha utilizado numa obra anterior, intitulada “Memórias Póstumas de Machado de Assis”, (por sinal, ausente da bibliografia do professor mineiro) que é toda uma tessitura de textos colhidos na própria obra machadiana. Apesar disso, esse livro foi largamente desconsiderado, por leituras motivadas mais por preconceitos e pré-juízos do que por critérios objetivos.

O professor Duarte se vale de expediente análogo ao do ficcionista maranhense: recolhe poemas, crônicas, contos e excertos de romances nos quais Machado faz alusão à escravidão e ao Abolicionismo. E o resultado a que chega é simplesmente surpreendente, revelando um Machado comentarista atento do desenrolar dos acontecimentos que precederam e culminaram no 13 de maio de 1888.

Conhecido por uma discrição inexpugnável, o cronista Machado de Assis se permite, nas inúmeras colunas que publicou na imprensa carioca dos últimos lustros do século XIX para o primeiro do século XX, críticas cáusticas às políticas públicas e privadas que procrastinavam o fim da Escravidão.

Na crônica do dia 1º de junho de 1888, publicada na Gazeta de Notícias, ele se revela extremamente ferino ao comentar a notícia de que “o governo é quem deu o dinheiro com que os jornais fizeram as festas abolicionistas”. O fato de que fazendeiros comprovam escrituras de escravos mortos para revendê-las ao governo a título de indenizações, não escapa ao senso de observação de Machado, levando-o a se reportar a fato acontecido na Rússia czarista aproveitado pelo romancista Nicolai Gogol em seu “Almas mortas”. Mas se tivéssemos que escolher entre as crônicas que enfeixam esse “Machado de Assis afro-descendente” nossa escolha recairia sobre o retrato do sineiro João, um escravo negro doado em 1853 à igreja da Glória com a condição de a servir dois anos. Relata Machado: “Os dois anos acabaram em 1855, e o escravo ficou livre, mas continuou o ofício. Contem bem os anos, quarenta e cinco, quase meio século, durante os quais este homem governou uma torre. A torre era ele, dali regia a paróquia e contemplava o mundo”.

Os relatos mais contundentes de Machado sobre a escravidão, porém, encontram-se na sua ficção, especialmente em dois contos, dentre os cinco selecionados pelo prof. Duarte. São eles: “O caso da vara” e “Pai contra mãe”. O primeiro retrata o conflito vivido por um garoto fugitivo de um seminário entre obter os favores de uma tia e agradar uma pequena escrava com quem simpatiza à primeira vista. O desfecho resvala entre a ironia e a maldade envergonhada. O segundo, primor de narrativa naturalista, escancara todo o arsenal de terror que fez da escravidão um flagelo intolerável aos olhos da civilização. Instrumentos de tortura dos escravos são citados com minudências de especialista: o ferro ao pescoço, o ferro ao pé e a máscara de folha-de-flandres. Esta última “fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca”. Machado se exime de comentar, pelo óbvio, o fato de que, ao impedir a embriaguez, a máscara privava o forçado também da possibilidade de ingerir alimentos. E certamente era esse o objetivo visado por quem a adquiria. Comenta Machado: “Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel”.

Outro detalhe que assoma à vista em “Pai contra mãe” é o ofício do protagonista Cândido Neves: capturar escravos fugitivos, com vistas a receber recompensas prometidas, as mais das vezes, nos anúncios dos jornais. A obstinação com que ele exerce esse ofício não encontra limites éticos, ou melhor, a ética se confunde com o lucro que possa auferir daí, o que resulta num desfecho dramático, dos mais cruéis da obra machadiana e que o revela como um dos mestres da escola naturalista entre nós.

O propósito da pesquisa do prof. Duarte, todavia, não se restringe aos momentos mais candentes do Machado engajado nas hostes abolicionistas. Ela se detém em qualquer trecho da vasta obra do escritor carioca em que apareçam subalternos na ordem social escravocrata. Com isso, sua pesquisa alcança não somente os romances da primeira fase de Machado, como “Ressurreição e Helena”, mas abarca a trilogia da maturidade – “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Dom Casmurro” e “Quincas Borba” – e só termina com seu derradeiro romance – “Memorial de Aires”. Em todas essas obras, negros escravos circulam ordeiramente de permeio com senhores proprietários de suas vidas e suas famílias, num confuso sistema de classes em que conflitos de toda espécie a colocam em xeque. De interesse mais acadêmico é o ensaio “Estratégias de Caramujo”, assinado pelo professor mineiro e que encerra esse Machado de Assis afro-descendente, livro que inaugura em grande estilo o ano machadiano de 2008.




Incluído em: 28/05/2008


Gênese de uma antologia

Conversas a princípio meramente especulativas sobre a viabilidade de uma antologia de tradutores norte-rio-grandenses evoluíram para a concretização de um projeto de características muito singulares, até então inencontrável nas letras potiguares. Seu principal mentor foi o poeta Jarbas Martins, que primeiro se deu conta da especificidade do trabalho que havíamos desenvolvido durante os anos em que editamos o jornal cultural O Galo, incentivando o exercício da tradução poética para dentro de suas páginas.

De acordo com Jarbas, que havia se lançado como tradutor de Henri Michaux e de Jorge Luis Borges nas páginas de O Galo, o número de poemas traduzidos nesse jornal, sua variedade e a indiscutível qualidade de alguns deles justificaria plenamente sua reunião num livro. Outros interlocutores, dentre estes o poeta Lívio Oliveira – também tradutor –, o meu filho Rainer – já então enfronhado nos labirintos da língua alemã –, se somaram à interlocução que me levou a encarar com seriedade e disciplina o projeto. Aí nasceu a “Antologia Poética de Tradutores Norte-rio-grandenses” (EDUFRN: 2008), que lançaremos no dia 29 próximo, às 19h, na inauguração da nova Potylivros da Salgado Filho (ex-AS Livros).

O ponto de partida desse trabalho estava claramente demarcado: seriam as traduções que Câmara Cascudo fizera de três poemas de Walt Whitman e cuja história (ainda inacabada) é contada na introdução que escrevemos para a obra. Reside aí um enigma, que denominei de “enigma cascudiano”, porque as traduções sofreram mutações no curso de suas seguidas edições, fato revelador da sina que as persegue, desvelando seu caráter quase sempre provisório. A esse respeito, basta lembrar o título que Umberto Eco deu ao seu livro que versa sobre os problemas da tradução: “Quase a mesma coisa”!. A idéia é que a tradução nunca diz exatamente o mesmo que o original; aproxima-se (ou não), dependendo do rigor e do saber de cada tradutor.

Havíamos nos referido aos poemas publicados nas folhas de O Galo. Acrescentemos, porém, a ressalva de que nos servimos de outras fontes na composição da Antologia, entre os quais, livros, jornais e revistas; alguns autores fizeram traduções especialmente para nós, como Nei Leandro de Castro, Diógenes da Cunha Lima, Paulo de Tarso Correia de Melo, Adriano Caldas, Diva Cunha, Marcos Silva, Rainer Patriota, Francisco Ivan, Iracema Macedo.

Mas é às folhas de O Galo que devemos um dos trabalhos mais importantes da Antologia, quer pela qualidade, quer pela extensão. Referimo-nos à tradução que o poeta Luís Carlos Guimarães fez do poema “O Corvo”, de Edgar Allan Poe, e que o poeta e tradutor Ivo Barroso lamentou não ter conhecido a tempo de incluí-lo na sua antologia de traduções do tal poema. A proeza guimarantina (qualquer tradução séria de “O Corvo” é uma proeza) foi feita visando sua publicação em O Galo, e tal aconteceu em novembro de 1998. Publicado agora na Antologia, seu raio de ação e de visibilidade se distendem em múltiplos quadrantes.

Não menos digno de nota foi o esforço tradutório realizado por Marcelo Navarro Ribeiro Dantas com as cinco versões que fez do poema “To a Locomotive in Winter” (“A uma locomotiva no inverno”), de Walt Whitman, mostrando possibilidades pouco freqüentadas do gênero, mas de resultados surpreendentes.

Desafio não menos titânico foi o que se impôs o poeta Francisco Ivan, ao invocar para si a tarefa de traduzir o “Polifemo” de Gôngora, o requintado poeta do Século de Ouro da poesia espanhola, cujo estilo barroco resume o brilho dessa era nos torneios e adereços de sua linguagem. Para preservar o brilho e o caráter insubstituível dos poemas em sua língua original, optamos por fazer a Antologia bilíngüe, o que, além, de permitir uma avaliação crítica do trabalho de cada tradutor com o texto original, vale como um exercício muito agradável de poesia comparada para quem conhece um outro idioma.

A presença do poeta Ivory Batista Costa se constitui num caso-limite da arte tradutória, por corresponder a tradução de outra tradução. Não o acolhemos, porém, apenas por essa particularidade, pois seu trabalho preserva muito do frescor e da originalidade do poema de Heinrich Heine, cuja obra é infelizmente pouco divulgada no nosso país. Outro caso singular é o recurso empregado por Marcos Silva que traz uma letra de música da dupla Lennon/McCartney para o rol da poesia, rompendo com o paradigma que os separa como gêneros distintos.

Reunindo o esforço tradutório de 22 tradutores norte-rio-grandenses, sob a chancela da Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, esperamos que a “Antologia Poética de Tradutores Norte-rio-grandenses” amplie o diálogo da poesia potiguar com a grande poesia do mundo, estimulando novos tradutores/poetas e novos poetas/tradutores.




Incluído em: 23/05/2008


Leitura comparativa de duas revistas

Uma ocorrência de todo fortuita contribuiu para que as revistas culturais Preá (abril/maio 2008), da Fundação José Augusto, e Brouhaha (março/abril 2008), da Fundação Capitania das Artes, tivessem lançamentos coincidentes na semana que passou. Ambas gratuitas, elas assentam na crença de que o Estado deve ser provedor da cultura, sendo a gratuidade das mesmas uma mera conseqüência dessa premissa.

Mas as semelhanças não param aí; seus conteúdos se pretendem análogos, haja vista que tratam da mesma rubrica: cultura potiguar, sem prejuízo para outras manifestações dessa natureza. De modo idêntico, seus editorialistas não são necessariamente seus editores, mas sim os diretores das respectivas entidades mantenedoras, o que sobreleva a importância que aqueles agentes públicos dão a tais publicações, enquanto subsumem o papel dos responsáveis pela sua editoração e, no caso da Preá, secundem seu superior hierárquico. No editorial de apresentação da nova Preá (encerrando um período de mais de um ano de desativação), o presidente da Fundação José Augusto, Crispiniano Neto, alude a dificuldades burocráticas que obstaculizavam a volta da revista e anuncia que sua periodicidade foi amiudada: agora sairá a cada dois meses. Nada adianta, porém, sobre o projeto editorial da Preá, deixando supor, portanto, que se trata do mesmo que vinha sendo executado sob a batuta do jornalista Tácito Costa. Sua nova editora, Mary Land Britto, deixa entrever que alguma mudança está em curso, na medida em que acena com novidades na concepção gráfica da revista, mas pára por aí, o que indica que em termos conteudísticos nada será mudado.

As diferenças que separam as duas publicações avultam em vários níveis antitéticos. Poderíamos começar apontando para as dessemelhanças gerais, do tipo: a Preá é conservadora, ao passo que a Brouhaha tem perfil vanguardista. Embora haja aí, já, juízos de valor embutidos na preferência que a idéia de vanguarda goza sobre o conservantismo, a escolha de um ou outro cunho não traz em si uma vantagem superlativa ao seu portador. É que, por trás desses conceitos, existem gradações de forma e conteúdo, de editoração e de seleção de matérias, iconografia etc. determinantes do grau de excelência que uma publicação pode atingir.

A esse respeito é significativo o fato de que ambas as revistas destacam em suas citadas edições uma entrevista. Na Preá, o personagem em foco é o ator Sérgio Mamberti; na Brouhaha, o foco recai sobre o cineasta currais-novense Buca Dantas, ora em plena atividade no sertão potiguar para a filmagem em ritmo de “cinema processo” (será contágio da edição passada da referida revista, que homenageou adrede o poema/processo?) de sua nova produção, intitulada “Perdição”.

A falta de gancho jornalístico para a entrevista do paulista Sérgio Mamberti é um ponto negativo para a jornalista Mary Land Brito. Não há uma novidade conseqüente na história presente do ator em sua relação com a realidade cultural potiguar, o que torna a conversa meio de turista que quer mostrar conhecimentos gerais sobre o Estado.

A reportagem de capa da Brouhaha sobre o velho prédio da Avenida Rio Branco da antiga Escola de Aprendizes de Artífices, assinada por Luana Batista, é um trabalho jornalístico que não encontra correlato no seu êmulo Preá em circulação. Trata-se de um trabalho de pesquisa envolvendo muitas fontes, demandando uma urdidura paciente e cuidadosa. Não obstante, apresenta lacunas. Uma delas é quando, ao citar o poeta (sic) Sebastião Fernandes, ignora sua condição de irmão do poeta maior Jorge Fernandes; outra, quando passa ao largo da importante obra que o escritor Cleantho Homem de Siqueira escreveu sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, intitulada “Guerreiros Potiguares – O Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial”, já em segunda edição. A boa reportagem, portanto, exige mais do que o ordenamento das informações – demanda correlações às quais o repórter precisa estar atento.

Outros destaques da Brouhaha são a reportagem sobre a família Johnson, por Vinicius Menna e o texto ensaístico de Jóis Alberto sobre o tema: “Por onde a literatura potiguar?”. Excessivamente extenso, porém, esse ensaio se dá liberdades que fogem ao núcleo do tema, enveredando por digressões que prejudicam seu desenvolvimento sem demérito, porém, para o trabalho de pesquisa do diligente repórter, dublê de poeta.

A Preá prefere investir na diversidade de assuntos, optando por tratá-los de forma ligeira, o que permite que a revista ofereça uma gama muito maior de textos. Isso não é, em si, um defeito, mas um traço distintivo, um cunho próprio que atende – supomos –, ao interesse da sua editora, na medida em que esta enuncia o desejo de “algo mais moderno, mais limpo, com cores mais fortes, mais alegres”. Entendemos que à forma “mais limpo” corresponda mais enxuto, mais resumido. E aí temos uma opção editorial. De todo modo, é algo a se conferir nas próximas edições da Preá comparativamente às da Brouhaha. Manterá esta as grandes reportagens, seções literárias e entrevistas de forma a cobrir grandes temas em detrimento da pluralidade de assuntos que pontilham as páginas do periódico da FJA?

Afora as diferenças ou semelhanças que aproximem ou distanciem as revistas Preá e Brouhaha, é preciso assinalar o aspecto mais positivo que lhes é pertinente: a publicação concomitante de duas revistas de cultura capazes de mobilizar uma vasta gama de produtores, intelectuais, jornalistas especializados. Mas acima desse regozijo, cumpre ouvir a mauvaise conscience que não quer calar: por que as publicações literárias continuam a depender de tal sorte do beneplácito do poder público? Não haveria uma alternativa para a emancipação dessa tutela? Pela boa aceitação de tais publicações pelos leitores, o problema parece depender só de uma iniciativa dos interessados.




Incluído em: 12/05/2008


Notas de um viajante contumaz

O escritor Manoel Onofre Jr. é um exemplo de versatilidade intelectual. Na juventude, escreveu ficção (“Chão dos Simples”), em seguida fez crítica literária (“Ficcionistas norte-rio-grandenses”), memorialística (“O caçador de Jandaíra”), musicologia (“Retretas, Serenatas... A Música Popular em Natal”, “MPB Principalmente”), epistolografia (“O Chamado das Letras”), história (“O Diabo na Guerra Holandesa”), tipologia sentimental (“Simplesmente Humanos”), jornal literário (“A Palavra e o Tempo”) etc. Seu best-seller, porém, continua sendo o “Guia da Cidade do Natal”, que já vai na 4ª edição, ampliado e revisto a cada vez.

Inspirado nos moldes do “Guia de Ouro Preto”, de Manuel Bandeira, ou do “Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife”, de Gilberto Freyre, o livro de Onofre Jr. também colheu inspiração nos tradicionais guias Michelin e assemelhados. Esse amálgama de coisas tão diversas lhe foi, todavia, salutar, garantindo-lhe elementos de uma atualidade que nada tem de prosaica. Na verdade, ao justapor no seu Guia personagens, monumentos arquitetônicos, sítios turísticos, tradições locais e crônica de costumes, o autor conferiu ao livro uma marca de inconfundível verniz cultural, distinguindo-o dos congêneres que, periodicamente, chegam às bancas de revistas e entrepostos turísticos para atender necessidades momentosas ou meros caprichos de curiosidade que costumam assaltar os visitantes estrangeiros, quando aqui são chegados.

Em seu novo livro, lançado na semana passada, intitulado “Portão de Embarque – Brasil-Brasis” (edição do Sebo Vermelho), Onofre Jr. traça um roteiro minimalista e abrangente dos sítios históricos brasileiros, mas de alcance bem mais limitado, comparativamente àquele que dedicou a Natal. Lidando com um farto volume de anotações que foi juntando ao longo das inúmeras viagens que fez Brasil afora, só ou na companhia de amigos, o autor deixa transparecer um traço que o filia à linhagem dos autênticos andarilhos – uma curiosidade inesgotável – que ficou tão caracterizado, no passado, no célebre “Les rêveries du promeneur solitaire”, de Jean-Jacques Rousseau.

De fato, viajar é uma arte que evoluiu grandemente desde os tempos do “hippie” suíço; requer planejamento, objetivos a atingir, etapas a cumprir, interesses a renovar. De outro modo, cai-se na vertigem no paradoxo de se sentir só em meio às multidões anônimas que seguem em seu contrário nos logradouros dos centros urbanos, ou, ainda, na vastidão das naves das igrejas centenárias, no apertado dos compartimentos dos museus, na azáfama dos hotéis etc. O viajante contumaz tem de se resguardar dos acenos da solidão, dos apelos do “demônio do meio-dia”, de que fala Cascudo no seu diálogo com Felipe II (Ver “Prelúdio e Fuga do Rea”l). Uma boa maneira de prevenir esses companheiros indesejáveis é sortir o seu farnel de curiosidades, admirações, novidades e descobertas. O método comparativo dos achados só tem serventia para o viajante experiente, que, depois de ter-se maravilhado reiteradas vezes, começa a desenvolver um senso crítico das novidades com que se defronta. É nessa última categoria que se inclui o autor de “Portão de Embarque”.

Com efeito, embora circunscreva seu interesse, nesse novo livro, aos sítios históricos brasileiros, emprega, aqui e ali, o método comparativo, beneficiando das viagens que realizou ao exterior, como quando evoca, por exemplo, o casario do Bairro Alto de Lisboa ao visitar a Rua Portugal, num ponto do centro histórico de São Luís do Maranhão.

A regra, porém, é ater-se ao roteiro nacional e, para não deixar dúvidas, é no extremo Norte do país o ponto de chegada de “Portão de Embarque”: Acre, Rondônia. Dali, ele segue pelo Pará, Maranhão, Piauí, Ceará etc. De quando em vez, o exercício de admiração ou, pelo contrário, de decepção (risco que todo turista contumaz necessariamente corre) dá lugar a revelações de cunho mais pessoal. É o que acontece quando o autor se vê de volta ao Recife. Reproduz então um trecho do seu diário pessoal, onde escreveu: “Se eu tivesse de escolher outra cidade para morar, fora Natal, escolheria Recife. E quando digo Recife, incluo Olinda”.

E para mostrar que fala sério, o autor se assume finalmente poeta e apresenta o poema que intitulou “No Recife” (segundo ele, o único poema remanescente de um auto-de-fé autocrítico realizado no seu espólio poético...). Para um escritor que “cometeu” confessadamente apenas três poemas na vida, e dos quais descartou dois, trata-se de um fenômeno literário curiosíssimo, dada a riqueza e adequação das metáforas de que se compõe, revelando um domínio da arte poética bem acima do que se esperaria de um “amador”: “Como com os olhos – súbito voyeur – / a paisagem: / uma ponte desfere seu salto/ sobre o dorso do rio que dorme[...]”, e que deixa o leitor com sérias razões para duvida da economia poética do autor. Talvez seja essa a principal novidade das anotações andarilhas de “Portão de Embarque”.




Incluído em: 09/05/2008


O Galo de Marize Castro e O Galo que lhe sucedeu

A poetisa Marize Castro andou sentindo saudades do jornal O Galo, criado em 1998, na primeira gestão do jornalista Woden Madruga, como presidente da Fundação José Augusto. Em artigo publicado no jornal Tribuna do Norte de sexta-feira passada, intitulado “Por que não nos miramos nos mineiros?”, ela se pergunta por que não seguimos o exemplo do suplemento cultural de Minas, reeditando seu análogo potiguar, ou seja, o jornal cultural O Galo, da qual foi a primeira editora. Lembra que Folheando a coleção de O Galo, observou como ele saiu do Rio Grande do Norte, levando consigo o que temos de melhor. A mistura do universal com o regional, nos fortaleceu, deixou-nos mais ricos, mais férteis. A cultura e a arte norte-rio-grandenses mostravam-se na sua plenitude; o país nos reconhecia pelo que tínhamos, e ainda temos, de mais essencial e verdadeiro.

Louvável a preocupação de Marize Castro com a instabilidade dos nossos suplementos culturais. De fato, depois de O Galo, a FJA criou a revista Preá, a qual foi exemplarmente dirigida pelo jornalista Tácito Costa. Todavia, mudanças de comando na FJA colocaram na berlinda o projeto Preá que, ao que parece, finalmente vai voltar a circular, mais de um ano depois de sua suspensão. Considerando, porém, os altos custos de publicação dessa revista de cultura, é razoável que pensemos em algo mais modesto. Como o jornal O Galo, por exemplo.

Concordo com a sugestão de Marize Castro e chego a afirmar que se trata de uma alternativa econômica e culturalmente bem factível e mais condizente com tempos bicudos como os que afligem nossas instituições culturais a perder de vista.

Marize lamentou que, ao deixar a editoria de O Galo, no início da década de 1990, O Galo tornou-se revista, com um tom, a meu ver, demasiado provinciano; depois voltou a ser jornal; depois se tornou Preá; e agora não já não sei se existe.

A transição que vai da saída da poetisa da editoria de O Galo até a metamorfose deste em Preá não mereceu, porém, qualquer comentário de sua parte. Ela não o diz diretamente, mas deixou a incômoda impressão de que a minha gestão como editor de O Galo, que vai de 1996 a 2002, pode ter mantido o caráter provinciano que ela já diagnosticara para a revista.

Ser provinciano, condição que a poetisa brandiu como sinônimo de retrógrado, atrasado, significaria um retrocesso com relação à sua editoria, quando o universal e o regional foram convocados a dividir harmoniosamente o espaço físico do jornal. Como fiz algumas dezenas de entrevistas para O Galo, quero crer que tenha escapado ao rótulo de “provinciano”. Ou seria o caso de dizer que dialogar com Gilberto Mendonça Teles, Alberto da Cunha Melo, Bruno Tolentino, João de Jesus Paes Loureiro, Maria Lúcia dal Farra, Hildeberto Barbosa Filho, Jaci Bezerra Lima, Diva Cunha, Constância Lima Duarte, Francisco Carvalho, Francisco Dantas, Marco Lucchesi, Mário Hélio, entre outros, seria incorrer no provincianismo? Mesmo acrescentando que muitos desses escritores mandaram textos, cartas e comentários para a redação do jornal, a exemplo do que sucedeu na primeira gestação do periódico?

Devo confessar que entrevistei também alguns atores culturais potiguares, como Dorian Gray Caldas, Sanderson Negreiros, José Melquíades, Manoel Onofre Jr., Enélio Petrovich, Nilson Patriota, Tarcísio Gurgel, Marcos Silva, Franco Jasiello, Dailor Varela, Celso da Silveira... Seria isso marca indelével de provincianismo?

Ante tantas incertezas, prefiro conceder o benefício da dúvida à autora de “Rito” e imaginar que quando ela alude à sua coleção de O Galo esteja se reportando às edições que editou, esquecendo-se que houve edições subseqüentes àquelas na década de 1990 e começos da seguinte.

Feito essa ressalva, suponho que numa próxima oportunidade a autora de “Marrons, Crepons, Marfins” será mais judiciosa ao pugnar pela volta do jornal cultural O Galo, ou ao se referir a ele, mesmo que en passant. Não haveria aí qualquer demérito ao excelente trabalho que ela fez como editora pioneira de O Galo. Pelo contrário, sobre ser mais simpático, seria também mais veraz.




Incluído em: 02/05/2008


O livro de Hilda Araújo

Reedições regulares de obras literárias contribuem substancialmente para a formação daquilo que designamos habitualmente de memória cultural. Entre nós, todavia, essa não tem sido uma prática executada com a regularidade necessária. Lembremos alguns poucos exemplos: a reedição do “Livro de Poemas” de Jorge Fernandes precisou esperar 43 anos, organizada e anotada por Veríssimo de Melo e incentivada pelo poeta Manuel Bandeira. Hoje, graças a outros estudiosos, como os pesquisadores Humberto Hermenegildo de Araújo e Maria Lúcia de Amorim Garcia, o “Livro de Poemas” se encontra plenamente integrado ao corpus das letras potiguares, mediante edições sucessivas feitas pela Editora da UFRN, compondo o acervo de leituras obrigatórias para os candidatos ao vestibular dessa instituição universitária.

“Província Submersa”, de Otacílio Alecrim, é outro exemplo de resgate dificultoso e tardio, não obstante necessário e bem-vindo. Editado pela primeira vez em 1957, pelo Proust Clube do Rio de Janeiro, só este ano ganhou uma nova edição, a qual se tornou possível através de uma demorada negociação envolvendo o senador Garibaldi Alves, o editor Agaciel Maia, o escritor Valério Mesquita e o médico Olímpio Maciel. Nesse processo, duas instituições – o Senado Federal e a Fundação Pró-Memória de Macaíba – se uniram para aquele fim.

Os exemplos acima mostram que se pode atingir o objetivo colimado por variados caminhos, a fim de tapar as brechas que periodicamente se abrem na nossa memória cultural.

O caso (chamemo-lo assim, por comodidade) Hilda Araújo é particularmente adequado a essa discussão, haja vista que seu único livro – “Cerca de Pedra” – dista de 1968 (Gráfica Manimbu, FJA), ou seja, há 40 anos. O mais grave, porém, é que sua autora está ausente de obras como “Informação da Literatura Potiguar”, de Tarcísio Gurgel, e “Literatura do Rio Grande do Norte”, de Diva Cunha e Constância Lima Duarte, entre outras. Em vista de serem estas obras de referência para o conhecimento da nossa literatura, é imperioso constatar que a poetisa caicoense carece de um resgate urgente para si e para seu “Cerca de Pedra”. Positivamente, assinalamos que o poeta Moacy Cirne a inclui em seu “Invenção de Caicó” e que sua poesia não passa despercebida ao pesquisador Roberto Silva.

Nas “Palavras aos leitores”, que assina a título de apresentação de “Cerca de Pedra”, o poeta Jaime dos G. Wanderley sublinha como traços definidores do livro elementos como a delicadeza e a ingenuidade de seus temas. A estes, acrescentaríamos a espontaneidade dos versos que, somada àqueles, conformaria uma poesia de recorte lírico tão genuíno quanto, digamos, aquele que nos habituamos a ler em Auta de Souza, Manoel de Barros ou Emily Dickinson, para citar apenas alguns líricos. É verdade que a tanto se soma um sentimento de intensa religiosidade construindo a atmosfera propícia ao seu estro. Lírica e fé, porém, aí se complementam, como se a cada uma coubesse uma parte essencial da sua poética.

Não surpreende que os poemas de “Cerca de Pedra” guardem uma pureza, uma juventude, um frescor que são as marcas definidoras dos genuínos líricos, reveladores de um estado de espírito que se abeira do alumbramento adâmico. Vejamos alguns exemplos:

O poema “À margem” estabelece um singular paralelismo:

Quantos se encontram
à margem
Como o distante cardeiro.

Apenas o pó
vermelho,
seco,
horrível
pó de estrada.

Apenas o sol
queimando,
tostando os espinhos
todos.

Nos seus braços agressivos
há um apelo,
um convite,
há um abraço,
um perdão.

Mas abraçar-se a um cardeiro?
(Que esquisita união!)

E o coitado
à espera.

Longos anos.
Longa a estrada.

Mais longa,
muito mais longa
é a solidão do cardeiro.

Há homens, Senhor,
assim:
Os filhos da solidão.

O trivial pinga-pinga de uma goteira sugere à autora, em “Uma canção, uma vida”, analogias que remetem