Agenda para um novo anoO obsequioso leitor deve saber que em tempos assim, quando se está na iminência de um novo ano, é aconselhável descolar-se das amarras do presente e buscar resgatar os projetos de vida que ficaram para trás, a fim de compor, com as sobras que deles houver, um novo conceito de futuro. Não se trata, ainda, de enveredar pelos temerários caminhos da utopia triunfalista de uma idéia de humanidade que já não atende às nossas exigências. No máximo, podemos revisitar o mundo novo que Huxley adjetivou de “admirável”, para no final achá-lo cientificista em demasia, portanto mais distante de nós do que esteve da geração do seu autor.
Quando ceticismo e auto-ironia se encontram na mesma encruzilhada da história, como sucede presentemente, não cabe lugar para atitudes excessivamente ousadas, embora seja de atitude que se trate neste arremedo de crônica. Que haja, portanto, atitude, não heróica, porém. Nem açodada. Nada que o ceticismo ou a auto-ironia reprove. Sem discrição e leveza (esta, exigência inegociável de Calvino), nenhum projeto pessoal há de prosperar.
Disso decorre ainda que a agenda para um ano que se inicia tem de ser pautada pela economia de meios: caber numa folha de borrão, não exceder os limites de uma lauda A4, acomodar-se folgadamente nas dimensões de uma mensagem eletrônica respondendo a uma pergunta corriqueira.
Que itens podem compor uma agenda assim minúscula? Por exemplo: ver detalhes da reforma ortográfica que entra em vigor neste ano em sete nações lusófonas, inclusive o nosso país. Nem que seja só a título de curiosidade, para que nossa auto-ironia (que passará a se escrever autoironia!) se deleite em apontar futilidades aqui, fatuidades ali, incoerência em quase toda a parte, e nenhuma lógica que justifique tantas mudanças, recuos e lacunas. Tantas novas normas e contranormas.
Outros programas de talhe igualmente modesto são aqueles que seguem a pauta classificada de auto-investimento. Postos de lado os riscos do auto-engano, projetos que tenham a haver com investimentos individualizados, como levar realmente a sério o estudo do inglês (ou do mandarim, para os mais otimistas), desabituar-se do consumo de supérfluos (o que tem arruinado alguns sonhos vitais!), reciclar os próprios conhecimentos profissionais, não porque se esteja visando a uma promoção (ou, ao menos, não só isso), mas pelo prazer de constatar o quanto os saberes evoluíram e que ainda somos capazes de percebê-lo, se não no todo, ao menos em parte.
Há que se pensar também em saldar uma ou duas dívidas intelectuais que involuntariamente se adquire, sem que se saiba bem por quê. Por exemplo, ler certo livro que sabemos com certeza (também sem sabermos por quê) contém informações essenciais do mundo da vida. Não podemos mais adiar o contato com essa fonte!
Nada, portanto, que suscite nostalgias impossíveis de viver de novo. O que equivale a capitular de inadmissível aquele rol de “coisas desejáveis”, que você faria se lhe fosse dada a chance – como naquele pseudo-Borges de ampla divulgação até bem pouco. Sem esquecer, porém, que a blague seria muito do agrado do criador de Pierre Menard, autor do Quixote...
Contudo, a rubrica “auto-investimento” não deve esgotar a agenda propositiva do ano que se inicia. Mais importante ainda é se estar preparado para os desafios da agenda de surpresas que estão por vir. Porque certamente virão, desejáveis e indesejáveis, na sofreguidão natural que faz e refaz os dias, como um artesão que nunca se satisfaz com o acabamento de suas peças...
Incluído em: 24/12/2008
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